iTurismo: PrONÚncia Portuguesa, por Atilio Forte

A indicação de António Guterres para próximo secretário-geral da ONU e o impacto no turismo da deslocação do Primeiro-Ministro à China, são os temas do iTurismo de hoje. Para “Tópicos da Semana” Atilio Forte escolheu o crescimento da oferta hoteleira mundial, o turismo no Irão e o investimento chinês nos EUA, enquanto “O + da Semana” versa sobre os investimentos hoteleiros em África.

 

Tópicos da Semana:

  • Oferta hoteleira em crescimento: Presentemente, 11.000 hotéis representando cerca de 2 milhões de quartos encontram-se em construção no Mundo inteiro, o que, comparativamente com o ano passado, representa um aumento de 3%. Apesar das múltiplas variáveis políticas e económicas que preocupam a actividade, o facto é que os investidores vêm correspondendo ao aumento da procura que, como se sabe, cresceu 4% no primeiro semestre de 2016.
  • Irão quer atrair mais turismo: Se pensa investir na actividade talvez queira considerar fazê-lo no Irão, pelo menos é isso que o Governo daquele país está a procurar estimular, uma vez que elegeu o desenvolvimento turístico como uma das suas maiores prioridades. Em consequência, está disponível para isentar fiscalmente todos os projectos relacionados com o turismo … durante 13 anos!
  • Investimento chinês nos EUA: O Grupo Segurador Chinês Anbang está muito perto de proceder à segunda maior aquisição feita por capitais chineses nos Estados Unidos da América, caso conclua a compra, por 6,5 biliões de dólares, da Strategic Hotels & Resorts. Este negócio está a ser visto como uma reacção ao prestígio perdido por aquele Grupo, após se ter visto forçado a retirar a oferta de compra que fez à Starwood Hotels & Resorts Worldwide, no início deste ano.

 

Comentário

Turisver.com – Sempre que há um acontecimento que dá visibilidade internacional a Portugal, como foi o caso da conquista do EURO 2016, é opinião geral que tal acaba por ter impacto positivo no Turismo. Agora, o nome de Portugal anda de novo nas bocas do Mundo porque António Guterres acaba de ser indicado pelo Conselho de Segurança da ONU, por aclamação, para ser o próximo Secretário-Geral das Nações Unidas, um cargo de indiscutível prestígio a nível mundial. Este facto pode também ter impacto positivo na imagem de Portugal enquanto destino turístico?

Atilio Forte – Não ficaríamos bem com a nossa consciência se não iniciássemos esta resposta subscrevendo, na íntegra, todos os encómios que nos últimos dias foram, justamente, dirigidos a António Guterres, particularmente os que enaltecem o brilhantismo da sua inteligência e os seus valores humanistas, qualidades cada vez mais escassas e menos valorizadas numa sociedade que vive centrada no “eu” e que, não raramente, tende a “esquecer” a História e a menosprezar o mérito, tanto individual, como colectivo.

Daquilo que pessoalmente conhecemos do próximo Secretário-Geral das Nações Unidas, estamos certos que tudo fará para tornar o Mundo em que vivemos numa “aldeia global” mais pacífica e solidária, menos assimétrica e onde à vida humana seja dada maior dignidade e valor.

Fechado este breve parêntesis, nunca é demais referir que, nos tempos que correm, a velocidade de circulação da informação é vertiginosa e isso, para o bem, tal como para o mal, influencia comportamentos e dita tendências que, quando transpostos para actos de consumo, acabam inevitavelmente por reflectir-se.

Basta olharmos para os benefícios que, enquanto destino turístico, temos colhido da presente conjuntura internacional, pela qual muitos dos nossos mais tradicionais concorrentes têm vindo a ser tremendamente afectados em resultado dos hediondos actos terroristas que os têm atingido, para verificarmos a veracidade desta afirmação.

Mas não se julgue que só este tipo de acontecimentos é que condiciona e altera o comportamento da procura. Se atentarmos para o recentemente sucedido na Ilha da Madeira, que viu a cidade do Funchal ser fustigada por um trágico incêndio, de imediato assistimos a uma súbita diminuição – ainda em Agosto e, também, em Setembro – do número de cruzeiros e, consequentemente de turistas, que aportaram à “pérola do Atlântico”.

Ao invés, também vemos fenómenos positivos, como sejam os casos da Grécia ou da Islândia. No primeiro, que atingiu o seu auge no Verão do ano passado – a fase mais aguda da crise económica e financeira grega –, demos conta que muitos consumidores decidiram optar por aquele país para aí passarem as suas férias, como forma de se solidarizarem com o povo grego e, assim, ajudarem a economia da Grécia a recuperar. O segundo teve lugar este ano, na ressaca da boa prestação da selecção islandesa no campeonato europeu de futebol realizado em França, que levou a um vertiginoso aumento da procura de informação sobre o país, que acabou por se materializar num crescimento turístico assinalável e, convenhamos, pouco expectável para um destino com as características da Islândia.

É por isso natural que a indicação do nome de António Guterres, pelo Conselho de Segurança à Assembleia Geral das Nações Unidas, como único candidato à eleição para o cargo de Secretário-Geral do mais importante organismo internacional – acto (votação) que terá lugar poucas horas depois deste comentário estar publicado –, acabe por, no mínimo, despertar alguma curiosidade sobre as origens do homem que, a partir do próximo dia 1 de Janeiro, ocupará o lugar mais alto da diplomacia mundial.

E isso, claro está, será muito bom para Portugal e para todos nós portugueses, independentemente da parte do Mundo em que cada um se encontre, pois a verdade é que, ainda não estando decorridas as primeiras duas décadas do século XXI e contando com a Presidência da Comissão Europeia de José Manuel Durão Barroso, tivemos/temos dois concidadãos nossos em lugares da maior proeminência a nível global, facto que ajuda a que o nome do nosso país esteja constantemente debaixo dos holofotes mediáticos, acabando por sugestionar alguns consumidores a conhecerem um pouco mais e a informarem-se sobre Portugal.

Dos muitos que certamente o farão, um ou outro tomará consciência da nossa existência (nomeadamente no mercado norte americano); muitos constatarão da qualidade e da diversidade da nossa oferta turística; e, sem dúvida, alguns acabarão por tomar a opção de nos conhecerem um pouco mais de perto, fazendo com que o turismo nacional, em particular, e a economia portuguesa, em geral, beneficie com a sua visita.

Em suma, este é mais um feliz episódio no reforço internacional da nossa imagem enquanto país e povo que a todos nos deve orgulhar e, simultaneamente, servir de exemplo futuro.

 

Turisver.com – Há anos que se vem falando da importância do mercado chinês. Na sua opinião, a deslocação do Primeiro-Ministro à República Popular da China, acompanhado de vários ministros e do presidente do Turismo de Portugal, durante a qual foram realizadas reuniões, nomeadamente com grupos de investidores como a HNA Tourism, poderá vir a ter alguns impactos positivos, tendo até em conta que a partir do Verão de 2017 haverá uma ligação área directa entre os dois países?

Atilio Forte – De uma forma geral estas viagens oficiais acabam sempre por ter reflexos positivos, pois servem, por um lado, para desbloquear impasses que por razões várias se vão criando e, por outro lado, para acelerar a tomada de novas decisões.

Nesta perspectiva, espera-se que com esta Visita Oficial do Primeiro-Ministro português à República Popular da China se ultrapasse o “mal-estar” presentemente sentido pelos investidores chineses relativamente aos atrasos verificados, por parte de Portugal, na renovação dos chamados “vistos gold” e, também, que se estreitem as relações económicas entre os dois países, para as quais vai ser determinante a existência de uma ligação aérea directa.

No que respeita a este último ponto, desde a entrada da Hainan Airlines – empresa do Grupo HNA Tourism – no capital da brasileira Azul que, como se sabe, tem à frente dos seus destinos um dos novos proprietários da portuguesa TAP, que se abriram possibilidades reais de, a muito breve prazo (até ao próximo Verão), podermos vir a ter uma ligação aérea directa entre a China e Portugal, com duas a quatro frequências semanais.

E, felizmente, foi isso que acabou por verificar-se, ainda no decurso da Visita Oficial em apreço, com o anúncio da materialização dessa ligação – a rota (Hangzhou-Pequim-Lisboa) será operada pela Beijing Capital Airlines –, a qual, caso venha a comprovar a sua sustentabilidade como todos desejamos (recorde-se, embora noutro contexto, o acontecido há cerca de 20 anos com a rota Lisboa-Bruxelas-Macau-Banguecoque, então operada pela TAP), representará uma excelente oportunidade para o turismo nacional posicionar-se em definitivo no mercado chinês e tirar partido daquele que é o primeiro emissor mundial de fluxos turísticos.

Contudo, valerá a pena sublinhar que, para que esse objectivo possa tornar-se numa realidade, Portugal precisará, entre muitos outros aspectos, de reforçar (urgentemente) a sua rede diplomática naquele país, de modo a poder dar pronta resposta a um exponencial aumento de pedidos de visto de entrada que, naturalmente, irá acontecer (convém que não nos esqueçamos que, por um lado, integramos o Espaço Schengen e, por outro lado, do actual contexto europeu, bem mais securitário, pelas razões conhecidas).

Finalmente, esperamos que esta viagem também possa ter contribuído para captar novos investimentos e estreitar as ligações económicas e empresariais já existentes, pois quanto maior for a dinâmica da relação entre ambos os países, melhores perspectivas se abrirão para o turismo.

 

O + da Semana:

Apesar de ser um dos locais do planeta mais fustigados pelas guerras, pelas epidemias, pelo terrorismo (religioso ou de outra “inspiração”), pelos genocídios, pelas catástrofes naturais e por mais um sem fim de atrocidades que implicam com a vida humana, o continente africano persiste em, lentamente, despertar para o turismo. Obviamente, tal facto não passa despercebido no crivo dos grandes conglomerados turísticos internacionais. É, principalmente, a essa luz que hoje aqui decidimos destacar a “marcação do território” que duas das maiores cadeias hoteleiras mundiais têm em curso naquelas paragens. A Marriott International decidiu, pela primeira vez, entrar na África Subsariana com a abertura, no Ruanda, do Kigali Marriott Hotel, uma unidade de 254 quartos. Por seu turno, a Hilton Worldwide já revelou planos bem mais ambiciosos pretendendo, nos próximos 5 anos, duplicar o número de hotéis que já detém e explora naquele continente, passando das actuais 39 para 80 unidades. Certamente que estas decisões motivarão, por efeito de arrastamento, que outras empresas também decidam implantar-se em África, concorrendo desse modo não apenas para a melhoria do desempenho turístico continental, como para o desenvolvimento económico e social e estabilidade política em África, ou não fosse o turismo a actividade que mais contribui para criação de riqueza, emprego, coesão social e, acima de tudo, para a promoção do entendimento e da concórdia entre os povos.