iTurismo: Novas Dinâmicas, Novos Negócios, por Atilio Forte

As despesas da hotelaria com a distribuição e a sobrecarga de turistas em algumas regiões do país são assuntos comentados por Atilio Forte no iTurismo desta semana, enquanto “O + da Semana” tem como tema a criação de novos atractivos turísticos em Las Vegas, para além do jogo. Nos “Tópicos da Semana as atenções vão para o potencial das redes sociais, a diferenciação na hotelaria, bem como a liderança da Arábia Saudita no que toma a novos projectos hoteleiros.

 

Tópicos da Semana:

  •  O potencial das redes sociais: Tudo o que se passa no “mundo” das redes sociais adquire uma crescente importância enquanto ferramenta cada vez mais eficaz para a gestão do negócio das empresas turísticas, especialmente porque elas são um meio que progressivamente vem disponibilizando maior volume de informação útil acerca das reacções dos consumidores (clientes) aos diferentes produtos e serviços, bem como podem tornar-se (para alguns já são) num factor de ligação entre a oferta e a procura e, por esse motivo, veículo preferencial na criação (e construção) de uma relação pessoal entre quem vende e quem compra.

 

  • Quer que o seu hotel sobressaia no meio da “multidão”?: Se esse é o seu desejo, convirá que tenha em atenção alguns aspectos que podem tornar-se em verdadeiros “selos” que o distingam dos demais. Assim, a tecnologia, a autenticidade, a atenção ao pormenor, a personalização e a capacidade de surpreender os (seus) hóspedes com “toques pessoais” são aspectos que podem transformar-se em “marcas distintivas” (e alvo de reconhecimento) de qualquer unidade, face à concorrência.

 

  • Arábia Saudita lidera na construção de novos hotéis: Do ponto de vista turístico, o Reino da Arábia Saudita já não é apenas o país onde se localiza o lugar mais sagrado do islamismo e seu principal centro de peregrinação (Meca). Presentemente é, também, o sítio do Médio Oriente e Norte de África com maior número de quartos hoteleiros em construção (36.742). A seguir, e a alguma distância, vêm os Emirados Árabes Unidos com (apenas!?) 28.898 quartos.

 

Comentário:

 Turisver – O crescimento do turismo a nível mundial potenciou grandes empresas de venda de alojamento. No caso dos grandes grupos hoteleiros as despesas com a “distribuição” já são caras. Por outro lado, estas empresas online possibilitam a entrada de pequenos hotéis  nas plataformas de venda, gerando maior concorrência. Na sua perspectiva, esta evolução é positiva para o negócio turístico?

 

Atilio FortePara melhor enquadramos a nossa resposta convirá que comecemos por dar duas notas prévias:

A primeira para sublinharmos que o turismo é uma actividade económica eminentemente privada e, por essa razão, o seu potencial criador de riqueza progride na mesma proporção que aparecem novas ideias, soluções e oportunidades de negócio que, à escala global, aproximam quem detém o produto de quem o consome.

A segunda para referirmos que o advento da internet – nos finais do século passado – e o impressionante domínio que rapidamente conquistou do nosso quotidiano, provocou uma gigantesca (r)evolução no modo como os negócios turísticos passaram a desenvolver-se, invertendo o paradigma que até então se verificava, no qual a “Oferta dominava a Procura”, o que motivou que esta última (a “Procura”), ou seja os consumidores, tomasse “as rédeas” do mercado, isto é da “Oferta”, pois quem pretendia comprar passou a ter na ponta dos seus dedos (à distância de um clique) todas as opções disponíveis para a satisfação das suas necessidades.

É por isto que hoje em dia vivemos no tempo que comummente se designa por “Novo Turismo”, no qual o turista/consumidor tem a primazia, dado ser ele quem decide o que comprar e onde e como o fazer.

Naturalmente, que os impactos que daqui decorreram foram (e são) múltiplos, mais a mais, porque a tecnologia mantém uma taxa de progressão e de desenvolvimento quase exponencial que faz com que a cada momento novas e melhores soluções surjam e com elas também novas possibilidades de negócio apareçam.

No fundo, as operações turísticas alteraram-se, a começar pela mais importante “a compra e venda”, sendo que todas as empresas passaram, em teoria, a ter as mesmas possibilidades de chegarem à totalidade dos seus potenciais clientes. Contudo, na prática, o que temos vindo a assistir é que quem melhor lida e compreende o “factor” tecnologia, mais perto fica do êxito. E quando o consegue fazer sabendo, por um lado, posicionar-se e destacar-se no seio da internet (para ser facilmente encontrado) e, por outro lado, oferecer ferramentas que facilitem a procura/pesquisa ao consumidor,tem o sucesso praticamente garantido.

Portanto, não foi surpreendente que tenham surgido inúmeras empresas “tecnológico-turísticas” com estas valências, muitas das quais tiveram êxito quase instantâneo, “arrastando” consigo grande parte do tecido empresarial do turismo que, por inúmeras razões, não conseguiu compreender com a mesma rapidez todos estes fenómenos, acabando por ficar refém de quem conseguia “ser escolhido” pelos consumidores, já que essa era (e em muitos casos ainda é) a via pela qual as reservas/vendas se materializam e, ainda por cima, tendo de pagar, na generalidade dos casos, comissões (elevadas) a quem lhe servia de veículo para fazer chegar o seu produto ao mercado.

Mas, como bem se sabe, a actividade turística é extremamente dinâmica e, aos poucos, tem vindo a adaptar-se – sobretudo ao nível das empresas de maior dimensão que, simultaneamente, (foram) são as que têm maior capacidade de investimento – e desse modo a contrariar esta aparente dependência, procurando recuperar não apenas o “controlo” dos “seus” clientes, como diminuir os custos de distribuição do “seu” produto como, ainda, garantir a fidelização do“seu”público-alvo.

Não devemos pois estranhar que, principalmente as grandes cadeias hoteleiras, já comecem a dispor (e a dominar) de soluções “dentro de casa”, que lhes permitem marcar uma presença mais efectiva no “mundo do digital” e, desse modo, chegarem eficazmente aos consumidores dos seus produtos e serviços, procurando ir mais longe sempre que possível, ou seja, oferecendo preços mais competitivos e/ou vantagens adicionais a quem repetidamente lhes passar a adquirir directamente o seu produto e a ele se mantiver fiel.

Aparentemente tal poderia representar um rude golpe para as grandes plataformas electrónicas de distribuição de produtos e serviços turísticos, uma vez que estariam na contingência de ficar sem alguns dos principais “alimentadores” do seu negócio, seja pela diminuição do produto que teriam para disponibilizar, seja pela perda de receita que isso lhes provocaria.

Só que a actividade turística é global, embora nem todas as suas empresas o sejam…

Assim sendo, e ao verem-se confrontados com esta situação, os grandes distribuidores de produto turístico via digital, têm vindo a concentrar a sua actuação junto de empresas mais pequenas, nomeadamente hotéis, tirando partido da sua presença, conhecimento e posicionamento na internet, conseguindo que estes – mesmo pagando-lhes comissões mais elevadas do que as grandes cadeias – fiquem expostos a um mercado mais alargado, logo ampliando as suas possibilidades de aumento da receita, por um custo que, queira-se ou não, conseguem acomodar.

É por esta razão que, enquanto consumidores, cada vez mais temos acesso a um sem número de pequenas cadeias hoteleiras, hotéis boutique ou unidades extremamente personalizadas para determinado mercado, segmento ou grupo específico de clientes.

Concluindo, e respondendo directamente à questão se esta evolução é positiva para o turismo, para nós é claro que, seja qual for o meio escolhido (próprio ou de terceiros) ou a dimensão de cada empresa, o “estar online” é crítico para se ter sucesso, sendo esse o fundamento pelo qual nos atrevemos a afirmar que esta é a essência do negócio turístico actual!

 

Turisver – Algumas zonas de Portugal, especialmente em épocas de pico do Verão, já se apresentam com sobrecarga de pessoas (turistas) o que coloca em causa a capacidade de resposta das infra-estruturas existentes. Como encara esta situação e qual o tipo de resposta que as entidades lhe poderão dar?

 

Atilio ForteNo que ao turismo directamente respeita, podemos afirmar, de um modo geral, que Portugal possui hoje infra-estruturas com capacidade de responderem aos picos de procura. As poucas excepções que neste domínio (ainda) existem estão perfeitamente identificadas e, assim todos o esperamos, em vias de conhecerem solução. Referimo-nos em concreto, à abertura de (mais) um novo aeroporto na região de Lisboa, a melhorias pontuais na rede ferroviária e nos terminais de cruzeiros (sobretudo nas zonas reservadas aos passageiros), à eliminação de algumas (aberrantes) portagens e pouco mais.

Os maiores problemas que encontramos são de outra natureza mas que, atenta a transversalidade da actividade turística acabam por, quase inevitavelmente, colidir com ela, condicionando-a. Em jeito de ilustração recordamos a sinalética em geral (sobretudo a rodoviária), a falta de hospitais nalgumas regiões, a deficiente conservação do território (concretamente das arribas e limpeza florestal), os problemas crónicos (quase sempre nos mesmos locais) de escoamento de águas pluviais, o asseio das zonas públicas (mormente ruas e praias), etc..

Claro está que algumas das situações que acabamos de referir tendem a agravar-se nas alturas de maior pressão turística, até porque estão mais directamente ligadas com a conduta e o comportamento cívico de cada um, do que com a intervenção de quaisquer entidades públicas, ou porque obrigam estas a possuírem uma capacidade instalada muito superior àquela que é em média utilizada ao longo do ano (saneamento, recolha de resíduos, etc.), pese embora quase sempre os investimentos acabem por justificar-se (e amortizar-se) em função da dinâmica e riqueza geradas pela actividade.

No entanto, em muitos outros casos (na maioria) a ausência de soluções deve-se em nossa opinião, por um lado, à falta de prioridade dada ao turismo por parte das políticas públicas – não chega elogiar a actividade, é importante ser-se consequente –, particularmente no que depende da esfera do Governo e, por outro lado, à deficiente (às vezes inexistente) cooperação a nível regional e local, sobretudo a de índole intermunicipal.

Portanto, e uma vez que “encerrar” o país ao turismo não é sequer opção, entender a verdadeira dimensão e importância da actividade e aprender a cooperar mais e melhor, pondo de lado bairrismos e a sempre omnipresente “partidarite”, são excelentes pontos de partida para fazermos e termos um país com melhores condições para acolher quem nos visita, convindo não esquecer que tal é sinónimo de aumento da qualidade de vida “para”e “de”todos nós.

 

 O + da Semana:

Desde sempre que a cidade de Las Vegas (Nevada, Estados Unidos da América) teve o “jogo” (de fortuna e azar) aliado ao seu nome e, por essa razão, como primordial factor de atracção turística. Contudo, a partir do virar do milénio – em parte pela proliferação de casinos por quase todo o território americano, em parte pela fortíssima concorrência que Macau lhe começou a fazer –, assistiu-se a uma lenta mas consistente alteração de paradigma, que originou e provocou o aparecimento de novos produtos, nomeadamente no campo do entretenimento e do lazer, que foram conquistando o seu espaço e proporcionando à “cidade do pecado” outros argumentos para que fosse visitada. Só que, entretanto, veio a crise económica e financeira mundial (2008) e esse ímpeto inovador abrandou, para não dizer que estagnou. Acontece que, com o ultrapassar da crise, aquela estratégia foi retomada e, diga-se, com assinalável sucesso, uma vez que o turismo de Las Vegas saiu do marasmo, passando a ser impulsionado pelos grandes eventos e convenções, pelos grandes espectáculos e por todo um conjunto de actividades económicas “extra jogo”. E os resultados estão à vista, com os últimos três anos a estabelecerem sucessivos recordes de turistas (42,9 milhões de turistas acolhidos em 2016) e, tão ou mais importante, a robustecerem as receitas e os lucros das empresas que aí operam, com particular destaque para alguns dos maiores agentes económicos do destino, como sejam a MGM Resorts International, a Las Vegas Sands Corporation e a Wynn Resorts. Curiosamente (ou talvez não) o sector do jogo acabou também por colher frutos deste novo posicionamento – só no 1º trimestre deste ano as receitas já cresceram 5,5%, atingindo os 1,68 biliões de dólares) –, muito à custa do “bacará” jogo que (paradoxalmente) é o preferido dos turistas chineses. Em suma, Las Vegas reinventou-se!