iTurismo: OE 2018: Turismo de Mãos Vazias, por Atilio Forte

A proposta de Orçamento de Estado para 2018 e as suas implicações no Turismo é destaque do iTurismo desta semana. Atilio Forte faz também uma nota prévia em relação aos trágicos incêndios que assolaram o país no último fim-de-semana, enquanto no “O + da Semana” comenta a aposta na dinamização turística de Moçambique. Colocar os hóspedes “à vontade”, tecnologia inteligente em hotéis na China, bem a utilização de novas marcas em cadeias hoteleiras internacionais, incluem os “Tópicos da Semana”.

 

Tópicos da Semana:

  • Serviço ao cliente é “pôr os hóspedes à vontade”: Uma análise divulgada pela Boston University School of Hospitality Administration revela que o serviço ao cliente mantém-se como principal factor de desanuviamento na gestão do stress dos hóspedes, uma vez que, pela quebra dos hábitos diários normais, o acto de viajar coloca maior pressão em quem o faz. Assim, quando um hóspede entra num hotel, este tudo deve fazer para o colocar “à vontade”, não apenas para o aliviar da tensão acumulada pela viagem, como também para lhe transmitir um elevado grau de empatia, que faça com que se sinta “em casa”.
  • Primeiro a China, depois o Mundo: Esta é a máxima que traduz a estratégia delineada pelos “grandes produtores” de tecnologia inteligente, como é o caso do Grupo “Alibaba” que planeia instalar em 100.000 quartos de hotel da República Popular da China este tipo de tecnologia (aplicativo de ajuda pessoal que interage com os hóspedes, respondendo a questões que são por eles colocadas), de forma a marcar posição no híper competitivo mercado dos dispositivos tecnológicos accionados por comando de voz, no sector do alojamento. Embora o mercado habitacional também esteja no horizonte, os turistas são considerados como o segmento ideal para iniciar e mostrar as enormes vantagens desta nova tecnologia.
  • Grandes cadeias hoteleiras experimentam novas marcas: Procurando ir ao encontro do crescente interesse dos consumidores por unidades independentes, as grandes cadeias hoteleiras vêm expandindo a utilização de novas marcas de modo a posicionarem-se mais de acordo com esta tendência da procura. Assim se explica, por exemplo, a criação da “Autograph Collection” pela Marriott, da “Unbound Collection” pela Hyatt e da “Curio” pela Hilton.

 

 Nota Prévia:

Os trágicos acontecimentos do passado fim-de-semana justificam que, no último dia de luto nacional, aqui registemos duas breves notas:

A primeira, para evocarmos a memória dos quepereceramnos incêndios do passado fim-de-semana – partilhando a dor sentida pelas suas famílias –,para confortarmos todos quantos foram atingidos por esta tragédia e, também,para enaltecermos a coragem daqueles (forças de segurança e populações) que, no terreno e com risco da própria vida, os combateram estóica e heroicamente, sendo nossa convicção que nem um só será esquecido e que todos serão alvo da solidariedade e fraternidade dos seus concidadãos.

A segunda, para expressarmos a Vergonha e a Revolta que sentimos! Vergonha, por vivermos num país em que o Estado demitiu-se das suas obrigações constitucionais de protecção de pessoas e bens. Revolta, pela incúria verificada na sequência da catástrofe de Pedrógão Grande, que há escassos quatro meses assolou e chocou o país.

 

Comentário:

Turisver – O Governo entregou no final da semana passada o OE 2018. As empresas da actividade turística podem, de alguma forma, tirar benefícios de uma ou outra das medidas apresentadas?

 

Atilio Forte – O Orçamento do Estado para 2018 (OE 2018) é, no nosso entendimento e no que ao turismo respeita, a total negação da importância estratégica que a actividade vem demonstrado nos últimos anos, seja para a criação de riqueza e emprego, seja para o insuperável contributo que tem dado para o aumento das nossas exportações, com a vantagem (única) das mesmas materializarem o consumo dos bens e serviços que lhe estão associados dentro de portas, com óbvias e notórias mais-valias para as demais áreas da economia nacional.

Temos para nós que tal facto deve-se, entre outras, a duas grandes ordens de razões: Por um lado, à falta de peso político do turismo no seio do Governo – integrado no Ministério da Economia; e, por outro lado, ao parco “trabalho de casa” feito, em geral, pelos diferentes agentes turísticos.

Só assim se entende que uma actividade económica que é constantemente elogiada pelo Governo (e reconhecida pelo país!) como vital para a economia portuguesa não tenha merecido qualquer sinal de estímulo por parte do Executivo, bem como, a ausência de propostas do lado da comunidade turística visando uma maior dinamização e investimento da e na actividade.

A consequência desta situação resulta na manutenção, em (quase) todas as rubricas, de verbas idênticas às de anos anteriores, o que deixa transparecer uma completa falta de aderência entre o que é dito e o que é feito. Porventura, os exemplos mais paradigmáticos deste estado de coisas são as verbas afectas à promoção turística externa ou às transferências previstas para as ERT’s (Entidades Regionais de Turismo), resultantes das receitas do IVA (Imposto sobre o Valor Acrescentado), que permanecerão imutáveis, neste último caso, iguais às de 2016 e 2017(?), apesar do gritante crescimento que o turismo tem tido.

Claro está que pode dizer-se, com propriedade, que os critérios que presidiram à elaboração do OE 2018 centraram-se sobretudo na componente social, isto é nas pessoas, em detrimento de outro tipo de opções, tendo em conta a imperiosa necessidade de devolver rendimentos e, consequentemente poder de compra, aos portugueses, o que tem total legitimidade.

Só deste ponto de vista é entendível a tímida subida prevista para o investimento público (+0,2%), bem como a ausência de medidas que estimulem o investimento do sector privado, insuficientemente contrariadas por ténues apoios ao reforço dos capitais próprios e ao reinvestimento de lucros das empresas, como os que estão inscritos no OE do próximo ano.

Tendo em consideração o actual quadro parlamentar que suporta o Governo e, ainda, os resultados das recentes eleições autárquicas, compreendem-se as escolhas feitas. Contudo, se as mesmas podem encontrar justificação no curto prazo, tal não sucede num período de tempo mais longo, pois isso significa por um lado, que nada de estrutural irá passar-se e, por outro lado, que não está a construir-se uma base sólida para o crescimento duradouro da economia nacional.

Que não se infira das nossas palavras que estamos contra a melhoria das condições de vida dos nossos concidadãos, principalmente daqueles que têm mais baixos rendimentos. Pelo contrário. Tudo isso é mais do que justo. Não podemos é concordar com a falta de medidas dinamizadoras da economia, e por maioria de razão do turismo, que possam dar sustentabilidade ao aumento de gastos anunciado no OE 2018, pois se é correcto actualizar pensões (algumas lamentavelmente ainda de miséria), aliviar a carga fiscal directa e repor regalias, tal traduz-se em mais despesa que, necessária e saudavelmente, pode e deve ser compensada com mais receita resultante de um maior dinamismo económico, gerador de emprego, em oposição ao que tem vindo (e continua) a ser feito, através do aumento dos impostos indirectos, de inúmeras taxas, taxinhas e afins.

Dito isto, vale a pena realçar o cenário macroeconómico apresentado – défice de 1% do Produto Interno Bruto (PIB), crescimento de 2,2% deste, taxa de desemprego nos 8,6% e descida da dívida pública para os 123,5 mil milhões de euros –, pois o mesmo indicia um continuado progresso das contas nacionais e esperar que apesar de atravessarmos uma conjuntura internacional altamente complexa, nada de muito significativo aconteça (aumento do preço do petróleo, crise financeira na União Europeia, ausência de estabilidade política em Espanha, guerras, terrorismo, etc.), pois não existe grande margem para folgas – se exceptuarmos as renomadas cativações – neste OE 2018.

Para finalizar, restareferir que esperamos um “despertar” dos agentes turísticos junto das diferentes forças partidárias, a propósito do debate na especialidade do OE 2018 e que, no que toca directamente à actividade turística, ainda consigam uma ou outra “conquista”, pois o turismo português bem o merece!

 

Turisver – Daquilo que é já conhecido sobre o OE 2018 pode concluir-se que os portugueses vão ficar com um maior desafogo económico que lhes permita gastar mais em férias ou fins-de-semana mais ou menos alargados?

 

Atilio Forte – Conforme referimos na resposta anterior, 2018 vai trazer aos portugueses um maior rendimento disponível que, naturalmente, traduzir-se-á num maior poder de compra, situação que poderá beneficiar a actividade económica em geral, e a turística em particular.

No entanto, deveremos ter presente que tal podede alguma forma vir a ser mitigado, nomeadamente no que tem a ver com o turismo interno, já que o ISP – Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos irá novamente subir, tal como o IUC – Imposto Único de Circulação e o ISV – Imposto Sobre Veículos (este só com reflexo em quem esteja a pensar comprar carro novo), “comendo” parcialmente uma parte desse aumento do rendimento disponível e, assim, encarecer as deslocações/viagens em viatura própria ou asefectuadas por qualquer outro meio de transporte rodoviário.

Para além disso, o cenário macroeconómico previsto, conjugado com a recente melhoria da notação de risco da República – previsivelmente acompanhada de outras que se lhe seguirão – e com a falta de estímulos à poupança inscritos no OE 2018, significam que a banca tenderá a ser mais agressiva (no bom sentido do termo) na concessão de crédito individual, particularmente à habitação, o que pode implicar uma retoma dos padrões de consumo anteriores “à crise” e “à troika”, onde a compra de casa própria com recurso ao crédito bancário assumia uma fatia importante nos orçamentos familiares.

A este aspecto acrescem as previsões de manutenção “em alta” da procura turística internacional por Portugal, o que tenderá a que os preços dos produtos e serviços turísticos permaneçam mais condignos com a qualidade da nossa oferta, ao invés do verificado nos últimos anos.

Deve também referir-se que a crescente valorização internacional do dólar (mormente em comparação com o euro) tem vindo a tornar muitos destinos no estrangeiro menos apelativos para o “bolso” dos portugueses.

Tudo isto quer dizer que poderá haver menos “espaço” para gastos em turismo do que aquele que, à primeira vista, pode depreender-se de uma análise mais superficial ao OE 2018.

Assim sendo, em nossa opinião e em observância às razões enunciadas, o aumento do consumo turístico a nível interno deverá ser olhado com prudência, sem qualquer ponta de euforia e alvo de constante monitorização.

 

O + da Semana:

Na intervenção que proferiu na abertura da IV Edição da Feira Internacional de Turismo de Maputo – que decorreu na passada semana – Filipe Nyusi, Presidente da República de Moçambique, manifestou a intenção daquele país em dinamizar a actividade económica do turismo, tanto interna como externamente, anunciando para o efeito várias medidas de estímulo ao seu desenvolvimento, como a harmonização da taxa de visto de fronteira com os demais países da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral e a introdução desse mesmo tipo de requisito de entrada no país em 44 novos pontos de travessia. Mas, porventura, mais importante foi a relativamente recente abertura do espaço aéreo moçambicano a novos operadores do sector visando, pela concorrência, a disponibilização de mais oferta, com maior regularidade e menor custo para o consumidor. A disponibilidade para um mais aprofundado diálogo entre o Governo e os agentes da actividade, para identificação das barreiras ao desenvolvimento turístico do país, com o objectivo de potenciar receitas e gerar emprego, merece ainda o nosso destaque. Dito isto, é quase uma evidência dizer-se que esta é uma das áreas onde a cooperação entre Moçambique e Portugal pode e deve ser estreitada, até porque o seu (inevitável) sucesso poderá servir de contágio para os demais Estados-Membro da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.