iTurismo: O(Um) Novo Mundo, por Atilio Forte

O impacto nas empresas turísticas da substituição da redução da TSU pela descida no PEC, e a decisão de Donald Trump de proibir a entrada de cidadãos originários de sete países de maioria muçulmana nos EUA, são os destaques do iTurismo desta semana. Nos “Tópicos da Semana”, Atilio Forte comenta as razões do sucesso canadiano, a evolução do “fitness” nos hotéis, e as previsões para a região Ásia/Pacífico, enquanto no “O + da Semana” a atenção recai sobre a evolução do Porto de Leixões.

Tópicos da Semana:

  • As razões do sucesso canadiano: O Canadá tem visto o seu número de turistas aumentar significativamente, sobretudo devido ao grande crescimento que o mercado dos Estados Unidos da América tem vindo a registar. A desvalorização do dólar canadiano e as fortes campanhas promocionais recentemente levadas a cabo pela “Destination Canada” (organismo oficial de turismo do país) para atrair fluxos transfronteiriços, são os dois grandes motivos que justificam este êxito.
  • A evolução do “fitness” nos hotéis: Esta é uma das áreas que está a deixar de ser encarada pelo sector como mais uma facilidade/comodidade disponibilizada aos hóspedes, para passar a ser uma prioridade, o que tem feito com que a hotelaria, em geral, venha “cavalgando a onda” do bem-estar, tanto físico, como de uma vida mais sã, através de melhores instalações para a prática de exercício – oferecendo e/ou contemplando múltiplas aulas (assistidas) – e ementas mais saudáveis.
  • Previsão para a região da Ásia/Pacífico: A esmagadora maioria dos peritos antecipa que, em 2017, esta região do globo será alvo de um importante aumento do investimento no sector da hotelaria, considerando que a Austrália, a Nova Zelândia e o Japão estão na “pole position” para o atraírem. E a China – ou os chineses – como grande exportadora de capitais e principal “compradora” já revela enorme atenção a tudo o que se irá passar nesses três países, especialmente na Austrália onde está prestes a tornar-se no primeiro mercado emissor de turistas.

 

Comentário:

Turisver – O Presidente norte-americano Donald Trump assinou um decreto presidencial que prevê a proibição indefinida de entrada de refugiados sírios além de suspender a entrada de cidadãos originários de sete países de maioria muçulmana – Iraque, Síria, Irão, Líbia, Somália, Sudão e Iémen – independentemente de os cidadãos em causa terem vistos de residência ou turísticos para entrar nos EUA. Esta acção polémica está a afectar o turismo e em especial as companhias aéreas. Como olha para estes acontecimentos?

 

Atilio ForteOs nossos leitores estarão certamente recordados que, quando aqui avançámos com as perspectivas respeitantes ao presente ano, definimos 2017 como o “ano de todas as incertezas”. Não o fizemos em vão e muito menos de ânimo leve, mas tendo como pano de fundo tudo o que a nova Administração americana poderá trazer ao Mundo, caso cumpra integralmente com as promessas efectuadas durante a campanha eleitoral.

Esta foi também a grande razão porque nessa análise dissemos que o ano em curso se revestia de particular importância, pois tinha (e tem!) todos os “condimentos” para moldar a face do globo e, no mínimo, condicionar a sua evolução política, económica e social ao longo da próxima década (recorde-se que nos Estados Unidos da América (EUA) os mandatos presidenciais têm a duração de quatro anos, sendo que cada Presidente pode realizar no máximo dois).

Concordemos ou não com as medidas implementadas pelo Presidente Trump desde a sua tomada de posse, a 20 de Janeiro, uma coisa não podemos pôr em causa: a sua legitimidade democrática. É que ele foi livremente eleito pelos americanos (mesmo apesar das dúvidas existentes quanto a uma eventual “influência tecnológica” nos/dos resultados, que ainda está por provar) e de acordo com as normas e regras constitucionais pelas quais o país se rege, que configuram a possibilidade de um candidato com menos 3 milhões de votos do que o seu oponente (como foi o caso), acabar por sair vencedor do acto eleitoral, atendendo a que não estamos perante uma eleição directa e universal – como por exemplo acontece em Portugal –, mas diante de um cenário eleitoral indirecto, isto é, o voto popular serve para eleger os denominados “Grandes Eleitores”, em representação dos diferentes Estados Federais e, esses sim, é que têm a “capacidade” de votar directamente na eleição do Presidente dos EUA.

A grande questão é que desde a desagregação da ex-URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), espelhada na queda do “Muro de Berlim”, o Mundo passou a ter apenas uma superpotência – os EUA –, a qual assumiu para o bem e para o mal, sem qualquer contestação e muitas das vezes “a pedido”, o papel de “polícia do planeta”, a quem a esmagadora maioria dos países se “habituou” a pedir ajuda (económica, militar, etc.) sempre que dela necessitava, ou a considerar como “árbitro” válido quando em causa estava uma qualquer disputa com outro Estado.

É por este motivo que tudo o que ali se passa nos diz também respeito. E é igualmente por isso que, paradoxalmente, todos os dias assistimos a um desejo quase universal (se exceptuarmos os próprios cidadãos americanos, ou pelo menos uma parte deles), que o novo Presidente dos EUA não cumpra com o que prometeu durante a campanha eleitoral…

Se formos imparciais, temos que reconhecer a “perversidade” da situação, já que se há coisas que desacreditaram a política e os políticos aos olhos dos eleitores e que, de alguma forma, acabaram por influenciar o sentido de voto nesta eleição (tal como sucedeu com o “Brexit”, para apenas citar mais um exemplo), foi o incumprimento sistemático, por parte dos eleitos, das promessas efectuadas em período eleitoral.

Propositadamente fizemos este preâmbulo mais alargado, porque entendemos que ele contém argumentos indispensáveis, que não podemos deixar de ter bem presentes, para respondermos à pergunta que nos foi formulada.

É por demais óbvio que qualquer país, e os EUA não são excepção, tem todo o direito de proteger o seu território e as suas fronteiras, impedindo que nele entrem pessoas que possam fazer perigar a vida dos seus cidadãos ou praticar actos lesivos à sua segurança e bem-estar.

O que já não se entende é o modo como tal foi feito.De forma abrupta e, inclusivamente, abrangendo pessoas com visto de residência – já nem falamos dos vistos turísticos –, que trabalham nos EUA e aí têm família, criando um clima de aparente “estado de guerra”, estimulando sentimentos de revolta pelas injustiças que tal medida acarreta e, tão ou mais importante, originando ou alimentando novos e velhos ódios, nomeadamente os propalados pelo autoproclamado “estado islâmico”.

Ora, no que ao turismo respeita, e para além dos inúmeros problemas que tal de imediato causou em muitos aeroportos (americanos e, sobretudo, de outros países) e em várias companhias aéreas, quer porque não podem (e bem) furtar-se à autorização de embarque e transporte dos passageiros que compraram o seu bilhete e cumprem com toda a documentação exigida para a viagem, quer porque há situações em que tal colide com a composição das próprias tripulações – um dos efeitos da globalização é a liberdade de trabalho em países diferentes dos de nascença –, é muito provável que os impactos desta medida acabem por atingir uma maior magnitude, uma vez que, por um lado, corre-se o risco de um aumento da crispação internacional (envolvendo mais países do que os sete mencionados na pergunta) e, por outro lado, muitos potenciais turistas sentir-se-ão desmotivados em viajarem para os EUA, dado não terem a certeza de aí serem bem-vindos, devido à sua religião ou à sua origem/local de nascimento, por mais geracionalmente remota que esta seja…

Mesmo as viagens de negócios já estão a ser afectadas. Basta vermos a pronta reacção dos grandes conglomerados tecnológicos, sedeados em Silicon Valley, que pediram aos seus colaboradores que se encontravam no estrangeiro e que potencialmente pudessem vir a ser alvo da “cegueira” da medida, para de imediato regressarem aos EUA, pois não têm como garantido que essas pessoas, mesmo tendo visto de residência, contrato de trabalho válido e até família no país, não venham a ter problemas num futuro regresso.

Mas não nos podemos apenas deter nos fluxos turísticos para os EUA. Será bom que também consideremos o que poderá acontecer com os oriundos daquele país, uma vez que esta e outras decisões mais proteccionistas levarão a que os americanos prefiram o turismo interno, por temerem não ser bem recebidos no estrangeiro (e haverá locais em que o não serão, como no México, para não mencionarmos um qualquer país muçulmano) ou ficarem receosos do crescente sentimento antiamericano que, inexoravelmente, pululará um pouco por toda a parte.

Em suma, vemos todos estes acontecimentos com profunda apreensão e como um potencial “travão” ao escorreito desenvolvimento e crescimento que a actividade turística, com crises ou sem elas, tem vindo a revelar desde o início da segunda metade do século XX ou, dito pelas palavras daqueles que são menos optimistas, desde o final da II Guerra Mundial…

E mais. Não foram só os EUA que mudaram (ou estão nesse processo). O Mundo, tal como o conhecemos, também está em mudança. A Rússia pretende recuperar o seu estatuto de superpotência… A China defende a globalização… O ódio religioso recrudesceu… O terrorismo irrompeu pelo nosso quotidiano…

Pelo que dissemos, vale a pena pararmos, nem que seja por um instante, e pensarmos em tudo o que nos rodeia. É que, quer queiramos, quer não, foi (e é) este o Mundo que (todos) construímos!

 

Turisver – Depois do “chumbo” parlamentar, as Confederações Patronais aceitaram substituir a redução da TSU dos empregadores pela descida no Pagamento Especial por Conta (PEC). Na sua opinião as empresas turísticas perdem ou ganham com esta mudança?

 

Atilio Forte – Antes de respondermos, temos que dizer que as nossas previsões não se confirmaram quanto ao desfecho na Assembleia da República do acordo realizado em sede de Concertação Social. Como atenuante sempre podemos afirmar que nem mesmo Franz Kafka, nos seus mais labirínticos pensamentos, teria alguma vez sido capaz de imaginar um cenário em que PSD, BE, PCP e PEV votariam lado a lado uma decisão desta índole. Mas o facto é que tal aconteceu…

Indo directamente à questão, uma vez que há duas semanas aqui escalpelizámos o assunto, somos de opinião que a substituição da descida da Taxa Social Única (TSU) pela do PEC não é mais, nem menos, do que um remendo pobre face ao que estava acordado, ou seja, é mesmo um Plano B (como ficou conhecido), sobretudo na perspectiva das empresas turísticas. E porquê?

Porque apesar da actividade turística contar com uma esmagadora maioria de micro e pequenas empresas – afinal aquelas a quem o PEC mais prejudica – é, simultaneamente, uma actividade económica de mão-de-obra intensiva e sazonal.

Ora era conjugação destes três factores (número elevado de micro e pequenas empresas, grande necessidade de mão-de-obra e sazonalidade) que tornava “aliciante” o acordo obtido, pois não apenas tinha impacto nos resultados económicos anuais das empresas, como estimulava e promovia o emprego, principalmente porque acabava por aligeirar os custos do “factor trabalho”, podendo nalguns casos contribuir mesmo para a transformação de contratos a termo certo – resultantes de picos da procura – por outros sem termo, mais a mais se tivermos em consideração as boas perspectivas de evolução do negócio turístico no nosso país.

Pode sempre dizer-se do mal, o menos. Contudo, e do nosso ponto de vista, há duas questões essenciais que parece terem sido esquecidas por todos quantos estiveram envolvidos quer na celebração do acordo, quer no seu “falhanço”.

A primeira tem a ver com a elevadíssima – quase insuportável – carga fiscal a que as empresas estão, na generalidade, sujeitas. Esta situação leva a que grande parte do tecido empresarial em vez de canalizar os seus resultados para mais investimento e, consequentemente, para a criação de emprego e/ou aumento dos salários, se veja na obrigação de os “entregar” ao Estado, o qual (ainda) é extremamente gastador e ineficaz na boa gestão e aplicação dessa riqueza.

A segunda prende-se com a tendência em querer dar o mesmo tratamento ao que não é igual, ou seja, olhar para todas as actividades económicas da mesma forma, não distinguindo das demais aquelas que, por exemplo, têm maiores necessidades de mão-de-obra e, por isso, mais emprego criam, como acontece com o turismo. Ou seja, não há qualquer discriminação positiva para quem mais emprega e mais riqueza cria!

Para além do que já dissemos, convirá ter presente que este “triste espectáculo”, a que o país assistiu no último mês, poderá ainda não ter terminado, a julgar pela recusa da UGT – União Geral de Trabalhadores em assinar a adenda ao acordo inicial que substituirá a baixa da TSU, pela do PEC, caso o outro Parceiro Social representante dos trabalhadores (a CGTP – IN, Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional) também não o subscreva na íntegra, o que significa que poderemos estar na iminência de um novo impasse.

Em conclusão, para o turismo o “Plano B” é menos favorável do que o acordado inicialmente, embora neste momento seja impossível prever se tudo, à excepção do aumento do Salário Mínimo Nacional (SMN), não acabará por ficar em “águas de bacalhau”.

 

O + da Semana:

Tudo indica que o porto de Leixões vá ter um excelente ano de 2017. A sustentar esta afirmação estão duas relevantes notícias. Em primeiro lugar, a relacionada com a recente nomeação do seu terminal de cruzeiros para o prémio de “Edifício do Ano”, na categoria de melhor edifício público, galardão promovido e atribuído pela “ArchDaily”.Recorde-se que o seu projecto, concebido por Luís Pedro Silva, já foi objecto de várias distinções, tais como: “Melhor Projecto Público”, pela revista Construir; “AZAwards”, prémio canadiano que anualmente distingue o que de melhor se faz no Mundo ao nível da arquitectura e do design contemporâneos; e, “Melhor Porto do Ano”, pela Seatrade Awards. Em segundo lugar, por ter sido conhecido nos últimos dias que já se encontram confirmadas 107 escalas de navios de cruzeiro (+ 27% que em 2016), que trarão cerca de 105.000 passageiros à região (+ 46% que no ano transacto), sendo 14 delas respeitantes a novos navios de cruzeiros – onde se destacam as 10 novas escalas da Royal Caribbean International –, nas quais se incluem as de 2 novas companhias (Aida Cruises e Viking Ocean Cruises). Após o recuo verificado em 2016, tanto no número de passageiros (-9%), como no número de navios (-1%), antevê-se que sejam batidos os resultados de 2015, até agora o melhor ano de sempre na actividade de cruzeiros daquele porto.