iTurismo: Portugal: Destino Inteligente, por Atilio Forte

Hotéis e turismo do futuro, oportunidades de investimento nos Emirados Árabes Unidos e o aumento de preços nos EUA aquando da tomada de posse de Donald Trump são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte destaca como “O + da Semana” os resultados da aviação em 2016. O “Comentário” versa sobre a Conferência da OMT sobre Destinos Inteligentes e a mão-de-obra qualificada na hotelaria.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Imaginando os hotéis e o turismo do futuro: Um estudo levado a cabo entre a Hotels.com e o conhecido visionário James Canton (ex-executivo da Apple) identificou algumas das principais evoluções por que a actividade turística irá passar nos próximos dez anos. De entre elas destacam-se: o aparecimento de mordomos-robot, animação baseada em realidade virtual e utilização de neuro-tecnologia para tornar o sono mais retemperador, nos hotéis; viagens aéreas supersónicas; e, refeições gourmet preparadas de acordo com o ADN de cada hóspede/cliente.
  • Boas oportunidades de investimento podem aparecer nos Emirados Árabes Unidos (EAU): O valor dos hotéis tem vindo progressivamente a diminuir nos EAU, tendência que pode significar que bons negócios ou compras irão surgir no horizonte dos investidores. Por isso, muitos analistas perspectivam que as negociações para a aquisição de hotéis na região passem a ser mais morosas, o que motivará que os novos projectos criem um verdadeiro “engarrafamento” à espera que a “sua hora chegue”.
  • Tomada de posse fez disparar os preços em Washington: De acordo com a Trivago, durante a semana que foi marcada pela tomada de posse do novo Presidente dos Estados Unidos da América os preços dos hotéis na capital americana dispararam. A prová-lo está o valor médio/noite de um quarto duplo standard que atingiu os $2.071 USD, um aumento de 927%(!) face ao custo habitual.

 

Comentário

Turisver.com – A Organização Mundial do Turismo (OMT) vai realizar a 1ª Conferência Internacional sobre Destinos Inteligentes, com o objectivo de formar um modelo de turismo do século XXI, baseado em inovação, tecnologia, sustentabilidade e acessibilidade. Na sua opinião é este o caminho que se está a seguir em Portugal?

Atilio Forte – Antes do mais gostaríamos de sublinhar a oportunidade desta iniciativa da Organização Mundial do Turismo (UNWTO) pois, em nossa opinião, ela coloca o “dedo na ferida” sobre os aspectos mais estruturantes do turismo actual e, sem dúvida, daqueles que serão os grandes pilares de sustentação da actividade nas próximas décadas.

Como já tivemos oportunidade de referir tanto nestes comentários, como em diversas intervenções públicas, o turismo dos nossos dias – que comummente se designa por “Novo Turismo” – assenta naquilo que (há alguns anos) definimos como um “Trinómio” (palavra que então criámos), composto por três “T’s” (ver figura), os quais irão condicionar e moldar a forma e a dimensão desta actividade económica nos anos vindouros:

 

 

 

 

O transporte porque a mobilidade das pessoas cada vez será mais fácil e barata, fruto de sociedades mais abertas e de uma melhoria generalizada da qualidade, eficácia e custo do mesmo.

A(s) (novas) tecnologia(s) porque também ela está progressivamente mais barata, acessível e eficiente, contém e disponibiliza mais informação, o que permite um melhor conhecimento do consumidor (das suas preferências e dos seus gostos) e a construção de relações mais estreitas e duradouras entre o cliente e quem presta o serviço ou vende o produto.

E, finalmente, mas seguramente mais importante, o turista – ou melhor o “novo” turista, já que estamos no domínio do “Novo Turismo” – que resulta da sociedade-mosaico em que vivemos e que, enquanto consumidor, comporta-se como “multivíduo” (outra das palavras que concebemos), ou seja, alguém que num mesmo acto de consumo pretende/exige/quer fazer múltiplas aquisições e tem consciência do poder da sua decisão e dos impactos que a mesma gera na oferta (convirá termos presente que, ao contrário do que acontecia até ao início/meados dos anos ’90 do século passado, actualmente vivemos num novo paradigma no qual é a procura que tem preponderância sobre a oferta e quase sempre a determina).

Ora se é verdade que, de uma maneira geral e no que ao turismo respeita, Portugal demorou algum tempo a interiorizar e a transpor para a sua oferta as vantagens da incorporação e utilização da tecnologia, tal como a introduzir-lhe factores inovadores que, nomeadamente, a distinguissem, diferenciassem e agregassem-lhe valor, o facto é que nos últimos anos temos vindo a progredir a um bom ritmo, o que em parte se tem traduzido no aumento dos fluxos turísticos que, assim, têm correspondido ao “salto” qualitativo dos nossos produtos turísticos.

Contudo, já o mesmo não se poderá dizer quer da sustentabilidade, quer das acessibilidades. Senão vejamos:

No primeiro aspecto – o da sustentabilidade, não tanto no sentido ecológico e ambiental, pois aí vimos progredindo – temos vindo a recostar-nos (talvez em demasia) nos bons resultados alcançados, em grande medida pelo acerto da evolução que atrás explicitámos, mas esquecendo-nos que parte importante do dinamismo revelado pela actividade também se deve a uma conjuntura internacional que nos tem inequivocamente beneficiado.

Só isso justifica que, por um lado, se continue a “promover” (mais ou menos abertamente) a segurança, algo que sabemos ser impossível garantir nos tempos que correm e, por outro lado, a não sermos tão assertivos quanto devíamos na implementação de estratégias de retenção e fidelização de fluxos turísticos que têm procurado “refúgio” no nosso país, mantendo-se por isso extremamente voláteis.

Desejamos que estas nossas palavras sejam entendidas não tanto como uma crítica, mas como um alerta, já que é nos períodos de bonança que normal e compreensivelmente a inércia se instala e nos leva a cometer omissões ou demissões que, posteriormente, resultam em erros.

No que respeita às acessibilidades basta aqui referir a “novela” relativa a uma nova solução aeroportuária para Lisboa, que a cada dia que passa se torna mais urgente, para sermos suficientemente ilustrativos quanto ao muito pouco que neste capítulo tem sido feito.

Já no outro significado que podemos atribuir à “acessibilidade” – a do turismo acessível –, que também está contido no espírito da Conferência sobre “Destinos Inteligentes” que a OMT irá levar a cabo, cremos que Portugal começa agora a dar “passos seguros”, tal como aconteceu com a inovação e a tecnologia, no sentido de se tornar um destino mais inclusivo e “amigo” daqueles que são portadores de uma qualquer deficiência física.

Em suma, considerando que o turismo é, presentemente, a maior actividade económica do Mundo, temos de admitir que ela encerra uma enorme complexidade, até porque é uma actividade feita por pessoas e para pessoas (como gostamos de a definir), que (nos) exige toda a atenção e carece de muita reflexão, pois aquilo que não fizermos… outros seguramente farão!

 

Turisver.com – Os nossos leitores estão activos a enviar-nos perguntas e foram já vários a focar o tema da falta de trabalhadores para a hotelaria, sobretudo qualificados. O que os nossos leitores questionam é se, no seu entender, este é um problema real e qual a melhor forma de o encarar?

 

Atilio Forte – Este é um tema que temos vindo sucessivamente a abordar uma vez que, como se comprova, permanece latente no leque das preocupações expressas pelos nossos leitores. E isso significa que estamos perante um problema concreto o qual, em nossa opinião, apenas pode ser ultrapassado com uma ampla mobilização de todos os agentes turísticos, sejam eles públicos, privados ou académicos.

Não existe por isso uma “varinha mágica” que possa resolver de uma vez esta questão. Mas há um princípio mobilizador que, se adoptado, pode ajudar a que a “magia” aconteça. Referimo-nos à assunção, clara e inequívoca, da actividade turística como uma prioridade nacional, o que implica uma total interiorização da inquestionável vocação turística de Portugal, por tudo aquilo que o turismo representa (e pode vir a representar!) para a criação de riqueza, emprego, coesão social e territorial.

O turismo, temo-lo dito, não é uma panaceia! Mas pode, sem sombra para qualquer dúvida, contribuir em larga medida para o nosso progresso. Por isso, e aproveitando o muito que se tem falado nos últimos tempos acerca das Administrações americanas, seria bom que todos começássemos por nos interrogar não tanto sobre o que o Turismo pode fazer por nós, mas sobre o que nós podemos (e devemos!) fazer pelo turismo? (adaptação livre de uma das mais conhecidas frases do Presidente americano, John F. Kennedy).

Assumir esta postura é o primeiro passo, e porventura o mais importante, para que possamos, a prazo e com sucesso, ultrapassar a escassez de mão-de-obra qualificada com que vários sectores da constelação turística – este não é apenas um problema da hotelaria – se debatem.

Depois, claro está, virá muito do que aqui temos sublinhado: a valorização e a qualificação das carreiras e profissões turísticas (que, infelizmente, ainda são nalguns casos percepcionadas como “menores”); a necessidade de um diálogo profundo e responsável entre todos os actores turísticos e os estabelecimentos de ensino – profissional e superior –, de modo a melhor adequar os curricula às reais necessidades do mercado de trabalho; a sensibilização (e aceitação) dos investidores e decisores para o facto da complexidade e peculiaridade da actividade exigirem quadros qualificados, com saber e conhecimento, tanto estratégico, como técnico, superior ao seu, pois o turismo de hoje não se compadece com “amadorismos”; etc.; etc….

Em causa está sabermos aproveitar o que nos conduziu até aqui – apesar da nossa pequena dimensão, somos “grandes” no panorama turístico internacional – e com isso mudarmos mentalidades e criarmos uma cultura de exigência. Não será tarefa fácil. Mas também não é impossível!

 

O + da Semana:

Por diversas vezes temos referido nos nossos comentários e análises que a primeira condição para que haja turismo é ter “como chegar”. É por esta razão que, hoje em dia, o transporte aéreo ou, para sermos mais precisos, a aviação comercial desempenha um papel de primeira ordem no desenvolvimento turístico. Por isso não podemos deixar de aqui destacar os bons resultados que aquele sector alcançou em 2016. Tendo em consideração os dados recentemente divulgados pela IATA – International Air Transport Association o ano transacto foi excelente para as companhias aéreas, pois não só o preço do petróleo de manteve em valores moderados como, principalmente, a procura aumentou 6,3% se comparada com os números atingidos em 2015. Assim, de acordo com aquela organização, foram transportados em 2016 uns impressionantes 3,7 biliões(!) de passageiros, que proporcionaram um recorde na taxa de ocupação média global dos aviões, situando-a nos 80,5%. Para a obtenção destes resultados também terá contribuído um crescimento da oferta em 6,2% (em relação a 2015), ou seja, ligeiramente abaixo do que se verificou no consumo. Sublinhe-se que na última década a média do crescimento da procura por este meio de transporte situou-se nos 5,5%, portanto em níveis bem inferiores aos valores registados no ano passado. Não admira pois que os números globais que se antevêem que o turismo tenha alcançado em 2016 possam vir a ser tão expressivos.