iTurismo: Portugal X Áustria (em aviação), por Atilio Forte

A possibilidade de a easyJet se instalar em Portugal para fugir ao Bretix, e o regresso do Open de Portugal em golfe aos campos algarvios são os destaques do iTurismo desta semana. Preenchem os tópicos da semana problemas laborais que se antevêem nos hotéis do Reino Unido, o hotel-comboio no Japão pronto para operar, e a integração de Sarkozy na AccorHotels. O turismo espacial é tema de O + da Semana.

 

Tópicos da Semana

  •  Hotéis do Reino Unido antevêem problemas laborais: Caso a saída do Reino Unido da União Europeia (“Brexit”) se venha a verificar, o sector hoteleiro acredita que poderá ser confrontado com uma complexa situação laboral como consequência, por um lado, do tratamento/estatuto que for dado aos trabalhadores originários dos restantes 27 Estados-Membro e, por outro lado, da previsível maior desvalorização da libra inglesa, que tornará mais difícil atrair nova mão-de-obra.
  • Hotel-comboio pronto para começar a operar: O “Twilight Express Mizukaze” do Japão iniciará no próximo Verão as suas operações, prevendo os seus responsáveis uma forte adesão por parte dos consumidores, já que as carruagens permitirão que os hóspedes desfrutem das maravilhosas paisagens existentes no ocidente do país através da estada num luxuoso “hotel rolante”. A área dos quartos oscila entre os 10 (duplo) e os 35 (suite) metros quadrados. Quanto aos preços, o pacote mais em conta (2 dias e 1 noite) custará cerca de 2.250€ por pessoa.
  • Decisão inteligente: A AccorHotels anunciou que o ex-Presidente da República Francesa Nicolas Sarkozy passou a integrar o seu conselho de administração, com a responsabilidade de liderar o comité internacional de estratégia da empresa, de modo a que esta possa beneficiar da sua vasta experiência nas relações internacionais e do seu profundo conhecimento das questões geopolíticas.

 

Comentário

Turisver – Para contornar os entraves à livre circulação que podem ser impostos pelo “Brexit”, a easyJet anunciou que vai pedir, até final de Maio, um novo certificado de operação aérea (COA) com sede na União Europeia. Em estudo pela companhia estão duas localizações: Portugal e Áustria. Caso a decisão recaia sobre Portugal, que implicações poderão daí advir para o nosso país, em termos turísticos e económicos?

 

Atilio Forte – A título de melhor enquadramento da resposta começamos por dar duas notas prévias: a primeira, para referir que este não é propriamente um tema novo – embora tenha ganho maior visibilidade na comunicação social nos últimos dias – dado os contactos entre aquela companhia aérea e o Governo português, com esta finalidade, já decorrerem desde meados do ano passado; e, a segunda, para sublinhar que nos encontramos num plano puramente especulativo, quer pelo facto da easyJet nada ter mencionado a título oficial quer, sobretudo, porque até à consumação do “Brexit” (caso ocorra!?) ainda muita “água passará debaixo da ponte”, aliás como sempre tivemos o cuidado – desde a primeira hora – de aqui ir sublinhado.

Basicamente o que está em causa é que se o “Brexit” se tornar uma realidade e a União Europeia (UE) ficar reduzida a 27, tal significará que o Reino Unido e, consequentemente, as empresas que aí estão sedeadas passarão a não poder beneficiar das liberdades de circulação de pessoas e bens – em vigor dentro da UE –, o que, no caso da easyJet, se traduziria num imediato impedimento de operar voos dentro dos demais 27, ou seja, a companhia seria objecto de um tratamento em tudo igual a uma qualquer congénere americana ou asiática e, por essa razão, ficaria impossibilitada de operar em rotas intracomunitárias que são consideradasvoos domésticos, como é do conhecimento público.

Ou, se pretendermos analisar este assunto por outro prisma, foi também por isto que aquela companhia, em devido tempo, solicitou a emissão de um certificado de operação aérea (COA) na Suíça, para aí poder operar, já que aquele país não integra a UE, como se sabe.

Em suma, e exemplificando, as actuais rotas da easyJet Lisboa-Paris, Lisboa-Madrid, Lisboa-Ponta Delgada ou Madrid-Paris (entre muitas outras) teriam de cessar mal o Reino Unido saísse da UE. É, pois, por este facto que, logo após o referendo, esta e outras empresas, de vários sectores de actividade, começaram a procurar alternativas que protegessem o normal decurso dos seus negócios.

Ora, e fazendo fé no que tem sido noticiado, a maior novidade que se nos apresenta é a easyJet pretender avançar já no próximo mês de Maio com a decisão, uma vez que, mesmo que o Governo do Reino Unido accionasse“amanhã” o (famoso) artigo 50 do Tratado de Lisboa, os seus efeitos não teriam repercussões até à finalização das negociações de desvinculação.

Avancemos, agora, para o que Portugal poderia ganhar caso fosse à ANAC – Autoridade Nacional de Aviação Civil que a easyJet solicitasse a emissão de um novo COA?

Desde logo tal implicaria a criação de uma nova empresa de transporte aéreo, subsidiária da “casa-mãe” que se manteria em Luton – Inglaterra. A verificar-se esta situação tal quereria dizer que o país “ganharia uma nova transportadora aérea”, o que para além de benefícios directos – pagamento de impostos, criação de (algum) emprego, etc. –, também nos traria, indirectamente, outras vantagens.

De todas elas, aquela que consideramos não apenas importante, mas mais decisiva – justificando que, se for o caso, o Governo português tudo faça para conseguir “ganhar esta corrida”, nomeadamente ao nível da fiscalidade, onde claramente não somos competitivos – é a que está relacionada com a criação de um “compromisso” mais estreito entre esta companhia de baixo custo (vulgo “lowcost”) e o nosso país, acautelando-se assim qualquer volatilidade futura nas operações da easyJet em, para e de Portugal e, consequentemente, garantindo-se uma maior robustez esustentabilidadeao turismo nacional.

Finalmente, veríamos uma parte da frota da easyJet (entre 100 e 200 aeronaves) registada/matriculada no nosso país, o que implicaria a aposição da bandeira nacional nesses aviões e o pagamento correspondente às respectivas taxas entrar nos cofres públicos, acrescido do valor das inspecções – iniciais e periódicas – que seria necessário fazer a todo o material circulante (aviões).

Contudo, não se pense que se tal vier a acontecer passaremos a ter e a ver em Portugal muitos mais aviões da easyJet do que aqueles que vemos presentemente, já que a emissão de um COA por um Estado-Membro da UE, é apenas uma espécie de “livre-trânsito” que possibilita à companhia operar no espaço da União, dado tratar-se da concessão de uma “licença de actividade” a uma empresa comunitária que, por estar sedeada num dos países que integram os 27 (ainda 28), permite-lhe operar nesse Estado e nos demais 26 (ainda 27).

Em jeito de conclusão, e mesmo considerando que a nossa (suposta) concorrente – Áustria – possui uma localização geográfica mais favorável, dado situar-se na Europa Central, e detém uma fiscalidade mais “amiga”, Portugal tem todos os motivos para procurar “aliciar” a easyJet a pedir-lhe o COA, a começar pelo interesse estratégico que tal tem para o seu (nosso!) futuro turístico.

Apesar do optimismo que sempre pomos nestes comentários, temos que reconhecer que esta não será uma tarefa fácil, principalmente num país que não tem nem nunca teve uma estratégia ou, se se quiser, uma política para a aviação, nem sequer a considera como parte integrante e peça fundamental da actividade turística, como há décadas defendemos. Por esta razão é nestes momentos que mais realce ganha a enorme vantagem que seria Portugal ter o turismo e aviação sob a mesma Tutela. Mas isso daria um outro comentário…

 

Turisver – O Open de Portugal regressa este ano aos campos algarvios e volta a integrar-se no European Tour e Challenge  Tour. Baptizado como Open de Portugal @ Morgado Golf Resort, o torneio vai ter lugar em Portimão de 11 a 14 de Maio em resultado de uma parceria entre a Federação Portuguesa de Golfe, a PGA de Portugal e a NAU Hotels & Resorts.  Como é que vê este regresso e que importância pode ter num país onde, o ano passado, a actividade turística relacionada com o golfe representou cerca de 300 milhões de euros?

 

Atilio Forte – Este é claramente um dos muitos eventos, que terão lugar no nosso país, que merece ser destacado e cujas entidades promotoras e organizadoras são credoras dos nossos elogios.

Valerá a pena recordar que esta prova, da chamada “primeira divisão do golfe”, não se realizava em Portugal desde 2010, apesar de ser o mais antigo torneio profissional português de golfe, como comprovam as suas anteriores 55 edições.

Por outro lado, estas grandes provas internacionais despertam a atenção para o país e para a região que as acolhe, neste caso Portugal e concretamente o Algarve, extravasando por esta razão a mera competição, para se tornarem em cartazes promocionais quer da modalidade quer, principalmente, dos destinos. Ora sendo o nosso país, e o Algarve em particular, detentores de alguns dos melhores campos de golfe do Mundo e, paralelamente, destinos de excelência para os seus praticantes, este é um evento com o qual só teremos a ganhar.

Sabendo que os fluxos turísticos ligados à prática do golfe são historicamente dos que mais contribuem para esbater a sazonalidade, atentas as características, nomeadamente climatéricas, seja do nosso país, seja do Algarve, eis-nos perante mais uma oportunidade para, com baixo custo, promovermos este tão crítico produto.

Não obstante as receitas turísticas relativas ao golfe terem aumentado nos últimos anos, com naturais reflexos positivos noutros sectores da economia nacional, não é demais referir a persistência da “birra política” (leia-se dos Governos) em manter o chamado “IVA do golfe” nos 23%, revelando total cegueira pela receita e pouca inteligência pelas mais-valias fiscais, entre outras, possíveis de arrecadar caso a taxa aplicada regressasse aos 6%, de onde nunca deveria ter saído, fazendo com que Portugal fosse muito mais competitivo no que à sua oferta de golfe (que é também turística) respeita.

Não podemos terminar esta resposta sem enfatizar a oportunidade das datas seleccionadas para a realização deste torneio (11 a 14 de Maio), que encaixam (qual luva) entre o Millennium Estoril Open (ténis) e o WRC Vodafone Rally de Portugal. Graças a estes eventos de grande prestígio e projecção internacional, estaremos, quase consecutivamente e com custos irrisórios, nas bocas (e nos olhos) do Mundo durante três semanas. É disto que o turismo nacional (também) precisa!

 

O + da Semana

“Espaço – a última fronteira”. Esta frase que, desde há 50 anos (1966), serve para promover os filmes e a série “O Caminho das Estrelas” (“Star Trek”) – que relata as aventuras da nave espacial “Enterprise” e da sua tripulação, liderada pelo célebre “CapitãoKirk” – é, porventura, uma das que melhor define, no nosso imaginário, o conceito de viajar para-além da Terra. Hoje, meio século volvido, estamos cada vez mais próximos de assistir à transformação da ficção-científica em realidade pois, de acordo com a empresa “SpaceX”, dois turistas (cujo nome permanece no anonimato) contrataram-na (e até já terão pago) para, no final de 2018, irem dar um “passeio à volta da Lua” a bordo da nave espacial “Dragon 2”, que está a ser desenvolvida para transporte dos astronautas da NASA – National Aeronautics and Space Administration até à Estação Espacial Internacional e cuja missão inicial será realizada no final deste ano. Salienta-se que esta nave será lançada a partir de um foguete “Falcon Heavy”, que tem previsto o seu primeiro teste para o próximo Verão. Os dois turistas espaciais não irão pilotar a nave, já que a “Dragon 2” será controlada por sistemas autónomos a partir da Terra embora, em caso de necessidade, possam intervir em alguns dos comandos existentes a bordo. Para já ambos os felizardos (e, certamente, abonados!) irão iniciar um treino de saúde e segurança espacial. Caso a viagem não seja “cancelada” estaremos, sem qualquer dúvida, perante um novo marco nas viagens turísticas!