iTurismo: Lisboa e Porto em Debate, por Atilio Forte

Tecnologia na restauração, os elementos básicos de sucesso de um hotel boutique e a captação de turistas para a costa saudita do Mar Vermelho, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolheu como “O + da Semana” a relação entre turismo e preservação da natureza. O turismo em Lisboa e no Porto e a quebra de turistas ingleses no Algarve preenchem o habitual Comentário.

 

Tópicos da Semana:

  • Tecnologia cada vez mais decisiva na restauração: Um recente relatório da americana National Restaurant Association (a maior associação de restauração do Mundo, com mais de 500.000 associados) refere que a geração “Y” ou do Milénio tem vindo crescentemente a utilizar o recurso à tecnologia para decidir onde tomar uma refeição, para além de sublinhar que o recurso a quiosques ou “tablets” que permitam aos clientes efectuarem os pedidos também é visto com muito agrado. Assim, a disponibilização online dos menus é um factor crítico para o sucesso de qualquer estabelecimento, tanto junto desta geração, como da seguinte (“X”).

 

  • Elementos básicos do sucesso de um hotel boutique: É um facto que a explosão do número de hotéis que se intitulam “boutique” aumentou as opções dos investidores, que podem agora interessar-se tanto por propriedades integradas em cadeias hoteleiras, como por pequenas unidades de luxo. Contudo, muitos especialistas advertem que quem considere adquirir um hotel boutique deve lembrar-se que há inúmeras variáveis que determinam o êxito futuro do negócio. Assim, carácter, sofisticação, estilo, cultura de serviço ao cliente, personalização das experiências disponibilizadas aos hóspedes e excelente gastronomia, são pré-requisitos essenciais para alcançar o sucesso.

 

  • Arábia Saudita quer captar mais turistas para o “seu” Mar Vermelho: Segundo declarações do Governo saudita, o país irá investir num projecto que visa a criação de condições para a captação de resorts para a sua costa do Mar Vermelho de modo: a atrair os principais líderes mundiais do sector; a potenciar os seus conhecimentos, competências e investimento, de forma a enriquecer a experiência turística do destino; a dar mais valor acrescentado aos que visitam o país; e, por último, a maximizar os ganhos económicos do Reino.

 

Comentário

Turisver.com – O turismo ganhou um peso de tal forma grande em Portugal que não há candidato às eleições autárquicas do próximo dia 1 de Outubro, que não fale deste tema e não cite a importância desta actividade económica na sua campanha eleitoral. No entanto, são Lisboa e o Porto que mais turistas recebem e o crescimento parece não ir parar. Nesse sentido, como viu os debates televisivos entre os candidatos à presidência destas duas autarquias, durante os quais o turismo foi um dos temas que esteve em cima da mesa?

Atilio Forte – Embora, do ponto de vista das cidades, Lisboa e Porto sejam as que maior crescimento turístico têm registado, não podemos deixar de realçar a importância quer do Algarve, quer da Madeira, para o todo nacional, dado que também acolhem um extraordinário número de turistas. Fazemos esta precisão para que a nossa análise não possa ser mal interpretada e, sobretudo, para enfatizar o peso efectivo e o contributo de cada uma destas regiões para a actividade, no nosso país.

Entrando na questão propriamente dita, vale a pena começarmos por sublinhar o “domínio” quase avassalador que o turismo teve dos debates uma vez que, tanto directa como indirectamente, foi ele que serviu de mote para a abordagem das diversas temáticas.

Por isso, a primeira (e positiva) das conclusões a retirar – e que não podemos deixar de saudar – é que todas as forças políticas reconhecem-lhe não apenas importância, mas um papel estratégico para o desenvolvimento económico e social local. Se há muito que os Partidos Políticos mais tradicionais já o assumiam, tem significado que outros, mais jovens, como o Bloco de Esquerda (BE) ou movimentos de cidadãos independentes finalmente também o façam, colocando-o no topo das prioridades da sua agenda.

Contudo, e cingindo-nos apenas ao que foram os debates televisivos com a presença das principais forças políticas candidatas a cada uma das autarquias – deixando, por isso, de lado os diferentes programas eleitorais –, constatamos que os mesmos foram muito semelhantes, tendo essencialmente abordado três grandes temas: a habitação; a mobilidade (transportes); e, a limpeza, higiene e arranjo dos espaços públicos.

Naquilo que ao turismo respeita, o tema da habitação oscilou entre a desertificação de ambas as cidades, por falta de qualidade ou por incomportável nível de vida, e o crescimento desmesurado do sector do Alojamento Local, que inflacionou o mercado do arrendamento, e ainda, por parte das candidaturas “mais à esquerda”, no excessivo número de hotéis do presente e futuro que, na sua visão, importa limitar.

A discussão da mobilidade centrou-se quer na pressão acrescida que os turistas fazem nos transportes públicos (mais gente a utilizá-los), quer no aumento do número de veículos em circulação, em razão da prestação dos diferentes serviços turísticos, que vieram acrescer àqueles que diariamente circulam ou entram nas duas cidades.

Quanto à limpeza, higiene e arranjo dos espaços públicos – quase só abordado no debate de Lisboa – todas as candidaturas concordam com a necessidade de introduzir alterações, seja para melhorar a fruição das cidades por quem nelas vive e por quem as visita, seja para acautelar os impactos provocados por maior afluência de pessoas às zonas “mais turísticas”.

Feito este breve resumo, importa agora aqui registar algumas notas sobre o que foi dito por todas as candidaturas, as quais parecem-nos da maior relevância para o futuro da actividade turística em Lisboa e no Porto. Assim, e como pontos mais negativos, destacamos:

Em primeiro lugar, todas vêem o aumento do turismo como mais uma fonte de receita para os cofres autárquicos e como “disfarce” para as ineficiências e incapacidades de gestão (esta última afirmação é nossa). Por isso, defendem a manutenção da taxa turística, como já sucede em Lisboa, ou pugnam pelo seu aumento ou introdução (neste último caso no Porto). De um modo simples tal quer dizer “os turistas que paguem”! Toda a riqueza, dinâmica económica, emprego e investimento gerados pela actividade turística rapidamente são deitados para “trás das costas”, face à possibilidade de receita “fácil”.

Em segundo lugar, em nenhum dos debates foi sequer aflorada a questão aeroportuária (já nem mencionamos a portuária), que é estratégica para o desenvolvimento futuro do turismo e, por isso, com enorme relevância para o crescimento económico de ambas as autarquias.

Em terceiro lugar, há candidaturas que ainda não perceberam que o turismo é uma actividade económica de mão-de-obra intensiva e que, por exemplo, limitar a abertura de novos hotéis só irá diminuir a geração de empregos.

Em quarto lugar, no que se refere à requalificação da zona ribeirinha (em Lisboa pois, felizmente, no Porto tal já foi realizado), assistimos a um silêncio sepulcral quanto ao “devolver à cidade” a frente de rio ocidental (do Cais do Sodré a Algés), onde se situa uma das zonas mais emblemáticas (e turísticas) da capital.

Por último (para não sermos exaustivos), nem uma palavra foi dada acerca da atracção de grandes eventos internacionais (excepção feita à “mudança” de Madonna!?) que possam não apenas contribuir para aumentar a notoriedade das duas principais cidades do país, como ser importantes alavancas turísticas para as regiões onde estas se inserem.

Nos assuntos que requerem acompanhamento, dois merecem destaque:

Desde logo a questão da melhoria dos transportes públicos, mormente porque ambas as autarquias passam, doravante, a ter responsabilidades acrescidas nos mesmos.

E, também, a questão do Alojamento Local sobre a qual, após um período de total liberalidade por demissão autárquica – e, diga-se, excessivo voluntarismo legislativo pelo lado governamental –, começa a haver consciência que é preciso fazer algo, muito por força do levantar voz das populações e proprietários, fruto das óbvias repercussões que tal teve tanto no mercado do arrendamento, como na reabilitação urbana, mas que nenhuma candidatura define com total clareza o que se propõe fazer para o futuro e como vai resolver o número de licenciamentos entretanto efectuados, muitos dos quais foram antecedidos de investimento.

Em suma, no meio de tão grande vazio de ideias e desconhecimento acerca do que o turismo verdadeiramente é, e como começámos por afirmar, o aspecto mais positivo destes debates residiu no reconhecimento da importância estratégica da actividade para a vida destas cidades. Só esperamos é que tal afirmação não tenha surgido porque “fica bem”, porque está na “moda” ou, pior, porque é politicamente correcta!

 

Turisver.com – Durante os meses de Verão, e apesar do Algarve ter tido elevadas taxas de ocupação,  as estatísticas já comprovam uma quebra de turistas ingleses, muito por culpa da desvalorização da libra. Os bons resultados verificados por parte de outros mercados, têm tido o condão de levar a que muita gente não esteja a valorizar esta baixa. No seu entender, desvalorizar estas quebras será a postura correcta?

Atilio Forte – No comentário da semana passada, a propósito do aumento de concorrência que o nosso país começa a sofrer por parte de alguns destinos da bacia mediterrânica, já aqui havíamos aflorado esta pertinente questão.

E, recordando o que então dissemos, Portugal devia ter, atempadamente, “gizado um plano de contingência para precaver e/ou lidar com possíveis quebras num dos seus principais mercados emissores”.

Vale agora a pena acrescentarmos que, por um lado, devido à enorme instabilidade que o “Brexit” está a causar, traduzida em retracção económica e diminuição do poder de compra dos britânicos, principalmente relacionada com a desvalorização da libra e, por outro lado, porque estamos perante o quarto maior mercado emissor de fluxos turísticos do Mundo, segundo da Europa e, acima de tudo, daquele que tanto em 2015 como em 2016 originou o maior número de turistas entrados em Portugal, não podemos de maneira alguma desvalorizar a quebra registada no mês passado no Algarve.

Sustentamos também esta nossa afirmação no facto de, historicamente, o Reino Unido ter-se sempre situado entre os nossos principais quatro mercados turísticos, o que prova a sua fidelidade e gosto pelo destino português.

Assim, e mesmo que esta quebra seja meramente pontual e até tenha sido suprida pela captação de fluxos oriundos de outras paragens, não deverá – e acreditamos que o não será – ser tratada com ligeireza pelos agentes turísticos (públicos e privados) nacionais, exactamente porque sempre representou uma certeza para o país, enquanto outros, pese embora possam momentaneamente revelar maior dinâmica, não nos oferecem as mesmas garantias de continuidade.

De qualquer das formas uma “luz amarela” acendeu-se, alertando para a urgência de passarmos à acção. Ignorá-la, é expormo-nos a um grave “acidente”!

 

O + da Semana:

Ao longo destes comentários temos, por diversas vezes, alertado para a importância vital que todos, sem excepção, devemos ter no cuidar da nossa “casa comum”, o Planeta Terra. Também por essa razão aqui saudámos os acordos de Paris (Dezembro de 2015) que, entre outros aspectos, visam a adopção de medidas que contribuam para a redução, a partir de 2020, das emissões de dióxido de carbono por parte dos diferentes Estados e, consequentemente, estanquem o aquecimento global. É que, caso se faça tábua rasa dos mesmos, estaremos crescentemente à mercê do aumento da violência de fenómenos naturais como os que nas últimas semanas se têm verificado, afinal a única forma que a natureza possui de manifestar-se. No entanto – e para além de sublinharmos este alerta –, vale a pena saudar a actuação quer das autoridades, quer dos diferentes agentes turísticos (nacionais e internacionais), que evitaram que os recentes (e quase simultâneos) furacões “Harley”, “Irma” e “José”, não obstante a devastação causada, fizessem um número de vítimas mortais que fosse proporcional aos estragos materiais produzidos, como sucedeu, por exemplo, com o que a Monção do princípio de Agosto causou na Índia, no Nepal e no Bangladesh (mais de 1.200 vítimas fatais). Assim, mais uma vez fica demonstrado que o turismo é, porventura, a actividade económica que mais defende a preservação ecológica e ambiental da Terra e, com igual grau de importância, a preocupação que todos os seus agentes manifestam no acompanhamento “no terreno” de todos quantos lhes adquirem produtos, serviços ou de alguma forma estão ao seu cuidado.