iTurismo: Novo Aeroporto: Ver para Crer, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte dedica os “Tópicos da Semana” a três balanços (actividade turística, jogo online, apoio ao investimento), escolhendo como “O + da Semana” os 20 anos da Associação Turismo de Lisboa. O habitual comentário versa sobre a assinatura do memorando de entendimento entre o Governo e a ANA Aeroportos sobre o novo Aeroporto do Montijo e o anúncio da realização, em Macau, do próximo Congresso da APAVT.

Tópicos da Semana:

  • Balanço 1: Como já aqui havíamos referido, 2016 terá sido o melhor ano de sempre do turismo português. Ter-se-ão ultrapassado – nalguns casos pulverizado – recordes antigos, seja em turistas acolhidos, seja em receitas geradas, seja, ainda, em dormidas realizadas. E mais. Tal aconteceu um pouco por todo o país. Mas uma coisa é o que se sente e o que se diz e outra é ter suporte científico que o sustente, valide e permita comparações a nível internacional. Por isso a análise aos resultados obtidos à luz da Conta Satélite do Turismo (CST) e dos critérios que ela define tem, cada vez mais, carácter de urgência.

 

  • Balanço 2: No ano transacto foram licenciadas e, consequentemente começaram a operar, as primeiras empresas de jogo on-line, as quais passaram a exercer actividade em duas grandes áreas: a das apostas desportivas e a dos jogos de fortuna e azar (vulgo jogos de casino). Terminado que está 2016 é muito importante que o Governo/Turismo de Portugal faça publicamente um balanço destes meses iniciais da actividade (receitas geradas, prémios pagos, cumprimento das normas de segurança, etc.) revelando em que medida é que a mesma, sobretudo nas situações que se sobrepõem às das concessionárias de casinos físicos, representou uma mais-valia para o turismo (e para o seu financiamento) e para o país.

 

  • Balanço 3: Apesar dos baixos níveis de investimento – público, privado, nacional e estrangeiro – que se têm verificando nos últimos anos, no que respeita ao turismo o Governo desde cedo revelou (e muito bem!) grande preocupação em dotar a actividade dos apoios e incentivos financeiros (nacionais e comunitários) necessários ao seu escorreito desenvolvimento e crescimento. E, o facto, é que se assistiu a um aumento da abertura de novas empresas, à expansão de outras, à criação de emprego, à requalificação da oferta, etc.. Estas são razões de sobra para seja dada informação pública, particularmente pelo Turismo de Portugal, sobre quais os projectos, empresas ou entidades apoiadas e montantes disponibilizados a cada candidatura, pelos vários programas e linhas de apoio existentes.

 

Comentário

Turisver.com – O Governo assinou a semana passada com a ANA Aeroportos um memorando de entendimento referente ao futuro aeroporto do Montijo. Parece-lhe que esta é uma boa solução para resolver os problemas com que se debate já o turismo em Lisboa?

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta propriamente dita à questão formulada pelos nossos leitores, gostaríamos de relembrar alguns pontos que consideramos fundamentais para uma melhor compreensão desta temática:

1 – A expansão do aeroporto de Lisboa (antiga Portela, agora Humberto Delgado) arrasta-se desde o final da década de 60 do século passado, ou seja, há quase 50 anos, procurando sempre, por um lado, antecipar o seu inevitável esgotamento e, por outro lado, “desobstruir” (por razões várias, entre as quais sobressaiam a da segurança e a da qualidade de vida dos lisboetas, felizmente já ultrapassadas) o “centro da cidade” de um equipamento desta natureza;

2 – Ao longo do tempo foram estudadas e nalguns casos apresentadas publicamente várias soluções, desde a construção de raiz de um novo aeroporto que substituiria na íntegra o actual, até ao complemento do mesmo com um outro (comummente designada por Portela + 1). A essa luz foram equacionadas múltiplas localizações, tais como, a Ota (que chegou a ser dada como definitiva), Rio Frio, Alverca, Tires, Porto Alto, Fonte da Telha, Alcochete, Montijo, Santa Cruz, Granja, Azambuja, Sintra, etc..

3 – O forte crescimento da actividade económica do turismo conduziu, a partir da década de ’90, que o país, em geral, e os decisores políticos, em particular, ganhassem consciência da urgência de uma tomada de decisão, pois resultava claro que (sozinha) a Portela não teria capacidade de resposta durante muitos mais anos;

4 – Ao longo de todo este tempo, e apesar inúmeros dos alertas feitos, Portugal ou, melhor, os sucessivos Governos, não compreenderam três aspectos essenciais (que, na sua essência, ainda hoje se mantêm actuais): o país nunca definiu uma estratégia (ou política) para a aviação, mesmo sabendo que “os céus” são (eram) as grandes “auto-estradas económicas” para o transporte de pessoas e mercadorias; que a aviação é (era) parte integrante e peça fundamental da actividade turística (hoje, felizmente, é (quase) um dado adquirido); e, por último, que um aeroporto é um instrumento de política, tal como uma escola ou um hospital o são para a corporização de uma estratégia para educação ou para a saúde, e não a política em si mesma;

5 – E, finalmente, que uma infra-estrutura deste cariz, por ser um activo estratégico do país, deveria inserir-se, tanto na lógica de uma plataforma económica de recepção e irradiação de pessoas e mercadorias e, por isso, ser parte integrante de outras valências no domínio dos transportes (conceito de intermodalidade) – rodoviária, ferroviária e marítima –, como de placa giratória de tráfego (vulgo “hub”), com o mesmo propósito.

Elencados estes pontos, cremos que resulta evidente que mais do que a resolução do problema do estrangulamento do turismo na região de Lisboa, o que está verdadeiramente em causa é não apenas a competitividade turística global de Portugal mas, também, a da economia nacional, até porque, territorialmente, somos um país de pequena dimensão já servido por uma boa rede rodoviária.

Contudo, a assinatura do memorando de entendimento referido na questão que nos é colocada se é verdade que tem o mérito de fixar em definitivo que a solução a adoptar será de complementar o actual aeroporto com outro (por nós sempre defendida), não é taxativa quer quanto à sua localização – tendencialmente aponta para o Montijo, embora esteja condicionada pela realização de (mais) estudos, nomeadamente de índole ambiental –, quer quanto à sua construção – dado a mesma depender da negociação a efectuar entre o Governo e a empresa concessionária dos aeroportos nacionais.

Tudo isto significa que, apesar de se reconhecer que a capacidade do aeroporto Humberto Delgado encontra-se praticamente esgotada (atingiu 22 milhões de passageiros em 2016), entre estudos e negociações, na melhor das hipóteses as obras só terão início em 2019, prevendo-se (?) que estejam concluídas no final de 2021.

Convirá aqui abrir um parêntesis para dizer que seria útil que se esclarecesse quais os pontos que serão objecto da anunciada negociação. Estarão relacionados com a construção, por parte do Estado, das infra-estruturas adicionais visando a “intermodalidade” e o serviço e operacionalidade do “hub”? E, em caso afirmativo, quais serão elas? Ou têm directamente a ver com as obras do “novo aeroporto”? É que nesta última possibilidade, não deveria tal ter ficado devidamente acautelado pelo Estado português aquando da realização do contrato de concessão dos aeroportos nacionais, uma vez que era uma matéria sobejamente conhecida e, mais do que previsível, inevitável? Afinal o que é que sobre este assunto está previsto nesse contrato (razão pela qual tantas vezes aqui pedimos a sua divulgação integral)? E tanto numa situação, como na outra, atentos os constrangimentos económico-financeiros que Portugal continua a atravessar, terá o Estado (ou seja o país) dinheiro para investir?

Diz-nos o passado, no que respeita à necessidade de um novo aeroporto para Lisboa (Portugal), que quando chegados a momentos “de aperto”, a solução passou sempre por fazerem-se mais estudos e, entretanto, realizarem-se algumas obras (ampliação, remodelação, melhoria geral, etc.) no equipamento em operação (Portela/Humberto Delgado). Ora tanto quanto nos é dado a observar é apenas e exactamente isso que, para já, está previsto…

Acreditamos, veementemente, nas boas intenções do Governo. Mas tendo em conta o histórico que referimos, seria de enorme utilidade que, pelo menos, algumas das perguntas que formulámos tivessem uma resposta clara e garantias inequívocas fossem dadas. Caso contrário poderemos estar perante (mais uma) nova “fuga para a frente” que, mais do que (re)criar falsas expectativas, pode vir a revelar-se altamente prejudicial para o crescimento do turismo e para o desenvolvimento da economia nacional.

 

Turisver.com – Nos últimos oito anos, o Congresso da APAVT tem-se realizado sempre em Portugal. Este ano, no entanto, o Congresso regressa ao estrangeiro, concretamente a Macau, destino que recebe o evento pela quinta vez e que tinha também sido palco da última reunião magna dos agentes de viagens portugueses que teve lugar fora de portas, antes de iniciado o ciclo de Congressos em Portugal. A Associação já fez saber que quer assegurar condições que permitam a participação massiva no evento. Como é que vê o regresso da APAVT ao estrangeiro e, concretamente, a Macau?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que estamos perante uma excelente notícia. Por isso, tanto a Direcção da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, como o Governo da Região Administrativa Especial e o Turismo de Macau, devem ser felicitados.

Mais do que o regresso aos Congressos “fora de portas”, somos de opinião que esta é uma decisão que também espelha o bom momento que a actividade turística atravessa, garantindo que os “piores dias já lá vão” e que o mercado nacional está a ganhar ritmo.

Ainda em 2016 (antes do Verão), tínhamos aqui avançado existirem destinos bastante interessados em acolherem (ou voltarem a acolher) este grande momento anual do nosso turismo e sendo Macau um deles, faz todo o sentido que a APAVT aí tenha decidido voltar, atentos os laços históricos que nos unem, o facto de aquela Associação aí ter feito grandes Congressos, a excelente hospitalidade macaense ser sempre recordada com “saudade” por todos quantos neles participaram e, certamente não menos importante, estarmos a poucos meses do início de uma nova rota aérea, que ligará a China e Portugal, a qual, por certo, originará um incremento dos fluxos turísticos entre ambos os países.

Valerá ainda a pena referir que este regresso aos Congressos no exterior, também revela por parte da Direcção da Associação grande inteligência e lucidez, uma vez que, quer por se encontrar em final de mandato e já ter anunciado que não se candidatará, quer porque durante os últimos oito anos o evento teve lugar em Portugal, “abre a porta” para que os seus novos Órgãos Sociais possam decidir livremente a localização de Congressos futuros, sem que possa especular-se acerca de uma qualquer (se bem que inexistente) quebra da “tradição”.

Por todas estas razões a APAVT e Macau contarão seguramente com uma grande adesão por parte de todos os agentes do turismo nacional e, arriscamos dizê-lo, este será um dos Congressos mais participados dos últimos cinco anos.

 

O + da Semana:

A ATL – Associação Turismo de Lisboa iniciou as comemorações dos seus 20 anos de existência, marca sempre importante de celebrar na vida de qualquer empresa ou instituição, principalmente quando a mesma sabe que o seu papel no presente, resulta de um passado que é necessário preservar e reconhecer, pois só assim poderá, no futuro, almejar novos objectivos que serão mais fáceis de alcançar se ancorados no respeito e na notoriedade granjeados. Mas o maior propósito deste nosso destaque não é este (até porque enquanto fundadores da ATL seríamos juízes em causa própria). O que merece ser realçado e assinalado é que a ATL foi uma das primeiras parcerias público-privadas (ainda a expressão era insipiente e inócua) e, seguramente, uma das mais bem-sucedidas, provando que é possível os agentes públicos e privados trabalharem conjuntamente, dividindo responsabilidades (inclusivamente financeiras), em prol de objectivos comuns que transcenderam (e transcendem), em muito, os interesses directos das partes. Aliás, a fórmula revelou-se de tal sucesso que, alguns anos mais tarde, veio a inspirar a concertação e contratualização da promoção turística externa (entre o Estado/Turismo de Portugal e os agentes económicos privados, representados pela CTP – Confederação do Turismo Português), da qual resultou, entre outros efeitos, a criação das Agências Regionais de Promoção Turística (ARPT’s). Em suma, ao longo destes 20 anos a ATL não se acomodou à sua condição e soube moldar uma personalidade própria, que a fez ir muito além do seu propósito inicial e conquistar um espaço só seu (e único!) na História do Turismo Português.