iTurismo: Património, Cultura e Saber, por Atilio Forte

A ligação das empresas turísticas às comunidades locais, as megafusões na hotelaria e as tendências na restauração para 2018 são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte elege como “O + da Semana” o prémio atribuído ao Turismo de Portugal pela OMT e a uma startup portuguesa, no decorrer da FITUR, em Madrid. No habitual comentário fala-se do Ano Europeu do Património Cultural e do CITUR – Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • A importância das empresas turísticas manterem uma ligação às comunidades locais: De acordo com a consultora internacional HVS – Global Hospitality Services as empresas que actuam na actividade turística, particularmente os hotéis, já entenderam que têm de ter mais do que apenas uma localização para oferecer, sendo por isso cada vez mais decisivo que demonstrem possuir uma forte ligação às comunidades locais, sobretudo se desenvolvem a sua actividade em destinos de forte atractividade turística como Ibiza, Amesterdão ou Barcelona. É que uma coisa é ser membro da comunidade e outra, completamente diferente, é ser parte integrante da mesma…

 

  • 2017 o ano das megafusões na hotelaria: Muitos são os gestores e especialistas que caracterizam o ano passado como aquele em que o sector hoteleiro assistiu a uma consolidação sem precedentes da actividade, concretamente devido às fusões entre a Marriott e a Starwood e a AccorHotels e a Fairmont-Raffles-Swissotel e, por essa razão, chamam a atenção para a forma como tal está a (re)formatar o negócio.

 

  • Tendências na restauração para 2018: De acordo com a americana NRA – National Restaurant Association o ano que agora começa irá incorporar várias grandes novidades na confecção alimentar desenvolvida pelo sector, de entre as quais destacam-se as seguintes três: diferentes cortes da carne; condimentos preparados “em casa”; e, pratos inspirados em “comida de rua”.

 

Comentário

Turisver.com – O Parlamento Europeu elegeu 2018 como Ano Europeu do Património Cultural. O Turismo não está englobado mas é inequívoca a importância do Património Cultural para esta actividade económica. Daí que os nossos leitores tenham perguntado se esta não será também uma oportunidade de promoção para Portugal?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que estamos perante uma boa decisão por parte das instituições europeias, uma vez que promover o património cultural é muito mais do que apenas preservar e divulgar a herança patrimonial, histórica e civilizacional dos países que integram a União Europeia (UE), já que também significa enfatizar toda uma multiplicidade de aspectos que ao longo dos anos – e, nalguns casos, dos séculos – contribuíram para que as várias Nações europeias forjassem uma identidade própria, se quisermos formas de ser e de estar únicas e distintas que sublinham, simultaneamente, quer os diferentes traços culturais de cada um dos seus Estados-Membro, quer a diversidade cultural oferecida no seu todo pela Europa dos (ainda) 28.

E é esta “igualdade na diferença” que internamente – por colocar todos os países num mesmo plano cultural – estimula a coesão europeia e externamente tanto fascina e atrai povos de outras regiões do globo.

Compreendem-se, assim, os objectivos gerais do Ano Europeu do Património Cultural 2018 (AEPC 2018), propostos no documento elaborado pela Comissão Europeia e adoptado pelo Parlamento Europeu que, de forma sintética, pretende:

  1. “Contribuir para a promoção do papel do património cultural europeu enquanto elemento central da diversidade e do diálogo interculturais;
  2. Potenciar o contributo do património cultural europeu para a economia e para a sociedade, através do seu potencial directo e indirecto;
  3. Contribuir para a promoção do património cultural como um elemento importante da dimensão internacional da União Europeia.” (sic. In Património Cultural, site da Direcção-Geral do Património Cultural).

Contudo, a actividade turística é hoje em dia uma realidade económica incontornável à qual a UE, presentemente e após décadas de alheamento, dedica uma crescente atenção. Certamente por isso não deverá estranhar-se que um dos objectivos específicos do AEPC 2018 refira expressamente: “promover estratégias de desenvolvimento local na perspectiva da exploração do potencial do património cultural através da promoção do turismo cultural sustentável” (sic. Idem).

Ora, sendo Portugal – para além de integrar a UE – o mais antigo Estado-Nação da Europa e, também, um dos países que mais fortemente contribuiu para a História do Mundo e em particular da Europa, graças à epopeia dos Descobrimentos, fará todo o sentido que saiba posicionar-se na linha da frente desta iniciativa, de modo a tirar o maior partido possível da incontornável influência que teve na História – sua, da Europa e do Mundo – e cujos vestígios patrimoniais e culturais (tangíveis e intangíveis) podem ser observados (não só, mas também) por todo o “Velho Continente”, mas cujo maior expoente reside dentro das suas fronteiras.

E se, por estas razões, estamos perante um excelente ensejo para nos promovermos “lá fora”, não podemos de alguma maneira descartar a oportunidade para “cá dentro” darmos um novo sentido (ou reposicionamento) ao nosso património e à nossa cultura, seja através de mais atenção por parte das políticas públicas, seja pelo despertar de uma maior consciência pelo lado da sociedade para a sua importância, seja no envolvimento das instituições (públicas e privadas) em acções que visem reflectir, debater e partilhar experiências com ele relacionadas, seja, ainda, para criar (ou reforçar) uma melhor articulação entre as diversas entidades a nível nacional, regional e local visando unir esforços, organizar e sistematizar informação, tantas vezes dispersa, e dinamizar novos projectos.

Se parte destes objectivos for alcançada, já terá valido a pena!

Para finalizar, resta-nos dizer que esperamos que o AEPC 2018 possa ser aproveitado, quer pela UE, quer por Portugal, como uma oportunidade ímpar para celebrar a cultura, promovendo iniciativas e actividades que criem uma maior ligação entre as pessoas e as comunidades com o seu património, com a sua cultura, com as suas tradições e com os seus saberes.

E, claro está, que os agentes turísticos desempenhem, com a excelência que lhes é reconhecida, o seu insubstituível papel de transformarem todas estas iniciativas, tal como o resultado de muitas outras, em produto, em investimento, em oferta turística passível de captar a adesão dos consumidores nacionais, europeus e de outras paragens.

 

Turisver.com – Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril está a levar a cabo vários investimentos. Um deles tem a ver com  o CITUR – Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo que vai ter um dos seus núcleos a funcionar nesta Escola. Pensa que com este Centro, que se dedica à investigação, as instituições que dão formação em turismo ficarão mais capazes de proporcionar a esta actividade económica o que ela necessita para fazer face a desafios futuros?

Atilio Forte – Antes de respondermos à questão que nos foi colocada não podemos deixar de aqui registar uma declaração de interesses, uma vez que temos presentemente o privilégio de leccionar na ESHTE – Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.

Dito isto, e ainda que de modo sumário, convirá recordar que no final de 2016 foi constituída a “Rede de Instituições Públicas do Ensino Superior Politécnico com cursos de Turismo”, entidade que engloba 19 instituições educativas com estas características com a missão, entre outras acções, de harmonizar a oferta formativa nelas ministrada e fazer os ajustamentos curriculares necessários de modo a melhor responder às carências do mercado de emprego, sendo nessa sequência ou, se se quiser como consequência da sua criação, que aparece o CITUR.

Vale a pena abrir um parêntesis para sublinhar que, presentemente, os Institutos Politécnicos são responsáveis por 95% da oferta formativa superior em turismo, com excelentes resultados, facilmente comprovados pelas elevadas taxas de empregabilidade alcançadas.

Ora com o crescente progresso da actividade económica do turismo (no Mundo e em Portugal), a mesma revela-se cada vez mais complexa e constantemente ávida de novas soluções, novas ideias, novos conhecimentos, os quais só podem ser obtidos através de melhor e mais aprofundada observação e investigação, tornando-se por isso fundamental uma maior proximidade entre quem está diariamente no terreno (empresas, instituições e outros organismos públicos e privados) e quem estuda e investiga.

Por todas estas razões impunha-se que os Institutos Politécnicos encontrassem uma solução mais robusta que impulsionasse o desenvolvimento da actividade turística, respondesse às necessidades de conhecimento dos diversos agentes turísticos e apetrechasse a constelação turística com argumentos científicos que lhe permitam fazer face aos desafios da competitividade e da inovação com que permanentemente está confrontada.

É com este propósito que nasce o Centro de Investigação, Desenvolvimento e Inovação em Turismo (CITUR), o qual, de acordo com os seus responsáveis, já reúne mais de 150 investigadores e, enquanto centro de investigação, integrará a FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia que, como se sabe, é a agência pública nacional para a ciência, tecnologia e inovação.

Em jeito de conclusão, se é verdade que o saber e o conhecimento são, porventura e como não nos cansamos de repetir, os maiores activos intangíveis que existem nos dias de hoje, não menos verdade é que o turismo tem prosperado em Portugal e dado um contributo ímpar para o progresso do país. E mais, estas áreas – a do conhecimento e a do turismo – não são estáticas. Muito pelo contrário. São extremamente dinâmicas.

Portanto, se queremos continuar a progredir na actividade turística, a vencer os desafios com que constantemente somos confrontados e a cimentar-nos como “potência mundial de turismo”, há que preservar, aprofundar, estimular, divulgar e afirmar o nosso “saber”, sem esquecer de o transmitir às gerações vindouras, aos que “amanhã” darão continuidade ao trabalho que actualmente fazemos.

 

O + da Semana:

Na semana passada teve lugar em Madrid mais uma edição da FITUR – Feria Internacional del Turismo, um dos principais eventos turísticos do ano à escala global, como provam os mais de 250.000 visitantes que recebeu. Para além da forte presença portuguesa e dos negócios realizados, houve dois acontecimentos paralelos ao certame que merecem um especial destaque: a atribuição, pela Organização Mundial do Turismo (UNTWO), do prémio “Inovação de Políticas Públicas e Administração” ao Turismo de Portugal, pelo projecto dedicado à formação em turismo TTT – Tourism Training Talent; e, a conquista pela empresa nacional “Mobinteg”, do prémio atribuído pela FITUR para “Melhor App Internacional de Turismo”, na categoria “Guia Turístico” à aplicação “SMIITY” (Smart Interactive cITY). Naturalmente, tanto um caso como o outro devem constituir motivo de orgulho para todos quantos dedicam o melhor si ao turismo e, muito mais importante em nossa opinião, demonstram com total clareza as crescentes capacidades (e qualidade!) que Portugal vem adquirindo na área de I&D (Inovação e Desenvolvimento) que, como é comummente reconhecido, é actualmente uma das mais importantes para a afirmação de qualquer destino turístico.