iTurismo: Ser e Não Ter (importância), por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte comenta a importância ainda pequena dada à actividade económica do turismo pela classe política (apesar da evolução sentida nos últimos anos) e a falta de políticas para o turismo nos Partidos Políticos. Em destaque está também a acção de promoção de Portugal realizada pela secretária de Estado do Turismo junto das comunidades judaicas dos EUA.

 

Tópicos da Semana:

  • AccorHotels identificam as cinco principais tendências na hotelaria, para 2018: Facilidades no acesso a serviços locais através de uma aplicação (entrega de flores, de comida, aluguer de automóveis à hora – com ou sem condutor –, etc.); aceitação de modalidades de pagamento por meio de dispositivos móveis; maior descontracção dentro das suas unidades de luxo (por exemplo, no que respeita à indumentária recomendada aos hóspedes); estadas mais sustentáveis (tornando todos os aspectos da operação mais “amigos do ambiente”, indo ao encontro do sentir dos clientes); e, personalização máxima dos serviços prestados aos hóspedes.

 

  • Minor Hotels entra nos cruzeiros fluviais de luxo: A aquisição de uma frota de cinco barcos marca a entrada desta cadeia hoteleira (com presença em Portugal) no mercado dos cruzeiros de luxo e logo num dos maiores rios do Mundo: o Mekong (localizado no Sudeste asiático). A bordo, e enquanto viajam entre a Tailândia e o Laos, os passageiros podem participar em aulas de culinária, para além de contarem com as habituais escalas para efectuarem excursões ou, até, passeios em bicicletas de montanha.

 

  • Botão de champanhe: Foi exactamente isto que o Hotel Baccarat de Nova Iorque decidiu instalar nos seus quartos, permitindo que, com o simples pressionar de um botão, sem recurso ao telefone e a qualquer hora do dia ou da noite, os seus hóspedes sejam “mimados” com um copo gratuito do delicioso néctar.

 

Comentário

Turisver.com – Já por várias vezes os leitores têm enviado questões que giram em torno da pouca importância que a classe política dá ao turismo. Na sua opinião, a pouca relevância dada a esta actividade económica deve-se ao facto de os Partidos Políticos não terem políticas para o turismo?

Atilio Forte – Esta é uma questão que, a propósito desta ou daquela matéria, já aqui aflorámos por diversas vezes, atenta a transversalidade e pluridisciplinaridade da actividade económica do turismo. Não obstante concordarmos com o alcance da mensagem subjacente à pergunta, convirá que comecemos por sublinhar que a postura com que os Partidos Políticos encaram hoje a actividade turística é substancialmente diferente da que se verificava há cerca de duas décadas.

Na altura, como muitos(as) estarão recordados(as), o turismo praticamente não era considerado ou valorizado. E tal não sucedia apenas com a classe política. Em muitos outros domínios da nossa vida económica e social, esta atitude tinha idêntico reflexo. Veja-se, por exemplo, o que sucedia no plano da representatividade associativa, que apenas considerava a agricultura, a indústria, o comércio e os serviços, havendo a constante tentação de integrar a constelação turística como parte das actividades industriais, ou do terciário em geral.

Situação que mais se agudizava porque o próprio turismo também não fazia muito pela sua afirmação. A título ilustrativo repare-se que a actividade só constitui a sua Confederação na viragem de 1995 para 1996…

Desse tempo e dessa postura ainda hoje subsistem “tiques” de linguagem – como “indústria” do turismo ou “sector” do turismo –, com os quais sempre estivemos em total desacordo, mas que são extremamente reveladores da pouca importância, para não dizermos consideração, como a actividade era (e é) olhada.

Paradoxalmente, a orgânica governativa da altura dava-lhe um outro (maior) ênfase, dada a inexistência de um Ministério da Economia – que veio tomar o lugar dos, até então, Ministério do Comércio e Turismo e Ministério da Indústria e Energia –, o qual só aparece em finais de 1995, com o primeiro Governo de António Guterres.

Contudo, com o passar dos anos o turismo foi afirmando-se, quer pelo constante desenvolvimento à escala global que foi demonstrando, quer pelo peso crescente que foi conquistando na economia nacional, quer, sobretudo, porque não esperou que terceiros o valorizassem e “emancipou-se”, dentro e fora de portas.

A prová-lo está o facto de a actividade ser referida, pela primeira vez, num texto da União Europeia – o Tratado Constitucional de 2004, no capítulo dos Domínios de Acção Comuns dos Estados-Membro – e da Confederação do Turismo Português (CTP) ter conquistado o estatuto pleno de Parceiro Social, passando a integrar a CPCS – Comissão Permanente de Concertação Social, a partir de meados de 2003.

Propositadamente, fizemos esta breve retrospectiva para demonstrar que, na realidade, existiu algum progresso no modo como a classe política passou a encarar o turismo, pese embora o mesmo tenha ficado muito aquém do desejável e necessário.

Contudo, se genericamente havia esta percepção pontuada por alguns laivos práticos de reconhecimento, a crua verdade é que durante muitos anos continuámos a assistir por parte dos Partidos Políticos que chegavam ao Governo, salvo honrosas excepções, à nomeação de responsáveis para pasta do Turismo apenas pela sua região de origem, nomeadamente do Algarve e da Madeira porque, intuía-se, por esse motivo estavam mais “familiarizados”, logo qualificados, com as questões ligadas à actividade, deixando de lado qualquer aspecto programático, por não o possuírem.

Ou seja, e perdoem-nos a ilustração, em parte o turismo continuava a ser encarado como o futebol, onde um qualquer adepto, por assistir aos jogos na bancada, arvora-se em grande conhecedor técnico-táctico do mesmo, criticando a seu “bel-prazer” treinadores, jogadores, árbitros e demais intervenientes na partida, fazendo “tábua rasa” da sua falta de formação e qualificação para a emissão dessa opinião.

Ora como o acto de viajar é hoje em dia acessível a quase todas as pessoas, muitas delas, pelo simples facto de já terem realizado uma viagem, julgam-se profundamente conhecedoras do que se passa na actividade e, consequentemente, habilitadas a terem ideias e estratégias “incontestáveis” acerca da mesma, esquecendo-se que estão a intervir directamente na maior actividade económica do Mundo que é, quanto mais não seja por essa condição, altamente complexa e por isso credora de profundos conhecimentos científicos e técnicos, para além do habitual bom senso exigível e espectável da parte de qualquer Membro de um Governo.

Não surpreende pois, que este sentido de “importância”, “grandeza” e “dimensão económica estratégica” que o turismo tem vindo a conquistar junto dos Partidos Políticos, a muito custo, decorra mais da força do impacto real dos seus resultados do que, propriamente, de convicções ou de opções políticas.

É bom recordarmos que alguns dos Partidos Políticos que têm presentemente representação parlamentar diziam, não há muito tempo (pouco mais de uma década) que o turismo não lhes interessava, que não tinha lugar nas suas agendas, acções e intervenções políticas. Outros houve que, justamente, elevaram o estatuto da actividade a nível governamental (quem não se lembra da criação de um Ministério do Turismo, no Governo de Santana Lopes), mas que depois não lhe deram qualquer conteúdo, fazendo com que, em termos práticos, continuássemos perante a Secretaria de Estado de sempre. Ou ainda, para não sermos exaustivos, como em todos os Governos de coligação pós Durão Barroso, o turismo serviu sempre de moeda de troca (ou compensação) entre o Partido Político que liderava o Executivo e o seu parceiro menos votado.

Se o turismo é tão importante para o país, como tantas vezes é afirmado, faz algum sentido tratá-lo desta forma tão secundária? Significa assim tão pouco que seja a primeira área de que (facilmente) se abre mão? Porque é que algumas vezes apresentam-se aos portugueses(as) Programas Eleitorais plenos de conteúdo, merecedores de rasgados elogios por parte de toda a comunidade turística, os quais depois das eleições ganhas são totalmente obliterados?

O turismo é uma actividade económica fulcral para Portugal. Portanto, não pode continuar a ser tratado deste modo. E, já agora, os seus protagonistas também não podem deixar que o tratem assim. É que quem não se dá ao respeito, não pode esperar ser respeitado(a)!

E a exigência não deve apenas ser feita aos Partidos Políticos. Deve começar por aqueles que todos os dias dedicam o melhor de si à actividade. Afinal, são eles(as), somos nós, todos nós, quem vota, isto é, quem elege.

Mesmo com todas estas dificuldades devemos prestar homenagem às e aos que têm exercido funções governativas ligadas à actividade, pois rapidamente percebem o potencial ímpar da mesma e, consequentemente, procuram fazer o melhor que podem e sabem, mesmo não sendo compreendidos e entendidos no seio dos Governos que integram, porque a sensibilidade e o conhecimento não existem, porque há a ideia que tudo está (permanentemente) bem na actividade e que esta “anda” por si, dando, por esta via, plena substância ao célebre ditado popular: uma andorinha não faz a Primavera…

Em conclusão, e reconhecendo o caminho de afirmação feito pelo turismo e da mudança de percepção que os Partidos Políticos têm hoje da actividade, pode e deve exigir-se-lhes mais … e melhor. Caso contrário corremos o risco de Portugal continuar sem uma estratégia mobilizadora para a actividade, de assistirmos não a debates políticos sobre os impactos do turismo – como acontece, presentemente, com as questões do alojamento local ou da turismofobia –, mas a palpites sem qualquer fundamento ou conteúdo para além do “eu acho”, de continuar a adiar a adopção de uma nova solução aeroportuária para Lisboa (e para o país), etc., etc..

E, todavia, somos o “melhor destino turístico do Mundo”! O que sucederia se todos os Partidos Políticos dessem ao turismo a importância política que a actividade tem feito por merecer? Se lhe dessem mais atenção? Se verdadeiramente o considerassem? Se, por um segundo, parassem e pensassem que as coisas mais importantes vêm sempre, sempre, em primeiro lugar!

 

Turisver.com – A Secretária de Estado do Turismo esteve à frente de uma acção de promoção de Portugal em várias cidades dos Estados Unidos da América, com a finalidade de explicar às comunidades judaicas porque devem descobrir a rede de judiarias no nosso país. Na sua opinião estas acções cirúrgicas para captar turistas americanos para Portugal fazem sentido?

Atilio Forte – Fazem todo o sentido! E, neste caso concreto, por múltiplas razões das quais destacamos algumas:

Em primeiro lugar, porque o mercado dos Estados Unidos da América (EUA) para Portugal encontra-se em crescimento, quer pela melhoria da percepção dos consumidores americanos sobre Portugal quer, sobretudo, pelo aumento da oferta de transporte aéreo entre os dois países, que tornou “muito mais fácil” chegar a terras lusas.

Em segundo lugar, porque devemos procurar novos mercados, seja por uma questão de manutenção do aumento do ritmo da procura, seja para compensar eventuais quebras que possam vir a ocorrer, nomeadamente por parte do mercado britânico devido ao “Brexit”.

Em terceiro lugar, porque sabemos a dimensão e as raízes profundas que a comunidade judaica tem nos EUA e a sua grande motivação em conhecer outros locais onde no passado a sua presença tenha sido marcante. Ora, como todos bem sabemos, Portugal tem fortíssimos traços culturais e patrimoniais ligados aos judeus e ao judaísmo, ao ponto dessa “herança judaica” ter sido determinante para alguns dos momentos de maior glória da nossa História, particularmente no período dos Descobrimentos, os quais ainda hoje são bem visíveis no nosso quotidiano.

E, finalmente, porque Portugal foi sempre um dos países que melhor acolheu o povo judeu, mesmo quando teve de enfrentar a Santa Sé e recorrer a baptismos colectivos (literalmente a balde de água) – como aconteceu no reinado de D. Manuel I –, que estiveram na origem dos denominados cristãos-novos, revelando a sua atitude cosmopolita e a hospitalidade do seu povo, apesar de reconhecermos que também existiram interesses políticos (nada ingénuos) que estiveram por trás desta decisão, concretamente o financiamento de muitas das nossas expedições marítimas e a necessidade de população para ajudar na colonização dos “novos mundos” que, então, íamos dando ao Mundo.

No entanto, e sem se pretender retirar qualquer mérito à iniciativa, é nosso entendimento que esta visita deveria ter sido acompanhada por empresários nacionais, pois a oportunidade de promoção criada poderia mais facilmente ser materializada e aproveitada em contactos que visassem o negócio, mais a mais porque há muitos anos os operadores turísticos que actuam no sector do turismo receptivo (vulgo “incoming”) têm produto estruturado destinado à comunidade judaica.

Desta acção governativa merece ainda destaque e aplauso o seu outro objectivo que visou reunir com responsáveis por estúdios cinematográficos, a fim de os sensibilizar e cativar para (também) olharem para Portugal como destino de excelência para filmagens dando, por um lado, continuidade ao trabalho iniciado por Governos anteriores e, por outro lado, persistindo na captação deste segmento de negócio que, directamente, tanto nos pode trazer e, indirectamente, ajudar na promoção do nosso país, numa escala de maior grandeza, atenta a influência e o impacto global que o audiovisual, em geral, e o cinema, em particular, têm actualmente nas decisões dos consumidores.

 

O + da Semana:

 

No passado dia 9 de Fevereiro realizou-se a II Convenção Nacional da ARAC – Associação dos Industriais de Aluguer de Automóveis sem Condutor, a qual teve como pano de fundo o tema “ A Energia da Nova Mobilidade”. De entre os vários assuntos aí debatidos merece particular destaque a vontade daquela associação evoluir, acompanhando o mercado, e passar a abranger outras formas de mobilidade que estão para além do seu propósito presente: a representação do sector do “rent-a-car”. Assim, aquela estrutura associativa anunciou que pretende, no imediato, passar a integrar diferentes meios de mobilidade, tais como o “carsharing” ou o “bikesharing”, não “fechando a porta” à integração de outros que, no futuro, venham a revelar-se relevantes. Não é por isso de estranhar que, a prazo, a ARAC admita mesmo vir a alterar o seu próprio nome, para outro com uma designação que melhor traduza esta nova abrangência. Este maior dinamismo e, sobretudo, esta abertura a novas realidades por parte do movimento associativo empresarial são de saudar e provam que, também no que às associações respeita, a inovação, o acompanhamento das novas tendências e a adaptação às mudanças resultantes da evolução ou do aparecimento de novos modelos de negócio, é algo a que devem constantemente estar atentas e, sempre que se justifique, acompanhar.