iTurismo: Os (evitáveis) Excessos da Oferta, por Atilio Forte

As reservas antecipadas vs. as campanhas de última hora, o excesso de oferta no mercado as dificuldades operacionais do aeroporto de Lisboa são questões abordadas por Atilio Forte no iTurismo de hoje, em que comenta também a recente campanha promocional de Portugal em Nova Iorque baseada na “maior onda do mundo” e a mudança da sede europeia da World Surf League para Lisboa.

 

Tópicos da Semana:

Turismo renasce no Egipto (e em força!): De acordo com a STR – empresa de estudos e pesquisas de mercado – a taxa de ocupação hoteleira no primeiro quadrimestre do ano subiu 21,2%, com a receita por quarto disponível (vulgo, RevPAR) a dar um salto de 35,5%. Assim, tudo leva a crer que os piores “tempos turísticos” já terão sido ultrapassados, neste país da África Setentrional.

 

Empresas de turismo da Austrália apostam na captação de talento: Os agentes económicos privados que actuam na actividade turística estão profundamente empenhados em atrair trabalhadores jovens e qualificados para o país, dado que a Austrália passa, presentemente, por uma “crise de talento”, em razão do forte crescimento turístico que tem vindo a registar. A título de ilustração vale a pena referir que só a área de Sidney tem cerca de 10.000 quartos de hotel prestes a abrir.

 

Últimas tendências enfatizam os bares dos “lobbies”: A esmagadora maioria dos gestores hoteleiros destaca a importância do design, um grande foco na oferta de comidas e bebidas (F&B) e um elevado nível de personalização, como as tendências mais importantes a que é preciso estar atento aquando da construção/renovação/decoração dos tradicionais bares localizados nos átrios de entrada dos hotéis.

 

Comentário

Turisver.com – Estamos a iniciar a época dos charters que levam os portugueses a fazer férias lá fora e, tal como aconteceu o ano passado, o aeroporto de Lisboa deverá representar alguns problemas para estas operações. Por outro lado os portugueses estavam já a ter como hábito fazerem reservas antecipadas, mas este ano o aumento da oferta, com os inerentes preços de última hora podem deitar por terra esta estratégia dos operadores e penalizar as agências que são, basicamente, comissionistas. Como olha para estas questões?

Atilio Forte – Esta é, inquestionavelmente, uma excelente pergunta pois encerra um vasto conjunto de situações, para algumas das quais já tínhamos alertado em anteriores comentários, que podem ter reflexos na forma como os consumidores se irão posicionar – sobretudo ao nível da satisfação e da postura perante as marcações antecipadas (pré-reservas) – não só neste Verão (que hoje se inicia) como, também, em anos futuros e que decorrem, quase todas, quer de uma atitude demasiado optimista relativamente ao comportamento do mercado nacional quer, ainda, de decisões de gestão nem sempre bem ponderadas que, em ambos os casos, redundam num excesso de produto ou, se se quiser, de oferta por parte dos operadores turísticos que actuam em Portugal, principalmente quando os programas compreendem a realização de voos fretados (vulgo, charters). Senão, vejamos:

Como todos estamos recordados, o ano passado já tinha sido problemático ao nível da utilização do aeroporto de Lisboa, com vários casos que redundaram em atrasos – por vezes com significado – os quais, consequentemente, levaram muitos clientes a reclamarem seja junto das agências de viagens onde adquiriram os programas, seja junto dos próprios organizadores dos mesmos (operadores turísticos).

Ora, tomando em consideração o assinalável aumento de tráfego aéreo que se tem vindo a verificar, bem expresso nos resultados turísticos que o país vem obtendo e na incapacidade de resposta, a todos os níveis de serviço, do Aeroporto Humberto Delgado, era (e é) mais do que previsível que as dificuldades para a “época alta” de 2018 fossem acrescidas. Talvez por isso não surpreenda que, durante o presente mês, já tenham existido operadores turísticos a recorrerem ao aeroporto de Beja – que passados sete anos (!) e o investimento de algumas dezenas de milhões de Euros acabou por ter, finalmente e ainda que de forma residual, alguma utilidade… – para a realização de partidas, nomeadamente, com destino às Ilhas Canárias.

O problema é que, na maior parte dos casos, os clientes e as agências de viagens vendedoras não foram alertados para este facto aquando da reserva ou compra das viagens, só o tendo sido com poucas semanas de antecedência, o que, não obstante os custos das deslocações Lisboa/Beja/Lisboa serem suportados pelos organizadores, não deixou uma boa imagem junto dos consumidores, pois a esmagadora maioria já tinha procedido à marcação do seu período de férias, estando por isso impossibilitada de o alterar e, portanto, ficando quase obrigada a aceitar essa “desagradável viagem suplementar”.

Assim sendo, tanto quem adquiriu as viagens, quer directamente aos operadores turísticos que as organizaram, quer através do circuito normal de distribuição (leia-se agência de viagens), como as próprias agências vendedoras/distribuidoras, que são quem responde perante o comprador, fica compreensivelmente apreensivo perante este estado de coisas e, mais importante, tende a abranger nessa atitude todos os operadores turísticos e não apenas aqueles que foram responsáveis por essas alterações.

Paralela e simultaneamente têm-se verificado outro tipo de mudanças – com consequências semelhantes –, principalmente ao nível do preço final a pagar, que também devem ser sublinhadas, até devido ao impacto futuro que podem vir a ter. Referimo-nos, por um lado, às sucessivas promoções que vêm sendo feitas no decurso das últimas semanas e, por outro lado, à oferta de produto igual a preço diferente, dependendo do operador turístico que organiza a viagem.

No que respeita à primeira situação, as “ofertas especiais” de última hora (leia-se baixa de preços) levadas a cabo pelos operadores turísticos, a mesma pode, no futuro, vir a configurar um efeito perverso, pois os consumidores nacionais começavam a dar mostras de um melhor e mais atempado planeamento das suas férias, traduzido na “pré-reserva e/ou compra” das viagens com meses de antecedência.

Acontece que, naturalmente, quem o fez pode agora ser confrontado com um “preço mais baixo”, o que expõe o mercado a um possível (e indesejável) “regresso ao passado”, onde as reservas eram feitas em cima da hora, exactamente à espera de pagar menos… Ou seja, esta “boa conquista” pode vir a perder-se num futuro próximo.

Nos casos em que a aquisição foi efectuada via agência de viagens, para além de esta ter de justificar-se perante o cliente (que lhe comprou mais caro, algo que entretanto ficou mais barato), em vendas futuras fica ainda confrontada com um valor mais baixo de comissão com o qual não contava, o que acabará por afectar os seus resultados de exploração.

Quanto ao segundo caso – produto igual a preço diferente – a questão é ainda mais complexa pois, para além de envolver o cliente e na maioria dos casos a agência de viagens vendedora, também engloba os próprios operadores turísticos, e faz sentir-se mais acentuadamente no produto Caraíbas (o caso mais paradigmático é o de Cuba), onde vários organizadores partilham um mesmo avião e propõem os mesmos hotéis. Só que o valor final é diferente, pois há operadores que oferecem um preço (significativamente) mais em conta do que outros?!

Mesmo considerando que integramos a União Europeia e somos uma economia aberta, logo sem entraves à livre concorrência, seja em defesa do consumidor, seja para um cabal esclarecimento do mercado, seja, ainda, para garantir que todos os agentes económicos exercem a sua actividade em pé de igualdade, julgamos que este é um caso em que os Reguladores – Turismo de Portugal e Autoridade da Concorrência – deviam debruçar-se, para dissipar qualquer dúvida que possa levantar-se acerca de práticas concorrenciais menos curiais.

Em conclusão, todos os casos aqui identificados (e tantos outros) poderiam ser evitáveis se o mercado não fosse inundado de oferta para a qual, em muitas situações, não existem suficientes clientes e, mais grave, que acaba por provocar total confusão entre quem compra, quem vende, quem organiza e, acima de tudo, pode acarretar reflexos nocivos para o futuro do turismo nacional, quer pela falta de capacidade de cooperação que alguns subsectores revelam, quer devido às repercussões, directas e indirectas, que pode provocar no comportamento dos consumidores e na vida das empresas. Por isso, e tal como diz o ditado: “tudo em excesso faz mal”!

 

Turisver.com – Portugal tem na Times Square, durante duas semanas, uma acção promocional que coloca os nova-iorquinos a “surfar” a maior onda do mundo. No lançamento desta campanha a World Surf League anunciou a mudança da sua sede europeia para Lisboa. Este é um indicador de que Portugal, num futuro próximo, pode ter nos turistas de surf patamares iguais aos que já conseguimos conquistar ao nível do golfe?

Atilio Forte – Antes de entrarmos na resposta à questão colocada, vale a pena referirmos o mérito desta acção promocional em Nova Iorque, tanto pelo seu factor apelativo, como pelo seu efeito mediático, principalmente num país onde o surf goza de um tão grande número de adeptos e praticantes. Aliás, não resistimos em aqui sugerir que tudo deverá ser feito para levar a mesma até à costa Oeste, nomeadamente para a Califórnia – Estado de origem dos Beach Boys e com enorme tradição na modalidade –, onde, de certeza absoluta, ainda terá mais impacto.

Por diversas vezes já aqui abordámos o sucesso que soubemos conquistar no surf e como o país, em geral, e alguns locais, em particular – de que a Nazaré e Peniche são, porventura, exemplos máximos – se têm empenhado em não deixar esmorecer qualquer oportunidade para se afirmarem junto da “comunidade internacional surfista”, enfatizando constantemente as nossas ímpares condições naturais para a sua prática, organizando impecavelmente provas do circuito mundial e europeu e conjugando todas essas valências com tudo o que tem contribuído para que nos tornássemos no “melhor destino turístico do Mundo”.

A anunciada mudança da sede para a Europa, Médio Oriente e África da World Surf League, de França para Portugal (a mundial está localizada em Burleigh Heads, na Austrália), é a prova e o reconhecimento da enorme qualidade do trabalho desenvolvido, ao longo de muitos anos, e a demonstração cabal de que quando nos unimos e empenhamos em torno de um projecto o sucesso acaba por ser inevitável.

Embora com perfis diferentes de consumidores e praticantes, o surf e o golfe têm muito mais em comum do que “à primeira vista” possa parecer, uma vez que são desportos que, em Portugal, podem ser praticados todo o ano e, mais importante, são-no sobretudo na denominada “época baixa”. Isso quer dizer que – como há décadas sucede com o golfe – o surf pode (já é, e ainda vai ser mais) vir a tornar-se num dos mais importantes produtos para atenuar os efeitos da sazonalidade.

Contudo, e tal como acontece com o golfe, também precisa de investimentos. E, neste particular, os relacionados com a formação e qualificação dos profissionais que a ele estejam ligados, principalmente àqueles que acolhem e acompanham os que nos visitam para a prática da modalidade, mormente no Inverno, os ligados à segurança, atentas as condições marítimas que por vezes se verificam e os que se prendam com a sustentabilidade ecológica e ambiental do destino, em razão das preocupações que caracterizam o “público-alvo” do surf, assumem lugar de destaque.

Por tudo isto cremos poder afirmar que se Portugal já é reconhecido como um dos melhores “destinos de golfe” do Mundo, igualmente começa a sê-lo no que toca ao surf, com a vantagem deste último nos poder abrir “as portas do Mar”, esse grande activo da nossa História, cultura e tradições do qual tão pouco partido temos tirado e que, (também) turisticamente, tanto nos pode vir a dar, num futuro próximo.

 

O + da Semana:

 

Na sequência de várias notícias vindas a público, a cerimónia de entrega das prestigiadas “Estrelas Michelin” do próximo ano, vai realizar-se em Lisboa (Pavilhão Carlos Lopes), estando a apresentação do evento prevista para o dia 25 deste mês. Naturalmente, que a captação deste importante acontecimento da área gastronómica é, quer para Portugal, quer para Lisboa, um feito marcante. No entanto, acima de tudo é uma justíssima e merecida homenagem à gastronomia portuguesa – e a todos quantos a ela se dedicam – que, é bom não esquecer, desde o início do século passou a estar classificada como “património cultural nacional”. Estando, na opinião dos turistas, entre um dos mais destacados factores de atractividade do nosso país – muitos há (como nós) que consideram que Portugal tem o melhor peixe e marisco do Mundo – a gastronomia portuguesa é uma das áreas em que, sem sombra de dúvida, mais evoluímos nos últimos anos, demonstrando uma capacidade ímpar de fundir a herança mediterrânica, com as nossas tradições e História, sem descurar a adaptação a uma procura cada vez mais sofisticada, exigente e, sobretudo, ávida de novidades que preservem a sua genuinidade original. Parece um paradoxo mas não é! A comprová-lo está o número crescente destas “afamadas Estrelas” que, ano após ano, os nossos Chefes e os nossos Restaurantes vêm conquistando. Resta referir que o “Grande Evento” terá lugar no dia 21 de Novembro de 2019.