iTurismo: Mercado Interno, por Atilio Forte

As plataformas móveis na formação profissional, os programas de adesão dos hotéis para captação do mercado local e a quebra de competitividade dos EUA são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte escolhe para “O + da Semana” a abertura, no próximo ano, do maior espaço de ciber desporto nos EUA. O habitual espaço de comentário versa desta vez sobre a problemática do mercado interno.

Tópicos da Semana:

  • Plataformas móveis podem tornar-se decisivas na formação profissional: A “Inkling” – empresa proprietária de uma plataforma de gestão de tarefas – afirma que os dispositivos móveis podem alterar o modo como os profissionais de turismo são formados e treinados, particularmente no sector hoteleiro, uma vez que, actualmente, ninguém está disponível para ler e estudar manuais “pesados” que basicamente ensinam e explicam como determinada função deve ser exercida. Por este motivo os trabalhadores preferem tutorias apresentadas em vídeo e que lhes possibilitem um diálogo directo com as suas chefias, em moldes em tudo idênticos aos que utilizam para interagir com os seus amigos nas redes sociais.

 

  • Hotéis criam programas de adesão para captarem o mercado local: A inovação e a criatividade são sem sombra de dúvida, e muito em particular na actividade turística, as melhores “armas” para fazer face à crescente concorrência. Por esta razão, os programas de adesão que pressupõem o pagamento de uma propina estão cada vez mais em voga no sector hoteleiro como forma de captar o mercado local e, consequentemente, aumentar os proveitos das unidades. No fundo, trata-se de novas propostas de estilo de vida que possibilitam aos residentes utilizarem todas as comodidades e facilidades disponibilizadas por um hotel aos seus clientes, à excepção da componente do alojamento.

 

  • Requisitos para a obtenção de visto fazem cair a competitividade dos Estados Unidos da América (EUA): Os EUA desceram dois lugares (de 4º para 6º) no índice de competitividade turística divulgado pelo último Relatório do Fórum Económico Mundial. Esta queda é atribuída ao súbito “apertar” das regras para a concessão de vistos de entrada naquele país, o qual vem ao arrepio da tendência de maior abertura que se verifica nos demais destinos e que, como se sabe, tem desempenhado um importante papel no crescimento da actividade no resto do Mundo.

 

Comentário

 

Turisver.com – Realiza-se de 29 a 31 de Maio, em Leiria, a quarta edição do “Vê Portugal” – Fórum Turismo Interno, o único evento em que se debate a problemática do turismo que se faz “cá dentro”. No seu entender, o turismo interno é considerado como merece pelos responsáveis do sector?

Atilio ForteNão seria justo começar o comentário de hoje sem deixarmos uma palavra de merecido elogio ao Turismo do Centro de Portugal, enquanto entidade responsável pela organização deste Fórum – que já vai para a sua 4ª edição –, tanto pela iniciativa que, como é referido na pergunta, é a única exclusivamente dedicada ao debate e à reflexão do turismo interno, como pela crescente importância que o mesmo tem vindo a adquirir no panorama turístico, bem espelhada no significativo aumento do número de participantes que, ano após ano, nele têm marcado presença.

É (sempre) bom recordar e valorizar o incontornável papel que o mercado interno teve durante os anos menos bons que a actividade registou, particularmente entre 2009 e 2013 – período em que o país e o turismo sofreram com os reflexos da crise económica mundial e com o período de assistência financeira internacional –, tendo contribuído decisivamente para (de algum modo) atenuar as consequências que resultaram da súbita contracção dos mercados externos, apesar das enormes dificuldades sentidas pelos consumidores nacionais, mormente a drástica diminuição do poder de compra que os atingiu.

Cremos, até, que esta terá sido a principal causa que levou à criação de um evento desta natureza, não só como forma de reconhecimento dos turistas portugueses mas, também, para que o seu comportamento/importância não seja esquecido(a), agora que, felizmente, a actividade turística entrou num novo ciclo de crescimento.

Aliás, se atentarmos bem, a totalidade das nossas Entidades Regionais Turismo têm procurado estreitar a sua relação de proximidade com o mercado interno, embora, para sermos justos, devamos reconhecer que o esforço posto nas acções de cada uma é inversamente proporcional à atractividade detida junto dos mercados internacionais, sobretudo por parte das que se localizam em território continental.

Ou seja, embora todas façam questão de “se promoverem” junto dos consumidores nacionais, e sem pôr em causa o genuíno empenho de cada uma, o facto é que o mercado interno percepciona uma maior tentativa de “aliciamento” (no bom sentido do termo) por parte do “Turismo do Centro” e do “Turismo do Alentejo e Ribatejo”, logo seguidos do “Turismo do Porto e Norte de Portugal”, do que do “Turismo do Algarve” e do “Turismo Lisboa”. O mesmo acontece com ambas as Regiões Autónomas, sendo que nesse caso o “Turismo dos Açores” aparenta maior dinamismo do que o “Turismo da Madeira”.

Sublinhe-se que isto não configura qualquer crítica, pois todas fazem um trabalho inestimável junto do mercado interno, mas apenas a constatação que umas regiões, por possuírem maior notoriedade quer dentro, quer fora do país e, consequentemente, maior dimensão turística, estão obrigadas a dispersarem-se mais, o que conduz a que as suas acções apareçam de modo mais difuso ou diluído aos olhos dos consumidores nacionais.

Quanto ao Turismo de Portugal, apesar de estar bem mais orientado para os mercados externos, também nunca esqueceu o turismo interno, como demonstra a campanha em curso “Ponha Portugal no Mapa” (que em devido tempo aqui comentámos), para só referirmos o exemplo mais recente.

Finalmente, o sector privado, afinal o grande motor e impulsionador da actividade turística, cuja actuação, em geral, não difere do esforço promocional posto em prática pelas diferentes entidades públicas, mesmo considerando a região onde se localize e as diversas tipologias de negócio a que se dedique, mas que não pode “dar-se ao luxo” de enjeitar as cerca de 16 milhões de dormidas (30% do total registado em 2016, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística – INE) que o mercado interno representa.

Em conclusão, podemos dizer que nos últimos anos o mercado interno (re)ganhou alguma importância junto dos principais actores turísticos, pese embora a mesma seja indissociável da sua dimensão e proporcional à sua capacidade aquisitiva.

 

Turisver.com – Hoje temos uma segunda questão que pega com a primeira, o que não acontece há bastante tempo. A procura internacional em determinadas regiões do país tem vindo a provocar grandes ocupações hoteleiras, o que se tem reflectido no aumento dos preços, em especial para o turismo interno. Na sua perspectiva podemos estar a voltar aos anos 80, em que as camas escasseavam e os portugueses eram sempre segunda escolha?

Atilio ForteNa sequência do que afirmámos na resposta anterior, sinceramente, não acreditamos que tal possa voltar a verificar-se. E porquê?

Em primeiro lugar, porque os diversos agentes turísticos – com o tecido empresarial à cabeça – têm hoje outra consciência sobre a importância estratégica do mercado nacional pois, por um lado, representa quase 1/3 do total das dormidas e, por outro lado, sabem que principalmente nos maus momentos (ou nos menos bons) é com ele que podem contar.

Em segundo lugar, porque em qualquer actividade económica, mas sobretudo na do turismo, nenhum produto tem sucesso e alcança notoriedade internacional se, à partida, não as obtiver no seu mercado de origem. No fundo aplica-se aqui a velha máxima “se não formos bem-sucedidos dentro da nossa própria casa, de nada vale irmos procurar o êxito em casa alheia”, pois só estaremos a exponenciar as fragilidades que detemos. Mais a mais num Mundo, como aquele em que vivemos, onde a informação é instantânea e no qual a opinião dos outros consumidores, em grande parte dos casos, é a que tem mais peso e valor e, por essa razão, dita a tendência. Ora se os portugueses não disserem bem do seu produto turístico, dificilmente o mesmo será apreciado e, consequentemente, considerado apetecível por estrangeiros.

Por último, um aspecto de importância primordial, porque os hábitos dos consumidores nacionais estão a alterar-se – como aqui referimos na semana passada –, isto é, as marcações são cada vez menos feitas “em cima da hora”, fruto de uma melhor planificação e mudança cultural as quais, paulatinamente, têm vindo a alterar o perfil do consumidor português.

Contudo, há algo que nos parece inelutável. Referimo-nos ao preço. Vivendo numa economia aberta é impossível não “esbarrarmos” com aquela que é, porventura, a “principal regra” de funcionamento dos mercados: a Lei da Oferta e da Procura!

Se Portugal continuar na senda do sucesso turístico, torna-se evidente que os preços subam por força de uma crescente procura. Mesmo que a oferta aumente. Mas se a este aspecto adicionarmos a nossa capacidade de carga turística, facto com que a dado momento seremos seguramente confrontados, até pelas nossas exiguidade territorial e grande diversidade turística (geradora de maior atractividade), isso significará que seremos obrigados à tomada de um conjunto de decisões estratégicas as quais, sem dúvida alguma, reflectir-se-ão no aumento dos preços, seja por limitação de capacidade da oferta, seja pelo imparável crescimento da procura seja, ainda, pela percepção de exclusividade/raridade com que apareceremos diante dos consumidores, situação que, obviamente, tenderá a (sobre)valorizar-nos.

Mesmo que todos estes argumentos não bastassem para justificar a nossa descrença num eventual recuo no tempo, a evolução tecnológica e a facilidade de realização de transacções electrónicas estariam sempre a favor dos consumidores nacionais, já que, actualmente, e contrariamente às dificuldades existentes na década de oitenta, a oferta turística está totalmente globalizada, à distância de um clique, o que é o mesmo que dizer, ao alcance da ponta dos nossos dedos.

Em suma, quem “manda” são os consumidores. E aqueles que não entenderem esta evidência é porque estão totalmente desfasados da realidade. E isso é algo que se paga caro. Muito caro!         

 

O + da Semana:

A “Allied Esports” rede mundial de arenas/pavilhões de “Esports” (ciber desporto ou desporto electrónico) e a “Esports Arena” acabam de anunciar uma parceria para a abertura – no início do próximo ano – do maior espaço (cerca de 9.100m2) dedicado a esta novíssima “modalidade”, no Luxor Hotel & Casino de Las Vegas, dando continuidade à expansão deste tipo de equipamentos que já existem em vários pontos do globo (América do Norte, Europa e China). Mas o que é o ciber desporto? Basicamente define-se por a ser a prática de videojogos em ambiente de competição (os intervenientes jogam uns contra os outros, em equipa ou individualmente) que, na esmagadora maioria dos casos, é feita online. Ora muitas dessas disputas/torneios/campeonatos acabam por tornar-se extremamente competitivas, à semelhança de qualquer outra prova desportiva, captando não apenas a atenção dos demais praticantes mas, sobretudo, arrastando uma legião de fãs de todo o Mundo que, como é natural, têm as suas equipas/jogadores e jogos preferidos. Perante este crescente sucesso, foi de forma natural que começaram a ser pensados espaços que acolhessem competições deste género, nomeadamente as grandes finais, possibilitando que jogadores e espectadores/apoiantes partilhem um mesmo espaço e, claro está, todas as emoções que decorrem do jogo (tal como num estádio ou pavilhão). Por estas razões, a “Esports Arena” que abrirá na “cidade do pecado” contará com um palco de competição, uma parede gigante de vídeo led e estúdios avançados de produção de transmissão contínua (“streaming”), para além de múltiplos serviços de apoio, entre os quais a área de alimentos e bebidas (F&B) terá especial destaque.