iTurismo: Quantos Turistas Recebemos?, por Atilio Forte

Os últimos resultados da actividade turística publicados pelo INE sobre os primeiros cinco meses deste ano, e um estudo do Observador Cetelem sobre a intenção de férias dos cidadãos nacionais, são comentados por Atilio Forte no iTurismo desta semana. Nos “Tópicos da Semana” os realces vão para o aumento da igualdade de géneros nas empresas turísticas, os robots que ajudam hotéis a interagir com os clientes, e o espaço mais perto de tornar-se um destino turístico, enquanto no “O + da Semana” destaca o ponto final ao contrato de gestão que a Emirates tinha com a TAAG.

 

Tópicos da Semana: 

  • Igualdade de género aumenta nas empresas turísticas: As posições “executivas de topo”, principalmente os conselhos de administração, têm assistido a um crescimento da presença de elementos femininos na sua composição, contribuindo deste modo para as alterações demográficas que vêm acontecendo no domínio das “lideranças”, sobretudo por parte das “administrações públicas”e, consequentemente, também tornando as empresasligadas ao turismo mais inclusivas. 
  • “Chatbots” ajudam hotéis a interagir melhor com os clientes: Os robôs/softwares de conversação (“chatbots”) têm-se tornado num factor cada vez mais decisivo para a hotelaria actual, dado possibilitarem-lhe automatizar uma parte significativa das suas interacções online com os clientes antes, durante e após as estadas destes. Inúmeras cadeias hoteleiras já adoptaram esta tecnologia, incorporando-a nas suas aplicações móveis, nomeadamente nas áreas das reservas e do atendimento.
  • Espaço mais perto de tornar-se um destino turístico: Uma equipa do MIT – Massachusetts Institute of Technology foi a grande vencedora do concurso lançado pela NASA para a concepção de um hotel orbital de luxo. Este projecto, baptizado com o nome MARINA – Managed, Reconfigurable, In-space Nodal Assembly, inclui 8 quartos, bar, restaurante e ginásio, permitirá diminuir significativamente os custos de manutenção e operação da Estação Espacial Internacional e tem ainda como alicianteo facto de poder ser reconfigurado para integrar um futuro veículo espacial que tenha Marte como destino.

 

Comentário:

Turisver – Os últimos resultados da actividade turística publicados pelo INE mostram que, nos primeiros cinco meses deste ano, os proveitos hoteleiros subiram 19,4% em termos homólogos, para 1.037 milhões de euros, enquanto as dormidas e o número de hóspedes apresentam aumentos de 10,4% para 19,4 milhões de dormidas e cerca de 7,3 milhões de hóspedes. Para haver mais rigor neste tipo de informação não seria importante estarmos já na posse dos resultados da Conta Satélite do Turismo?

 

Atilio ForteSeria injusto começar a resposta à pergunta que nos é colocada sem antes destacar os resultados que o turismo nacional tem vindo a alcançar nestes cinco primeiros meses do corrente ano, os quais traduzem uma grande pujança da actividade – expressa em todos os indicadores e regiões –, que confirmam o que aqui já havíamos previsto, bem como as causas que estão na sua origem e que (também) em devido tempo enunciámos nas nossas análises.

Assim, e a manter-se esta dinâmica, estamos (novamente) perante um excelente ano turístico, porventura o melhor de sempre.

E dizemos “porventura” porque, independentemente dos indicadores revelados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), continuamos a não ter elementos uniformese fiáveis que garantam e comparem, com segurança, o nível dos resultados alcançados, muito em particular os definidos desde o início do milénio pela Organização Mundial do Turismo (UNTWO) e que constam da CST – Conta Satélite do Turismo, único instrumento internacional que, através dos critérios contabilísticos e estatísticos homogéneos que o compõem, possibilita uma correcta aferição da evolução da actividade turística entre os diferentes países.

Situação estranha, diríamos mesmo incompreensível, se tivermos em linha de conta as acções e anúncios que todos os Governos, suportados por maioria ou por coligação parlamentar, e respectivas oposições propuseram implementar nos últimos dois anos. Senão vejamos:

No início de 2015, o XIX Governo (PSD/CDS) manifestou a intenção de reimplementar a CST que, recorde-se, tinha sido “suspensa” em 2011 pelo XVIII Governo (PS), atitude que motivou que 2010 tenha sido o último ano completo em que Portugal disponibilizou indicadores turísticos de acordo com os critérios da CST e, por isso, passíveis de comparação internacional. Curiosamente foi o próprio Partido Socialista – então na oposição – quem apresentou na Assembleia da República (Fevereiro de 2015) um projecto de resolução visando a retoma da CST durante o 1º semestre daquele ano.

Como é sabido, entretanto, o país passou por eleições legislativas, das quais emanou o efémero XX Governo (PSD/CDS), ao qual sucedeu o actual (PS, suportado por uma coligação parlamentar com o BE, o PCP e o PEV). Não obstante, foram dadas ao INE (ainda em 2015) todas as condições, nomeadamente financeiras, para que retomasse em pleno a elaboração da CST desde o início de 2016, o que permitiria que Portugal dispusesse dos elementos de análise relativos a esse ano, no máximo até ao final do 1º trimestre de 2017, aliás como foi oportunamente afirmado/anunciado pelo Governo (actual) em funções.

Ora, como se constata, o 1º semestre de 2017 já lá vai e… nada de CST! Sobre o assunto apenas temos um silêncio sepulcral. O Governo deixou de falar no assunto. A oposição está (ou faz-se) esquecida do mesmo. E os próprios agentes turísticos – organismos regionais e locais, associações empresariais e empresas – também não parecem muito interessados quando, afinal, deveriam ser os primeiros a procurar e exigir ter à sua disposição elementos fiáveis de análise, que melhor suportassem as decisões a tomar, por um lado, e permitissem avaliar qual o estado da actividade no nosso país face à concorrência, por outro lado.

Paralelamente, continuamos a assistir a leituras distorcidas dos “números” da actividade, que não distinguem “residentes” de “não-residentes” (no país) – até os somam para que os resultados “engordem”! –, que contam hóspedes (em termos simples, quem pernoita numa unidade de alojamento) como sendo turistas (o mesmo hóspede pode pernoitar em várias unidades de alojamento, embora só deva contar para efeitos turísticos uma vez) e, mais grave porque é enganador, a permitir-se que seja dito e escrito que este ano Portugal poderá receber 18 ou 19 milhões de turistas???

O turismo é uma actividade económica demasiado séria e importante para que continue a ser tratada com esta ligeireza e falta de rigor. E não pode apenas ser lembrado ou falado quando há necessidade de dar boas notícias.

É exactamente por estas razões que a divulgação dos resultados da CST é tão decisiva e urgente. Talvez os mesmos revelem que, no fim de contas, temos menos uns milhões de turistas do que os que têm vindo a ser propalados. Se assim for, explique-se o porquê e assuma-se essa correcção. Em nada tal deslustrará o trabalho que (por todos) tem vindo a ser feito.

Deverá ter-se presente que indicadores fidedignos e comparáveis permitem gerir melhor, promover melhor, inovar melhor, decidir melhor, competir melhor. O que não podemos é continuar no actual limbo, tentando enganarmo-nos e esquecendo-nos que, no final do dia, a verdade é que nem sabemos ao certo quantos turistas recebemos!

 

Turisver – Um estudo do Observador Cetelem sobre a intenção de férias dos cidadãos nacionais revela que 58% dos portugueses vai gozá-las fora de casa no período de Julho a Setembro deste ano, o que representa um acréscimo de 5% face às intenções reveladas em 2016. Que apontamentos lhe merecem estes dados?

 

Atilio Forte – Começamos por recordar que este estudo do Observador Cetelem, entidade que integra o universo do Grupo BNP Paribas e é especialista em financiamento ao consumo a particulares, já vem sendo publicado no nosso país há vários anos, versa sobre as intenções de compra e férias dos portugueses e tem por base entrevistas telefónicas (600) realizadas a indivíduos de ambos os sexos, com idade compreendida entre os 18 e os 65 anos, que sejam residentes em Portugal Continental.

Dos resultados revelados na sua edição de 2017 convirá salientar que há um aumento das intenções de consumo/compra em todas as categorias o que, por um lado, significa que o crescimento perspectivado não é exclusivo da rubrica lazer/viagens e, por outro lado, traduz uma melhoria da situação económica e da confiança dos portugueses que os motiva a consumir mais.

Contudo, temos de salientar que o turismo continua, de longe, a liderar as perspectivas de consumo, muito destacado (cerca de 37 pontos percentuais) das categorias dos electrodomésticos e das obras de remodelação/decoração, que fecham o “podium”.

Assim, é sem surpresa que constatamos tal reflectir-se na subida de 5% registada de 2016 para 2017 nas intenções de realização de férias fora da residência habitual por parte dos consumidores nacionais.

Como também não constitui novidade que 58% daqueles que tencionam gozar férias o façam entre os meses de Julho e Setembro, atento o período de ausência de funcionamento das escolas.

No entanto, os indicadores mais curiosos aí referidos respeitam aos factores de escolha do destino, encabeçados pelo preço, com a localização a surgir quase ao mesmo nível, relegando outros, como as condições climatéricas, para posição secundária.

Finalmente, destaca-se o facto de 45% dos inquiridos dizer não gozar férias há 1 ano e 15% há mais de 2 anos e de 15% das reservas já serem efectuadas recorrendo a plataformas online.

 

O + da Semana:

A companhia aérea dos Emirados Árabes Unidos, sedeada no Dubai, pôs um ponto final ao contrato de gestão, com a duração de 10 anos, que tinha assinado em 2014 com o Governo de Angola e que conduziu à nomeação de uma nova administração para a TAAG – Angola Airlines, a partir do Verão de 2015. A principal razão invocada para esta atitude unilateral deveu-se às dificuldades sentidas no repatriamento dos capitais relativos às receitas efectuadas naquele país africano. Recorde-se que sob a gestão da Emirates os prejuízos da transportadora angolana foram reduzidos de 175 milhões de dólares em 2015, para 5 milhões no ano passado. Para já foram duas as principais consequências desta “ruptura”: a substituição do conselho de administração da TAAG por parte do Governo de Angola; e, a diminuição de 5 para 3 frequências semanais entre o Dubai e Luanda, bem como uma alteração ao tipo de equipamento utilizado (Boeing 777-200LR, em vez do Boeing 777-300ER), o que significa menor oferta de lugares por voo, pelo lado da Emirates. Embora admitindo-se que este é um problema complexo – a situação económica em Angola não apresenta contornos fáceis, sobretudo devido ao preço do petróleo –, acreditamos que, a prazo, a mesma tenderá a inverter-se, o que poderá ser uma boa notícia para Portugal, já que volta a ter possibilidade de “ir a jogo”, desenhando novas formas de cooperação ao nível do turismo e da aviação (existem possibilidades múltiplas) com aquele país lusófono, as quais poderão até ajudar a distender as actuais relações entre ambos os Estados. Mas para tal é preciso sermos céleres na actuação. Estamos certos que o Governo português está atento a esta situação e, com toda a certeza, não perderá esta (nova e rara) segunda oportunidade!