iTurismo: Oriente (mais) à Vista e Segurança, por Atilio Forte

O tema do 43º congresso da APAVT e as Jornadas de Turismo e Segurança que vão ter lugar no Algarve, são os temas que preenchem o habitual Comentário do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” a recomendação da Comissão Europeia para a retirada de Portugal do “Procedimento por Défice Excessivo” (PDE). O tipo de férias que os turistas preferem, a situação da “Visit Florida” e a fidelização de turistas preenchem os “Tópicos da Semana”.

 

Tópicos da Semana:

  • Que tipo de férias preferem os turistas? É quase a pergunta que vale um milhão de euros! Mas foi precisamente a ela que a “GfK”, empresa de estudos de mercado e comportamentos de consumo, se propôs responder, através da realização de um vasto inquérito online que abrangeu 17 países. E as suas conclusões devem ser objecto da nossa reflexão, já que quase 60% dos inquiridos disse preferir férias mais calmas, relaxantes e descontraídas, enquanto 1/3 optam pela realização de um sem número de actividades. Vale a pena acrescentar que nesta sondagem não foram detectadas diferenças significativas nas preferências de homens e mulheres.

 

  • A merecer toda a (nossa) atenção: A “Visit Florida”, entidade oficial com a responsabilidade da promoção turística internacional daquele Estado americano, pode vir a perder uma parte significativa do seu financiamento público, o que comprometerá a sua capacidade de actuação no mercado global que, como sabemos, é/está cada vez mais competitivo. O financiamento proposto para o novo ciclo orçamental (2018) ascende a 25 milhões de dólares, que comparam com os 76 milhões de dólares que, no ano em curso, tem à sua disposição.

 

  • Três “dicas” para uma melhor fidelização: Especialistas internacionais reconhecem que as empresas turísticas estão a aderir, crescentemente, à era digital. Contudo, para que esse processo se reflicta de forma mais efectiva nos seus programas de fidelização, há três áreas essenciais onde o “passo” precisa ser acelerado: adicionar conteúdos que ajudem ao planeamento das viagens; identificação das viagens de grupo; e, expansão do acesso a reservas através de dispositivos móveis.

 

Comentário

Turisver.com – O próximo congresso da APAVT que irá realizar-se em Macau de 23 a 27 de Novembro já tem mote: “Turismo: A Oriente, Tudo de Novo!”. Que comentário lhe merece o lema escolhido?

Atilio Forte – Ao longo dos anos, a Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo – APAVT já nos habituou a trazer para o seu evento anual mais significativo temas importantes, quer para o futuro das suas associadas, quer para o do turismo nacional.

E, mais uma vez, não fugiu à regra. Por isso, não podemos deixar de felicitar a sua Direcção pela oportunidade do tema escolhido.

Queira-se ou não, do ponto de vista turístico, o Oriente revela-se actualmente como uma realidade, mais do que nova, rejuvenescida, pois nos últimos anos temos vindo a assistir a um crescendo dos mercados daquelas paragens, com o da República Popular da China à cabeça que, como se sabe, é já o primeiro exportador mundial de fluxos turísticos.

Ora, a abertura a breve prazo da rota aérea entre a China e Portugal, prevista para Julho, seria por si só motivo que justificaria na plenitude a escolha deste tema.

Contudo, atentas as ambições turísticas do nosso país, bem como os sucessos que o turismo português tem vindo a obter no panorama internacional, como ainda o esforço em estreitar as relações comerciais, particularmente as ligadas a esta área estratégica da economia, que tem vindo a ser efectuado pelos Governos de ambos os países, elevam esta decisão a um outro patamar, dado a mesma indicar (e desafiar!) claramente a todos os agentes – públicos e privados – que operam na actividade, que podem encontrar nos mercados asiáticos, um “novo mundo” de oportunidades de negócio que aguardam por ser exploradas.

E, quando falamos em oportunidades, não nos referimos apenas às que possam advir da recepção de fluxos turísticos dali oriundos directamente para o nosso país. Às mesmas acrescentamos as que poderemos captar caso nos consigamos assumir como “plataforma giratória” de tráfego tanto da Ásia para a Europa, como da Ásia para a América ou para África. E o inverso também é verdadeiro.

À primeira vista esta poderá parecer uma perspectiva excessivamente ambiciosa. No entanto, bastará olharmos para a localização estratégica dos dois territórios – o português (no Sul da Europa e a “meio caminho” da América e de África) e o macaense (no Sul da China) – para constatarmos que a “generosidade” concedida a ambos pela posição geográfica que ocupam, permite que legitimamente possam dela querer tirar melhor partido económico e, muito em particular, turístico.

Por outro lado, convirá termos bem presentes as estreitas ligações políticas, económicas e culturais, construídas ao longo de quatro séculos, entre o nosso país e Macau, já que aquele território/região sempre foi visto (e sempre se assumiu) como principal “porta de entrada” para os demais mercados do Extremo Oriente e, consequentemente, ponto de encontro entre civilizações.

Para além destes aspectos, devemos também considerar as projecções da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) as quais indicam que, até ao final do corrente século, iremos assistir a uma progressiva deslocação do principal “centro turístico” do Mundo, da Europa para a região da Ásia-Pacífico.

Isto significa que quem melhor e mais rapidamente souber posicionar-se no continente asiático, maior sucesso garantirá para o futuro do “seu” turismo.

Muitos mais argumentos poderiam aqui ser apresentados que, quase por si só, também justificariam a escolha deste tema pela Direcção da APAVT. Mas, acreditamos, que por serem tão óbvios, basta a sua simples enunciação: investimento, demografia, crescimento económico, aumento do poder de compra, partilha de conhecimento/saber (sobretudo do turismo), etc..

Para finalizarmos, resta-nos acrescentar que esta é a quinta vez que a APAVT elege Macau para acolher a sua reunião magna anual, tendo aí sido sempre exemplarmente acolhida, graças ao profissionalismo dos macaenses como, acima de tudo, à magnífica hospitalidade com que brindaram os participantes destes Congressos. Estamos certos que, no evento do próximo mês de Novembro, a haver qualquer diferença ela será, seguramente, para melhor, pois temos consciência que Macau não parará de nos surpreender, até porque naquela pequena/grande região do Oriente “tudo é (sempre) novo”! Excepto os laços de amizade que perpetuamente se renovam a cada visita…

 

Turisver.com – Vão realizar-se em Albufeira, no próximo dia 31, as I Jornadas de Turismo e Segurança no Algarve que vão abranger temas como as “Ameaças à segurança e o seu impacto na economia”, “Segurança, terrorismo e direitos humanos” e a “Segurança Alimentar e Económica: a realidade da Região Algarvia”, entre outros. Na sua opinião, este é um debate que, face à sua importância nos dias de hoje, deveria ser estendido a nível nacional?

Atilio Forte – A título prévio, começamos por aqui deixar uma palavra de solidariedade às famílias das vítimas, à cidade de Manchester e a todos quantos foram de algum modo atingidos por mais um tresloucado atentado terrorista, como o que ali teve lugar no início da semana.

No que respeita à questão que nos é colocada, somos de opinião que este é um assunto, como infelizmente podemos amiúde constatar, que cada vez mais está na ordem do dia e, por isso deve, naturalmente, ser objecto de reflexão, troca de ideias e debate.

Assim, os organizadores desta iniciativa que ocorrerá na principal região turística nacional – o Algarve – merecem uma saudação especial, pois não é evitando falar dos problemas que eles deixam de existir. Antes pelo contrário. Situações (potencialmente) reais exigem respostas efectivas, e para que as mesmas possam ser encontradas e dadas é fundamental reflectirmos em conjunto. E quanto mais alargado for esse debate, melhor.

No entanto, deve ter-se cuidado para não colocar tudo no “mesmo saco”. Daí que os organizadores destas Jornadas tenham também (e bem) distinguido vários temas a abordar, já que, para a construção de qualquer destino turístico, é tão importante garantir a segurança alimentar e económica, quer no prisma da protecção do consumidor, quer no da sã concorrência, como as questões ligadas aos direitos humanos.

Neste particular, e a título de exemplo, permitimo-nos destacar a ampla discussão que está em curso no Médio Oriente, concretamente na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos, para a introdução de profundas reformas sociais, nomeadamente, na área da defesa dos direitos das crianças e das mulheres, a qual conta na linha da frente com a actividade turística, procurando tirar partido da ânsia de captação de turistas e da aposta no crescimento da economia do turismo, opções estratégicas de política que, como é do conhecimento público, os Governos daqueles Estados vêm prosseguindo.

Assunto diverso são as questões ligadas à segurança interna ou ao terrorismo. Não que estes temas devam ser excluídos do debate. Longe disso. É bom que todos estejamos mais conscientes e preparados para sabermos como actuar preventivamente ou no caso de sermos confrontados com uma qualquer fatalidade.

Assim, neste aspecto, o mais importante é a mensagem que é passada para o exterior. E quanto a nós é imperioso que ela seja de confiança, mas sem grandes alardes. Como nunca nos cansamos de repetir, a segurança não se promove, garante-se!

O turismo, enquanto principal actividade económica promotora da paz, da compreensão e da concórdia entre os povos, pode e deve assumir esse seu incontornável papel. Para seu próprio bem e para prosperidade dos seus múltiplos agentes mas, acima de tudo, para bem da humanidade.

Num momento em que tanto se fala e ambiciona que o nosso país possa assumir-se como um dos líderes do turismo mundial, aqui está uma excelente oportunidade para vincarmos a afirmação de Portugal na actividade turística e no Mundo.

 

O + da Semana:

Lá diz o povo no seu infinito saber: “depois da tempestade, vem a bonança”. E, de facto, assim parece. Portugal continua a receber e a somar excelentes notícias. A última das quais ocorreu na passada segunda-feira, com o anúncio da decisão da Comissão Europeia em recomendar ao Ecofin – Conselho de Ministros das Finanças da União Europeia – a saída do nosso país da situação de “Procedimento por Défice Excessivo” (PDE), onde nos encontrávamos desde 2009. Embora já fosse previsível que tal viesse a acontecer, em face dos resultados globais obtidos em 2016, nomeadamente, a redução do défice orçamental para o valor mais baixo deste século, convirá salientar que esta recomendação também teve em consideração as previsões económicas para os anos seguintes. Ora, isto significa que os esforços e sacrifícios feitos pelos portugueses, mesmo quando injustos, excessivos ou desequilibrados, valeram a pena. Mas quer dizer ainda mais, uma vez que esta situação (a confirmar-se como tudo indica) poderá conduzir-nos a uma reclassificação pelas agências de “rating”, possibilidade que terá como principal consequência a nossa saída da categoria “lixo”, o que motivará com que sejamos olhados internacionalmente com menor cepticismo, ou seja, com que as taxas de juro que pagamos para nos financiarmos desçam. Claro está que os nossos problemas não terminaram. A dívida pública nacional ainda está longe da meta dos 60% do Produto Interno Bruto (PIB) fixados pela União Europeia, razão pela qual deveremos conter qualquer euforia. De igual modo espera-se que o bom senso prevaleça e que não haja aproveitamento político desta vitória, porque ela não é pertença deste ou daquele Governo, mas do país, isto é, de todos e de cada um de nós. Por tudo isto, o que importa agora é começar a traduzir esta boa nova num novo ciclo, em que a confiança e o investimento, em que a consolidação orçamental e a progressiva redução do défice, em que o crescimento económico e o emprego, sejam o centro das nossas prioridades, tendo sempre bem presentes os erros passados, para que construamos um futuro colectivo mais risonho.