iTurismo: Peões de Xadrez, por Atilio Forte

O impacto que pode ter no turismo a “guerra” diplomática desencadeada pelo ataque com armas químicas, em solo britânico, ao ex-espião russo Sergei Skripal, e as acusações de não cumprimento das Leis Portuguesas por parte da Ryanair no âmbito da greve do pessoal de cabine da companhia irlandesa em Portugal, são os dois temas analisados por Atilio Forte no iTurismo de hoje.

 

Tópicos da Semana:

  • Transacções de hotéis na Europa em retoma: No ano passado o sector hoteleiro europeu assistiu a um significativo aumento do número de negócios fechados, o qual traduziu-se em mais 22% de transacções comparativamente a 2016, sendo que a compra e venda de unidades “avulsas” atingiu o maior destaque (+ 16%), com 323 propriedades a mudarem de mãos.

 

  • Quartos de hotel temáticos atraem miúdos e graúdos: Um pouco por todo o Mundo é crescente o número de hotéis que oferecem quartos decorados com algumas das mais famosas personagens, sobretudo de banda desenhada (mas não só!), de modo a captarem a preferência de crianças e adultos. Assim, e entre tantas outras, do Tintim à Barbie, dos Irmãos Super Mário à Hello Kitty, do Rei Leão ao Lego, passando pela série de ficção científica Star Trek ou pelo comediante Charlie Chaplin, não faltam propostas que avivem o imaginário ou apelem à nostalgia.

 

  • Poupança energética e sustentabilidade: O fornecimento da totalidade de energia necessária para o funcionamento do Iveagh Garden Hotel, que abriu as portas na capital da República da Irlanda (Dublin), no passado mês de Fevereiro, é efectuado através do aproveitamento da corrente de um rio subterrâneo, fazendo passar a sua água por turbinas. Graças a essa inovadora solução esta unidade, propriedade da família McGill, está a ser promovida como o primeiro hotel inteiramente sustentável da Europa.

 

Comentário

Turisver.com – O ataque com armas químicas, em solo britânico, ao ex-espião russo Sergei Skripal, desencadeou uma “guerra” diplomática. Pensa que esta situação pode vir a prejudicar o turismo?

Atilio Forte – Cremos que valerá a pena darmos duas notas prévias para melhor enquadrarmos a nossa resposta.

Uma primeira, para recordar o que aqui dissemos há pouco mais de um ano, quando perspectivamos 2017, tendo então referido: “o ano que agora começa poderá marcar o início daquilo que poderíamos apelidar por “nova ordem mundial”, ancorada no retomar da “Guerra Fria” mas, neste caso, mais de acordo com os contornos do final do século XV, quando Portugal e Espanha, através do Tratado de Tordesilhas, dividiram o Mundo, já que nesta segunda década do século XXI existe uma grande probabilidade de virmos a assistir à “partilha” do Mundo entre os Estados Unidos da América (EUA) e a Rússia”. Ora, da guerra na Síria, ao conflito israelo-palestiniano, passando pela instabilidade na Península da Coreia – para só darmos alguns exemplos – é exactamente a isso que temos vindo a assistir.

E uma segunda, para enfatizarmos aquilo que já é quase lugar-comum dizer-se, isto é, que o turismo é a actividade económica da paz, pois derruba fronteiras, junta povos e promove a compreensão entre os mesmos. Por essa razão todos os factos, acontecimentos ou alterações que concorram para a criação de instabilidade política, económica, social ou religiosa acabam, invariavelmente, por ter reflexos indesejáveis no seu escorreito desenvolvimento.

Dito isto, e no que em concreto se relaciona com o caso que nos é colocado, procuraremos fazer uma leitura sintética das suas repercussões e, simultaneamente, olhar para a posição portuguesa sobre o assunto, tendo sempre a actividade turística como pano de fundo.

Assim sendo, devemos começar por admitir a existência de uma corrente de opinião (maioritária) que, apesar de encarar a situação com preocupação – afinal tratou-se de uma tentativa de assassínio perpetrada num país estrangeiro com recurso à utilização de armamento militar/químico –, entende que a mesma deverá ser analisada no seio das instituições e organismos internacionais (que Portugal também integra), como sejam, a Organização das Nações Unidas (ONU), a União Europeia (UE) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) e, consequentemente, quaisquer medidas que venham a adoptar-se resultem das decisões tomadas, colegialmente, nesse âmbito.

Deste ponto de vista, considerando que tanto a UE como a OTAN/NATO já reagiram ao sucedido, de acordo com o espírito dos Tratados que as regem, nomeadamente, no que concerne às obrigações de solidariedade a prestar sempre que a soberania de um dos seus Estados-Membro é posta em causa ou violada, há o entendimento que o assunto deverá ficar por aqui e, naquilo que nos diz respeito, que o nosso país agiu em conformidade, ao validar as decisões tomadas no contexto daquelas instituições.

Isto apesar da severidade das mesmas que, não esqueçamos, motivou a maior expulsão de diplomatas de que há memória em tempos de paz, pois as medidas adoptadas por muitos países foram “igualadas” pela Federação da Rússia que, naturalmente, lhes respondeu na mesma proporção, após constatar que as suas declarações de inocência e desconhecimento sobre o sucedido não foram tidas ou aceites como credíveis.

A gravidade e a delicadeza da matéria fizeram com que o próprio Secretário-Geral da ONU apelasse à reactivação dos mecanismos de diálogo bilateral existentes durante a “Guerra Fria” (OTAN/NATO X Pacto de Varsóvia) que, como se sabe, foram paulatinamente desmantelados na sequência do desmembramento da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, por forma a evitar que uma escalada na tensão internacional possa, inadvertidamente, resultar em males maiores.

Para já, a maior consequência para o turismo desta “crise” teve tradução no intempestivo anúncio feito pela Rússia, ao desaconselhar viagens dos seus cidadãos para o Reino Unido, o que poderá ser visto como um indicador ou medida adicional a considerar num futuro próximo, para atingir outros países integrantes destas “alianças”, nas quais Portugal se inclui. “Aliados” esses que, por sua vez, tenderão a retaliar da mesma forma… Caso tal venha a suceder estaremos perante uma clara limitação da “liberdade turística” dos consumidores e, portanto, diante de um evidente prejuízo para a actividade.

Contudo, também é notória a existência de uma outra corrente (minoritária), mormente no plano nacional, defensora de medidas mais enérgicas do que as tomadas, sobretudo por considerar que tendo sido a Inglaterra o local visado nestes ataques e estando em vigor o Tratado Anglo-Português (vulgo Aliança Luso-Britânica), celebrado em 1373 – a mais antiga aliança diplomática do Mundo –, Portugal deveria ter sido mais incisivo nas acções adoptadas e, por maioria de razão, procedido como outros Estados que cumularam as decisões desencadeadas no seio das instâncias internacionais, com iniciativas próprias ao nível da sua política externa, concretamente com a expulsão de diplomatas russos (as quais, entretanto, já tiveram resposta idêntica por parte da Rússia), em vez de apenas se ter limitado a chamar para consultas o seu (nosso) Embaixador em Moscovo, se bem que, em termos práticos, tal signifique a suspensão das relações políticas, embora não das funções consulares (dado Portugal ficar sem representante oficial naquele país).

Não pondo em causa esta “velha Aliança” convirá que aqui recordemos que, historicamente, ela sempre funcionou mais em favor da Inglaterra do que de Portugal, como demonstram inúmeros episódios ocorridos ao longo dos séculos e que nos dispensamos de aqui trazer, pois estão plasmados em qualquer compêndio de história.

Equacionada que está a questão e alguns dos seus eventuais reflexos, somos de opinião que, lamentavelmente, este tipo de situações são paradigmáticas do Mundo em que vivemos fruto, por um lado, do frenesim da comunicação social para que todos os actores/intervenientes tomem posições “duras”, pois são elas que fazem as primeiras páginas (e vendem!) e, por outro lado, demonstram a fraca “qualidade” e capacidades dos actuais líderes políticos dado, na maior parte das vezes, não medirem quer o verdadeiro alcance das suas acções – “deixando-se ir com a corrente” –, quer o facto de as tomarem mais para satisfação dos seus egos pessoais e, até, dos calendários eleitorais, do que propriamente para a defesa dos interesses dos seus países e dos seus povos.

Em jeito de ilustração do que acabámos de afirmar, veja-se que, em plena “convulsão”, parece estar para breve (durante o próximo mês) um encontro entre os Presidentes dos Estados Unidos da América e da Federação da Rússia. O que, a acontecer, quase que atira para segundo plano a razão de ser da pergunta que nos foi posta, fazendo praticamente de conta que dela não existirão sequelas, até porque o interesse mediático já aí não residirá.

Para concluir e reconduzindo-nos ao estrito interesse turístico, seja nacional, seja europeu, seja mundial, o turismo nada ganha com este aumento do sentimento de insegurança e atitudes pró-belicistas – já não chegavam os atentados terroristas! –, com a criação de clivagens, antagonismos ou “novos muros”, que dividam, que separem e que limitem a liberdade de viajar, conhecer e confraternizar, transformando-nos em peões de um qualquer tabuleiro de xadrez jogado por “autoproclamados líderes mundiais”!

 

Turisver.com – As companhias low cost beneficiam de dinheiros públicos de vários países e Portugal não é excepção. A recente greve do pessoal de cabina da Ryanair no nosso País, acabou por levantar algumas questões sobre o cumprimento das Leis Portuguesas por parte da companhia irlandesa, em vários domínios. Como analisa esta situação?

Atilio Forte – Em duas palavras: com preocupação e estupefacção.

Preocupação porque, por um lado, este é mais um sinal da turbulência que a Ryanair atravessa no respeitante às relações com os seus trabalhadores (todos nos lembramos do sucedido no Outono passado com a questão dos inúmeros cancelamentos realizados, supostamente para, entre outras razões invocadas, dar descanso às suas tripulações) e, por outro lado, devido ao peso que aquela empresa detém no transporte de fluxos turísticos para o nosso país.

E estupefacção porque, não obstante todos estes alertas, ninguém parece muito interessado quer em verificar a existência de qualquer irregularidade laboral – só na passada segunda-feira é que a ACT – Autoridade para as Condições do Trabalho decidiu, finalmente, abrir um inquérito –, quer em obter reais garantias que os investimentos efectuados, nomeadamente através de dinheiros públicos, estejam não apenas protegidos como, tão ou mais importante, seja salvaguardada a continuidade da operação em e para Portugal por parte daquela transportadora.

E isto pode indiciar o pouco conhecimento que existe acerca do funcionamento do modelo de negócio das companhias aéreas de baixo custo (vulgo “low cost”), da legislação (internacional) ao abrigo da qual celebram contratos ou, pior, a falta de regulação e fiscalização por parte do Estado, nomeadamente no que toca ao assegurar que todos os agentes económicos, independentemente da sua dimensão e origem, tenham igual acesso ao mercado e nele actuem nas mesmas e exactas condições dos demais.

Aliás, convirá não esquecermos os prejuízos que acabámos por sofrer quando, no início de Outubro passado, uma outra companhia aérea de índole semelhante – a Monarch Airlines – abriu falência e deixou de operar de um dia para o outro. Não quer dizer que o caso possa repetir-se. Mas atenta a existência de tantos sinais a envolverem a Ryanair e o seu impacto turístico nalgumas regiões portuguesas, seria útil e avisado que tanto os seus responsáveis, como as autoridades do turismo nacional, tivessem uma palavra tranquilizadora acerca do assunto.

Mais a mais porque, independentemente da análise jurídica que possa ser feita a propósito das questões laborais agora levantadas pelos tripulantes de cabina portugueses, outros colaboradores da empresa de diferentes nacionalidades, mas que desempenham idênticas funções, também já vieram informar que poderão recorrer à greve para, em sua opinião, fazerem valer o que entendem ser os seus direitos.

Ora, uma nova sucessão de acontecimentos à escala global que afecte a normal operação da companhia, poderá colocar a empresa em situação muito difícil, seja no que toca aos seus resultados económicos (e eventual viabilidade), seja pela perda de credibilidade junto dos consumidores.

Portanto, todos ganharíamos muito com o rápido e eficaz esclarecimento desta situação e, se possível, com o fim destes sobressaltos.

 

O + da Semana:

No final da passada semana a prestigiada revista Forbes divulgou o resultado de uma pesquisa internacional, levada a cabo anualmente por um site especialista em expatriados – InterNations –, a qual analisou a opinião de cerca de 13.000 pessoas nessa condição, espalhadas por 65 Estados, e estabeleceu o Top 10 das nações mais hospitaleiras para estrangeiros que vivem e trabalham fora do seu país de origem, sendo digno de realce o primeiro lugar alcançado por Portugal – que subiu 6 posições relativamente a 2016 –, logo seguido de Taiwan, México, Cambodja, Bahrain, Costa Rica, Omã, Colômbia, Vietname e Canadá. Uma leitura mais detalhada deste inquérito revela o elevado índice de acolhimento do nosso país, com 79% dos respondentes a descreverem-nos como hospitaleiros, sendo que quase um terço (29%) diz possuir relações de amizade com portugueses. Porém, os factos que talvez mereçam maior destaque são: os 94% que elegeram Portugal como país com postura mais amigável perante os estrangeiros; os 58% que consideraram ser fácil fazer amizades connosco (portugueses); e, porventura o dado mais importante, os 47% que manifestaram vontade em por cá ficarem a viver o resto das suas vidas. Num Mundo, infelizmente, cada vez mais xenófobo e excludente, é bom que existam sociedades que contrariem essa tendência e, principalmente, que à frente de todos esses povos esteja o nosso!