iTurismo: O Melhor Investimento, por Atilio Forte

A campanha internacional “Portugal. The Summer” lançada pelo Turismo de Portugal com o objectivo de promover o destino nos principais mercados já para o Verão de 2019, e a intenção do Governo Regional da Madeira de apresentar uma acção judicial contra a TAP reclamando os elevados prejuízos que a companhia aérea está a causar à Região e em especial ao turismo, são assuntos que Atilio Forte comenta no iTurismo desta semana.

 Tópicos da Semana: 

  • “Smartwatches” são ajuda preciosa na melhoria do serviço: Vezes sem conta temos aqui referido o quanto a introdução da tecnologia tem revolucionado a actividade turística. Agora, e a julgar pelas avaliações feitas por muitas unidades hoteleiras, a utilização de “smartwatches” pode ser uma “arma” extremamente eficaz tanto na comunicação entre os seus colaboradores como, sobretudo, na rapidez e qualidade do serviço que disponibilizam aos clientes. De acordo com alguns estudos o seu uso diminui para 1/4 o tempo de resposta a um determinado pedido (por exemplo de 4 para 1 minutos).
  • Consumidores resistem aos dispensadores de produtos de higiene nas casas-de-banho dos quartos: Inúmeras cadeias hoteleiras têm vindo a remover os tradicionais produtos “uni-dose” embalados em plástico que, habitualmente, disponibilizam nos seus quartos, substituindo-os por outros mais amigos do ambiente. De um modo geral os hóspedes têm visto com bons olhos e mostrado receptividade a estas alterações, excepto no que respeita aos produtos de higiene colocados nas casas-de-banho, mostrando o seu desagrado particularmente no relacionado com os dispensadores por grosso.
  • O melhor Março de sempre da hotelaria do Japão: De acordo com os indicadores oficiais do Governo nipónico, o passado mês de Março registou um novo recorde no número de dormidas de turistas não-residentes nos hotéis japoneses, as quais ascenderam a 6,78 milhões. Em termos homólogos tal significou um aumento de 15%.

 

Comentário:

 

Turisver – O Turismo de Portugal anunciou – na passada sexta-feira – uma campanha internacional intitulada “Portugal. The Summer”, com o objectivo de promover o destino nos nossos principais mercados já para o Verão de 2019. Numa altura em que o crescimento anual do turismo recua, pensa que a estratégia e os meios financeiros alocados à promoção externa são suficientes para acautelar o futuro próximo?

 

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta propriamente dita à – sempre actual – questão que nos é colocada, convirá que comecemos por dizer que, em face da presente conjuntura internacional e na forma como a mesma pode vir a influenciar a actividade turística em Portugal (“Brexit”, recuperação dos destinos mediterrânicos, etc.), justifica-se que, atempadamente, o Governo comece já a pensar no Verão de 2019, delineando acções promocionais junto dos mais importantes mercados emissores de fluxos turísticos para o nosso país.

Assim, a campanha agora apresentada, que terá como principais destinatários o Reino Unido, a França, os Estados Unidos da América e a Alemanha e que usará unicamente meios digitais, tem plena razão de ser e mais, mantém a originalidade e a interactividade da linha promocional que vem sendo seguida em anteriores acções, no caso associando a banda norte-americana “Portugal. The Man” (daí ter sido intitulada “Portugal. The Summer”) à escolha da música de cada um dos vídeos promocionais que serão realizados para seu suporte, os quais destacarão cinco aspectos da vasta oferta turística que temos para oferecer àqueles que nos distinguem com a sua visita, “casando-os” com os cinco sentidos de que dispomos, enquanto seres humanos, a saber:o paladar com a gastronomia (“Portugal. The Flavours”); a audição com a música (Portugal. The Music”); o olfacto com a natureza (“Portugal. The Nature”); a visão com o mar (“Portugal. The Ocean”); e, o tacto com o sol (“Portugal. The Sun”).

Não obstante o que acabámos de referir, cremos que há um factor, em nossa opinião essencial, que poderia e deveria ter sido incluído nesta campanha, até pela importância que hoje tem nas escolhas e preferências dos turistas, no modo como os faz “viver” e “sentir” os destinos que visitam. Referimo-nos às pessoas.

Portanto, é nosso entendimento que complementar os “cinco sentidos”, com a “sensibilidade” de um “Portugal. The People”, não só se justificava plenamente como, certamente, criaria mais empatia junto daqueles que, potencialmente, pretendemos atrair. Sobretudo se considerarmos que um dos aspectos que mais é valorizado e destacado por todos quantos vêm até nós são as pessoas, as nossas gentes, a nossa arte de bem receber, que decorre da nossa História, que nos deu o cosmopolitismo que tão bem – como ninguém! – soubemos transformar em hospitalidade. Aqui deixamos, pois, esta modesta sugestão…

No que respeita à pergunta “de fundo” que nos é posta, vale a pena recordar que este tem sido incessantemente um dos “cavalos de batalha” de toda a comunidade do turismo nacional, uma vez que, como é sabido, os investimentos em promoção turística ficaram sempre muito aquém do desejável (e justificável), atendendo aos tremendos efeitos multiplicadores que a actividade induz na economia e que, por esse motivo, têm (ou teriam) um retorno totalmente garantido.

Isto apesar de qualquer rudimentar compêndio de marketing referir que deve investir-se em promoção 5% do total das receitas geradas pelo(s) produto(s) vendido(s). Ora, isso foi algo que jamais ocorreu em Portugal quer antes da “crise” (2008) e da “troika”, quer depois. E, apesar disso, o turismo conseguiu prosperar, nomeadamente, atingindo resultados verdadeiramente notáveis, sobretudo nos últimos anos.

Em face deste crescimento e da bonança vivida as “vozes” e “reivindicações” dos agentes turísticos foram esmorecendo progressivamente, tendo (quase) caído no esquecimento que, por um lado, boa parte do mesmo apenas foi alcançado em virtude de uma situação internacional que claramente nos bafejou e, por outro lado, porque as ferramentas digitais proporcionaram com que conseguíssemos ser muito mais eficazes e assertivos nas campanhas promocionais realizadas, com um custo drasticamente inferior ao normalmente comportado pelos meios ditos tradicionais (televisão, rádios, jornais, cartazes, etc.).

Só que, como já se constata, não só a situação externa alterou-se, implicando um crescimento súbito da concorrência e, simultaneamente, a retracção de alguns mercados preponderantes – ambas previsíveis –, como a utilização dos canais digitais passou a ser o meio natural de “aliciamento” dos consumidores, o que tem tornado a presença nos ditos, de quem quer que seja, mais dispendiosa e, também, dificultado a tarefa de neles sobressair.

Se é verdade que neste último aspecto temos sabido e conseguido ser suficientemente criativos – a prová-lo estão os vários reconhecimentos e prémios internacionais que as nossas campanhas têm recebido –, já quanto aos valores investidos os mesmos continuam muito aquém do desejável, para nem sequer referirmos, do recomendável ou, até, exigível.

Assim sendo, e caso persistamos em não reforçar as verbas destinadas à promoção turística externa, confiando apenas nas nossas criatividade e inovação, pensando que os nossos concorrentes não as têm ou não são capazes de as apreenderem ou desenvolverem, antevemos que a “velha questão” dos dinheiros destinados a este fim voltará a estar na “ordem do dia”, a muito mais breve prazo do que se julga.

Se há momentos que podem definir o futuro este é, sem dúvida alguma, um deles. O que não fizermos hoje, agora, outros seguramente fá-lo-ão por nós. Amanhã já é tarde, muito tarde. Para que não “choremos sobre o leite derramado”, é fundamental agir no imediato. Entender e fazer entender que a despesa em promoção turística não é um custo. Muito pelo contrário. É o mais rentável dos investimentos!

 

Turisver – O Governo Regional da Madeira anunciou que vai intentar uma acção judicial contra a TAP, para reclamar dos elevados prejuízos que a companhia aérea portuguesa está a causar à Região e em especial ao turismo. Na sua opinião os madeirenses têm razão para uma tomada de posição tão radical ou, neste caso, o diálogo entre as partes é o melhor conselheiro?

 

Atilio Forte – Este é mais um dos assuntos, ou se se quiser consequência, que vem na esteira do nosso comentário da semana passada (ver, http://www.turisver.com/iturismo-ignorancia-nao-e-felicidade-por-atilio-forte/), e que resulta do facto de Portugal jamais ter considerado a aviação como parte integrante e peça fundamental da actividade turística e de nunca ter possuído, nem possuir, uma estratégia para o sector (da aviação) que, como se sabe, tem actualmente no avião o meio de transporte por excelência utilizado pelos turistas.

Claro que quando se fala de um destino insular, como a Madeira e ou o Porto Santo, tudo isto ganha maior relevância, uma vez que só se lá chega (ou de lá se sai) por via aérea ou marítima.

Acontece que a tudo isto acrescem os factos de, por contrato, a TAP ter algumas obrigações a cumprir perante a Região Autónoma e os seus habitantes, que foram salvaguardadas aquando do processo da sua privatização e, porventura ainda mais importante, porque o seu principal accionista é o Estado português.

Portanto, é sobre o não cumprimento ou cumprimento deficiente deste “serviço público” que os madeirenses se queixam, por um lado, e pelos prejuízos que o mesmo provoca à principal actividade económica da Região, o turismo, por outro lado.

Contudo, tal como aqui também afirmámos logo no princípio do ano, a TAP está a atravessar algumas “dores de crescimento” (aliás foi esse o título que, então, demos ao nosso comentário) as quais, naturalmente, e apesar das medidas entretanto tomadas – contratação de pessoal de voo, aquisição de novos aviões, etc. –, demorarão tempo a produzir os seus efeitos e, consequentemente, a que os mesmos façam sentir-se.

Por isso, e quanto a nós, o principal problema é que o assunto não se esgota na TAP e nas deficiências operacionais que ela apresenta. Tal como referimos de início, esta é uma questão bem mais profunda, que se prende com o desnorte e a ignorância política que o sector da aviação tem de enfrentar. É que o deficiente funcionamento das nossas infra-estruturas aeroportuárias e dos nossos serviços de controlo, navegação e segurança aéreas concorrem, e de que maneira, para o enorme capital de insatisfação com que o turismo português está confrontado, não apenas na Madeira, mas por todo o país.

Assim sendo, embora entendamos e reconheçamos quer a legitimidade da tomada de posição do Governo da Região Autónoma da Madeira – e mais recentemente da Assembleia Legislativa Regional –, quer algumas más prestações de serviço por parte da TAP, o facto é que o Estado, obrigatoriamente, tem de dar prioridade à resolução destes problemas, definir uma estratégia para a aviação, juntá-la à “família” de que faz parte – a do turismo – e, para tal, rodear-se (ou munir-se) de quem tenha o conhecimento, o saber e as capacidades para o ajudar a fazê-lo, disponibilizando os meios necessários para tal e interiorizar que, se calhar, compete-lhe a ele, em geral, e ao Governo (qualquer que ele seja), em particular, ter a coragem de inovar, de mudar e, possivelmente, de adoptar um novo modelo orgânico. Caso contrário assistiremos a um empolar da situação que, não temos dúvidas em afirmar, acabará por ter terríveis consequências para o turismo nacional.

Esperemos pois que este “duro” aviso por parte da Madeira e dos madeirenses – que têm uma sensibilidade histórica para o turismo – produza os efeitos desejados, isto é, que contribua para o reconhecimento por parte do Estado da existência de um imbróglio premente, que urge resolver, e que é seguramente mais prioritário do que qualquer esgrimir de argumentos nos tribunais.

Até porque, se entretanto, nada for feito, quando houvesse uma decisão dos Órgãos Judiciais, fosse ela qual fosse, já o turismo português (incluindo o do Arquipélago) teria sofrido danos irreparáveis.

 

O + da Semana:

No final da passada semana a AHP – Associação da Hotelaria de Portugal divulgou as conclusões de um inquérito, que realizou entre os dias 29 de Maio e 21 de Junho junto dos seus associados, destinado a avaliar as perspectivas dos hotéis portugueses sobre o comportamento dos diferentes mercados emissores de fluxos turísticos no presente Verão, tomando em consideração as reservas e pré-reservas recebidas. Se exceptuarmos a óbvia importância da iniciativa, vale a pena que aqui destaquemos dois aspectos e uma oportunidade que os resultados apresentados demonstram: em primeiro lugar, a relevância do turismo interno que, com uma quota de 18%, será o principal mercado da nossa hotelaria; em segundo lugar, a confirmação do recuo do mercado Britânico (tal como há mais de um ano aqui havíamos antecipado… e alertado), que “cai” para quarto lugar com 11% de quota – em pé de igualdade com o alemão –, situando-se atrás do nacional, do espanhol e do francês, estes últimos representando 15%; e, finalmente, a oportunidade, que decorre dos 3% do mercado italiano – que lhe “valem” a nona e última posição no estudo, atrás do Brasil (8%), dos Estados Unidos da América (6%) e da Holanda (4%), para além dos previamente mencionados –, mas que, atento o impacto mediático que Portugal está e vai continuar a ter em Itália, quase exclusivamente devido à transferência do “nosso” Cristiano Ronaldo para o seu principal campeonato de futebol, eis que nos deparamos com um excelente ensejo para, durante os próximos anos, conseguirmos aumentar a captação de fluxos turísticos oriundos daquele país, caso saibamos tirar o devido partido do frenesim que existirá em seu redor.