iTurismo: A Nova TAP de Sempre, por Atilio Forte

A nova realidade que é a “procura móvel”, o peso do turismo interno no Continente Africano e as portas de chuveiro digitais já em teste na Marriott, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” as recentes Jornadas AHRESP sobre o mercado de trabalho. No habitual “Comentário” os temas em análise são o novo ciclo na TAP e o Alojamento Local.

 

Tópicos da Semana:

  • A ter em conta pelas empresas do turismo: O Google anunciou recentemente que 2018 vai ser o ano em que dará prioridade à “procura móvel”, motivo por que muitos especialistas alertaram de imediato para a importância das empresas do turismo rapidamente adaptarem-se a esta nova realidade. Para tal aconselharam-nas a: certificarem-se que o seu “site” carrega depressa; optimizarem os conteúdos do mesmo; confirmarem se a versão móvel do “site” é “amiga do utilizador” (por exemplo se pode ser manuseada apenas com os dedos de uma mão); associarem os seus nomes e actividades, à localização e a outros elementos que possibilitem serem mais facilmente “encontradas”; e, assegurarem-se que têm “sites” ágeis na identificação e adaptação ao tipo de equipamento detido por quem faz a busca (ou seja, computadores portáteis, “smartphones”, “tablets”, etc.).

 

  • Africanos determinantes no crescimento turístico do Continente: Hoje em dia o aumento do turismo em África, principalmente na Região Subsariana, reflecte sobretudo o crescimento da procura nos segmentos médios, uma vez que o tradicional mercado de luxo revela alguma estagnação devido ao excesso de oferta. Tal situação prende-se com a melhoria económica global do Continente e com o consequente robustecimento da classe média que dela está a resultar, factores que, naturalmente, têm tradução na intensificação das viagens, sejam de negócios ou de lazer.

 

  • Marriott testa portas de chuveiro digitais: Em virtude de quem viaja em negócios dizer que as suas melhores ideias ocorrem-lhe quanto está no duche, esta cadeia hoteleira decidiu começar a testar portas de chuveiro digitais que gravem automaticamente desenhos e apontamentos, de modo a que os seus clientes preservem as boas ideias que possam ter enquanto tomam banho.

 

Comentário

 

Turisver.com – A saída de Fernando Pinto de CEO da TAP é considerada como um fim de ciclo. Na sua opinião as mudanças estratégicas que estão a ser levadas a cabo na companhia, poderão levar a uma perda de identidade com o seu passado recente?

Atilio Forte – Antes de respondermos directamente à pergunta colocada, sentimo-nos na obrigação de aqui registar algumas notas prévias.

A primeira, e porventura a mais importante, para dizermos que nos encontramos entre aqueles que tiveram o privilégio de acompanhar a chegada à TAP da equipa de gestão liderada por Fernando Pinto – que já conhecíamos dos tempos em que presidiu à VARIG –, tendo testemunhado o trabalho que desenvolveram ao longo destas quase duas décadas e do contributo ímpar que deram tanto para a sobrevivência da companhia, como para lhe dar um propósito num dos sectores mais competitivos da economia mundial como, ainda, como tal foi decisivo para o desenvolvimento do turismo nacional.

Em seguida, para referir que, no pós 25 de Abril, esta foi a primeira vez que a TAP teve uma equipa de gestão não apenas profissional, como profundamente conhecedora dos “meandros” da aviação comercial e, por essa razão, os resultados não se fizeram esperar e são, hoje, reconhecidos (e elogiados) por quase todos. Seria, por isso, de grande injustiça que aqui também não recordássemos Jorge Coelho, afinal o grande responsável por esta decisão – sem precedentes na gestão de empresas públicas na nossa democracia – tomada aquando da sua passagem pelo XIV Governo Constitucional, com o cargo de Ministro do Equipamento Social.

Finalmente, para garantirmos aos nossos leitores que a admiração e os elogios que aqui deixamos, nada têm a ver com uma amizade construída ao longo de anos, mas tão só com o mérito pelo trabalho desenvolvido por uma equipa que ficará para a história da TAP (e do turismo português) sempre conhecida como “os brasileiros”, a que nos atrevemos acrescentar “… mais portugueses de todos”! E fazemo-lo não pelas raízes que alguns deles (como tantos outros) têm em Portugal, mas pelo profissionalismo, competência e convicção com que sempre defenderam os superiores interesses nacionais – para além, obviamente, dos da própria TAP.

Quanto à pergunta que nos é colocada, vale a pena recordar que o ciclo nela mencionado, embora só agora formalmente se encerre, já tinha tido o seu verdadeiro epílogo em 2015, quando a companhia foi privatizada, como na altura tivemos oportunidade de aqui analisar.

Desde então, com uma ou outra vicissitude, começou a desenhar-se um (o) novo futuro para TAP, mais de acordo com as necessidades e desafios da aviação comercial dos tempos actuais.

A título de exemplo recordamos o início da renovação e ampliação da sua frota, a abertura (ou reabertura) de novas rotas para mercados importantes ou de elevado potencial, nomeadamente turístico, e o encerramento de outras, o reforço da “base” (vulgo “hub”) de Lisboa como plataforma giratória do tráfego de passageiros da empresa e a consequente criação de uma ponte aérea entre Lisboa e o Porto ou, para não nos alongarmos em demasia, a divisão dos voos em várias subclasses, com preços e serviços diferenciados, de modo a adquirir uma maior competitividade junto dos vários segmentos de potenciais clientes e responder ao crescente ganho de quota de mercado que as companhias de baixo custo vinham registando.

Paralelamente, e decorrente da sua nova estrutura accionista, começaram paulatina e suavemente a ser introduzidas algumas mudanças nos quadros da companhia, num processo que culminará na Assembleia-Geral de 31 de Janeiro de 2018, do qual o assegurar da continuidade de Fernando Pinto, na qualidade de assessor, durante o próximo biénio, é a ilustração mais paradigmática.

Aliás, como que validando as decisões tomadas nos últimos dois anos estão os resultados de 2017, que a empresa anunciou recentemente, entre os quais merecem relevo os 21,7% de crescimento no número de passageiros face ao ano anterior, bem como o aumento da taxa de ocupação dos lugares disponibilizados nos seus aviões em 4,3%, que conduziu a uma ocupação total de 82,9% em idêntico período.

Por tudo o que acabámos de expor, acreditamos ter demonstrado que a TAP está perfeitamente identificada consigo mesma e com o mercado e, por isso, caso nada de muito anormal suceda, totalmente preparada para fazer face aos desafios que continuadamente irão colocar-se-lhe e, dessa forma, prosseguir com o seu insubstituível papel de empresa estratégica para o desenvolvimento do turismo e da economia nacional.

 

Turisver.com – Há meses que o Alojamento Local promove reportagens e artigos de opinião nos jornais. Agora, e pela segunda vez num curto espaço de tempo, aparecem na Assembleia da República várias propostas legislativas e a “trapalhada” é tanta que ninguém sabe como poderá acabar. Na sua perspectiva e tendo em conta os investimentos já feitos, esta é uma matéria que deveria ser tratada com alguma prudência?

Atilio Forte – Quando durante a vigência do XIX Governo Constitucional – no final de 2014 – entrou em vigor a primeira legislação sobre Alojamento Local, tivemos oportunidade de aqui destacar duas situações que, a nosso ver e com o tempo, iriam ditar o sucesso ou insucesso do legislador:

Desde logo, como é que os registos iriam processar-se e qual a adesão que teriam por parte dos proprietários, pois tal seria determinante para, por um lado, retirar do chamado “mercado paralelo ou informal” um vasto conjunto de imóveis cujo rendimento, entre outros aspectos, passaria a ser tributado e, por outro lado, quais as implicações que esta “nova oportunidade de negócio” provocaria na reabilitação urbana e na vivificação de zonas importantes das cidades e, num ou noutro caso, do território.

De outra parte, como é que todo um conjunto de obrigações e boas práticas associadas aos demais tipos de alojamento, nomeadamente os hotéis, seriam implementadas neste subsector. Destacavam-se a identificação dos clientes e respectiva comunicação ao SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, as questões ligadas às garantias de segurança dos hóspedes e dos imóveis, os seguros de responsabilidade civil, a protecção dos consumidores, os impactos diversos que tal poderia gerar tanto nos prédios com habitantes permanentes, como nas zonas envolventes, entre muitos outros aspectos.

Se é verdade que a adesão/inscrição dos imóveis no RNAL – Registo Nacional do Alojamento Local veio (e continua) a revelar-se um êxito, ao invés, o aumento em flecha do número de fracções dedicadas a este tipo de alojamento, indissociável do forte crescimento da actividade turística no país (principalmente nas suas duas maiores cidades – Lisboa e Porto), pôs “a nu” algumas das deficiências e falta de respostas do processo legislativo.

Confrontado com este estado de coisas, às quais acresce o descontentamento das populações, particularmente das residentes em zonas históricas – as mais procuradas pelos clientes do Alojamento Local –, o “poder político”, em ano de Eleições Autárquicas, decidiu colocar o assunto na sua agenda.

Chegamos assim ao processo actualmente em curso, onde quase todos os Partidos Políticos apresentaram as suas propostas, sendo que foi impossível haver consenso num primeiro debate, razão por que todas baixaram à Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas, para a respectiva apreciação na especialidade e, eventualmente, a obtenção de um desejável entendimento.

Lamentavelmente esta é mais uma das situações em que uma matéria turística é analisada sem que, previamente, tenha sido feito qualquer esforço para tecnicamente compreender o que está verdadeiramente em causa, daí resultando argumentos descabidos – como o de remeter o poder de decisão para as assembleias de condóminos, com todas as deficiências de funcionamento que as mesmas já têm e sem esclarecer o que fazer às unidades entretanto inscritas no RNAL que, em muitos casos, foram objecto de investimento por parte dos seus proprietários, seja na sua remodelação, seja na beneficiação das zonas comuns dos prédios seja, ainda, na reabilitação total dos mesmos – ou motivando com que a troca de fundamentos situe-se numa perspectiva quase maniqueísta, entre os que estão a favor ou contra a iniciativa privada.

O facto é que a confusão está instalada, tanto entre os próprios Partidos Políticos, como entre os proprietários de Alojamento Local, como nas demais áreas que integram o sector (do alojamento), nomeadamente a hotelaria como, também, na insegurança que tal acarreta para quem trabalha ou obtém rendimento deste negócio.

Espera-se pois que o debate na especialidade aproveite para clarificar esta temática, que os seus intervenientes preparem-se bem, tanto a nível técnico, como informando-se das soluções encontradas noutros países, mormente dentro da União Europeia, que não se diabolize a actividade turística, nem se assuma que a actual legislação é perfeita, que se estabeleçam regras claras, equilibradas e duradouras, prevenindo a evasão fiscal, o arrendamento informal e, simultaneamente, estimuladoras do aluguer habitacional, da atenuação da sazonalidade e da vivificação das zonas históricas e de veraneio, sendo por isso fundamental que se perceba que o território nacional não pode ser tratado de forma homogénea, motivo pelo qual as Autarquias terão de ter maiores responsabilidades nestes processos (já que o Estado – nas diferentes formas que a sua representação assume – não deve abdicar da sua posição quer de Regulador/Fiscalizador, quer da protecção ao consumidor) e, sobretudo, que se tenha presença de espírito para reflectir no tipo de destino turístico em que pretendemos tornar-nos.

Dito isto, resta-nos aguardar e acreditar que o bom senso e o interesse nacional prevaleçam!

 

O + da Semana:

No passado dia 9 a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal realizou mais uma edição das “Jornadas AHRESP”, desta feita dedicadas ao mais do que actual e oportuno tema “A Evolução do Mercado de Trabalho”, reunindo um excelente naipe de oradores que apresentaram, perante uma plateia muito qualificada, a sua visão sobre várias questões, constrangimentos e desafios com que a actividade turística está confrontada. Das suas conclusões, que vivamente, recomendamos a leitura, destacamos: a elaboração de um “Livro Verde do Mercado de Trabalho HORECA” (hotéis, restaurantes e cafés), que identifique as carências existentes ao nível dos recursos humanos, quer quantitativas, quer das suas qualificações; a criação de uma rede específica para a actividade de oferta e procura de emprego e formação, através dos Centros de Emprego do IEFP – Instituto do Emprego e Formação Profissional; uma maior integração das estratégias de educação e formação vocacional com as reais necessidades do mercado de trabalho; e, para não sermos exaustivos, um vasto conjunto de propostas jurídico-legais visando a melhoria e uma maior agilização das relações laborais, entre empregadores e trabalhadores. Tudo isto tendo como pano de fundo a presente carência de mão-de-obra que a actividade turística denota, a necessidade de tornar mais atractivas, de mais fácil acesso e mais valorizadas as profissões turísticas e, por último mas não menos importante, a total disponibilidade do tecido empresarial dos sectores representados pela AHRESP para aumentar salários.