iTurismo: O Presente e o Futuro, por Atilio Forte

O impacto pode ter no sector turístico um aumento do salário mínimo nacional para 557€, e os dois programas de apoio às startups lançados pelo Governo, são os temas comentados por Atilio Forte, que nos “Tópicos da Semana” aborda o turismo na Turquia, a mudança de hábitos que exige alteração no paradigma na hotelaria, e a Austrália como território fértil para investidores asiáticos. No“O + da Semana” o iTurismo destaca o repto lançado pelo Governo aos empresários para que seja constituído um Centro de Inovação do Turismo.

 

 Tópicos da Semana:

  • O azar de uns é a sorte de outros: Pelas razões que são públicas, esta é a crua verdade com que a Turquia se vem confrontando face ao seu declínio turístico. Agora foi a vez da Thomas Cook anunciar que, devido à instabilidade política verificada naquele país (que era o seu segundo maior destino), está a planear avançar com o lançamento de 14 novos hotéis da sua marca “Casa Cook”, nos próximos dois anos, em sítios alternativos. Sicília, Chipre, Cós (Grécia) e Maiorca estão entre os locais seleccionados para acolher este investimento.
  • Mudança de hábitos exige alteração no paradigma na hotelaria: Actualmente os hóspedes dos hotéis querem provar comida local, desejam opções alimentares mais saudáveis e pretendem ter liberdade para comer em áreas e a horas diferentes das pré-estabelecidas. Por um lado tal motiva que a operação de comidas e bebidas (Food&Beverage) se torne mais ágil e, por outro lado, que o peso dos proveitos da venda de quartos dê lugar a uma gestão em que todos os euros contam para a obtenção de receita.
  • Austrália afirma-se como território fértil para investidores asiáticos: A hotelaria australiana tem vindo, paulatinamente, a atrair um cada vez maior número de investidores asiáticos – liderados pelos chineses – que desde a crise económica internacional (2008) já investiram naquele país da Oceânia qualquer coisa como 8,2 biliões de dólares, sendo que só nos primeiros três trimestres de 2016 esse valor ascendeu a 1,7 biliões de dólares.

 

Comentário

 

Turisver – Temos assistido a jogos públicos de pressão na imprensa sobre o aumento do salário mínimo nacional. Na sua opinião que impacto pode ter no sector turístico um aumento para 557€, como quer o Governo?

 

Atilio Forte – Este é um daqueles temas que, se olhados em abstracto, nos devia a todos envergonhar. Alguém ter que viver com um ordenado bruto mensal de 530€ (valor actual do salário mínimo nacional – SMN) ou até de 557€ (valor que o Governo pretende implementar em 2017) é algo que, presentemente, quase roça o absurdo, podendo mesmo pôr em causa a própria dignidade humana. Se dúvidas houver basta fazer umas simples contas, pois a conclusão é mais do que óbvia.

Mas apesar de tal ser uma verdade, não podemos esquecer-nos que, infelizmente, vivemos num Mundo “real”, o que significa que as empresas portuguesas – não apenas as do turismo, mas também as demais – estão integradas na economia “real”, a qual após vários anos de estagnação, para não dizer de recessão, só agora começa a dar alguns sinais de retoma, pese embora os mesmos ainda sejam muito ténues.

Ora havendo um crescimento económico quase marginal torna-se extremamente difícil as empresas terem capacidade para suportar o impacto da massa salarial resultante deste aumento do SMN, uma vez que ao acréscimo dos 27€ avançado pelo Governo haverá que adicionar os demais custos que lhe estão associados, nomeadamente o da Taxa Social Única (TSU), bem como, aqueles que resultarão da manutenção da equidade nas diferenças dos vencimentos dos restantes trabalhadores que têm ao seu serviço. É que para se ser justo para uns, também o há que ser para os demais…

A este facto acrescem ainda os sinais que o poder político vem dando e que apontam no sentido de, a curto prazo, estar a ponderar a introdução de alterações ao nível da legislação laboral – maiores restrições na celebração de contratos de trabalho a termo certo, com o agravamento da TSU aplicada aos mesmos e revisão dos bancos de horas, entre outras (situações que a acontecerem penalizariam sobretudo a actividade turística) –, as quais geram natural incerteza junto de quem emprega.

Para além disto, convirá também ter presente os fraquíssimos níveis de investimento registados (tanto nacional, como estrangeiro) e a manutenção da taxa de desemprego num patamar elevado situações que, se conjugadas, induzem mais preocupação do que esperança.

Se quisermos ter uma visão mais abrangente o cenário torna-se bem mais complicado, uma vez que, por um lado, facilmente constatamos que a maior parte das empresas ainda está numa situação económica e financeira muito periclitante devido aos efeitos da “crise” e, por outro lado, que a carga fiscal, tanto directa, como indirecta, tem vindo constantemente, isto é ano após ano, a aumentar, tornando-se num autêntico inibidor do crescimento empresarial e, por consequência, económico.

Quanto à actividade turística propriamente dita e apesar de se poderem ter em linha de conta os resultados mais animadores que esta tem vindo a registar, a situação da generalidade do seu tecido empresarial ainda continua muito frágil, já que as “feridas” deixadas pelos últimos anos estão longe de se encontrarem saradas.

Por tudo o que dissemos, e embora o turismo seja uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, tememos que se o Governo mantiver este valor de aumento do SMN e, simultaneamente, não der garantias quanto a eventuais mexidas na legislação laboral, as empresas turísticas ver-se-ão na contingência de, no mínimo, optarem por uma postura muito mais prudente relativamente a futuras contratações, isto apesar da actividade continuar a apresentar perspectivas de crescimento francamente animadoras.

Não obstante o quadro que traçámos, ao qual poderíamos ainda acrescentar a falta de “peso” dos Parceiros Sociais e a desvalorização de que a Comissão Permanente de Concertação Social tem sido alvo, estamos convictos que o Governo não recuará no valor do aumento do SMN o que, em abstracto e como começámos por referir, é uma decisão que nem sequer deveria ser questionada, mas que não é líquido que a economia “real” consiga acomodar sem consequências.

 

Turisver – As startups andam na “boca” dos portugueses. Este ano o Governo lançou dois programas, o +Património +Turismo”, e mais recentemente, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, assinou um protocolo com 27 incubadoras, o Foresting Innovation in Tourism. Que dinâmica esta tipologia de empresas pode trazer ao turismo?

 

Atilio Forte – Já por diversas vezes aqui referimos o facto da actividade turística ser, sem sombra para dúvidas, uma das que mais utiliza e depende da tecnologia. Prova disso foram as duas grandes revoluções tecnológicas por que passou na segunda metade do século passado, as quais contribuíram decisivamente para a catapultar para a liderança da economia mundial, a saber: a introdução dos motores a jacto na aviação comercial (após a II Guerra Mundial) e, quase no virar do milénio, o advento da internet.

Se com a primeira o Mundo ficou mais “próximo” e o acto de viajar mais barato e “democrático”, com a segunda assistimos a uma alteração do paradigma de consumo que teve como resultado o predomínio da procura sobre a oferta (até aí era a oferta quem “ditava as regras”).

Desde então a tecnologia, particularmente nas áreas da informática, do digital, dos sistemas de informação e comunicação, não tem parado de progredir e de “invadir” as nossas vidas tornando-se indispensável tanto no nosso dia-a-dia como, naturalmente, no mundo dos negócios.

Paralelamente a este desenvolvimento tecnológico, e também por “culpa” dele, registaram-se mudanças sociais e comportamentais, que se traduziram no “nascimento” de uma nova geração – a Y ou do Milénio –, a qual “cresceu” neste ambiente e, por essa razão, consegue progressivamente dele ir extraindo e com ele criando novas soluções que, inevitavelmente, conduzem a melhorias e evolução em inúmeros domínios da nossa vida com especial destaque para o campo empresarial.

Não espanta pois que socialmente a competição tenha aumentado vertiginosamente, já que as ferramentas do sucesso passaram a estar ao alcance de todos, apesar de só muito poucos o conseguirem atingir. E, claro está, a vida empresarial reflecte essa ambição. Por isso se fala tanto em empreendedorismo e em “startups” que, na esmagadora maioria das vezes, não são mais do que a tradução prática do “querer triunfar” por se ter (ou julgar ter) criado uma solução, um produto, uma nova forma – mais simples, mais produtiva, mais rápida, mais qualquer coisa – que melhore o desempenho empresarial ou o torne mais competitivo ou barato.Numa palavra, que inove.

Transpondo esta realidade para o turismo, que funde esse desejo individual e pessoal do “único” e da procura pelo “diferente”, com a necessidade incessante de quem está no negócio conceber novos produtos e serviços que preencham essa vontade de “experienciar” o exclusivo, facilmente constatamos o impacto que esta nova tipologia de empresas (as “startups”) podem ter na inovação e no desenvolvimento da actividade e no grande dinamismo que acabam por lhe imprimir.

Antes de terminar achamos que vale a pena aqui deixar duas notas. A primeira para dizer que as “startups” vieram para ficar e, portanto, não devem ser consideradas como “uma moda” como às vezes (ainda) são qualificadas. Perante desafios tão importantes como o da criação de emprego ou o de conseguir uma oportunidade profissional, numa sociedade cada vez mais competitiva e, por esse motivo, onde o egoísmo e o individualismo imperam, o “faça você mesmo” pode revelar-se como uma boa solução facea um cenário com estas características.

A segunda para mencionar que o forte dinamismo que as “startups” vêm imprimindo acaba (e acabará) por contaminar as demais empresas, mesmo as mais tradicionais, as quais começam a ficar despertas para a necessidade de apostarem muito mais na área da inovação e do desenvolvimento (I&D) não apenas para (man)terem sucesso mas, inclusivamente, para sobreviverem.

Em suma, a actividade turística é claramente uma das áreas da economia com “terreno mais fértil” para que estas (agora) sementes possam frutificar, transformando (e transformando-se) (n)o futuro do turismo.

 

O + da Semana:

No encerramento do 28º Congresso Nacional da Hotelaria, organizado pela AHP – Associação da Hotelaria de Portugal, que decorreu no final da passada semana em Ponta Delgada, o Governo através da Secretaria de Estado do Turismo lançou um repto aos empresários para que seja constituído um Centro de Inovação do Turismo, caso estes últimos mostrem interesse em nele participarem. A ideia subjacente a este desafio, para além de imprimir uma maior dinâmica à actividade, de aumentar a sua promoção, de fazer evoluir as empresas mais tradicionais e de melhor aproveitar e incorporar muitas das soluções desenvolvidas pelas “startups” no dia-a-dia do tecido empresarial turístico nacional, é criar condições para que Portugal se possa afirmar como “país de ponta” no turismo do futuro. Trata-se, em nossa opinião, de uma excelente ideia, pois não só revela ambição como, mais importante, põe “o dedo na ferida” naquela que é uma das principais carências que a nossa oferta vem revelando. A melhoria “dos” e “nos” processos de gestão, o sermos cada vez mais eficazes na compreensão dos desejos e motivações dos consumidores e o acentuar dos factores de diferenciação do produto turístico, nomeadamente os que se prendem com a autenticidade e genuinidade, serão, por certo, três das áreas em que mais óbvios benefícios se poderão retirar desta iniciativa que, acreditamos, certamente colherá o entusiamo dos agentes económicos privados. É que para perseguirmos a excelência temos, em primeiro lugar, que ser excelentes! E em turismo para se ser excelente há que (permanentemente) inovar.