iTurismo: Portugal Sustentável e Novo BSP, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte comenta a sustentabilidade turística em Portugal e o pagamento imediato do BSP pelas agências de viagens em Espanha. As viagens de luxo em família, as oportunidades de investimento hoteleiro na Europa e na China e as preocupações dos hotéis boutique são os “Tópicos da Semana”. Já Europeu de Futebol foi escolhido como “O + da Semana”.

Tópicos da Semana:

  • Viagens de luxo em família: Sendo um dos segmentos que maior taxa de expansão apresenta, o turismo de luxo vem revelando algumas tendências “revivalistas”, já que quem viaja cada vez mais privilegia experiências únicas em ambientes “amigos” das famílias, pois actualmente existem três gerações – nalguns casos quatro – que viajam juntas. Tal leva a que quem queira apostar nestes consumidores deva estar preparado para acolher adultos e crianças, o que obriga a uma maior complexidade da oferta, desde a restauração à animação.
  • Oportunidades de investimento: O abrandamento económico verificado principalmente na Europa e na China, vem fazendo as “delícias” de quem pretende investir no sector hoteleiro, uma vez que os fundos de investimento imobiliário estão a vender parte importante dos seus activos. No final do dia, as perspectivas para o alojamento continuam muito boas, pois vontade e investidores são algo que não lhe faltava … nem falta.
  • Preocupações dos hotéis boutique: Um inquérito levado a cabo pela “Boutique & Lifestyle Lodging Association” revela que, mais do que a concorrência, uma das maiores preocupações dos proprietários destas unidades reside na alteração dos hábitos dos consumidores, particularmente pela preferência destes por outros (novos) tipos de alojamento, que consideram uma ameaça mais séria do que a das grandes cadeias.

Comentário

 

Turisver.com – O grande crescimento da procura que Portugal tem registado nos últimos anos poderá implicar a perda de recursos ambientais significativos que só uma política de desenvolvimento do turismo sustentável praticada por regiões e empresas poderá suster. Qual a sua perspectiva sobre esta realidade?

Atilio Forte – Antes de tudo o mais, entendemos que devemos começar por dizer que compreendemos muito bem as razões que levam os nossos leitores a colocarem-nos esta pergunta, já que no último ano/ano e meio alguns líderes políticos e de opinião têm feito perpassar na sociedade portuguesa a ideia que o crescimento que o turismo vem registando é, ou pode ser, nocivo, nomeadamente no que respeita aos impactos negativos que poderá causar, entre outros, nos nossos recursos ambientais e ecológicos.

É por (e com) este tipo de argumentos que expressões como “pegada turística” entraram no quotidiano do discurso, ou impostos sobre os turistas e a oferta – como as taxas turísticas – passaram a fazer parte do ideário, com maior ou menor tradução prática, de governantes e autarcas.

Temos para nós que todos os que tratam a actividade turística desta forma, para além de revelarem a sua total ignorância acerca do que é o turismo actual, mais não fazem do que usar desculpas de “mau pagador” e aproveitarem-se da área da economia que mais riqueza e emprego cria, para esconderem as incapacidades e insuficiências do que dizem, do que prometem ou do que gerem. E, nalguns casos, até são os mesmos que, durante os anos mais agudos da crise, idolatraram o turismo e os seus agentes pelo contributo ímpar para o crescimento das exportações nacionais e para o aumento do investimento, sobretudo do privado.

Esta é uma forma de olhar para o turismo que estagnou no tempo, algures na década de ’80 do século passado, onde a oferta condicionava a procura e esta, aquando da escolha de um destino para as suas férias, não revelava preocupações relativas à sua sustentabilidade ambiental e ecológica e, muito menos, de o fruir pela sua vivência/experiência.

Ora, como é por todos sabido, desde o virar do milénio que este paradigma mudou, muito por força do papel que as novas tecnologias de informação e comunicação assumiram no nosso quotidiano, bem como, pelas alterações sociais provocadas pelo advento da sociedade-mosaico, o que teve como principal consequência a preponderância da procura sobre a oferta. Só que estas importantes mutações também tiveram reflexos nos consumidores, alterando-lhes comportamentos e preocupações. Por isso podemos afirmar que, desde então, estamos perante uma “nova procura”, mais informada e bem mais consciente da sustentabilidade dos destinos turísticos.

Para ilustrar o que acabamos de afirmar basta dizer que, actualmente, poucos são (se é que ainda existem?) os consumidores que aceitariam ir uma ou duas semanas de férias para um “resort” e aí permanecerem sem, sequer, de lá saírem, não se importando que “à porta do mesmo” haja uma lixeira a céu aberto, insegurança, estradas degradadas ou uma localidade em que seja quase impossível interagir com os habitantes locais.

Claro está que nada do que até aqui afirmámos pode tomar-se por certo ou garantido, o que é o mesmo que dizer que a capacidade de carga turística é finita porque, obviamente, ela coloca pressão nos territórios e nos ecossistemas. Daí existir por parte de todos os agentes turísticos, principalmente das empresas, uma grande preocupação com a sustentabilidade dos destinos.

Em Portugal estamos ainda muito longe de atingir os nossos limites, mesmo no caso das três principais regiões turísticas do país (Algarve, Lisboa e Madeira). Aliás, se atentarmos bem, facilmente verificamos que, particularmente na última década, a esmagadora maioria dos projectos de investimento turístico têm demonstrado enormes preocupações seja ao nível do ordenamento do território, seja ao nível ambiental, seja ainda no tocante à preservação da biodiversidade, quer pelo conhecimento do comportamento da procura, quer pela consciência, de quem investe, em não alienar ou comprometer um dos nossos principais activos e, por si só, factor de atractividade.

É por estas razões que os mais variados agentes turísticos começam já a dar sinais claros que, a manterem-se as taxas de crescimento verificadas nos últimos anos, mormente as respeitantes ao número de turistas – algo a confirmar entre o final do corrente ano e o início do próximo quando os dados da Conta Satélite do Turismo voltarem a estar disponíveis -, apostarão mais, pela diferenciação, pela qualificação e pela valorização da genuinidade, no aumento da receita média por turista, do que na sua captação em maior número.

Portanto, no que à sustentabilidade turística respeita, somos de opinião que saberemos e conseguiremos defender esse grande activo e, inclusivamente, caso os poderes públicos – central e local – o permitam, o estimulem e para isso contribuam, poderemos até criar novas propostas de valor extremamente interessantes, sobretudo as que envolvam o “Mar”.

 

Turisver.com – Em Espanha  a IATA está a forçar o pagamento imediato do BSP por parte das agências de viagens sempre que estas emitam um bilhete. Como encara esta situação tendo em conta os actuais constrangimentos por que passam as agências de viagens?

Atilio Forte – Quando aqui analisámos a passagem do “Billing and Settlement Plan” (BSP), no mercado português, de quinzenal para semanal, alertámos que se as agências de viagens, a nível global, não se unissem e procurassem conjuntamente uma solução – através das suas associações representativas nos diversos países – para fazer frente à estratégia que a International Air Transport Association (IATA) pretendia levar por diante, o passo seguinte seria acabar (ou limitar seriamente) com as vendas a crédito, por parte das companhias aéreas.

Assim, a situação agora descrita para o mercado espanhol que, caso se mantenha, entrará em vigor no próximo dia 1 de Janeiro de 2017, é a consequência natural desse objectivo, para uns, e o resultado da inércia, de outros.

Do lado das companhias aéreas o argumento que suporta este novo modelo é a prevenção dos incumprimentos de pagamento por parte das agências de viagens, embora continuem, como até aqui, a nada dizer acerca do ressarcimento das principais distribuidoras do seu produto quando se verificam falências no sector…

Caso a IATA consiga implementar globalmente esta nova modalidade de pagamentos, denominada “New Generation of IATA Settlement Systems (New Gen ISS), entraremos numa “nova era” de relacionamento entre as companhias aéreas e as agências de viagens na qual, a esmagadora maioria destas últimas, passará a pagar a pronto as vendas efectuadas – se quisermos ser rigorosos até será antecipadamente, pois a emissão do título de transporte só será autorizada após a cativação na conta da agência do respectivo valor do mesmo.

As excepções a este caso são: as relativas às agências que sejam emissoras em múltiplos países (grandes multinacionais, consolidadores e OTA’s – “online travel agencies”), que passarão apenas a ter que fazer uma acreditação, em vez das várias que actualmente fazem (uma junto de cada BSP local), mas que terão que prestar garantias financeiras globais de acordo com uma avaliação trimestral; ou, as que ao nível do BSP local apresentem garantias financeiras de acordo com uma avaliação anual (praticamente igual ao que presentemente acontece).

Este quadro representa um passo inequívoco em direcção à “desintermediação”, penalizando principalmente o segmento das viagens de negócios, uma vez que a concessão de crédito às agências de viagens, por parte das transportadoras IATA, acabará sempre por ser mais oneroso, quanto mais não seja porque lhes exigirá uma maior capacidade financeira ou que suportem um maior custo pelas garantias necessárias e, simultaneamente, porque lhes limitará as possibilidades de continuarem a conceder algum prazo de pagamento a terceiros (empresas clientes).

Contudo, acreditamos que, por um lado, esta será ainda uma matéria objecto de análise por parte das autoridades internacionais da concorrência, até porque, ao que parece, trata-se de uma imposição unilateral (da IATA) e, por outro lado, poderá forçar ao aparecimento de soluções evolutivas no domínio do negócio das agências de viagens, nomeadamente no plano transnacional, por exemplo através da criação de empresas consolidadoras que acabem por atenuar os custos financeiros das garantias a prestar.

Não obstante, e pelas razões expostas, este será um assunto que valerá a pena continuarmos a acompanhar.

 

O + da Semana:

Começou esta semana, em França, o Campeonato da Europa de Futebol, um dos maiores eventos desportivos do Mundo mas, também, de promoção (turística) do país, das regiões e cidades que o acolhem. Pelas razões que são públicas e de todos conhecidas, a sua preparação e o seu desenrolar decorrem sob o signo da segurança. Por isso, ainda menos se entende que alguns se entretenham a “torpedear”, ainda mais, uma já de si difícil organização, seja internamente – greves nos transportes, na electricidade, nos resíduos, nas refinarias, etc. -, seja externamente – confrontos entre adeptos (nas ruas e nos estádios). Como se sabe, nos dias de hoje, tudo todos vêem e num segundo o Mundo muda. Mas também sabemos que os portugueses tendem sempre a desvalorizar – ou subvalorizar – aquilo que fazem. Dito isto, devemos todos, sem excepção, recordar o memorável EURO 2004, de que Portugal foi anfitrião, que ficou para a história como um dos melhores acontecimentos desportivos jamais realizados, sobretudo pelo impecável acolhimento, excelência organizativa e esforço conjunto de um país inteiro, onde a maior (e única) surpresa (ou má notícia) foi a nossa selecção ter perdido a final (que nos desculpem os gregos). De modo algum pretendemos destacar os males alheios, mas tão só, uma dúzia de anos depois, reavivar a nossa memória colectiva, para que nos sintamos orgulhosos do que fizemos!

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