iTurismo: Investir com Critério, por Atilio Forte

As previsões para a hotelaria americana, nova fonte de receitas dos hotéis e a personalização da oferta preenchem os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe para “O + da Semana” os resultados do Barómetro das Viagens de Negócio”. No habitual comentário fala-se dos encargos com as companhias low cost e do investimento hoteleiro no interior.

 

Tópicos da Semana:

  • Previsões para a hotelaria americana permanecem em alta: Apesar das preocupações, receios e incertezas que decorrem das medidas já anunciadas pela “Administração Trump”, as previsões da consultora internacional PricewaterhouseCoopers revelam um aumento do optimismo no sector do alojamento dos Estados Unidos da América, alicerçado nos bons resultados obtidos no quarto trimestre de 2016, no número de congressos e eventos já agendados e nos indicadores quanto à prospecção do mercado interno relativos ao ano em curso. Resta saber se esta boa perspectiva interna não será conseguida à custa de uma diminuição dos fluxos turísticos para o exterior…

 

  • Nova fonte de receitas dos hotéis: O sector da hotelaria tem visto os seus proveitos aumentarem fruto da nova tendência “pegar e levar”, baseada num estilo de vida mais actual, no qual comida prática e acabada de fazer é disponibilizada, tanto para os seus hóspedes como para os locais, correspondendo deste modo às alterações comportamentais dos consumidores. Contudo, apesar das vendas de comidas e bebidas (F&B) estarem em franco crescimento e a tornarem-se cada vez mais importantes para o sector, é fundamental que os preços se mantenham competitivos, principalmente se comparados com os praticados pelos restaurantes localizados na vizinhança das unidades.

 

  • Personalização da oferta: Um número crescente de cadeias hoteleiras, entre as quais se contam a Ritz-Carlton, a Conrad e a indiana Leela, disponibiliza aos seus hóspedes um menu de almofadas com diferentes composições, para que estes possam escolher qual o tipo que lhes proporcione uma melhor noite de sono e descanso.

 

Comentário

Turisver.com – O secretário Regional da Economia, Turismo e Cultura da Madeira, Eduardo Jesus, disse durante uma audição no Parlamento Regional, onde foi abordado o processo da Ryanair, que “a proposta da Ryanair para operar na rota Lisboa-Funchal implicava um investimento de seis milhões de euros por parte da ANA – Aeroportos de Portugal”. Hoje justificam-se encargos desta natureza e destes montantes?

Atilio Forte – Foram já várias as ocasiões em que aqui abordámos a problemática do modelo de negócio das companhias aéreas de baixo custo (vulgo “low cost”), onde esta questão claramente se insere.

Vale por isso a pena recordar, ainda que sucintamente, que o modelo de negócio destas empresas veio, entre outras vantagens, dessacralizar a necessidade de quem viaja – ou pretende viajar – ter de pagar um bilhete de avião para o fazer (ou, pelo menos, pagá-lo a valores não residuais), o que provocou um duplo efeito: por um lado, aumentou as possibilidades de realização de mais deslocações em avião a quem já normalmente as fazia (uma vez que, para o consumidor, o custo das mesmas diminuiu substancialmente); e, por outro lado, criou um “novo mercado” composto por todos quantos aspiravam a viajar, necessitando do avião, mas que, até então, não tinham capacidade económica para o fazerem aos preços praticados.

Contudo, convirá não esquecermos que, enquanto empresas, estas transportadoras continuam a ter o mesmíssimo objectivo que quaisquer outras, isto é, o lucro. Por isso, se os serviços que prestam não são remunerados pelos passageiros, alguém terá que os suportar. E, normalmente, esse “alguém” são os destinos que as pretendem atrair (países, regiões, cidades, aeroportos, organismos responsáveis pela promoção turística, etc.), para dessa forma poderem tirar partido e beneficiar dos efeitos económicos directos e induzidos que um aumento da actividade turística sempre proporciona.

Assim, e a esta luz, não é de estranhar o montante alegadamente pretendido por aquela companhia aérea para iniciar as suas operações na rota Lisboa-Funchal, o qual poderá não se ficar apenas pelo “apoio pedido” à empresa concessionária dos aeroportos nacionais, dado ser admissível a possibilidade de solicitação de comparticipações adicionais a outras entidades ligadas, neste caso em concreto, ao “destino Madeira”.

Se os investimentos necessários para atrair este tipo de empresas se justificam ou não, é algo que compete às entidades públicas e aos agentes económicos privados avaliarem, sopesando tanto os benefícios a que já aludimos, como os efeitos de um abandono abrupto da rota, pelo seu esgotamento (seja por falta de volume de passageiros, seja por termo dos “apoios concedidos”), por parte de quem para lá voa.

Porém, sempre podemos dizer que a elevada taxa de ocupação média hoteleira da Madeira, que ainda há duas semanas aqui comentámos, deve ser um factor de peso a ter em conta, tanto na vertente da análise ao investimento propriamente dito, como no que respeita aos impactos que um aumento brusco da pressão turística poderá provocar na Região, no caso de se decidir corresponder favoravelmente ao apoio solicitado. E, neste particular, ainda haverá a considerar a reacção das demais transportadoras que servem o Funchal, pois seguramente quererão ter acesso a idênticas condições.

No entanto, não deixa de ser curioso que esta temática tenha vindo a público, alguns dias após a própria ANA – Aeroportos de Portugal ter alvitrado a hipótese da TAP e da Easyjet – que operam a rota em apreço (Lisboa-Funchal) – terem cartelizado a oferta, ou seja, combinado os níveis de preços praticados, manifestando que a melhor forma de desbloquear a situação seria através da introdução de uma terceira companhia aérea de modo a que o valor das tarifas pudesse baixar.

Ora se a intenção era proteger os consumidores e restabelecer a “normalidade” do mercado, esta seria uma excelente oportunidade para o fazer, mais a mais porque as negociações já decorriam desde o primeiro trimestre de 2016 e, sobretudo, porque (potencialmente) demonstraria a existência, ou não, de qualquer prática menos correcta por parte de quem já opera a rota.

A actuação em cartel é, como se sabe, punível nos termos da Lei. Justificam-se por isso os pedidos de esclarecimento entretanto anunciados, quer pelos Partidos Políticos que integram a Assembleia Legislativa Regional da Madeira, quer pelos que têm assento na Assembleia da República.

Resta-nos acrescentar que fazemos sinceros votos para que esta não seja uma matéria que se torne em arma de arremesso político, já que rapidamente ganharia dimensão nacional – atenta a preponderância que algumas companhias “low cost” têm no nosso país –, ao mesmo tempo que desejamos ponderação e conhecimento específico e técnico por parte de quem analise ou intervenha neste tema e, acima de tudo, que o Estado cumpra o seu inalienável papel de “Regulador”, garantindo o acesso ao mercado em igualdade de circunstâncias a todos os agentes económicos, protegendo os consumidores, fiscalizando e defendendo o interesse (do turismo) nacional.

 

Turisver.com – O investimento no sector turístico, em especial na hotelaria, está em crescimento. A questão que muitos nos colocam é se o investimento fora das regiões costeiras faz sentido?

Atilio Forte – O investimento no interior, desde que devidamente planeado, desde que introduza factores de diferenciação, desde que potencie a autenticidade e a genuinidade, desde que seja dirigido a segmentos ou mercados alvo bem definidos e desde que complemente e amplifique as características endógenas das regiões ou locais onde é efectuado, não faz apenas sentido como é (sempre) mais do que desejável, muito em particular no actual momento por que passa a nossa economia.

Aliás, se dúvidas existissem, os resultados turísticos obtidos pelo nosso país nos últimos anos atestam e suportam esta nossa afirmação, uma vez que demostraram à saciedade que Portugal, apesar da sua reduzida dimensão territorial, é um verdadeiro “concentrado de diversidade” e, por isso, pode e deve assumir-se como um destino turístico multifacetado.

Para além disso, considerando que o turismo é uma actividade económica altamente simbiótica, qualquer investimento com ele relacionado gera não apenas a criação de riqueza, emprego e coesão territorial e social de forma directa mas, também, dinamiza outras áreas e sectores da economia que, indirectamente, acabam por dele beneficiar chegando, nalguns casos, a aí encontrar justificação para a sua existência.

É certo que, no continente, grande parte dos nossos proveitos turísticos advém das regiões e cidades localizadas na faixa costeira. Mas não menos verdade é que é no interior que reside o nosso maior potencial de progresso.

Assim, mais do que atenuar a litoralização do nosso turismo – e praticamente de toda a nossa economia – e estancar a paulatina desertificação das regiões que não gravitam em torno da costa portuguesa, investir com critério no interior é uma alternativa credível (e segura) para a expansão turística nacional, já que é (também) através dela que podemos dar resposta aos crescentes desafios que os consumidores nos colocam, na procura do único e do irrepetível ou, para os mais sofisticados, para a vivência de experiências diferenciadoras e emoções sensoriais só possíveis de obter e realizar quando o território, a cultura e o património, a gastronomia, a História, os usos e costumes diários da vida das populações se fundem na e com a oferta turística.

Se todos estes factores não forem incorporados no produto turístico, de nada adianta investir-se em infra-estruturas físicas, sejam elas hotéis ou de qualquer outra natureza, dadas as suas hipóteses de sucesso serem, no mínimo, duvidosas não apenas por se situarem no interior, mas também por isso…

Por todas estas razões o turismo pode e deve ser considerado como uma das actividades que mais contribui (e pode contribuir) para o esbater das assimetrias entre o litoral e o interior e para a construção de um Portugal mais coeso – económica, social e territorialmente –, mais dinâmico e, consequentemente, com mais e melhores oportunidades de vida para todos.

 

O + da Semana:

Num estudo divulgado na passada semana pela Travelstore American Express Portugal – “Barómetro das Viagens de Negócio” –, durante a realização do Salão de Viagens e Negócios, foi revelado que em 2017 60% das empresas portuguesas pretendem aumentar o seu investimento neste segmento, o que se pode classificar como sendo excelentes notícias, nomeadamente para o sector da distribuição. Recorde-se que em idêntico estudo respeitante ao ano transacto, o mesmo indicador situava-se nos 52%. Contudo, e de acordo com as conclusões apresentadas, apesar do crescimento global em 8 pontos percentuais, o mesmo não terá uma distribuição homogénea. A Europa lidera com 59% das intenções (54% em 2016), seguida de África, que “dá um salto” de 33% para 54% e, por isso, apresenta a subida mais significativa. Já o continente americano sofre uma descida generalizada, com a América do Sul a “cair” de 24% para 18%, muito por força da instabilidade política e económica (principalmente no Brasil) e a América do Norte a descer dos 19% verificados em 2016, para 14% este ano, a que não será alheia a linha política que está a ser posta em prática pelo novo Presidente dos Estados Unidos da América. Digno de nota é o facto de estes resultados terem por base um aumento da confiança do tecido empresarial português na economia nacional, comparativamente a 2016.