iTurismo: Os Euros da Eurovisão, por Atilio Forte

O impacto do Festival  da Eurovisão no Turismo de Lisboa e de Portugal, bem como a necessidade de uma maior participação do sector privado em iniciativas como o Fórum Vê Portugal, que analisa o turismo interno, são os temas que o comentador Atilio Forte destaca no iTurismo desta semana, ao mesmo tempo que analisa o potencial do mercado chinês.

Tópicos da Semana:

  • As tendências que estão a redefinir a actividade turística: Actualmente, o turismo está sujeito a ter de efectuar constantes adaptações para melhor se posicionar junto dos consumidores. Contudo, de entre todas, existe o sentimento na comunidade turística que o “bleisure” – combinação de viagens de negócio e de lazer – e a possibilidade de fazer reservas através de dispositivos móveis são as duas que, a curto prazo, mais moldarão o “rosto” do turismo.
  • Hotéis devem pensar para além do Instagram: Pelo menos esta é a opinião dominante entre decoradores, designers e arquitectos, contrariando a tendência que se tem vindo a verificar dos hotéis conceberem determinados espaços visando momentos “instagramáveis”, uma vez que, passada a “euforia” da novidade, há o risco das unidades ficarem “presas a verdadeiros monos”, por deixar de existir motivação para os hóspedes continuarem a incluir as imagens captadas, naquela rede social.
  • Para os que buscam evasão (quase) plena: A projectada Arizona Station (hotel espacial) já se encontra a aceitar reservas a partir do início de 2021. No total, o hotel vai ter capacidade para acomodar seis pessoas. Aos potenciais interessados adiantamos que o (módico!) preço será de 9,5 milhões de dólares por cada turista espacial.

 

Comentário:

Turisver – Em Lisboa são esperadas mais de 100 mil pessoas para ver e participar no Festival  da Eurovisão, que deverá ter uma audiência superior a 200 milhões de telespectadores. A capital portuguesa beneficia da vinda de milhares de pessoas e de uma projecção nas televisões que em publicidade custaria milhões de Euros. No seu entender é em eventos como este que vale a pena investir?

 

Atilio Forte – Ao longo do tempo, e sempre a propósito da realização, em Portugal, de megaeventos com enorme projecção internacional que vimos salientando a importância dos mesmos, pois são inúmeras as repercussões que têm, particularmente nos meios de comunicação social “on e offline”, mas não só, como veremos adiante.

Aliás, vale a pena recordar que há cerca de um ano, quando o nosso país venceu, pela primeira vez, o Festival da Eurovisão, tivemos – ainda que de passagem – o ensejo de sublinhar que isso iria ser uma oportunidade de ouro para que nos pudéssemos promover além-fronteiras, dado tal atribuir-nos o estatuto de país organizador, em 2018.

E, de facto, podemos agora confirmar a correcção da nossa previsão, uma vez que esta 63ª edição do Festival da Eurovisão será, por um lado, a que mais países concorrentes irá reunir – 43 no total – e, por outro lado, a que chegará a um maior número de telespectadores (acima dos 200 milhões, como é mencionado na pergunta).

Por todos estes motivos deve enfatizar-se o muito que, sobretudo nas últimas duas semanas e na próxima, irá falar-se de Portugal, em geral, e de Lisboa, em particular, sem esquecer a “grande final” que terá lugar já no Sábado e onde se espera atingir o pico de audiência mediática.

Ora, dito isto, facilmente se constata o seu impacto e, consequentemente, que do ponto de vista turístico existe todo um vasto conjunto de razões que merecem ser objecto de análise e de destaque, motivo por que apenas nos deteremos naquelas que se nos afiguram como mais importantes:

Desde logo, como atrás referimos, pelo muito que se vai ver, ouvir e ler acerca do país e da cidade, não só por causa da competição mas, principalmente, pelas inúmeras notícias, entrevistas e demais cobertura que, inevitavelmente, acabará por ser dada ao destino que, seguramente, relevará aspectos tão diversos do dia-a-dia de todos nós, desde a nossa já afamada arte de bem-receber, à inolvidável gastronomia portuguesa, sem esquecer toda a herança e ligação marítima que possuímos – bem expressa na imagem gráfica escolhida para símbolo do evento –, bem como a riqueza do nosso património histórico, cultural e monumental, o clima ameno, e tantos, tantos outros factores, alguns até que por vezes desvalorizamos, mas que não irão passar despercebidos aos profissionais que fazem a reportagem do Festival e, obviamente, àqueles que vejam as suas transmissões, a ele venham assistir ou nele participem.

Tudo somado, seria impensável – e incomportável – levar a cabo uma campanha mediática/publicitária desta dimensão, seja pelas verbas em causa – muito acima das possibilidades de qualquer país e, por maioria de razão, de um como o nosso, onde ainda gastamos ou, melhor, (re)investimos tão pouco em promoção turística –, seja pelo envolvimento e interacção que gerará por parte daqueles que de algum modo se desloquem a Portugal devido ao evento e que, por certo, quererão registá-lo e gravá-lo para memória futura, tanto através de pequenos apontamentos, como de “selfies”, como ainda de momentos fugazes, os quais levarão para partilhar, com as suas famílias e amigos, quando regressarem a suas casas, ou que não hesitarão em colocar,instantaneamente, nas redes sociais, exponenciando as vivências, as experiências e as emoções que sentirão durante a sua permanência entre nós.

Tanto numa situação quanto na outra, são muitas (mesmo muitas!) as centenas de milhões de euros que uma campanha desta natureza vale!

Para além disto, também beneficiamos do consumo turístico, directo e indirecto, efectuado por todos quantos, em lazer ou em trabalho, vêm a Portugal por causa do Festival da Eurovisão, destacando que haverá casos em que as delegações dos países concorrentes, juntamente com os jornalistas que as acompanham, ficarão cerca de duas semanasconnosco.

Isso significa que todas estas estadas – das mais curtas, às mais prolongadas – terão reflexos noalojamento, na restauração, na animação, no comércio, nas visitas a monumentos, enfim, em todo um infindável rol de actos de consumo que, naturalmente, originarão muitos e muitos milhões de euros de receitas que por cá serão deixados e que contribuirão para gerar riqueza na globalidade do tecido empresarial nacional, tendo como consequênciao robustecimentoda nossa economia.

Um último ponto que gostaríamos de destacar prende-se com o mais que provável impacto que este evento terá, quer junto das populações dos países que nele participam, quer perto de franjas de audiência a que, normalmente, não é tão fácil chegar ou, se se quiser, seduzir.

Dos 43 países participantes, 42 situam-se na Europa ou, para sermos mais precisos, na Eurásia (a excepção é a Austrália), o que significa que Portugal, que a nossa oferta turística, vai chegar a um elevadíssimo número de potenciais consumidores de produtos e serviços turísticos situados em mercados que, genericamente, estão relativamente próximos de nós.

É bom que não nos esqueçamos que muitos dos nossos concorrentes, principalmente da bacia mediterrânica, estão em processo de recuperação e que o espectro do “Brexit” paira sobre o mercado britânico, situação que, globalmente, começa a afectar-nos e, por conseguinte, esta é uma oportunidade única para nos promovermos, para além dos mercados que nos são mais tradicionais e das próprias fronteiras da União Europeia, e para que os mesmos comprovem, do prisma turístico, o concentrado de diversidade que somos e possam sentir-se motivados a visitar-nos.

Finalmente, porque o Festival da Eurovisão é visionado por um público extremamente ecléctico, onde se incluem alguns milhões de pessoas que, do ponto de vista mediático – principalmente no que respeita à televisão –, restringem a sua audiência a filmes, séries ou telenovelas e, esporadicamente, a este tipo de acontecimentos, o que faz desta ocasião um momento único para que “tomem contacto” com Portugal e com o muito que temos para oferecer e, por essa razão, possam ser motivados a querer conhecer-nos mais de perto.

Assim, tanto na perspectiva da promoção turística junto de mercados mais tradicionais ou com potencial de desenvolvimento, como na variedade da tipologia de eventuais consumidores, este Festival vai possibilitar-nos passar uma mensagem e uma imagem fortes e, quase de certeza, ajudar a que nos coloquemos na sua lista de prioridades, até porque beneficiamos do impulso de, presentemente, ostentarmos o título de melhor destino turístico do Mundo. E, claro está, tudo isto pode trazer-nos mais turistas, logo mais receitas.

Portanto, e para concluirmos, este é sem sombra para qualquer dúvida um dos eventos em que vale(u) a pena investir. Só é pena que não o possamos organizar com mais regularidade porque, para isso, é preciso ganhá-lo…

 

Turisver – Decorreu esta semana o V Fórum “Vê Portugal”, um evento importante para o Turismo Interno. No entanto, quer em termos de participantes, quer em termos de oradores, notou-se uma nítida falta de empresários / investidores da área do turismo. Que comentário lhe merece esta situação?

 

Atilio Forte – Em primeiro lugar, é da mais inteira justiça que aqui felicitemos a organização deste Fórum pela realização de mais uma edição e, muito em particular, por ao longo dos anos o ter sabido tornar num evento incontornável no panorama turístico nacional, certamente muito graças ao facto de ser um dos poucos acontecimentos que se foca exclusivamente no mercado interno e, muito em especial, no debate em torno das ideias e propostas para que exista mais presença, qualitativa e quantitativa, da actividade turística no interior do país.

Reconhecido e dado o crédito a quem o merece, vale também a pena referir que o turismo é uma das poucas áreas da economia que, de forma mais rápida e eficaz, pode contribuir para atenuar – e até inverter – a preocupante situação de desertificação do interior, seja pela capacidade gregária e indutora (quase inata) de criação de riqueza que possui, seja pelo potencial de desenvolvimento (territorial, económico, social, cultural, etc.) que encerra, seja, ainda, porque é um dos instrumentos mais eficazes para contrariar, com sustentabilidade, a paulatina litoralização verificada nas últimas décadas. Isto sem esquecermos que a presença humana é um dos melhores garantes para a preservação ecológica, ambiental e patrimonial, já que a mesma é vital para prevenir e evitar tragédias como as que ocorreram no ano transacto.

Contudo, o turismo é uma actividade eminentemente privada e, por isso, as empresas – e os empresários – são os seus verdadeiros protagonistas, no fundo quem assume o risco de investir, quem mantém os negócios em operação, quem cria emprego, quem diariamente mais esforço e capacidades coloca (literalmente) no terreno para captar mais clientes/turistas, pois são eles a maior e última razão de ser do seu negócio.

Assim sendo, e sem pretendermos de algum modo diminuir os elogios que começámos por sublinhar, em nossa opinião justifica-se plenamente que, tal como aconteceu nas primeiras edições deste Fórum, o tecido empresarial seja continuadamente chamado e estimulado a participar em força neste debate, uma vez que só dessa forma o mesmo poderá produzir resultados e alcançar os nobres objectivos a que se propõe.

Queira-se ou não, o turismo não se faz nem acontece por decreto do Estado através das suas múltiplas expressões (central, regional ou local). Ele tem a sua génese e frutifica pela iniciativa privada, razão maior para que a mesma tenha e deva estar sempre envolvida no desenhar da estratégia a prosseguir e, naturalmente, comprometida e empenhada com e no seu sucesso.

Mais a mais porque num passado recente, nos anos da “crise” e da “troika”, foi graças ao mercado interno que muitas regiões não colapsaram turística e economicamente e, também por isso, é bom que a memória de todos os agentes turísticos, sejam eles públicos ou privados, permaneça desperta para a sua importância, e todos, sem excepção, trabalhem em equipa e se esforcem continuadamente em busca de uma cooperação mais estreita, por forma a acarinhar e a manter a sua dinâmica.

 

O + da Semana:

Agora que já são conhecidos (praticamente) todos os resultados alcançados pelo turismo, nos diferentes países, ao longo do ano transacto, não podíamos deixar de aqui destacar aquele que é, presentemente, quer o maior mercado turístico do Mundo, quer um dos que revela maior potencial de crescimento: a República Popular da China. Assim, e durante 2017, os turistas chineses foram responsáveis por 136,5 milhões de viagens ao estrangeiro, tendo registado um total de gastos no exterior que ascendeu a 220,6 mil milhões de dólares. Números e valores impressionantes, sem dúvida. Contudo, muito maior é o impacto quando consideramos as deslocações feitas pelos chineses dentro do seu próprio país. Aí atingiram 2,8 mil milhões de viagens – 20 vezes mais(!!!) do que as realizadas ao exterior –, as quais traduziram-se num gasto doméstico de 679,1 mil milhões de dólares (pouco mais do triplo gasto fora de portas!). Convirá também referirmos que 2017 ficou marcado pela inauguração da ligação aérea directa entre a China e Portugal, sendo que, por esse meio e de acordo com dados revelados pelo INE – Instituto Nacional de Estatística, entraram em terras lusas – através do aeroporto Humberto Delgado – 256.735 turistas chineses, o que significou um crescimento homólogo de quase 41%.