iTurismo: O Dedo na Ferida

A realização de mais uma edição da Web Summit em Lisboa e o seu impacto no Turismo, a proposta de aumento do Salário Mínimo Nacional por parte do Governo e a possibilidade de criação de uma Taxa Turística Regional na Madeira para financiar a promoção turística, são os temas escolhidos por Atilio Forte para a sua análise da semana.

 

A semana que terminou ficou marcada pela realização de mais uma edição da Web Summit a qual, segundo os números oficiais divulgados, terá novamente batido o recorde de participantes – foram registados 70.469, oriundos de 163 países –, não sendo por isso de estranhar os impactos positivos que provocou na actividade turística, em geral, e muito em particular na da capital, nem que os cálculos realizados em torno dos efeitos desta cimeira estimem que a mesma tenha gerado uns impressionantes 64,4 milhões de Euros de receitas no turismo.

Quando questionados sobre as razões que levam à sua participação num evento desta natureza, a maior parte responde que o que o(a) motiva é poder marcar presença no maior acontecimento anual ligado à tecnologia e, simultaneamente, aproveitar para visitar Lisboa, a região e, nalguns casos até, outras partes de Portugal.

Sem dúvida que perante estas evidências pode afirmar-se que a Web Summit dá muito a ganhar ao (nosso) turismo. Mas, será que o turismo beneficia do que por lá se passa? Em nossa opinião, e por mais paradoxal que possa parecer, a resposta a esta questão põe verdadeiramente “o dedo na ferida”. Senão, vejamos: o turismo é, porventura, a actividade económica que mais tem incorporado “partes” do progresso tecnológico em todos os seus procedimentos, evoluções e inovações, independentemente do sector (alojamento, distribuição, aviação, etc.) que analisemos, prevendo-se que esta ligação venha a ser, dia após dia, cada vez mais estreita. Para além disto, a compra de produtos e serviços turísticos lidera por larga distância o mercado das transacções online, para nem sequer referir a imensidão de consultas/procuras que gera a cada segundo…

Ora, perante estes factos não deixa de ser surpreendente o diminuto “palco” que o evento tem dado à actividade turística e o quase despercebido destaque que as soluções direccionadas para o turismo têm merecido. Mesmo quando se referem a áreas tão sensíveis, como a da protecção de dados pessoais dos consumidores ou a da cibersegurança que são presentemente uma das maiores dores de cabeça com que qualquer empresa turística se debate.

 

Outro dos temas em destaque na semana passada foi o início das discussões na CPCS – Comissão Permanente de Concertação Social sobre a subida do SMN – Salário Mínimo Nacional, mais concretamente da proposta de o aumentar para 750 Euros até ao final da Legislatura que se está a iniciar, e que consta do Programa de Governo.

Sobre este assunto convirá, ainda que telegraficamente, destacar três aspectos: trata-se de uma iniciativa e um esforço extremamente louváveis, não obstante ter de se admitir ser muito, muito difícil alguém conseguir viver hoje em dia com 750 Euros brutos por mês, quanto mais daqui a 4 anos; mesmo que o aumento proposto fosse imediato, é importante ter-se noção que Portugal continuaria aquém do SMN praticado em média na União Europeia (932 Euros); e tem a aparente vantagem de colocar um ponto final na perfeita aberração que é termos uma diferença no valor estipulado para o sector público (635 Euros) com o que o sector privado está obrigado a pagar (600 Euros), embora subsista a desigualdade respeitante à carga horária semanal (35 horas Vs. 40 horas).

Contudo, e independentemente das estratégias que vierem a ser adoptadas pelos Parceiros Sociais (sindicais e patronais) há duas contradições que nos parecem óbvias e, por isso, passíveis de urgente explicitação por parte do Governo, até para justificar a bondade da medida e impedir que outro tipo de dúvidas (mais pertinentes) se levante:

A primeira,é que no mesmo Programa de Governo em que se contempla o aumento do SMN, também se avança com um quadro macroeconómico de maior incerteza traduzido (pelo menos) num abrandamento da economia mundial e europeia, o que deixará a nossa mais exposta às oscilações que existam, dado ser aberta e de pequena dimensão. Para além dos reflexos que tal possa ter no (des)emprego, a consequência de um cenário destes é a diminuição da actividade empresarial, logo da capacidade em suportar um incremento dos custos com o factor trabalho, por mais justos e merecidos que eles sejam.

E a segunda, é nada ser referido relativamente ao alívio da carga fiscal que as empresas suportam (directa e indirectamente)sobre a mão-de-obra; mais, fazendo fé em números tornados públicos e não contrariados, uma subida do SMN na ordem de grandeza avançada viria aumentar as receitas públicas em pouco mais de 500 milhões de Euros por ano, ou seja, tornando o Estado no maior beneficiado desta medida!

 

Na última sexta-feira decorreu no Funchal a XIII Conferência Anual de Turismo, organizada pela Ordem dos Economistas, onde aquele organismo propôs a criação de uma taxa turística regional para financiar a promoção do turismo. Em resposta ao repto lançado, o Governo da Região admitiu tratar-se de “uma tendência inevitável”, entreabrindo deste modo a porta para que a ideia possa singrar.

Sendo (historicamente) a Madeira um dos principais destinos turísticos nacionais, com créditos (e procura) firmados internacionalmente, que durante anos (décadas!) tantas e tantas vezes esteve na vanguarda do desenvolvimento do turismo português e, por esse motivo, tão variadas e boas soluções deu a conhecer à actividade e ao país, é difícil compreender como é que agora se admite claudicar e alienar todo esse passado de sucesso e progresso, trocando-o pela possibilidade de “importação” dos maus exemplos praticados em muitos locais do continente.

Sobretudo numa altura em que os resultados turísticos que o Arquipélago tem vindo a obter registam uma quebra preocupante quer no número de turistas acolhidos, quer nas receitas por eles geradas situação que,no mínimo e atenta a sua consistência, aconselharia a não encarecer o destino e, assim, influenciar a competitividade da sua oferta, já que a alternativa será, caso a ideia avance, as empresas absorverem mais essa “taxinha” canalizando para esse efeito recursos que poderiam (e deveriam) utilizar na dinamização da sua operação e, também, na própria promoção turística.

No entanto, não deixará de ser curioso observar qual será a reacção dos diversos agentes turísticos – regionais e nacionais – a este, para já eventual, cenário.

 

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