iTurismo: Novas Realidades, Novos Desafios, por Atilio Forte

A “guerra” entre os aplicativos Alexa e Siri, a entrada da plataforma brasileira de reservas HotelQuando.com nos EUA e o crescimento do Club Med são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte escolhe para “O + da Semana” o bom desempenho do turismo cubano. O habitual comentário versa sobre o tema do congresso da ADHP e a constituição da estrutura “Portugal In” para captação de investimentos que queiram permanecer na U.E. após o Brexit.

Tópicos da Semana:

  • Alexa Vs Siri – batalha de gigantes: Estes dois aplicativos de ajuda pessoal envolveram-se na luta pela conquista e domínio da componente do “comando por voz” a disponibilizar aos hóspedes dos hotéis, área emergente na qual, muito brevemente, as unidades hoteleiras apostarão forte para proporcionarem um melhor e mais eficiente atendimento e serviço aos seus clientes. Trata-se de uma “verdadeira guerra” entre dois gigantes – Amazon/Alexa e Apple/Siri –, ambos já com testes em curso em inúmeras unidades. Este “conflito” acaba de conhecer nova escalada agora que a Marriott International anunciou que nos próximos meses decidirá se instalará esta inovadora tecnologia em uma ou mais das suas cadeias/marcas.

 

  • HotelQuando.com introduz nova lógica de reservas nos Estados Unidos da América (EUA): Esta plataforma brasileira de reservas hoteleiras vai apostar no seu modelo de marcações “à hora” como forma de penetrar (e conquistar) no mercado norte-americano, estando convencida que conseguirá atrair pelo menos 500 hotéis dos EUA a aderirem a esta criativa forma de negócio, apenas no decurso do corrente ano. Só no Brasil a empresa já comercializa quartos de mais de 700 unidades hoteleiras, atraídas pela possibilidade de passarem a gerar receitas adicionais e, assim, rentabilizarem (ainda que parcialmente) quartos que não tenham sido vendidos.

 

  • Club Med cresce a olhos vistos: Na sequência da aquisição desta icónica empresa francesa pelos chineses do Grupo Fosun, a cadeia irá apostar fortemente no desenvolvimento de resorts “tudo incluído” na República Popular da China com o objectivo, a médio prazo, de tornar aquele país no seu segundo maior mercado.

 

Comentário

Turisver.com – O Congresso da Associação dos Directores de Hotéis de Portugal tem como mote “Novas realidades, novos desafios”. Na sua perspectiva, a próxima década vai exigir mais inovação e criatividade aos directores de hotéis?

Atilio Forte – Começamos por deixar uma nota rápida para saudarmos a Associação dos Directores de Hotéis de Portugal (ADHP) pela realização de mais um Congresso Anual mas, sobretudo, pela oportunidade do tema escolhido que lhe servirá de pano de fundo.

Deverá ter-se presente que a ADHP tem um espectro de associados bastante ecléctico, nele reunindo não apenas aqueles que são os responsáveis máximos pela gestão e operação diária da maioria dos nossos hotéis e, portanto, quem tem a missão de apresentar resultados junto dos investidores como, também, muitos proprietários que estão “à frente” das suas próprias empresas.

Quanto mais não fosse, esta seria por si só razão suficiente para abordar e reflectir sobre a inovação da e na profissão e na vida das empresas, nas alterações comportamentais dos consumidores/clientes, na evolução dos mercados e da actividade turística e de como tudo isso coloca e confronta quem tem a responsabilidade de gerir um hotel perante diferentes, constantes e novas situações às quais é preciso, mais do reagir, dar boas respostas, o que na esmagadora maioria dos casos implica antecipação e previsão, só alcançáveis por uma leitura escorreita e global das múltiplas variáveis que podem interferir no bom desempenho empresarial.

A propósito de outros temas que aqui temos abordado quase sempre sublinhamos a velocidade a que o Mundo actual muda e de como tal tem impacto no comportamento dos turistas, os quais de há muito exigem que um hotel seja bem mais do que o local onde podem pernoitar confortavelmente.

É por isso que quando hoje em dia se diz que os turistas querem “vivenciar”, querem “experienciar”, estamos a referir-nos ao autêntico, ao único, ao irrepetível, o que, convenhamos, confronta qualquer unidade hoteleira com a imperiosa e incessante necessidade de estar apta a superar esse gigantesco desafio. Caso o não faça corre o sério risco de ficar “fora do mercado”, situação que, a prazo, acabará por ter consequências devastadoras para o negócio.

Ora, compete em primeiro lugar a quem dirige uma unidade hoteleira dotá-la das “armas” que lhe permitam sobressair entre os seus pares e, simultaneamente, superar as expectativas de consumidores ávidos, os quais têm total consciência do seu peso e influência junto da oferta. Não é em vão que os tempos que correm também se definem como os da “ditadura da procura”…

Mas se estes são aspectos externos com os quais qualquer Director de Hotel tem de lidar, cabe-lhe ainda preparar, formar, motivar e liderar internamente a(s) equipa(s), de modo a torná-la(s) capaz(es), competente(s) e apta(s) para responder(em) positivamente aos constantes desafios que lhe(s) são colocados.

Aqui chegados, importa salientar que a inovação e a criatividade – referidas na pergunta – não são objectivos a alcançar durante a próxima década. Quem assim os entender inevitavelmente “perderá o comboio”. Fazem parte da realidade do presente, com a qual existe interacção diária, às vezes, até, de hora a hora.

Por estes motivos a adaptabilidade assume um papel de destaque no futuro da gestão hoteleira, a par da qualidade do serviço prestado, de tudo o que envolve os recursos humanos, da definição da estratégia comercial, etc., pois dela decorre a flexibilidade do modelo de negócio que pode conduzir à independência (ou, pelo menos à não-dependência) de determinado mercado ou segmento, compensando quaisquer sobressaltos ou obstáculos que surjam e moldando os factores de atractividade para que sejam sempre positivamente percepcionados como tendência e, portanto, mais facilmente assimilados e adoptados pelos consumidores.

Perante tamanha complexidade de funções e tendo as pessoas como matéria-prima, seja como ponto de partida (na empresa), seja como fim último (o mercado, os consumidores/clientes), a troca de experiências e ideias, através de um diálogo construtivo e cooperante entre profissionais com tantas e tão boas provas dadas ao turismo e às suas empresas, é sempre o combustível que alimenta a capacidade analítica da realidade, sem a qual não há lugar ao progresso, sobretudo numa actividade económica como a do turismo.

 

Turisver.com – O Conselho de Ministros aprovou a criação de uma estrutura temporária, denominada “Portugal In”, para atrair investimentos que pretendam permanecer na União Europeia após a saída do Reino Unido. Como é que olha para a criação de uma estrutura como esta e a escolha de uma personalidade ligada ao Turismo, no caso Bernardo Trindade, para a liderar?

Atilio Forte – Esta decisão, tomada na semana passada em Conselho de Ministros, vem consubstanciar algo que o Governo já vinha sinalizando nos últimos meses, caso o Reino Unido viesse a formalizar o seu pedido de desvinculação da União Europeia (UE), como acabou por suceder.

Ao proceder à criação da estrutura temporária “Portugal In”, o nosso país vem pois, à semelhança do sucedido noutros Estados-Membro da UE, dotar-se de “uma unidade de missão” com o objectivo de atrair empresas (e investidores), que num horizonte de dois anos, por força do accionamento – pelo Reino Unido – do artigo 50 do Tratado de Lisboa (“Brexit”), ver-se-iam privados de continuar a gozar das liberdades de livre circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, oferecendo-lhes um “porto de abrigo” para onde possam deslocar-se, na hipótese de pretenderem manter a sua actividade dentro da UE.

Pese embora a “Portugal In” não tenha pela frente uma tarefa fácil – a competição será “de peso” tanto em quantidade, como em qualidade (leia-se vantagens oferecidas) –, o facto é que com esta medida o nosso país vem dar um triplo sinal político e económico: por um lado, afirmando estar predisposto a lutar, com os seus congéneres europeus, pela captação de investimento estrangeiro – que tanta falta nos tem feito, particularmente nos últimos anos –, por outro lado, reforçando a aposta no crescimento económico pela competitividade da sua economia – colocando a dinâmica empresarial no centro desse progresso – e, ainda, reforçando o seu compromisso com o projecto europeu.

Ao ter escolhido uma personalidade ligada ao turismo para liderar esta estrutura, para além das suas qualidades profissionais e pessoais, o Governo implicitamente reconhece os méritos e capacidades demonstradas pelos actores turísticos em conseguirem, com total sucesso, superar e ultrapassar as adversidades com que se deparam, em curtos espaços de tempo, e o modo único como fazem a leitura da evolução da situação internacional e actuam pronta e eficazmente quando confrontados com conjunturas altamente competitivas.

Nesse sentido, e como aqui comentámos há um par de semanas, a “Portugal In” terá uma das suas primeiras “provas de fogo” já em Maio próximo, momento que a easyJet definiu para solicitar às autoridades europeias a emissão de um novo certificado de operação aérea (COA) que lhe permita continuar a operar voos intracomunitários, decisão que, ao que tudo indica, será disputada entre Portugal e a Áustria.

Resta-nos fazer votos para que a actuação desta estrutura venha a ser coroada de êxito, uma vez que tal terá sempre repercussões positivas ao nível da melhoria das condições económicas e sociais do país.

 

O + da Semana:

Ao que tudo indica as perspectivas do turismo cubano, particularmente no que respeita ao investimento estrangeiro, continuam “de vento em popa”. A prová-lo estão: os pouco mais de 4.000 novos quartos de hotel que alargaram a sua oferta no ano transacto, o que motivou que a barreira das 70.000 unidades de alojamento fosse ultrapassada; os 110 projectos turísticos que o país actualmente tem em “carteira” e para os quais procura parcerias com investidores estrangeiros; o início das operações de cruzeiros que tocam o porto da capital cubana por parte da Azamara Club Cruises (marca que pertence à Royal Caribbean Cruises); e, para não sermos exaustivos, a “luz verde” dada pelo Governo dos Estados Unidos da América – a primeira em quase seis décadas – à Starwood Hotels & Resorts, para passar a gerir e operar 3 novas unidades em Havana (os antigos Hotel Quinta Avenida, Hotel Inglaterra e Hotel Santa Isabel, que agora irão entrar em processo de renovação e consequente alteração da marca), aparentemente contrariando a maior parte das expectativas dos analistas, que estavam convictos que a Administração Trump iria provocar um refluxo nas relações políticas e económicas entre ambos os países, cujos primeiros passos foram dados no último ano de mandato da Administração Obama. A República de Cuba apresenta-se assim, caso não aconteça qualquer inflexão, como um dos mais promissores destinos turísticos da América Latina.