iTurismo: Mais Próximos, Mais Solidários, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte comenta declarações do Primeiro-Ministro que quer turismo também nas regiões menos tradicionais, e a formação que a Inatel vai dar aos refugiados nos seus hotéis, “O + da Semana” é dedicado à sustentabilidade ambiental nos destinos turísticos, e nos “Tópicos da Semana” os temas são a lei que na Alemanha proíbe o aluguer de apartamentos ou casa por inteiro a turistas, a nova face de Cuba, e o impacto do terrorismo no turismo.

 

Tópicos da Semana:

 

  • “Zweckentfremdungsverbot”: É este o nome da nova Lei que entrou em vigor no passado dia 1 de Maio, em Berlim (após um período de transição de 24 meses), a qual tem por finalidade proibir o aluguer de apartamentos ou casas, por inteiro, a turistas, com o objectivo de manter as rendas baixas e estimular o arrendamento de longo prazo. Doravante, plataformas como a “Airbnb” só poderão promover o aluguer de quartos, sob pena dos senhorios incorrerem em multas que podem ascender a 100.000 euros, situação que já motivou uma diminuição de 40% no número de imóveis disponíveis na internet para estadas de curta duração.

 

  • A nova face de Cuba: O Governo cubano acaba de qualificar o turismo como actividade chave para o crescimento económico e, simultaneamente, revelar que, até 2030, o país irá acrescentar mais 108.000 quartos à sua oferta de alojamento, principalmente no segmento de luxo. É bom recordar que no ano transacto Cuba registou um recorde de turistas, tendo superado, pela primeira vez, a marca dos 3,5 milhões.

 

  • O impacto do terrorismo em números: De acordo com o diário belga “Le Soir”, a companhia aérea belga “Brussels Airlines” terá sofrido prejuízos entre os 70 e os 100 milhões de euros, na sequência dos atentados terroristas ocorridos em Março passado. Tal situação, que se irá inevitavelmente repercutir na compra final daquela transportadora pelo Grupo Lufthansa – que já detém 45% do seu capital -, veio adiararestante venda (inicialmente prevista para Agosto próximo) para finais de 2016, inícios de 2017.

 

 Comentário

 

Turisver.com – O Primeiro-Ministro disse na passada semana, na inauguração da Feira Ibérica de Turismo (FIT) na Guarda, que “o turismo é um sector que importa expandir para aproveitar precisamente os recursos endógenos que existem em todas estas regiões do país. Temos todos grandes desafios pela frente para que o turismo seja uma actividade sustentável de norte a sul e do litoral ao interior”. Na sua perspectiva estas são frases que se dizem por circunstância, ou podem ter algum valor real?

 

Atilio Forte – Sempre que um Governo sublinha e reconhece ao mais alto nível, como foi o caso, a importância estratégica e estruturante do turismo para a economia nacional, está não apenas a comprometer-se com esse desígnio mas, acima de tudo, a assumir uma inequívoca responsabilidade em tudo fazer para criar condições para que a actividade reforce e intensifique, sustentadamente, o seu papel de grande criadora de riqueza, emprego, coesão territorial e social, em Portugal.

Como se sabe, o nosso país possui, do ponto de vista endógeno, uma enorme diversidade de recursos e valências – de Norte a Sul, no litoral e no interior, sem esquecer as Regiões Autónomas – que, apesar da exiguidade territorial, lhe possibilitam assumir-se como um verdadeiro concentrado de múltiplas e distintas tipologias de oferta turística, capazes de corresponderem às cada vez maiores tendências (e exigências) de uma procura que se motiva e se sente atraída pelo diferente, pelo único, pela vivência de uma experiência que possa considerar irrepetível.

Perante esta evidência faz todo o sentido que se estimule a optimização dos nossos activos turísticos pois, ao fazê-lo, estaremos todos, sem excepção, a contribuir para atenuar alguns dos principais constrangimentos com que nos deparamos, como sejam, a geração de riqueza, a criação de emprego e a diminuição das assimetrias entre o interior e o litoral. Tudo isto com a enorme e simultânea vantagem de promovermos as melhores de todas as exportações nacionais, aquelas cujo consumo se faz dentro das nossas fronteiras e que, por esse motivo, provocam um enorme efeito multiplicador noutras áreas da economia portuguesa.

Convirá, ainda, não esquecer o contexto em que estas afirmações foram proferidas, uma vez que elas vêm na sequência do anúncio da (pelo menos) diminuição do valor das portagens a pagar nas ex-SCUT’s – que de entre outros malefícios prejudicaram objectivamente a actividade turística – e da inauguração do Túnel do Marão, porventura a última barreira que faltava vencer para tornar mais próxima a região de Trás-os-Montes do restante Portugal continental.

Não temos dúvidas em afirmar que este anúncio (portagens) e a inauguração desta obra contribuirão, em muito, para um aumento da actividade turística, tanto nos fluxos internos como nos externos, expondo ainda ao turismo a região do país menos conhecida, o que gerará um mais homogéneo desenvolvimento económico e social de todo o território.

Inúmeras vezes temos aqui referido que o “como chegar?” é determinante para a existência e para o crescimento e desenvolvimento sustentados do turismo. Por isso nunca entendemos, nem concordámos, com o pagamento de portagens, nomeadamente, na Via do Infante (A22) e na Auto-Estrada da Beira Interior (A23), porque prejudicaram o desenvolvimento da actividade, dado não haver quaisquer alternativas credíveis às mesmas.

Por todas estas razões, somos de opinião que estas são palavras de grande importância e, mesmo, de esperança. Contudo, com idêntica franqueza também dizemos que – à semelhança do que acontece com a sazonalidade – a litoralização do nosso turismo pode ser atenuada, mas não totalmente erradicada. E se tal for alcançado já será um precioso contributo para que as gerações vindouras conheçam um país mais homogéneo, mais coeso, menos assimétrico e turisticamente mais próspero.

 

Turisver.com – A Fundação Inatel vai dar formação, nas suas unidades hoteleiras, a refugiados que estão em Portugal, empregando estas pessoas que fogem de conflitos bélicos. Pensa que este exemplo pode ser levado à prática num contexto hoteleiro mais alargado?

 

Atilio Forte – Vale a pena contextualizar esta iniciativa da Fundação Inatel, a qual foi anunciada em Setembro de 2015 e baptizada como “Programa Aylan” (em homenagem – e com o nome – à criança, de três anos, encontrada sem vida numa praia turca, cujas imagens chocaram o Mundo, em geral, e a Europa, em particular), tendo por objectivo acolher 100 refugiados (ou migrantes), provenientes dos conflitos sírio, do Norte de África e do Iraque, e contribuir para a sua completa inclusão na sociedade nacional, aliás à semelhança do que a Fundação já havia feito na década de ’90, aquando da guerra do Kosovo.

Este Programa é composto por três fases, sendo a primeira – a do acolhimento (alojamento e alimentação em unidades hoteleiras da Fundação Inatel) – dedicada à aprendizagem do português (e do inglês, quando se justifique), ao contacto com a realidade portuguesa e ao início da formação profissional; a segunda que privilegiará actividades ocupacionais e profissionais de apoio, nas unidades hoteleiras onde estejam instalados; e, a terceira, em que a Fundação, em colaboração com o Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) e com o Conselho Português para os Refugiados (CPR), os ajudará a encontrar um emprego no mercado de trabalho nacional.

Passando agora a responder à questão que nos foi colocada, não sem antes destacar o óbvio humanismo, universalismo e solidariedade que envolvem esta meritória acção, que ilustra bem o “modo português” de estar no Mundo, a Fundação Inatel já anunciou que pretende contar com a colaboração mais alargada das demais entidades turísticas, nomeadamente, com as ligadas ao sector do alojamento, o que permitirá o envolvimento dos agentes económicos privados que assim o entendam.

Para tal irá utilizar (e contactar directamente) as parcerias que a Fundação já detém com as unidades hoteleiras privadas, procurando mobilizá-las para esta causa, e aproveitar as oportunidades de emprego que nelas possam existir ou surgir. Claro está que nada obsta que quaisquer outras empresas ou entidades manifestem a sua disponibilidade para participarem no “Programa Aylan”.

Deste modo, todos quantos queiram dar um outro (novo) sentido à arte de bem receber de Portugal e dos portugueses, têm aqui uma nobre oportunidade.

 

 O + da Semana:

A sustentabilidade ambiental e a preservação ecológica e animal são hoje algumas das mais importantes e reais preocupações dos consumidores quando confrontados com a escolha de um destino para a sua viagem. Embora as empresas turísticas desde cedo o tenham percebido e até, em muitos casos, promovido a existência dessa noção de “património comum” junto dos seus potenciais clientes, preparam-se agora para dar novos passos nesse sentido, garantido que este precioso legado possa ser transmitido às gerações vindouras. Assim, é sem surpresa que assistimos à introdução de algumas inovações na promoção de uma maior “consciência ecológica”, que podem variar da disponibilização gratuita de bicicletas, a menus baseados em “pratos sustentáveis” ou mesmo, nos casos mais extremos, à substituição dos habituais corta-relvas… por ovelhas, como forma de reduzir a pegada de carbono. Não. Não estamos a exagerar. Prova disso é que algumas das maiores empresas turísticas já baniram das suas ementas “iguarias” como a baleia, a tartaruga ou o tubarão (o tal que oferece a sua barbatana à célebre sopa), em nome e em defesa da preservação das respectivas espécies.