iTurismo: Quem Paga É o Turismo, por Atilio Forte

A definição de viagens experienciais, as ementas de época nos hotéis e a figura do “mordomo do Instagram” são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje em que Atilio Forte destaca como “O + da Semana” uma iniciativa de apoio aos refugiados por parte de um hotel. O habitual “Comentário” versa sobre as verbas que a EMEL vai receber do Turismo de Portugal e o aumento dos pequenos furtos a turistas.

 

Tópicos da Semana:

  • Como se definem as viagens experienciais: Quantas vezes já ouvimos dizer que os turistas querem é experienciar? E será que já pensámos no que isso verdadeiramente significa? Aqui deixamos um modesto contributo: viagem experiencial é aquela que vai para além de simplesmente visitar um determinado sítio; tem a ver com uma completa imersão na região visitada; com a exploração da cultura local; com a procura de novas, excitantes e autênticas experiências; com o estabelecer uma ligação afectiva/sentimental com as comunidades locais; com o enriquecimento de quem viaja, pelo desenvolvimento do conhecimento e da compreensão não apenas do que rodeia o turista, mas também dele próprio.

 

  • O Outono traduzido em oferta de comidas e bebidas (“food & beverage”): Um pouco por toda a parte o Outono tem vindo a marcar presença na restauração dos hotéis, através da elaboração de ementas que incluem pequenos toques especiais, como coquetéis alusivos ao “Dia das Bruxas” (“Halloween”) ou pratos mais “reconfortantes”, isto é, mais de acordo com a Estação do Ano (excepto em Portugal onde o “Verão” parece persistir). Este tipo de oferta mais sazonal tem sido, ainda, alargado ao plano das experiências, por exemplo, com a realização de pequenos concertos ou acções de animação surpresa.

 

  • Já há hotéis que ajudam os hóspedes a manterem o estrelato nas redes sociais: Seja por vaidade, seja por necessidade de afirmação pessoal, esta é uma realidade incontornável do Mundo actual. Por isso, saber dela tirar o devido partido pode contar … e muito. Foi o que fez o Conrad Hilton Resort, situado na ilha de Rangali, nas Maldivas, ao criar uma nova função: a de “mordomo do Instagram”. Para quê? Simplesmente para aconselhar os hóspedes sobre quais os melhores locais e horas para (se) fotografarem, de modo a obterem apelativas e irrepreensíveis publicações (vulgo “posts”) nas (suas) redes sociais.

 

Comentário:

Turisver.com – A Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) vai receber 3,94 milhões de euros do Turismo de Portugal (TdP) em 2018, para o desenvolvimento de projectos de cariz turístico. Na sua perspectiva, faz sentido que verbas do TdP sejam distribuídas a entidades deste tipo?

Atilio Forte – Esta é, sem dúvida, uma excelente pergunta! No entanto, antes de lhe darmos uma resposta directa convirá, pela sua importância e contributo para a compreensão desta matéria, que salientemos dois aspectos prévios:

O primeiro para referir que as verbas que decorrem da cobrança – às concessionárias de zonas de jogo (casinos) – do Imposto Especial sobre o Jogo (IEJ) e são entregues ao Turismo de Portugal têm, nos termos da Lei, destino consagrado. Assim, e por ordem de grandeza, temos: 77,5% servem para financiar as actividades daquele Instituto Público no que respeita à promoção turística, à formação profissional no turismo e aos apoios e incentivos financeiros ao investimento no turismo; 20% são distribuídos pelos municípios que acolhem casinos dentro dos seus limites territoriais, com a finalidade de realizarem obras e investimentos de interesse para a actividade turística; e, 2,5% são destinados ao Fundo de Fomento Cultural.

O segundo para referirmos que, por tratarem-se de dinheiros que resultam da cobrança de um imposto, os mesmos fazem parte do erário público e, por essa razão integram, explicitamente ou não, o Orçamento do Estado.

À luz desta realidade isto significa que, naturalmente, todos os anos as autarquias que têm no seu seio casinos recebam a parte da respectiva contrapartida do IEJ que lhes cabe e a apliquem de acordo com a finalidade legalmente definida. No caso em análise, isso quer dizer que todos os anos a Câmara Municipal de Lisboa (CML) tem vindo a receber essas verbas.

Dito isto, e considerando que existe pouco escrutínio e informação sobre a afectação que as autarquias fazem destas receitas, não é difícil admitir-se que em anos passados a CML tenha transferido para a Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) parte dos valores a que tem direito, aceitando-se mesmo que alguns possam ter tido uma qualquer aplicação relacionada, directa ou indirectamente, com a actividade turística.

Portanto, até aqui nada de novo, embora fosse de enorme utilidade que se esclarecesse se tal aconteceu e, em caso afirmativo, enumerados quais os projectos daquela Empresa que foram, por essa via, financiados pelo seu accionista, a CML, e em que montante, atestando-se desse modo o seu interesse ou finalidade turística.

De acordo com o que apurámos e que corresponde ao que tem sido noticiado, a grande novidade presente surge com o facto de, por um lado, a CML já ter solicitado ao Turismo de Portugal que transfira uma parcela da “sua” verba respeitante ao exercício de 2018 – os tais 3,94 milhões de euros mencionados na pergunta – directamente para a EMEL e, por outro lado, que aquele Instituto Público o tenha aceite fazer sem, sequer(!), esclarecer qual a aplicação que aquele valor terá, uma vez que a própria EMEL ainda não definiu, nem aprovou, o seu Plano de Actividades e Orçamento para 2018.

Como o estimado leitor certamente já percebeu, obviamente que a justificação acabará por aparecer. No entanto, ela será feita a destempo e, mesmo que exista fundamento, a dúvida sobre tão enviesado mecanismo subsistirá sempre, facto que, convenhamos, era totalmente escusado.

Em nossa opinião, tudo isto prova o completo alheamento dos agentes turísticos relativamente à aplicação, utilização e, consequente, fiscalização da principal fonte de financiamento da actividade, o IEJ, e que podemos estar, tal como num passado longínquo e que críamos ultrapassado, de regresso “ao abuso e aproveitamento”, embora com cobertura legal, dos dinheiros gerados e destinados ao desenvolvimento do turismo.

E a consequência é só uma: quem paga (de uma ou outra forma) é sempre o turismo!

 

Turisver.com – O pequeno furto a turistas está a aumentar. Segundo dados da PSP, este Verão existiram,   em média, 27 furtos por dia a turistas, só no concelho de Lisboa. Em cidades turísticas como o Porto, Évora e Coimbra, ou no Algarve, o número de queixas de turistas por furtos de carteiras e em viaturas também tem aumentado. Como podemos estancar estas situações, é pergunta que alguns leitores colocam?

Atilio Forte – Apesar de Portugal ser um dos países europeus (e do Mundo) que tem uma taxa de criminalidade mais baixa, sobretudo no que respeita ao crime violento, os pequenos furtos e assaltos a turistas têm, de facto, aumentado.

Este estado de coisas deve-se, em grande parte, ao crescimento que a actividade turística tem vindo a registar nos últimos anos, com o consequente aumento de turistas, o que, por si só, leva a que “mais amigos do alheio” vejam neles alvos fáceis e apetecíveis, até porque a aparente segurança que o país lhes oferece, a par do natural relaxamento comportamental próprio de quem está de férias, também a isso induz.

Contudo, se é verdade que erradicar totalmente este tipo de situações é quase uma utopia, tal não pode significar que as aceitemos como uma inevitabilidade. É que se o fizermos, mais tarde ou mais cedo, outros e mais graves problemas levantar-se-ão e, esses sim, poderão prejudicar-nos seriamente enquanto destino turístico.

Por isso, e para além do natural reforço da presença física e visível das forças de segurança, enquanto elemento dissuasor, e da vigilância à paisana nos locais onde a aglomeração de turistas é mais significativa e onde são registadas maior número de ocorrências, que deve ser exigida por todos os agentes turísticos, é de igual importância que se actue preventivamente, alertando e despertando todos quantos nos distinguem com a sua visita para terem os seus bens em atenção, permanecerem vigilantes e tomarem um sem número de cuidados, que vão desde a distribuição dos valores e documentos, sobretudo do dinheiro, por várias partes do corpo, até não deixarem objectos “apelativos” dentro dos veículos, à vista de qualquer um.

Aliás, estes e outros cuidados são constantemente sublinhados pelos organismos policiais e, por essa razão, devem ser amplificados pela comunidade turística, de modo a tornar a mensagem mais eficaz.

Para além destes aspectos, quase de senso comum, seria também muito importante que as entidades turísticas estreitassem a colaboração e a cooperação com as forças de segurança e manifestassem disponibilidade para lhes transmitirem as suas preciosas informações acerca do comportamento dos turistas, uma vez que não só os conhecem bem, como em grande parte dos casos sabem, com antecedência, por onde eles vão andar, tornando assim mais fácil e eficaz a presença e actuação das mesmas, em situação de necessidade.

Finalmente, somos de opinião que, contrariamente ao que acontecia no passado, hoje em dia a visibilidade de qualquer força policial é bem vista pelos cidadãos, incluindo turistas, pois esse é um aspecto que, em vez de preocupar ou provocar desconforto, dá garantias e aumenta a confiança e o sentimento de protecção, mais a mais se tivermos em atenção actos mais violentos que têm ocorrido, nomeadamente atentados terroristas, um pouco por todo o Mundo.

Em suma, todos somos responsáveis e temos a obrigação de ajudar a prevenir a pequena criminalidade. Se o fizermos será sempre mais fácil controlar este fenómeno. Se nos empenharmos, poderemos contribuir, decisivamente, para a sua diminuição.

 

O + da Semana:

Um dos maiores dramas humanos a que temos assistido nos últimos anos é o dos refugiados ou, se se quiser, dos migrantes. São milhares os que arriscam a vida para fugirem das suas terras, seja por causa da guerra, seja pela extrema pobreza, seja porque os seus locais de origem/nascença nada têm para lhes oferecer. Nem sequer esperança, quanto mais um futuro! É por isso que particularmente a Europa afigura-se-lhes como a “terra prometida”. Contudo, os Governos Europeus não têm demonstrado capacidade para os acolher condignamente e, principalmente, integrar – nem vale a pena referir os que lhes têm “batido com a porta na cara”. Sendo que, por integrar, deve entender-se ajudar a construir um futuro, a reconquistar a dignidade pessoal e profissional, no fundo, promover uma verdadeira (re)inserção social. E não apenas dar um auxílio inconsequente, como se de uma esmola se tratasse, apenas para poder dizer-se que se é “muito humano”. Por outro lado, desde o início que se está em busca de uma solução global que, a cada dia que passa e pelo engrossar dos números, torna-se mais e mais difícil. Por todas estas razões, entendemos que há exemplos, por muito pequenos e ínfimos que sejam, que merecem o nosso destaque e que de alguma formam demonstram o contributo que, querendo, todos podemos dar e do papel que (mais uma vez) o turismo pode desempenhar, enquanto actividade económica da paz, da compreensão e da promoção da harmonia entre os povos. Assim, não podemos deixar de sublinhar a inédita parceria entre o Sheraton Hotel de Duchambé (capital do Tajiquistão) e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (UNHCR), com o objectivo de proporcionar, através de um programa piloto, uma oportunidade profissional no sector da hotelaria a migrantes afegãos e de outras paragens da Ásia Central, bem como a habitantes locais, ministrando-lhes cursos de formação nas várias áreas de funcionamento de uma unidade hoteleira, despertando-lhes o interesse pelo turismo e, simultaneamente, ensinando-os a competirem leal e qualificadamente no mercado de trabalho e, por essa via, reforçando, não só a integração de uns, mas a própria coesão social global da comunidade. É, sem dúvida, um pequeno passo, mas que pode mudar uma vida! Em síntese, um exemplo a replicar.