iTurismo: Mais Escola, Melhores Competências, por Atilio Forte

A baixa escolaridade exigida nas ofertas de trabalho no Turismo é tema do comentário do iTurismo desta semana, ao mesmo tempo que Atílio Forte destaca o facto das autarquias, em especial no interior do país, começarem a discutir como se devem posicionar para captar turistas. A decisão do Governo retomar o Programa de Turismo Sénior é igualmente assunto de análise.

Tópicos da Semana:

  • Escalada dos “quartos inteligentes” exponencia riscos: A grande maioria dos peritos em cibersegurança alerta para o facto da personalização das experiências dos hóspedes através da introdução de mais tecnologia digital, particularmente ao nível da customização dos quartos, poder vir a ser explorada pelos piratas informáticos, já que expõe todo um vasto conjunto de dados respeitantes à privacidade pessoal que, potencialmente, podem ser violados.
  • Telefones fixos perto de alcançarem o estatuto de relíquia: Embora a esmagadora maioria dos hotéis planeie a manutenção dos telefones fixos nos quartos, sobretudo por razões de segurança, a verdade é que a sua utilização é cada vez menor na era dos “smartphones”, mesmo como elo de ligação à recepção ou ao “room service”, atento o facto da presença de assistentes inteligentes – como a Sirie a Alexa – ou o uso de “tablets”estarem a tornar-se nos meios preferenciais de contacto com os hóspedes.
  • Governo israelita aposta no sector do alojamento: o Estado de Israel está firmemente motivado a impulsionar o desenvolvimento da hotelaria. Para alcançar esse objectivo o seu Governo anunciou, recentemente, vários tipos de apoios e financiamento destinados à reconversão de edifícios de escritórios ou de habitação, em hotéis.

 

Comentário

Turisver – No ano passado, o Instituto do Emprego e Formação Profissional registou um total de 18.792 ofertas de trabalho para o Turismo sendo que 87,7% das vagas disponibilizadas exigiam como requisito de candidatura uma qualificação ao nível do terceiro ciclo do ensino básico (antigo 9º ano). Que comentário lhe merece esta situação?

 

Atilio ForteAntes do mais impõe-se que comecemos por dizer que este não é um problema exclusivo da actividade turística. Muito pelo contrário. É algo que, infelizmente, vem de longe e é transversal à globalidade da nossa economia, como ficou bem demonstrado num estudo realizado, em 2016, por um grupo de reflexão sobre Educação da Fundação Belmiro de Azevedo (denominado EDULOG), o qual alerta para a baixa escolaridade dos portugueses se comparada com a média europeia.

E esta é uma situação ainda mais preocupante se tivermos em conta que desde 2009 a escolaridade passou a ser obrigatória até ao 12º ano, sendo dever dos encarregados de educação matricularem os seus educandos em escolas e estes, por sua vez, frequentarem as aulas, competindo ao Estado cumprir com o princípio constitucional de disponibilização universal e gratuita do ensino, que tem traduçãona impossibilidade de cobrança de propinas, taxas ou emolumentos relacionados com a matrícula, frequência e certificação do aproveitamento em escolas da rede pública, até que os estudantes obtenham o respectivo diploma ou atinjam a maioridade, isto é, completem 18 anos.

Apesar da existência de todas estas garantias, direitos e deveres, na prática sabemos que o que acontece está longe do desejável (ou até aceitável!), seja pelos parcos rendimentos das famílias – mesmo considerando os apoios no âmbito da acção social escolar –, seja pela falta de estabelecimentos de ensino – mormente fora dos meios urbanos de média e grande dimensão –, seja, ainda, pela pouca motivação e ou aproveitamento dos alunos face aos curricula (e suas constantes alterações) com que se deparam, para só referirmos alguns exemplos.

Deverá também acrescentar-se que este prolongamento da escolaridade obrigatória levado a cabo em 2009, coincidiu temporalmente com a última grande crise económica mundial (com início no Verão de 2008) e com osanos de assistência financeira internacional a que o nosso país esteve sujeito (vulgo, período da “troika”), o que veio retardar os efeitos da sua entrada em funcionamento, em virtude de Portugal e os portugueses terem-se visto confrontados com outras prioridades.

Se este quadro, ainda que rudimentar e genérico, mesmo considerando que esta não é uma matéria em que sejamos especialistas, nos dá uma espécie de radiografia do actual estado de coisas, quando passamos para o “campo” do turismo há todo um conjunto de aspectos que mais acentuam as deficiências – e ineficiências – e justificam as razões expostas na pergunta, ou seja, a existência e a procura por mão-de-obra com tão baixa qualificação educativa.

De entre todas, permitimo-nos destacar aquelas que, em nossa opinião, consideramos serem as mais importantes. Assim, temos:

Da parte de quem pretende ingressar no mercado de trabalho ainda há uma defeituosa percepção acerca das qualificações escolares necessárias para exercer muitas das funções que as diferentes actividades turísticas contemplam. A título ilustrativo, veja-se o que acontece com copeiros, ajudantes de cozinha, empregados de quarto ou, até, de mesa. Poucos(as) serão os (as) que pensam precisarem de grandes conhecimentos ou qualquer grau académico para as desempenharem.

O que nos leva a um outro ponto, relacionado com a enorme (gritante!) falta de valorização das carreiras e profissões turísticas onde, bastas vezes, não chega a constatação de ausência do seu reconhecimento, como ainda são associadas a fraca responsabilidade e alvo de “menorização social”. Basta observarmos o estigma em volta de verbos como “servir”, “limpar” ou “arrumar” para comprovar o longo caminho que, neste particular, temos pela frente.

Do lado de quem emprega verificamos que, mesmo considerando os elevados níveis de desemprego que ainda subsistem – principalmente entre os jovens à procura do primeiro emprego, os que têm idade acima dos 45 anos e os desempregados de longa duração –, as empresas lutam com escassez de mão-de-obra, sendo-lhes frequentemente difícil conseguirem preencher as vagas que têm para oferecer, tanto pela pouca atractividade que muitas profissões turísticas detêm (parcialmente justificada pelos motivos que acabámos de expor), como pelos horários praticados – o turismo labora, em geral, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, o que provoca desfasamentos com a esmagadora maioria das demais profissões, alterando os ritmos sociais, particularmente os familiares, desincentivando a vontade de a elas aceder –, como, sobretudo, pelos baixos salários que, normalmente, estão disponíveis para pagar e que, paradoxalmente, contrastam com o bom momento por que passa a actividade.

Neste plano, deve também contar-se com uma insipiente preocupação com a qualidade final do produto por parte de um número ainda significativo de empresas e empresários, que tem por consequência parcos investimentos em formação e qualificação profissionais – se muitos dos proprietários não as têm, nem sentem delas necessitarem, não se pode esperar que as coloquem no topo das suas prioridades de gestão –, pondo o foco e carreando os esforços para outros aspectos da operação ou das facilidades disponibilizadas aos clientes, esquecendo-se que, no final, terão sempre pessoas a lidar com pessoas e que será aí que se jogará muito do sucesso, ou insucesso, do seu negócio, sendo por estas razões fundamental ter em consideração que quanto maior for a escolaridade de quem trabalha, mais fácil se tornará alcançar os níveis de excelência aguardados (e exigidos) pelos consumidores actuais.

Por último, e para não nos alongarmos excessivamente, dolado de quem legisla não tem havido o discernimento e a vontade de entender que as actividades turísticas têm especificidades próprias e, por isso, não se compadecem com a existência de uma legislação laboral cega, genérica e homogénea, que trata todos os sectores e actividades económicas do mesmo modo – sejam eles uma fábrica, uma repartição, uma qualquer loja comercial, um restaurante ou um hotel – e que, por isso, revela-se cada vez mais insuficiente para lidar quer com os picos diários de produção, operação ou atendimento, quer com a sazonalidade intrínseca à tipologia do produto ou serviço disponibilizados, como acontece no turismo.

Esta “rigidez” da actual legislação laboral demonstra-se de modo gritante na pouca flexibilidade contratual permitida e na consagração de“bancos de horas” que manifestamente não servem as profissões turísticas e que, se somadas à ausência de planos curriculares escolares vocacionados para o turismo – no fim de contas esta é a actividade económica que maior potencial de criação de emprego revela –, promovem não apenas a precariedade laboral como, principalmente, criam uma barreira, quase intransponível, ao aumento dos índices de escolaridade de quem trabalha naactividade – por desejo ou necessidade – ou desejados por quem pretende contratar.

Em conclusão, nos dias de hoje o maior activo de qualquer país, de qualquer área ou sector da economia, de qualquer empresa ou pessoa é o saber, o conhecimento, que começa – e se prolonga – nas salas de aula. Portanto, nenhuma sociedade pode almejar o progresso, seja a que nível for, sem educação.

E, para tal, o ensino – particularmente a escolaridade obrigatória – tem, necessariamente, de estar no centro das preocupações de quem governa, de quem emprega, de quem trabalha, de quem educa, de quem estuda e em total sintonia (diríamos mesmo harmonia) com a realidade do Mundo actual. É crítico que todos, sem excepção, percebamos isto. E é-o, por maioria de razão, sobretudo para aqueles que de alguma forma estão ligados ou relacionados – ou pensam vir a estar – com a mais humana e humanizada de todas as actividades económicas; a única que começa e acaba nas pessoas: o turismo. Nem que para isso tenhamos todos de regressar à escola!

 

Turisver – As autarquias, em especial no interior do país, têm-se desmultiplicado na realização de debates, seminários ou fóruns, para discutirem como se devem posicionar para captar turistas. Na sua perspectiva é positivo que as Câmaras Municipais estejam a fazer esta discussão?

 

Atilio ForteÉ de extrema importância que o país, no seu todo, ganhe cada vez maior consciência para a importância do papel estratégico que o turismo pode desempenhar no seu desenvolvimento e crescimento sustentáveis.

E, ao nível da coesão territorial, como tantas e tantas vezes aqui temos sublinhado, a actividade turística pode ter, se assim o quisermos, uma palavra decisiva na vivificação das regiões do interior, por forma a inverter o presente processo de definhamento por que as mesmas passam.

Por este motivo, e enquanto núcleos de unidade territorial essenciais para o fomento da prosperidade, as autarquias têm vindo, paulatinamente, a “apanhar o comboio” turístico e a despertarem para as suas (praticamente) infinitas vantagens procurando, de um modo geral, aprender e apreender os melhores conhecimentos turísticos com quem está mais ligado à actividade. Daí este aumento, quase exponencial, do número eventos que vêm dedicando ao turismo.

Reconhecida a valia e o mérito destas acções, até porque elas ultrapassam em muito o que respeita directamente à actividade turística, dado que quase sempre motivam com que as populações locais sejam as grandes beneficiárias, sobretudo no que respeita à melhoria da sua qualidade de vida, das transformações feitas para fomentar a atracção de turistas, não resistimos em aqui registar um modesto contributo com a finalidade de alargar as vantagens que podem ser colhidas deste tipo de realizações.

Assim, e do que nos vem sendo dado observar, constatamos que, genericamente, existe uma grande preocupação de fazer coincidir este tipo de encontros com as fronteiras geográficas do município onde o mesmo tem lugar. O que, convenhamos, tem lógica.

No entanto, somos de opinião que em muitos casos, seja pela sua dimensão (territorial, demográfica, económica, cultural, patrimonial, etc.), seja pelas necessidades de investimento que, inevitavelmente, acabam por daí resultar, seja, sobretudo, pela falta de massa crítica respeitante à oferta turística existente ou aos produtos identificados como tendo potencial turístico, faria mais sentido que esses esforços não fossem isolados, mas feitos em parceria com Concelhos vizinhos.

Com isto pretendemos dizer, de forma muito simples, que todos ganharão mais se houver conjugação de forças, maior colaboração e coordenação, já que, para além das naturais economias de escala, daí resultará mais oferta, isto é, mais factores de atracção os quais, terão maior facilidade em despertar a atenção dos possíveis turistas dado que, numa mesma deslocação, poderão ver, sentir, apreciar, experienciar (para usar um vocábulo em “moda”) várias propostas. Numa frase, obterão mais, pelo mesmo (ou quase pelo mesmo).

Em suma, as autarquias que apostam no progresso turístico, devem ter a noção que o turismo, por também ele ser simbiótico, exige espírito associativo, capacidade de estabelecer parcerias e grande comunhão de energias. Porque hoje, convirá recordar, a competição é global.

 

O + da Semana:

 Após vários anos de interregno o Governo decidiu retomar o Programa de Turismo Sénior, através de uma parceria entre a Fundação INATEL, o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, o Ministério da Economia e o Turismo de Portugal, sob a designação “55+.PT”, tendo-lhe atribuído uma dotação de oito milhões de euros, medida que, claramente, merece aqui ser destacada por várias ordens de razões: desde logo, porque vem recuperar uma iniciativa – começada em 1995 – destinada à população mais idosa, com carências económicas ou deficiência que, há alguns anos, havia sido interrompida; depois, porque retoma os objectivos originais do Programa, isto é, promover o lazer junto de quem menos pode, o envelhecimento activo, o contacto entre gerações, a diminuição do isolamento e a exclusão social; finalmente, porque volta a pretender envolver os agentes económicos privados, particularmente o sector da hotelaria, na denominada “baixa estação” (entre Outubro e Maio), estendendo, deste modo, o Programa para além das unidades exploradas pelo INATEL. Mas, tão ou mais importante, foi também ter sido decidido que esta iniciativa deva privilegiar as viagens ao interior do país, mormente às zonas mais afectadas pelos incêndios de Junho e Outubro do ano passado, ajudando e contribuindo, por essa via,para a revitalização das economias locais.