iTurismo: Portugal Internacional, por Atilio Forte

A adaptação da área de F&B dos hotéis às exigências dos clientes, o impacto crescente das tecnologias na hotelaria e o aumento da oferta turística em Cancun e Riviera Maya são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte destaca como “O + da Semana” o acordo para a ampliação das duas escolas da ESHTE (a técnico-profissional e a superior). O habitual comentário versa sobre a escassez de informações sobre o turismo em Portugal nas organizações internacionais e a segurança em zonas de animação turística.

Tópicos da Semana:

  • No que respeita às comidas e bebidas (“F&B”), os clientes “querem tudo agora!”: Especialmente nos hotéis, esta é uma área cada vez mais debaixo do foco da gestão que procura, por um lado, reduzir os custos que derivam dos desperdícios e, por outro lado, proporcionar um serviço (quase) instantâneo aos hóspedes, dado os mesmos estarem cada vez menos tolerantes e acostumados com o terem de esperar. Portanto, a tendência é os hotéis rapidamente adaptarem-se a este sentido de urgência, ou seja, ao “eu quero isto, e quero-o já!”.

 

  • Novas tecnologias com crescente impacto na hotelaria: Não é em vão que vimos, recorrentemente, chamando a atenção para este importante tema. É que nas últimas duas décadas as inovações tecnológicas estão cada vez mais presentes no negócio turístico e, particularmente, na hotelaria onde, por exemplo, primeiro assistimos ao acesso aos quartos sem necessidade de chave/cartão (chaves digitais) e presentemente constatamos que as tendências para moldar e melhorar a experiência dos hóspedes, desde o acto da reserva até para além do “check-out”, estão relacionadas com a pesquisa/comandos de voz, as aplicações móveis (“Apps”) e a tecnologia “usável” (“smartwatches”).

 

  • Cancun e Riviera Maia (México) aumentam oferta turística: Nos últimos anos estes dois importantes destinos mexicanos não têm visto o seu crescimento abrandar. A consequência natural deste estado de coisas é o aumento da sua oferta, nomeadamente ao nível do alojamento. Assim, já em 2019, passarão a contar com mais 5.000 novos quartos de hotel.

 

Comentário

Turisver.com – É escassa a informação sobre o turismo em Portugal em muitas das organizações internacionais que têm áreas para acompanhar esta actividade económica que ganha cada vez mais relevo a nível mundial. Na sua perspectiva, esta situação acontece porque Portugal tem pouco peso nestas estruturas ou  porque falta uma estratégia para conseguir esse mesmo peso?

Atilio Forte – É um facto indesmentível que o turismo tem vindo a ganhar protagonismo em inúmeras instâncias e organismos internacionais, como reflexo e em razão da sua cada vez maior importância económica.

Justifica-se, assim, que a Organização Mundial do Turismo (UNWTO) tenha passado a ser uma Agência da ONU – Organização das Nações Unidas, que o Parlamento Europeu tenha criado a TRAN – Comissão dos Transportes e Turismo, que a OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico tenha constituído um Comité de Turismo – presentemente presidido por Portugal – ou, até, que a CTP – Confederação do Turismo Português tenha passado a integrar o CESE – Conselho Económico e Social Europeu, para só referir alguns dos exemplos mais marcantes.

Em nossa opinião isto significa que “o Mundo” está bastante desperto para a realidade turística, interessado no que nela se passa e disponível para a assumir como um dos grandes motores da economia à escala global.

Portugal, enquanto potência turística (não devemos ter medo das palavras), tem vindo consistentemente a marcar presença no “Top 20” dos principais destinos mundiais e, por isso, não apenas integra estas e outras estruturas mas, naturalmente, beneficia proporcionalmente do peso relativo que tem no panorama turístico internacional.

Portanto, não cremos que possa falar-se de falta de peso. O que se sente é, sobretudo, uma grande falta ou falha de informação sobre o que é discutido e tratado nesses organismos e, consequentemente, das posições e propostas que aí são defendidas e apresentadas pelos nossos representantes, muitas vezes em nome do país. E isso é algo que deve ser corrigido, quanto mais não seja porque é nessas instituições que são tomadas decisões com reflexos no futuro da actividade, seja no Mundo, seja em Portugal. Se não estivermos bem informados do que “hoje está a ser decidido”, dificilmente estaremos preparados para os desafios “do amanhã”.

Contudo, também nos é perguntado, se bem percebemos a segunda parte da questão formulada, como é que o nosso país poderá ter maior protagonismo nas instâncias internacionais? Como é que poderá ter mais influência nas suas decisões? E, mesmo, se pode ou tem interesse em chegar à sua liderança? E, nesse caso, como é que o poderá conseguir?

Admitindo aquilo que nos parece óbvio, isto é, que a resposta a todas estas perguntas seja afirmativa/positiva, haverá que começar por delinear uma estratégia. Estratégia que deverá ter por base alguns pressupostos, que nos parecem vitais para que possa vir a ter sucesso, de entre os quais destacamos:

Em primeiro lugar, deverá consagrar-se a independência da mesma, atendendo a que muitos destes organismos são de representação pública ou do Estado. Por este motivo é desejável assumir-se uma estratégia supra partidária, embora com grande capacidade de diálogo com todos os Órgãos de Soberania nacionais (afinal há que respeitar as opções políticas traduzidas através do voto popular), pois não podemos esquecer-nos que, por um lado, estamos a referir-nos a uma visão com objectivos de longo prazo e que, por isso, não pode estar sujeita às mudanças e oscilações da política “interna” e que, por outro lado, deve existir uma coordenação e concertação de todos os representantes nacionais nos diferentes organismos, por uma questão de coerência de posições, mas também de “agenda”, principalmente se o país neles quiser ter maior protagonismo.

Depois, não esquecer que nessas entidades é de turismo que se trata e se fala, o que significa que, pelo menos ao nível da coordenação, deverá assegurar-se que a mesma seja feita com profundo conhecimento da actividade (incluindo o técnico) mas, também, com capacidade de compreensão prospectiva sobre as consequências ou repercussões que determinadas linhas de orientação podem, no futuro, vir a ter no turismo, tanto mundial, como europeu, como nacional.

Finalmente, estudar e perceber quer o “xadrez político” internacional, quer o de cada uma das organizações, e estar atento às oportunidades que possam surgir. Exemplos não faltam, desde o modo como recentemente um português (António Guterres) chegou à liderança da ONU – a seguir à Ásia cabia à Europa indicar o futuro Secretário-Geral – ou quando, sensivelmente em meados da década passada, o nosso país teve um Embaixador permanente junto da UNWTO, tendo (também por essa razão) estado muito perto de corporizar uma candidatura ao secretariado-geral daquela entidade.

Para concluir, se do ponto de vista turístico quisermos um “Portugal Internacional”, é muito importante que haja mais e melhor informação sobre o que se passa e quais são as posições defendidas pelo nosso país nas instâncias internacionais e que se defina uma estratégia de conquista de maior protagonismo no seio das mesmas, que possa guindar Portugal, caso exista essa vontade, a nelas reforçar o seu papel, seja na possibilidade de poder vir a ascender à sua liderança, seja em dele retirar dividendos no caso de decidir apoiar terceiros.

 

Turisver.com – A animação em zonas de turismo ou cidades, nomeadamente a nocturna, é um dos factores que agrada aos turistas de hoje. Partindo desta base o que é importante é garantir a ordem e a segurança, no entanto, nunca como agora, com acontecimentos de violência no Algarve e situações como a que ocorreu na semana passada no “Urban Beach”, assistimos a uma escalada de violência que pode manchar a imagem do nosso turismo. No seu entender, o que não está a ser feito e que deverá sê-lo?

Atilio Forte – Sem dúvida alguma que este é um tema importante o qual, como é mencionado, pode vir a afectar a imagem do país, enquanto destino turístico.

Como já aqui tivemos anteriormente oportunidade de referir, cremos que este é um problema que deverá ser analisado (e prevenido!), tendo em consideração a dupla vertente que encerra, isto é, a manutenção da ordem pública e a análise comportamental da tipologia de frequentadores desses espaços de animação nocturna.

Quanto ao primeiro aspecto – o da ordem e segurança – somos de opinião que, embora admitamos um ou outro retoque legislativo, não existe necessidade de grandes alterações ao actual quadro legal. O que é fundamental é que o Estado – Central e Local/Autarquias – cumpra o seu papel regulador e fiscalizador e, também, dissuasor.

Isto significa que as entidades com competência para o efeito façam acções inspectivas mais amiúde, assegurando-se que existe cumprimento da legislação, quer ao nível dos horários de funcionamento, quer do consumo de álcool por menores (ou excesso por maiores), quer da lotação dos locais, quer ainda, para não sermos exaustivos, para certificarem-se do cumprimento das normas de segurança por parte dos estabelecimentos de animação, de forma a garantir um mais homogéneo cumprimento da Lei (porque convirá não esquecermos que existem empresas cumpridoras).

Às forças de segurança deverão ser dados meios para que possam evidenciar melhor a sua presença física – tanto em quantidade, como em qualidade – de modo a funcionarem como elemento dissuasor ou, em caso de necessidade, para actuarem com prontidão e, consequentemente, identificarem os prevaricadores, bem como permitir às mesmas um maior intercâmbio de informações, junto das suas congéneres estrangeiras, que conduzam à detecção e monitorização de elementos problemáticos que, como é sabido, deslocam-se um pouco por toda a parte com o único propósito de causar distúrbios.

No que respeita à análise comportamental dos frequentadores desses espaços, maioritariamente jovens, deverá ter-se em atenção que actualmente muitos são os que consomem bebidas alcoólicas desregradamente – por vezes nem é a quantidade, mas a variedade do que é ingerido (misturas) –, o que obviamente altera a sua conduta, e informá-los e sensibilizá-los para os perigos que correm e podem provocar em terceiros, para além de os alertar para as consequências legais dos seus actos e respectivas punições.

Para terminar, atrevemo-nos a deixar uma sugestão, com o objectivo de visar os reincidentes. A criação de uma lista de “personae non gratae”, com proibição de entrada (por iniciativa própria ou determinada pela acumulação situações de alteração à ordem pública) nos estabelecimentos de animação – um pouco à semelhança do que já acontece nos casinos ou nos recintos desportivos (principalmente nos estádios de futebol) –, responsabilizando as empresas e os seus proprietários pelo respeito dessa lista e penalizando-os caso, fruto das acções inspectivas, sejam detectadas pessoas nessa condição dentro dos estabelecimentos.

 

O + da Semana:

Há cerca de um ano e meio, por ocasião da celebração do seu 25º aniversário, demos aqui conta dos obstáculos ao natural crescimento e à introdução de melhorias no ensino da ESHTE – Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril que, recorde-se, alberga no mesmo espaço físico dois estabelecimentos de ensino totalmente diferenciados e tutelados de forma bicéfala – a escola técnico-profissional (tutelada pelo Ministério da Economia, através do Turismo de Portugal) e a escola superior (tutelada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior) –, em virtude da falta de diálogo entre aqueles Ministérios que, ano após ano, acabou por condicionar a gestão do “Campus Escolar”. Nessa altura o Governo comprometeu-se em ultrapassar esses “históricos” constrangimentos. Por estas razões deve aqui ser saudado o protocolo assinado na semana passada, aquando da cerimónia de tomada de posse da Direcção da ESHTE para o próximo quadriénio (2017-2021), que consagra a divisão das instalações e a possibilidade de as duas “escolas” (a técnico-profissional e a superior) poderem proceder à ampliação das que já existem, dentro da mesma localização, marcando-se o primeiro trimestre de 2018 como baliza para que a comissão mista, nomeada por ambas as entidades, apresente as suas propostas e soluções, as quais, sem dúvida, permitirão melhorar significativamente a qualidade do ensino ministrado e, consequentemente, afirmar ainda mais a ESHTE como centro de excelência do saber e do conhecimento da actividade turística, tanto no plano nacional, como no internacional e, quem sabe, talvez um dia virmos a assistir à criação da Universidade de Turismo do Estoril – UTE. Até lá, todos os envolvidos – Governo, Câmara Municipal de Cascais e Órgãos da ESHTE – estão de parabéns pelo acordo alcançado!