iTurismo: No News, Good News(?), por Atilio Forte

A situação de “não assunto” por que passa o turismo nacional e as alterações climáticas são os temas do Comentário do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe para “Tópicos da Semana” as balizas geracionais definidas para os turistas, as melhores localizações para boutique hotéis e as reservas de última hora. Já “O + da Semana” versa sobre os resultados do último “Barómetro de Turismo” do IPDT.

 

Tópicos da Semana:

  • Estudo europeu define “balizas” geracionais dos turistas: Um estudo encomendado pela Expedia Media Solutions e realizado pela Northstar Research Partners revela os motivos e os comportamentos multigeracionais dos turistas britânicos, franceses e alemães, enquanto procuram, planeiam e reservam viagens online. Das suas conclusões ressalta que os “Baby Boomers” são os que fazem viagens mais longas; a geração “X” é a mais apegada à família; os “Millennials/Y” são os que viajam mais; e, a geração “Z” é a mais indecisa na escolha e, por isso, permeável e influenciável pela publicidade, sendo também a que mais confia e depende da tecnologia, sobretudo da móvel.

 

  • Se pensa abrir um hotel boutique considere este aspecto: De acordo com a maioria dos especialistas, as cidades de cariz universitário são excelentes para localizar este tipo de hotéis, já que é nelas que eles mais prosperam, quer devido ao elevado índice de viajantes que recebem, quer pela variedade dos seus potenciais hóspedes, o que as torna em mercados extremamente estáveis e previsíveis e, consequentemente, de crescimento sustentado, dada a consistência dos fluxos turísticos que acolhem.

 

  • Reservas de última hora: Um pouco por toda a parte estamos a assistir a uma autêntica explosão das reservas de última hora, em grande parte devida ao crescendo de ferramentas tecnológicas ao dispor dos consumidores, o que obriga os agentes turísticos a estarem muito mais atentos e constantemente a “afinarem” as suas estratégias de gestão da receita, já que sabem que “o cliente”, através dos seus dispositivos móveis (“smartphones”, “tablets”, “desktops”, etc.), facilmente consegue visualizar as disponibilidades existentes, diminuindo drasticamente o tempo de planeamento das viagens.

 

Comentário

Turisver.com – O turismo está em alta há meses e meses consecutivos, o que tem levado a que não se questionem algumas situações que podem ser comprometedoras para o futuro desta actividade económica. No seu entender estamos a atravessar uma época de “não assunto” em relação às posições de várias entidades com responsabilidades nesta área?

Atilio Forte – Embora o possa parecer esta não é uma pergunta de fácil resposta, atenta a complexidade das variáveis que encerra. Apesar deste “pano de fundo” tentaremos ser objectivos e, ainda que de forma sintética, expressar a nossa opinião, pondo a tónica no que se passa em Portugal.

A título introdutório começamos por recordar que, ao longo da última década, testemunhámos alguns factos que, tanto do ponto de vista externo, como interno, alteraram o Mundo em que vivemos e, consequentemente, tiveram múltiplos impactos nas nossas vidas, com naturais repercussões quer no nosso comportamento enquanto consumidores, quer na sociedade em geral. E, obviamente, tal reflectiu-se na mais humana e humanizada de todas as actividades económicas: o Turismo.

Para não sermos exaustivos, a nível internacional basta referirmos: a crise económica mundial que eclodiu no Verão de 2008 e que abalou (e ainda abala) o sistema financeiro global; ou os acontecimentos subsequentes à “Primavera Árabe” que trouxeram a escalada do “terrorismo do século XXI” que, queira-se ou não, fez com que a insegurança aumentasse fruto da aleatoriedade dos alvos e da diversidade dos meios usados. Apesar de totalmente distintas, tanto uma situação como a outra “mexeram” com a actividade turística, principalmente na Europa e na América do Norte, como se sabe.

No plano nacional a crise económica veio agudizar as nossas debilidades estruturais, o que provocou com que Portugal tivesse de socorrer-se de ajuda externa e, com ela, veio a “troika”, o desemprego, o brutal aumento da carga fiscal, a estagnação da economia, as falências, a perda de poder de compra, a emigração, etc.. No fundo, e tendo em consideração as duas conjunturas (internacional e nacional) demos por nós no meio de uma “tempestade” quase perfeita. Naturalmente, que o turismo e todo o seu tecido empresarial não passaram “ao lado” destas adversidades e, à semelhança do que aconteceu no demais país, também sofreram com elas.

Com esta contextualização pretendemos contrariar alguns juízos mais apressados que possam ser feitos acerca da eventual “inacção”, por ausência de “agenda” ou propostas dos agentes turísticos nacionais, face aos bons resultados que a actividade tem vindo a alcançar em Portugal, sobretudo de 2013 em diante.

Se é verdade que o turismo português, apesar de todas as dificuldades (crise económica), demonstrou a sua resiliência, em muitos aspectos teve a capacidade de se reinventar e de inovar, e tem vindo a beneficiar da evolução da situação internacional – mormente dos atentados terroristas que têm acontecido em muitos destinos nossos concorrentes –, não menos verdade é que a devastação provocada pelo passado recente ainda se faz sentir, o que leva que (principalmente) as empresas estejam/continuem a “lamber as suas feridas” e, por isso, legitimamente concentradas em reconstruir a sua situação económico-financeira, em estabilizarem e consolidarem as suas operações e, na medida do possível, em investirem para tirarem o máximo e mais rápido partido do presente crescimento.

Em suma, depois da “tempestade” veio a “bonança” e com ela a acalmia.

Todavia, isso não pode nem deve motivar que os diferentes agentes turísticos se deixem “embalar” por este estado de coisas, já que se o fizerem arriscam-se a cair nalguma indolência que, inevitavelmente, os conduzirá à letargia. Letargia essa que traduzir-se-á sempre no depositar do futuro da actividade nas mãos de terceiros.

E, se atentarmos bem e exceptuarmos algumas situações pontuais e extremamente concretas como, por exemplo, a do IVA na restauração, já no período “pré-crise” (2008) existiam sinais claros que indiciavam o esmorecer da pro-actividade tão característica dos diversos agentes turísticos, em prol de uma postura mais reactiva.

Ora, adicionando este aspecto aos acontecimentos que atrás referimos, tal motivou que actualmente a “agenda” da actividade não seja “marcada ou definida” por todos quantos fazem dela profissão e único modo vida, nela empregando e empenhando o seu esforço e trabalho diários e, por essa razão, identificam e conhecem os seus problemas e constrangimentos melhor do que ninguém e, também por isso, têm a capacidade e a obrigação de apontarem os melhores caminhos e soluções para que ela possa prosperar.

E é nos momentos em que tudo está ou corre bem, como acontece agora, que uma de duas coisas sucede: ou relaxamos porque tudo vai pelo melhor e inexoravelmente o erro vai aparecer ou ser cometido, nem que seja por omissão/demissão; ou é-se exigente (no bom sentido do termo) e tira-se partido dos “ventos favoráveis”, que também são portadores da serenidade necessária para a tomada das grandes decisões, e aproveita-se para redefinir estratégias, fazer reformas profundas, consolidar posições, acautelar eventuais “novas tempestades”, lançar as bases de um melhor futuro.

Como somos dos que sempre acreditaram nas fantásticas qualidades e capacidades de todos quantos, dia após dia, dedicam-se à actividade turística, temos a inabalável convicção que a aparente “acalmia” por que a actividade passa, mais não prenuncia do que uma “tempestade” de querer fazer mais, melhor e diferente pelo turismo nacional. Até porque sabem que, caso não o façam, outros fá-lo-ão por eles!

 

Turisver.com – O clima está a mudar para pior a um ritmo acelerado, e no iTurismo já se fez eco disso. Na sua perspectiva as alterações climáticas podem ter influência negativa no crescimento do turismo a curto prazo?

Atilio Forte – Uma das maiores “conquistas” da humanidade nas últimas décadas foi, sem dúvida, a consciencialização da importância e da necessidade de defender e preservar o meio ambiente, a biodiversidade, a sustentabilidade ecológica e territorial da nossa “casa comum”, o Planeta Terra.

A Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Rio de Janeiro, Brasil, 1992), o Protocolo de Quioto (Japão, 1997) ou o Acordo de Paris (França, 2015) são exemplos emblemáticos dos progressos efectuados, não obstante as reservas que foram ao longo do tempo encontrando, como acontece na actualidade com a recente posição da Administração Trump relativamente ao texto aprovado em 2015.

Conforme já aqui referimos noutros comentários, caso não exista uma determinada e rápida inversão nas questões relacionadas, entre tantas outras, com o aquecimento global, com a extinção de (mais) espécies de animais e de plantas ou com a sobre exploração dos solos, não será apenas o crescimento da actividade turística que estará em causa, mas o próprio turismo e, incomensuravelmente mais grave, a vida na Terra, pelo menos da forma como a conhecemos.

Claro está que, faça-se o que se fizer (perdoem-nos o pleonasmo), nada disto acontecerá ou mudará “já amanhã”, pelo que, no curto prazo – próxima década – tudo estará, incluindo o turismo, genericamente salvaguardado. Só que o Planeta estará mais “desgastado”…

Não obstante o que acabamos de afirmar, hoje em dia é notório que este ganhar de consciência para as questões ambientais, manifesta-se no comportamento dos turistas, já que é um factor com peso crescente na decisão ou na escolha do seu destino de férias.

Por exemplo, ver Pequim coberta de neblina devido à poluição atmosférica ou viajar até à Grande Barreira de Coral australiana e depararmo-nos com partes já extintas, quer devido ao aquecimento anormal das águas, quer à poluição marítima, não são propriamente “paisagens” apelativas. Ao invés, e como temos acompanhado de muito perto, viajar até aos Açores e ter a possibilidade de estar em contacto com a natureza quase em estado puro, torna-se deveras aliciante.

Assim, e em jeito de conclusão, apesar da sintomatologia presente que já evidencia sinais que a todos nos devem preocupar, o maior problema que enfrentamos é a “pesada herança” que deixaremos às gerações vindouras, caso não sejamos determinados na acção e persistamos em pouco ou nada fazer!

 

O + da Semana:

O IPDT – Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo lançou recentemente mais uma edição do seu “Barómetro do Turismo”, cujos resultados decorrem da participação – através da resposta a um questionário – de alguns dos principais profissionais e líderes de empresas e instituições do turismo nacional. Das suas conclusões há duas que merecem particular realce: a primeira, respeitante à dinâmica revelada pelo mercado interno, onde 75% dos inquiridos entende que o Verão de 2017 será melhor que o do ano transacto em todos os indicadores (dormidas, receitas e número de turistas); e, a segunda, relativa aos mercados externos, com 90% (!) dos questionados a afirmarem que a próxima “época alta” superará os resultados obtidos em idêntico período de 2016, seja em dormidas, seja em receitas, seja ainda em número de turistas. Estes dados – que confirmam o que há largos meses aqui havíamos adiantado – sublinham o crescente contributo e importância estratégica que a actividade turística vem assumindo na economia nacional. No entanto, o aspecto mais essencial deste Barómetro, e que quanto a nós merece particular destaque, é o que traduz o índice de confiança médio no desempenho do turismo nacional, o qual atingiu no passado mês de Maio o seu valor histórico mais elevado com 84,3 pontos (recorde-se que o “Barómetro do Turismo” foi lançado em 2006) pois, por um lado, confirma as excelentes perspectivas futuras da actividade no nosso país e, por outro lado, traduz o entusiasmo e a motivação com que a evolução do turismo é vista por parte significativa dos seus principais protagonistas.

 

Nota da Redacção: Em virtude do próximo dia 15 de Junho ser feriado (Corpo de Deus) e de modo a não prejudicarmos os nossos leitores, informamos que o “iTurismo” será publicado no dia 14, em formato ligeiramente reduzido.