iTurismo: Negócios e Açores com Inteligência, por Atilio Forte

Escassa informação disponível sobre a actividade turística e um plano de revitalização económica da Terceira são os temas analisados por Atilio Forte no iTurismo desta semana, enquanto “O + da Semana” dá destaque ao “Web Summit”, que se realiza em Novembro em Portugal. Os “Tópicos da Semana” vão para as dificuldades do turismo turco, o Dia Nacional da Gastronomia, e a possibilidade de se tomar um café expresso no espaço.

 

Tópicos da Semana: 

 

  • O cabo das tormentas do turismo turco: Como já aqui havíamos perspectivado, as angústias da economia turca já se sentem na actividade turística, a qual entrou numa espiral recessiva motivada pelo terrorismo, pela degradação das relações económicas com a Rússia e pela crise dos refugiados sírios. Ao procederem a uma avaliação da situação, vários economistas de renome são de opinião que o decréscimo das receitas turísticas na Turquia pode ascender aos 8 biliões de dólares.

 

  • Dia Nacional da Gastronomia: No próximo dia 29 de Maio, numa iniciativa conjunta da Federação Portuguesa das Confrarias Gastronómicas (FPCG) e da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) vai, pela primeira vez, celebrar-se (em Aveiro) o Dia Nacional da Gastronomia Portuguesa. Volvidos 16 anos desde que a gastronomia passou a ser considerada Património Cultural de Portugal – iniciativa que contou com a dedicação e o empenho de muitos (entre os quais modestamente nos incluímos) -, esta é uma excelente notícia para um dos activos que conferem maior notoriedade ao turismo nacional.

 

  • Café no espaço: A produtora de café italiana Lavazza, em colaboração com uma empresa de engenharia aeroespacial – Argotec – e com a Agência Espacial Italiana desenvolveram o primeiro sistema de cápsulas de café (o “ISSpresso”) capaz de produzir – seja em aroma, temperatura ou creme –, nas extremas condições que se verificam no espaço, um autêntico café expresso italiano.

 

  Turisver.com – Não é de hoje que os empresários do turismo reclamam da escassa informação disponível sobre a actividade. Agora o Turismo de Portugal anunciou a criação do Travel BI, uma plataforma de gestão de conhecimentos que traduz a aposta do organismo no Business Intelligence. A criação deste novo sistema poderá colmatar a lacuna de há muito sentida pelos empresários?

 

Atilio Forte – Vale a pena começarmos por dar duas notas elogiosas ao Turismo de Portugal: uma, para destacar que apesar das mudanças ocorridas (no Governo e na sua Administração), não houve a tentação em desfazer ou deixar de dar continuidade ao trabalho que, a este nível, vinha sendo realizado; outra, para referir que este também é um papel fundamental do “Regulador do Turismo”, isto é, produzir e disponibilizar aos agentes turísticos boa e fiável informação acerca da actividade, nas suas múltiplas vertentes.

Nos tempos que correm ter conhecimento rigoroso, analítico e, quando possível, quantificado, sobre o que se passa no “Portugal turístico” e nos nossos principais mercados é uma ferramenta primordial para se ter sucesso, seja no dia-a-dia, seja nos investimentos, seja ainda na estratégia turística a desenvolver.

Se o que acabamos de afirmar é uma evidência, o facto é que ao longo dos anos, por razões diversas, temos produzido muita informação – nacional, regional, local, empresarial e sectorial -, embora a mesma nem sempre se tenha revelado fiável, na maior parte das vezes por não estar formatada segundo idênticos critérios ou matrizes, originando leituras distintas e até, em muitos casos, erróneas.

Com a implementação da Conta Satélite do Turismo (CST), há cerca de uma dúzia de anos (lamentavelmente descontinuada no início da presente década e retomada – ao que tudo indica – a partir do corrente ano), acreditávamos que se estavam a dar os primeiros passos quer para inverter esta situação, quer para erradicar a tendência generalizada dos diferentes agentes turísticos em avaliarem a “olhómetro” (para usar uma expressão muito “nossa”), a evolução da actividade, dos negócios, dos mercados ou dos investimentos.

É claro – e óbvio – que a CST não era (nem será!) a panaceia de informação, saber e conhecimento, de tudo o que se passa no turismo. Por isso, necessitaria sempre de ser complementada, com análises mais finas e mais detalhadas. E é justamente aqui que se integra esta nova plataforma de “business intelligence” agora apresentada pelo Turismo de Portugal.

O “Travel BI”, que vivamente aconselhamos os nossos leitores a visitarem, tem potencial para se tornar um instrumento indispensável de consulta para todos quantos trabalham e acompanham a evolução da actividade turística, independentemente da sua origem ou objecto ser público, privado ou académico. Esta ferramenta tem tudo para se tornar num permanente e verdadeiro “Observatório do Turismo” (recordando aqui o nome de um projecto semelhante do início do milénio que, infelizmente, não frutificou), com a vantagem de actualmente ter à sua disposição tecnologia inexistente há década e meia.

Num Mundo cada vez mais dependente de informação fidedigna e instantânea, onde o turismo é a actividade económica líder e, por isso, altamente complexa, é fulcral que conheçamos em profundidade o que se passa nas nossas regiões, nos sectores que integram a constelação turística, nas principais fontes de emissão dos fluxos turísticos que recebemos e, ainda, que possamos conhecer melhor e entender o comportamento daqueles que nos visitam.

Para terminar, e tendo em consideração que o turismo é uma actividade económica eminentemente privada foi, ao contrário do sucedido no passado, com alguma surpresa que constatámos a ausência de envolvimento directo do tecido empresarial (mormente do movimento associativo) neste projecto que – se devidamente alimentado e estimulado – poderá vir a revelar-se tão importante para a vida e para a gestão das empresas.

Agora que a plataforma já se encontra em funcionamento, estamos certos que tal lacuna será rapidamente preenchida, porque com isso todos sairão (sairemos) a ganhar.

 

 Turisver.com – O Primeiro-Ministro e vários elementos do Governo, entre os quais a Secretária de Estado do Turismo, estiveram nos Açores, onde foi anunciado um plano de revitalização económica da ilha Terceira que inclui o financiamento, por via do “Fundo do Turismo”, de várias acções para dinamizar e promover a Terceira, bem como a criação de duas novas rotas lowcost à partida de Lisboa e do Porto. Como encara estas medidas?

 

 Atilio Forte – Já por várias vezes aqui havíamos chamado a atenção que a liberalização do transporte aéreo para os Açores (leia-se São Miguel/Ponta Delgada) era o impulso necessário para que o Arquipélago se afirmasse do ponto de vista turístico e, assim, crescesse economicamente. Contudo, também tínhamos deixado um aviso para a necessidade de abrir outras portas de entrada naquela Região Autónoma, para evitar assimetrias ao nível do seu desenvolvimento, tanto económico como social.

Paralelamente, o progressivo “afastamento” – para não dizer retirada – dos americanos da base aérea das Lajes, que durante muitos anos funcionou como sustentáculo económico (e social) da ilha Terceira/Angra do Heroísmo, veio potenciar o acentuar dessa clivagem e clamar por medidas alternativas urgentes.

Em face de tudo isto, e tendo em consideração os excelentes resultados que o desenvolvimento turístico tem trazido aos Açores, natural e logicamente todos os olhares se voltaram para o turismo – como sempre acontece quando há necessidade de atrair investimento, criar riqueza, emprego, coesão territorial e social.

Embora ainda não sejam conhecidas em detalhe as medidas do planode revitalização da ilha Terceira, anunciado no último fim-de-semana, as mesmas terão aactividade no seu epicentro, privilegiando a captação de investimento para melhorar a oferta existente, a promoção turística e as acessibilidades.

Neste último aspecto, ao que parece, estarão contempladas quer a certificação da Base das Lajes para finalidades civis, quer a abertura de duas novas rotas aéreas – Porto/Terceira e Lisboa/Terceira -, ambas a serem operadas por companhias “low cost”.

À partida parecem-nos, na generalidade, medidas acertadas e, sobretudo, atempadas, caso venham a ser implementadas nos próximos meses.

Contudo, se olhadas mais em detalhe, convirá que os respectivos Governos – da República e Regional – esclareçam rapidamente quais as condições que irão atribuir aos candidatos à exploração destas duas novas rotas aéreas pois, não é demais recordar que, no ano passado, quer a easyJet, quer a Ryanair, já tinham demonstrado interesse em voar para a Terceira tendo, na altura, visto as suas pretensões recusadas. Concretamente no caso da easyJet chegou a referir-se que as contrapartidas financeiras exigidas – durante três anos – eram incomportáveis.

Para além disso, haverá que considerar por um lado, a situação tanto da TAP, como da SATA, ambas detentoras de capital público e, por outro lado, as obrigações decorrentes seja das leis da concorrência, seja da legislação comunitária que, como se sabe, impedem a concessão de apoios (ou financiamento) directos às transportadoras aéreas por parte dos Estados.

Mas, em nossa opinião, aquilo que mais importa salvaguardar é se com tudo isto os Açores, enquanto destino turístico, não ficarão mais vulneráveis do que nunca? É que à dependência de São Miguel das “low cost”, pode agora vir a somar-se a da Terceira… E mesmo que tal seja acautelado, uma “explosão” do número de turistas e necessariamente da oferta, não poderá pôr em causa a sustentabilidade da Região? Afinal, os Açores assumem-se como “certificados pela natureza”…

Os nossos leitores sabem bem que sempre defendemos o crescimento e o desenvolvimento turísticos sustentados (económica e socialmente) e sustentáveis (territorial e ambientalmente), razão porque aqui deixamos estes pequenos alertas, acompanhados da crença e do optimismo que os Açores, tal como até aqui, continuarão a manter o equilíbrio, a sabedoria e a inteligência que lhes têm permitido virem-se a afirmar no panorama turístico nacional e internacional.

 

 O + da Semana:

Como é sabido, o maior evento de empreendedorismo, inovação e tecnologia da Europa – “Web Summit” – vai realizar-se, entre 8 e 10 de Novembro próximos, em Lisboa (na primeira vez que acontece fora de Dublin), sendo um acontecimento privilegiado quer para a atracção de investimento directo estrangeiro, quer para as “sart ups” portuguesas. A cerca de 6 meses de distância todos os indicadores apontam para o seu sucesso, nomeadamente o facto de já contar com cerca de 27.000 (!) participantes inscritos, provenientes de 149 países (no ano transacto, por esta mesma altura, tinham-se inscrito 1.317 pessoas, de 19 países), nalguns casos representando “gigantes” da economia mundial como a Coca-Cola, a Ogilvy, a Cisco, a American Express, a Amazon ou a Red Bull, para além de inúmeros fundos de capital de risco. O investimento de 1,3 milhões de euros, efectuado pelo Turismo de Lisboa, pelo Turismo de Portugal e pela AICEP, para acolher este evento durante três anos (cujo contrato assinado prevê a sua extensão por mais dois), mais do que justificar-se, começa a revelar-se como um dos que, do ponto de vista turístico, maiores e melhores repercussões e retorno poderá ter tanto para Lisboa, como para Portugal.