iTurismo: Palavras Sábias

A 45ª edição do Congresso da APAVT que se realizou na Madeira sob o tema “Turismo: Opções Estratégicas” e, por via deste evento, a hospitalidade madeirense espelhada na forma como todos os congressistas foram recebidos, são dois dos temas analisados esta semana. Atilio Forte tece ainda comentários sobre o estudo “Global Report on Women in Tourism”.

 

Entre Quinta-feira e Domingo passados decorreu no Funchal um dos maiores eventos anuais do turismo nacional, o Congresso da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo, onde estivemos presentes a convite da organização. Embora o evento não produza formalmente qualquer tipo de conclusões (o que é uma pena) em resultado das temáticas debatidas nos diferentes painéis, não podemos deixar de destacar uma ou outra das “palavras sábias” que aí foram proferidas, seja pela sua importância para o turismo português, seja por inequivocamente consubstanciarem opções estratégicas (afinal era esse o tema do Congresso) de toda a actividade seja, ainda, porque retomam ou corporizam muito do que, há mais ou menos tempo, alguns dos que reflectem e estudam em profundidade a evolução do turismo, entre os quais humildemente nos incluímos, vêm defendendo publicamente como factores estruturantes para o seu escorreito e saudável desenvolvimento.

Neste sentido, vale a pena relevar como primeira “ideia força” saída do Congresso o facto de o turismo ser uma actividade económica profundamente simbiótica, em que a interdependência entre todos os seus actores, independentemente da sua natureza (por exemplo: pública ou privada, ou do sector a que se dedicam ou em que se inserem) e/ou dimensão (maior ou menor), é a causa que está na origem do seu sucesso, dinamismo e, sobretudo, o segredo onde reside a sua robustez. Numa linguagem mais “terra-a-terra” dir-se-ia: todos precisam de todos, porque ninguém consegue ter sucesso a fazer tudo, sozinho e bem! Em suma, estamos perante a vivificação de duas velhas máximas: a popular “união faz a força”; e, a aristotélica “o todo é maior do que a simples soma das suas partes”.

Uma segunda mensagem a reter é que a relevância económica e social e a consequente importância (multifacetada) para o progresso da nação que o turismo detém hoje-em-dia não têm tradução em termos políticos, nem sequer grande peso ou influência no processo decisório, particularmente por parte do Estado. Isto significa que não obstante tudo o que a actividade tem feito pelo desenvolvimento do país, bem ilustrado nesta última década no contributo ímpar que deu para a nossa saída da “crise e da troika” e nos resultados económicos que Portugal actualmente apresenta, ela continua a ser encarada como algo secundário e, portanto, pouco prioritária e, também por isso, apenas sofrivelmente valorizada.

Finalmente, e nesta sequência, deparamo-nos com o terceiro aspecto que, em nossa opinião, aqui merece destaque e que se prende com o facto de a APAVT ter recuperado a defesa de uma ideia que na primeira metade da década passada integrava o “caderno de encargos do turismo” e que ainda hoje faz parte das convicções defendidas por muitos, entre os quais nos incluímos, que consiste na reunião debaixo de uma mesma Tutela (para nós Ministério) das áreas do turismo e dos transportes (em que o sector da aviação – transporte aéreo, infra-estruturas aeroportuárias, navegação, controlo, segurança e regulação aéreas – era e é o “parceiro” imprescindível).

 

Embora não sendo propriamente um tema que tenha marcado a semana que findou, não resistimos em aqui trazer algo que é sempre um bálsamo para quem se interessa pela actividade económica do turismo e por observar o comportamento da globalidade dos seus actores quando “chamados ao terreno”. Referimo-nos à afamada hospitalidade madeirense, que tanto “ensinou” ao restante país, e que por isso está na base dos êxitos e prémios internacionais que temos vindo a alcançar, particularmente nos anos mais recentes.

Ver como a Madeira e os madeirenses executam com tamanha mestria a arte de bem receber, por um lado, quase nos faz esquecer que apesar de sentirem e terem de lidar diariamente com os mesmos problemas e constrangimentos que o resto do país ao nível da formação e da qualificação dos recursos humanos, os mesmos “parecem passar ao lado” do quotidiano turístico daquele Arquipélago e, por outro lado, deveria obrigar a que todos quantos têm intervenção, directa ou indirecta, no “produto Madeira” se interrogassem sobre o porquê desta ser a única região de Portugal onde a actividade turística apresenta um decréscimo, em 2019.

 

Numa altura em que as questões ligadas à igualdade de género estão, cada vez mais, na ordem do dia vale a pena aqui destacarmos a apresentação da segunda edição do estudo “Global Report on Women in Tourism”, elaborado pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO) em conjunto com várias outras entidades parceiras, o qual revela que a actividade tem feito inúmeros progressos no que respeita a esta matéria.

De entre os pontos aí focados, os que merecem maior realce são: as mulheres representam, presentemente, 54% do total da força de trabalho do turismo, elemento que compara com os 39% de toda a economia mundial; embora ainda haja um longo caminho a percorrer, a diferença salarial na actividade turística entre mulheres e homens é menor (14,7%) do que a registada no total da economia (16,8%); e, no que respeita à presença de mulheres em lugares de liderança, o turismo oferece mais oportunidades do que qualquer outra área da economia referindo-se, a título de curiosidade, que 23% dos Membros dos Governos que tutelam o turismo são mulheres, enquanto em termos globais a sua participação nos Executivos baixa para 20,7%.

Para além destes aspectos o documento também enfatiza o quanto as mulheres têm conseguido superar os estereótipos de género que (ainda) existem, bem ilustrados por alguns exemplos, como sejam, a conquista recente e inédita da possibilidade de obtenção de licença para ser guia-turística em Marrocos, ou o facto da Associação dos Proprietários de Hotéis do Uganda ter uma mulher, pela primeira vez, à frente dos seus destinos.

 

Nota – Não é demais recordar que o endereço de email [email protected] continua ao dispor dos(as) nossos(as) leitores(as).