iTurismo: Os Animais Não Merecem!, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje o destaque vai para um tema que está na ordem do dia e que tem gerado polémica: a legislação que autoriza a entrada de animais de estimação nos estabelecimentos de restauração. Atilio Forte tece comentários sobre as acções de solidariedade social que as empresas de turismo têm levado a cabo, nomeadamente para com as regiões atingidas pela catástrofe dos incêndios no Verão passado. 

 

Tópicos da Semana:

  • Zonas comuns fazem os hotéis sobressair: De acordo com Kristian Valk, CEO da Hotelchamp (empresa dedicada à promoção de vendas directas na hotelaria), uma escorreita apresentação online das facilidades oferecidas por qualquer hotel, nomeadamente, espaços comuns atractivos, pode ser um factor determinante no aumento das reservas quando devidamente feita junto dos potenciais hóspedes. Por isso, divulgar correctamente essas zonas durante o processo de decisão do cliente deve estar no topo das prioridades dos profissionais do sector.

 

  • Restauração pode atrair mais clientes aos hotéis: São cada vez em maior número os especialistas que afirmam que os hoteleiros necessitam olhar um pouco mais para além dos seus tradicionais hóspedes quando abrem um restaurante, devendo ter a noção de posicionarem aqueles espaços como montras de excelência gastronómica – que por mero acaso localizam-se em hotéis – de modo a atraírem a comunidade local.

 

  • Continuará o futuro da hotelaria a ser risonho?: Foi sobre esta pergunta que se debruçaram os participantes na última Cimeira Americana de Investimento no Alojamento. E, apesar de a maioria ter concluído que 2018 irá ser um ano de continuidade dos bons resultados, muitos houve que manifestaram uma postura mais cautelosa, fundamentada no facto do sector poder estar perto de uma nova “bolha imobiliária”, uma vez que o mesmo já vai para o seu oitavo ou nono ano consecutivo de crescimento, algo nunca visto nas últimas décadas.

 

COMENTÁRIO

 

Turisver.com – Como é que olha para a polémica que está a gerar, tanto no sector da restauração como junto dos consumidores, a legislação que autoriza a entrada de animais de estimação nos restaurantes?

Atilio Forte – Tal como a maioria dos portugueses(as) este é um dos assuntos que, nas últimas semanas, temos acompanhado com interesse e, porque não dizê-lo, com alguma curiosidade. E temo-lo feito por duas grandes ordens de razões:

A primeira porque, nos tempos mais recentes, este foi dos raros processos legislativos que recolheu unanimidade na sua aprovação, por parte dos diferentes Partidos Políticos representados na Assembleia da República, o que, em nossa opinião, deixa transparecer a importância que todos eles atribuem a esta Lei. Pensar-se o contrário poria em causa a seriedade com que os mesmos encaram a responsabilidade de representação que, por todos nós, lhes foi conferida através da expressão do voto e isso, sinceramente e sem qualquer ponta de cinismo ou ironia, não nos atrevemos a fazer. Daqui o nosso interesse.

A segunda porque, todos já o percebemos, a esmagadora maioria da opinião pública – apesar de gostar de animais – não entende o alcance da Lei aprovada e, bem mais relevante, manifesta uma postura de grande incompreensão e alguma discordância com a mesma. Daí a nossa curiosidade.

Assim, ao que tudo indica, estamos perante um paradoxo, que resulta dos nossos representantes parecerem ter dado maior atenção ao sentir e à vontade da minoria dos seus representados, o que não sendo caso virgem é, no mínimo, original pela sua raridade.

Dito isto, vejamos então – ainda que sumariamente – o determina esta nova Lei:

Como é do conhecimento público, até agora os únicos animais que tinham permissão para entrarem nos estabelecimentos de restauração e bebidas eram os cães de assistência (vulgo, “cães guia”) que acompanhassem pessoas invisuais.

A partir do próximo mês de Maio esse acesso será alargado a todos os animais ditos de estimação ou companhia (vulgo, animais domésticos que vivem connosco), desde que o proprietário do estabelecimento sinalize essa permissão, através da aposição de um dístico à entrada, ficando ainda ao seu critério: a limitação do número máximo de animais deste tipo que poderão, em simultâneo, estar presentes no estabelecimento; a sua permanência em todo o espaço destinado aos clientes – é vedada a sua circulação nas zonas de serviço e nas áreas de exposição de alimentos para venda/consumo – ou, apenas, numa área parcial (devidamente sinalizada); a recusa do ingresso ou permanência aos animais que, pelas suas características, comportamentos, eventual doença ou falta de higiene, perturbem o normal funcionamento do estabelecimento. Para além destes aspectos é obrigatório que todos os animais aí permaneçam de trela curta ou devidamente acondicionados.

Ora para quem, como nós, alerta constantemente para a necessidade das empresas turísticas estarem incessantemente a inovar e a criar novos factores de diferenciação que as façam captar novos públicos, ou a especializar-se em segmentos ou nichos de mercado, através da construção e implementação de novos aspectos de atractividade, que potenciem o seu número de clientes, a aplicação desta nova Lei pode, em tese e em parte, responder a esse desiderato.

Aliás, esta até é uma das áreas em que o tecido empresarial, em geral, e o turístico, em particular, mais soluções vem apresentado. Basta vermos a quantidade de “hotéis para cães e gatos” que, ultimamente, têm a aberto portas; o aparecimento de canais de televisão específicos para que os animais não se sintam tão sozinhos, nos momentos em que os donos estão ausentes; o crescente número de unidades hoteleiras que incentivam os seus hóspedes a fazerem acompanhar-se, no decurso das suas estadas, pelos seus animais de companhia, acolhendo os mesmos com prazer e com as devidas condições; etc.; etc..

A ser assim, é legítimo que se pergunte: então onde é que reside o problema? Ou, porquê tanta polémica? Ou ainda, porque é que esta Lei está a gerar tamanha perplexidade?

Começando pelo lado mais óbvio, o dos animais, salientamos: muitas vezes a sua alegria em estarem perto dos donos, num ambiente que lhes é desconhecido, leva-os a terem manifestações que, embora traduzindo afecto, podem facilmente perturbar o local onde estão e incomodar terceiros; este tipo de animais é educado, normalmente, pelos seus donos, os quais nem sempre estão à altura da tarefa, o que origina comportamentos reprováveis por parte dos “bichanos”, sem que disso tenham qualquer culpa (afinal são irracionais); quando vários partilham o mesmo espaço, tal como acontece com os seres humanos, por vezes sucede não criarem empatia com outros – sejam ou não da sua raça – e, consequentemente, reagirem inusitadamente; finalmente, e para não sermos exaustivos, colocar animais em ambientes recheados de (suculentos) odores e com comida à vista, pode despertar-lhes reacções imprevisíveis, embora compreensíveis.

Depois temos o outro lado, o dos donos, do qual, para além da já referida questão da educação (ou falta dela) dada aos animais, sobressaem outros factores, como: a falta de prudência posta no cumprimento de alguns comportamentos cívicos e legais, de que constituem exemplos, a recolha dos dejectos largados pelos bichinhos na via pública, a ausência de trela e devida atenção na sua correcta circulação ou acomodação (consoante o aplicável a cada animal) e/ou a promoção da agressividade dos mesmos, seja como forma de exibicionismo, seja como factor de atemorização de terceiros; o pouco cuidado colocado na higienização dos bichos e na avaliação permanente do seu estado de saúde; e poderíamos continuar…

Por último, temos o lado dos proprietários dos estabelecimentos que, seguramente, acabarão por ver-se confrontados com algumas das situações acima descritas, tanto na incómoda posição de árbitros – entre donos e animais –, como em verem amiúde a sua autoridade questionada em face da obrigação de tomarem decisões mais drásticas (direito de admissão ou permanência nos locais de donos e animais, por exemplo), tendo de solicitar a presença das forças de segurança, como ainda em garantir o cumprimento de todas as normas de saúde, higiene e segurança alimentar num estabelecimento em que estão presentes animais e, portanto, onde facilmente pode ocorrer contaminação, como também terem de decidir/definir o que é que deve, ou não deve, ser considerado como sendo um animal de estimação ou companhia.

E, quanto a nós, este último particular é um dos aspectos menos claros da Lei, já que há quem entenda que não são apenas os cães e os gatos que nela se enquadram. Todos temos familiares, amigos e conhecidos com diferentes animais de estimação ou companhia, desde aves a cobras, de ratos a iguanas, de porcos a aranhas, para já nem referir outros de maior porte…

Dir-nos-ão: mas seja em que caso for os proprietários de estabelecimentos de restauração e bebidas têm sempre a faculdade de escolher, nomeadamente de não permitirem o acesso a animais!? É verdade. E por isso acreditamos que a sua adesão a esta possibilidade legal será diminuta (para não dizer rara), por todos os motivos e constrangimentos expostos.

Só que a ser verdadeira esta nossa percepção, é legítimo que nos interroguemos: então qual a finalidade de quem legislou e de quem deu a sua concordância à Lei? Seria a mesma necessária? Não existirão muitos outros temas mais carenciados da atenção – e do acordo unânime! – dos nossos representantes na Assembleia da República? A resposta afigura-se-nos clara.

Para concluir, esperamos que o “feitiço não se volte contra o feiticeiro”, pois na ânsia de tanto querer proteger e dignificar os animais de companhia e estimação, o legislador ter-se-á esquecido que por detrás de cada animal existe e está (pelo menos) um ser humano que, voluntária ou involuntariamente, pode motivar comportamentos erráticos por parte dos bichos que, mais do que multas e processos em tribunal, pode conduzir, em situações extremas, ao seu (inocente) abate.

E para todos quantos, como nós, verdadeiramente gostam de ter por companhia um “fiel amigo”, só nos ocorre pensar e dizer: os animais não merecem (esta Lei)!

 

Turisver.com – As empresas do turismo têm-se mostrado solidárias com algumas questões sociais, como aconteceu o ano passado face à catástrofe dos incêndios. Na sua opinião, as empresas turísticas poderiam ainda fazer mais?

Atilio Forte – Aqueles que nos acompanham com maior frequência sabem bem que este é um dos aspectos a que procuramos dar destaque, sempre que possível, valorizando e creditando os méritos a quem os tem. Felizmente, está em crescimento o número das entidades ligadas à actividade turística que, no nosso país, desenvolvem as mais diversas acções de solidariedade e não apenas quando existem situações de catástrofe, como as ocorridas nos últimos anos com os incêndios.

Desde ajuda alimentar, à doação de mobiliário, a roupas de cama, a atoalhados, passando pela recolha de donativos e organização de eventos de angariação de fundos, até à recente colaboração para a reflorestação da Região Centro, constatamos existirem múltiplas iniciativas, sempre feitas com total espírito altruísta e fazendo jus ao que de mais importante a actividade turística tem: as pessoas.

Não obstante esta natural constatação de crescente solidariedade, estamos no domínio de uma área onde, querendo, muito mais e melhor pode sempre ser feito, mesmo quando em menor escala, sobretudo ao nível das comunidades locais, procurando com pequenos gestos intervir na melhoria das condições de vida das pessoas, do ambiente, da educação, da saúde, da preservação dos usos e costumes, entre tantos outros factores.

E numa altura de transição como aquela por que passa a actividade turística, na qual o “viver das experiências” está a ser substituído pelo “sentir das emoções”, valerá a pena começar a pensar-se no envolvimento dos próprios turistas nas acções de solidariedade que se planeiem, possibilitando-lhes a elas aderirem e, principalmente, a nelas participarem.

Isso não só constituirá uma motivação acrescida para aqueles que nos visitam como, principalmente, levará a que criemos elos mais sólidos – de fidelidade – com os que escolhem vir até nós. Ao fazê-lo, valorizamo-nos enquanto destino e acautelamos o futuro.

É também por isto que o turismo muitas vezes é definido como uma actividade feita por pessoas, para pessoas!

 

O + da Semana:

A propósito de inúmeras temáticas temos procurado sublinhar a crescente consciência ecológica e ambiental que os diferentes agentes da actividade turística têm vindo a adquirir, seja por compreenderem – porventura melhor do que ninguém – a imperiosa necessidade de preservação do (nosso) Planeta Azul, seja porque esta também é uma das principais preocupações manifestadas pelos seus (potenciais) clientes, em particular, e pela sociedade em geral. Certamente que estas são duas das razões pelas quais as boas práticas que visam a sustentabilidade e a preservação do meio ambiente ganham cada vez mais adeptos entre o tecido empresarial turístico. Mas, mais importante, é o aumento significativo do número de pequenos gestos que concorrem para este desiderato, como o iniciado há pouco menos de um ano por vários hotéis do Estado Americano do Havai – entretanto alargado/adoptado um pouco por todo o Mundo –, os quais estão determinados em acabar com as palhinhas de plástico que habitualmente acompanham as bebidas, substituindo-as por outras de papel, que permitem a sua mais fácil reciclagem e, por isso, não são tão agressivas para o meio ambiente. Simbólicas e (aparentemente) quase irrelevantes medidas como esta demonstram os valores empresariais defendidos, captam facilmente a adesão dos consumidores e contribuem para a construção de “habitats” menos poluídos.