iTurismo: Prevenir e Preservar, por Atilio Forte

Neste primeiro iTurismo após as férias, o comentário de Atilio Forte versa sobre os desmoronamentos de arribas no Algarve e os apoios à Madeira após o flagelo dos incêndios. Em “O + da Semana”, Atilio Forte destaca os “Óscares do Turismo” arrecadados por Portugal, enquanto os “Tópicos da Semana” abordam as viagens para homens, a utilização da “cloud” e o investimento hoteleiro no Médio Oriente.

Tópicos da Semana:

  • “Mancations”: Esta nova palavra – formada a partir de “man” e de “vacations” (férias/viagens de lazer para homens) – está cada vez mais presente na preparação e customização da oferta pelas empresas turísticas, pressupondo a elaboração de programas de animação local (no destino) especialmente dedicados aos consumidores masculinos, onde as reservas em campos de golfe e a possibilidade de aquisição de bilhetes para eventos desportivos têm revelado grande aceitação. Contudo, deverá ter-se em atenção que, tal como aconteceu com o público feminino, muitas das vezes as preferências dos turistas nada têm a ver com o género, confundindo-se com as da generalidade dos clientes.
  • O Médio-Oriente não pára: A Arábia Saudita está a alterar o seu modelo económico – baseado no petróleo – apostando fortemente noutras áreas, com o turismo a merecer destaque. A prová-lo estão os 35.770 quartos de hotel actualmente em construção. Já o Dubai irá inaugurar em 2018 um novo empreendimento turístico que incluirá uma praia artificial e… uma floresta tropical.
  • A opção está na nuvem (“cloud”): Num vasto inquérito realizado pela Unisys Corporation aos responsáveis pela área tecnológica/informática/digital das empresas turísticas, dois terços responderam que, nos próximos dois anos, esperam passar pelo menos 50% dos seus recursos de IT para a “cloud”. Diminuição de custos e rapidez de acesso são as principais razões que estão na origem desta tendência cada vez mais notória.

 

Comentário

Turisver.com – Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), entre Julho de 2015 e Junho de 2016, registaram-se 21 desmoronamentos de arribas no Algarve. Esta é uma situação em crescendo de ano para ano e que, embora seja quase ignorada, à excepção da comunicação social, está a tornar-se um problema sério para o turismo da região. Como olha para este problema?

Atilio Forte – Infelizmente este tem vindo a revelar-se um problema recorrente e, porventura mais importante, que se tem agravado de ano para ano, não apenas na região do Algarve, mas também noutros pontos do país, como seja na zona Oeste, sem que se efectue uma intervenção em profundidade como se impõe. Salvo algumas (poucas) acções pontuais, na maioria dos casos ficamo-nos pelos inevitáveis alertas por parte das autoridades e correspondente afixação, nos locais – principalmente nas praias –, de avisos para o perigo de derrocada, os quais, é bom dizê-lo, quase nunca são respeitados pelos utentes.

Por incontáveis vezes temos aqui referido a transversalidade do turismo com outras áreas, entre as quais se inclui (como não podia deixar de ser) o ordenamento do território e o ambiente, como sendo actualmente factores críticos para a tomada de decisão dos consumidores.

Igualmente, temos mencionado amiúde a questão da segurança, não apenas no sentido mais restrito que assume nos dias de hoje (atentados terroristas), mas de modo mais vasto e, por isso, contemplando questões ligadas à saúde pública, à sinalética (turística ou não) e, claro está, ao território e ao ambiente, onde os incêndios e as derrocadas assumem papel predominante, para citar unicamente alguns dos aspectos mais marcantes.

É verdade que sem a intervenção da comunicação social, na esmagadora maioria das vezes, muitos destes casos nos passariam despercebidos. Mas, não menos verdade é que finda a chamada “época alta”, também a comunidade jornalística “desliga” do assunto, até que o ciclo se repita ou algo de grave aconteça.

Assim, esperamos sinceramente que este não seja um dos exemplos que venha a ilustrar o célebre ditado popular: “depois de casa roubada trancas à porta”. Será bom termos presente que, aquando de uma derrocada, “a faixa de risco corresponde à área passível de ser ocupada pelos resíduos de desmoronamentos e tem largura igual a 1,5 vezes a altura da arriba” (in, “Faixas de Risco das Arribas”, sítio da APA – Agência Portuguesa do Ambiente).

Temos total consciência que a exposição permanente da linha de costa à acção do mar aumenta o grau de dificuldade para resolução deste problema. Como também estamos cientes que muitos dos trabalhos a realizar – nomeadamente os de cariz preventivo –, só podem ser levados a cabo num intervalo de tempo bastante curto, grosso modo correspondente a uma parte do Outono e a outra da Primavera.

Contudo, tal não deve conduzir a que a questão caia no esquecimento. Assim, somos de opinião que os agentes turísticos – todos, sem excepção – podem (e devem!) ser pró-activos, apresentando propostas e soluções que contribuam para manter o assunto “vivo” junto das autoridades e, em caso de necessidade, denunciarem publicamente a inacção, recusando um silêncio que acabe – em caso de tragédia – por ser cúmplice.

No Mundo de hoje, pautado pelo momento, a informação é instantânea e está imediatamente à disposição de todos os consumidores. Os bons resultados que o turismo português tem vindo a obter são o reflexo de muito e árduo trabalho, o qual não pode estar à mercê de um qualquer evitável fenómeno que, em segundos, pode terminar com anos de esforço e, bem mais sério, que possa fazer perigar a vida humana.

 

Turisver.com – A ilha da Madeira, incluindo a cidade do Funchal, voltou a ser flagelada, desta vez pelos incêndios, depois de há poucos anos ter sofrido graves inundações. Os apoios que estão a ser dados à região pelo Governo central e pelos organismos do turismo parecem-lhe os mais acertados?

Atilio Forte – Antes de respondermos à pergunta que nos foi colocada, e dado ainda não termos tido oportunidade para o fazer publicamente, gostaríamos de aqui deixar uma palavra de solidariedade à Madeira e aos madeirenses, bem como às famílias daqueles que pereceram nesta tragédia.

Como tantas vezes repetimos e implicitamente afirmámos na resposta à anterior questão, a segurança não se promove, garante-se! Infelizmente, e por mais que façamos, nunca estamos ao abrigo de um qualquer capricho ou fenómeno da natureza, de uma falha ou erro humano, para já não mencionar actos tresloucados que, lamentavelmente, cada vez mais fazem parte do nosso quotidiano.

Tristemente, este Verão, a Madeira e a sua capital, em particular, voltaram a ser assoladas pela tragédia, desta feita do fogo, que irrompeu cidade dentro, destruindo vidas, bens, património e colocou a “pérola do Atlântico” nas “notícias”, pelas más razões.

No entanto, e no meio do cenário dantesco a que assistimos, também constatámos que as autoridades regionais globalmente tudo fizeram para minorar o impacto causado pelo incêndio, agindo e acudindo a todas as situações de acordo com um grau de prioridade que nos pareceu bastante correcto e eficaz, no que foram secundadas, em primeiro lugar pelos próprios madeirenses – de entre os quais os empresários turísticos merecem particular destaque e apreço –, pelos demais Órgãos de Soberania da República que prontamente se deslocaram à ilha, comprometendo-se e disponibilizando meios para que a reconstrução tivesse início e os impactos da tragédia fossem atenuados e, é justo que o sublinhemos, pela enorme corrente de solidariedade que percorreu o país.

Em todas estas acções e intervenções públicas existiu total consciência em salvaguardar a imagem da Madeira, enquanto um dos principais destinos turísticos de Portugal razão que, aliada à indómita vontade dos madeirenses e à sua capacidade de superação, com provas já dadas, nos faz ter a convicção que, no Funchal, a vida rapidamente voltará à normalidade.

Todos os agentes turísticos, públicos e privados, nacionais ou regionais, deram sinais de grande serenidade quer aos mercados, quer aos consumidores em geral, numa atitude que, se conjugada com os apoios já anunciados pelo Governo da República e com as acções promocionais que irão ser realizadas pelo Turismo de Portugal, em estreita colaboração com o tecido empresarial local, tanto para o mercado interno como para os externos, nos cria a fundada expectativa que as dificuldades presentes poderão, no que ao turismo respeita, não vir a representar mais do que “um grande susto”.

Esperamos, por isso, a muito breve prazo, ter o prazer de aqui estarmos a analisar e a comentar a continuidade do crescimento turístico da Madeira.

 

O + da Semana:

No passado Domingo realizou-se na Sardenha a Gala da 23ª Edição dos World Travel Awards Europe (também conhecidos pelos Óscares do Turismo), onde Portugal ocupou lugar de destaque, pois arrecadou 24 prémios entre as 110 categorias a concurso – recorde-se que no ano transacto tinha ganho 14. Sobretudo tal significa e reconhece que, por um lado, a oferta turística nacional tem evoluído de modo extremamente positivo e, por outro lado, que a forma como os diferentes agentes turísticos – quer privados, quer públicos – vêm encarando e investindo no potencial turístico do país começa a dar resultados tangíveis, mesmo tendo em consideração os benefícios que temos vindo a retirar da actual conjuntura internacional. Naturalmente que o sucesso acarreta sempre uma maior responsabilidade, sendo por isso expectável que no próximo ano a exigência para que consigamos melhorar o número de distinções agora conquistadas seja maior, tal como aconteceu de 2015 para 2016, razão porque o trabalho terá que continuar. Aos seus detractores o turismo demonstrou uma vez mais, e inequivocamente, não apenas o papel estruturante que detém na economia portuguesa, como a sua importância na afirmação da imagem de Portugal no Mundo.