iTurismo: Quem Tudo Quer…, por Atilio Forte

A relação preço/qualidade global dos nossos produtos turísticos, e os prémios que mais uma vez Portugal arrecadou nos World Travel Awards são os destaques do comentador Atilio Forte no iTurismo desta semana, para além do acordo de céus abertos entre o Brasil e os EUA, que finalmente, ganhou vida.

Tópicos da Semana:

  •  Investidores asiáticos vão liderar o desenvolvimento turístico na Croácia: De acordo com um estudo revelado pela consultora internacional Ernst &Young, várias empresas asiáticas preparam uma autêntica “chuva de investimento” turístico na Croácia nos próximos 4 anos, sobretudo no sector hoteleiro.Assim, qualquer coisa como 1,2 biliões de euros será investida, até 2022, naquele destino.
  • Fotografias dos hóspedes podem ser usadas como trunfo nas redes sociais: Muitos gestores de redes sociais e hotéis estão a trabalhar arduamente para estimular aquilo que designam por “publicidade espontânea”, incentivando os clientes a tirarem e a “postarem” imagens nas suas redes sociais pessoais e, em muitos casos, solicitando-lhes autorização para também as poderem usar nos seus próprios “websites”, incluindo os comentários que, normalmente, as acompanham, de modo a aumentarem a sua visibilidade e notoriedade.
  • Facilidades tecnológicas potenciam espaços ao ar-livre: Guarda-sóis com painéis solares e entradas USB e instalação de cabanas com múltiplas opções de carregamento para dispositivos tecnológicos são algumas das comodidades que muitos hotéis estão a disponibilizar aos hóspedes, para que estes possam desfrutar melhor dos seus espaços ao ar-livre, aí permanecendo mais tempo.

 

Comentário

 Turisver – Vários leitores têm colocado algumas perguntas em torno do custo de passar férias em Portugal. A subida generalizada dos preços, desde os hotéis aos museus e outros equipamentos turísticos, a somar aos transportes e às taxas turísticas, tem elevado os custos para os turistas. Na sua opinião, estamos a exagerar nesta subida de preços?

 

Atilio Forte – Genericamente falando podemos afirmar que a oferta turística nacional, seja para os mercados externos, seja para os consumidores nacionais, é bastante competitiva se, por um lado, considerarmos a relação preço/qualidade global que os nossos produtos turísticos dispõem e, por outro lado, se a compararmos com os valores médios praticados dentro da União Europeia (UE).

No entanto, temos consciência que, se não for bem compreendida, esta é uma afirmação que encerra alguns perigos, pois pode induzir os mais incautos a pensarem que tudo está bem, que ainda há margem para uma subida significativa dos preços ou, pior, que a formação dos mesmos depende exclusivamente da vontade dos vários agentes turísticos, como se não existissem factores exógenos, ao turismo e ao país, que nela têm intervenção directa.

Desde logo porque é fundamental que olhemos para o que se passa na actividade turística à escala global. E, neste particular, a presente conjuntura internacional é substancialmente diferente daquela com que nos deparámos nos últimos anos, uma vez que alguns fenómenos, como a “Primavera Árabe”, a ascensão do “autoproclamado” estado islâmico ou o clima de insegurança – fruto de inúmeros atentados terroristas – por que muitos destinos passaram foram, até ver, ultrapassados ou estão claramente mitigados.

Isto significa que alguns dos nossos principais concorrentes – nomeadamente os da bacia mediterrânica – voltaram a ter condições para “regressar” ao mercado, procurando recuperar a posição (e os turistas) que, entretanto, perderam. E, claro está, uma das formas para mais rapidamente reconquistarem os fluxos turísticos perdidos é apresentarem-se aos olhos dos consumidores com preços extremamente atractivos, por vezes excessivamente baixos, de modo a mais facilmente os conseguirem aliciar, ao que deve adicionar-se alguma saturação, face às opções possíveis (mais limitadas) que quem pretendia viajar teve ao seu dispor, nos tempos mais recentes.

No fundo, e embora tenhamos consciência que a comparação não é totalmente exacta, estão a socorrer-se de “armas” idênticas às que utilizámos para atenuar as quebras que também sentimos no período que se seguiu à última crise económica mundial (2008) pois, na prática, o seu efeito é semelhante (no nosso caso tentámos atenuar as perdas resultantes da recessão, enquanto eles procuram a retoma turística).

Paralelamente, devemos ainda ter presente a questão do “Brexit”, que tem vindo a afectar um dos principais mercados emissores mundiais (Reino Unido), já que os efeitos inflacionistas que tem provocado internamente, a par da desvalorização da libra face ao euro e ao dólar, têm diminuído o poder de compra dos seus cidadãos.

Por seu turno, a procura adicional que sentimos nos últimos anos, fruto da conjugação do bom trabalho que realizámos, sobretudo ao nível da requalificação da oferta e da inovação dos produtos, com os benefícios que obtivemos da conjuntura internacional, proporcionaram com que tivéssemos oportunidade de, progressivamente, subirmos preços, os quais só no final do ano passado é que atingiram valores semelhantes aos praticados em 2007(!).

Quanto ao mercado interno, o fim do período de assistência financeira internacional a que estivemos sujeitos, e que cerceou o rendimento disponível dos portugueses(as), conjugado com a progressiva retoma económica que se tem feito sentir, com resultados expressivos ao nível do emprego, permitiram com que, gradualmente, pessoas e empresas gozassem de maior desafogo financeiro, o que, naturalmente, também trouxe reflexos positivos à actividade, já que a tendência de aquisição de produtos e serviços turísticos cresceu.

Portanto, e no que estritamente respeita à oferta turística nacional, o aumento de preços que nos anos mais recentes se tem verificado, está umbilicalmente relacionado com a “lei da oferta e da procura” em razão do destino “Portugal” ser mais solicitado – interna e externamente –, não existindo por isso quaisquer dúvidas em afirmar-se que continuamos a ser francamente competitivos à luz dos padrões internacionais, quer em qualidade, quer em custo.Numa frase, o grau de satisfação dos consumidores permanece elevado quando comparam o que gastaram com o que obtiveram em troca (“value for money”).

Assim sendo, o grande problema que se nos coloca prende-se com o facto deuma coisa sera formação do preço do produto turístico “de per si” – que passa, essencialmente, pelo comportamento dos mercados e pela vontade e sensibilidade dos agentes turísticos face à procura pela tipologia do produto que comercializam – e outra, bem diferente, ser o custo do destino ou, se se quiser, a competitividade global do mesmo. E, neste aspecto, a questão é bem mais complexa. Senão, vejamos:

Muitas das consequências da “crise” e da “troika” ainda se fazem sentir e prejudicam, porque encarecem, o acto de viajar no nosso país, tanto para nacionais, como para estrangeiros. Veja-se o caso das portagens ou o aumento brutal que alguns impostos sobre o consumo tiveram que, não só se mantêm, como agravam-se ano após ano, de entre os quais os que incidem sobre os combustíveis são a mais paradigmática ilustração, já que têm um efeito “bola de neve” na carestia que provocam num sem número de produtos e serviços dado que, ao interferirem na cadeia de valor, acabam por reflectir-sena formação do preço final da nossaoferta turística.

Tal como acontece com os constantes, porque sucessivos, aumentos das taxas aeroportuárias, de controlo e segurança aéreas, do custo da energia, da água, do saneamento, etc. que, também têm de ser “contabilizados” aquando da composição do preço.

Todos estes custos são cumulados com a gigantesca carga fiscal suportada por trabalhadores e empresas, retirando-lhes rendimentos e capacidade de investimento, que podiam ser canalizados para o consumo (também turístico) e para a criação de mais riqueza e emprego.

E, como se tudo isto não fosse suficiente, ainda temos, qual “cereja no topo do bolo”, a aberração da criação/invenção das (tristemente) célebres “taxas turísticas” que começam a grassar por todo o país. Há quem diga e defenda que são “apenas meia dúzia de euros” e, portanto, sem qualquer expressão ou peso no custo total de uma viagem. Discordamos liminarmente deste ponto de vista, uma vez que, como é óbvio, “muitospoucos”, fazem um “grande muito”!

É que uma portagem aqui, mais um imposto acolá, mais uma taxa além, mais uma “taxinha” para além de… tudo somado, dá um “grande empurrão” ao preço, que é o mesmo que dizer que viajar para e em Portugal fica mais caro. E desenganem-se aqueles que pensam que o turista tudo paga e tudo suporta. É que nos dias de hoje quem viaja, quem consome produtos e serviços turísticos está extremamente bem informado, sabe o que quer e o quanto isso pode custar-lhe. E propostas (ou alternativas) não lhe faltam!

Por tudo o que afirmámos (e muitos mais exemplos poderíamos dar) é fundamental estar atento. Ter cuidado. Pois rapidamente se resvala de solo firme para terreno instável, do crescimento para a retracção, da prosperidade para o marasmo, principalmente numa actividade onde a concorrência é feroz e tem dimensão planetária.

Em suma, nunca se dê o turista – e o turismo – por adquirido. Tenha-se noção que o preço (custo total) é um dos mais críticos factores de decisão aquando da escolha de um destino. Portanto, cuidado com os exageros (e oportunismos) de hoje, pois eles podem comprometer os ganhos de amanhã! E, como diz o ditado: “Quem tudo quer…”.

 

Turisver – Portugal foi eleito, pelo segundo ano consecutivo, o melhor destino turístico europeu nos World Travel Awards, onde o país recebeu um total de 36 distinções. Na sua perspectiva este reconhecimento da qualidade da nossa oferta é o garante do crescimento turístico?

 

Atilio Forte – Em primeiro lugar, é da mais inteira justiça que comecemos por saudar todos quantos, representando Portugal, foram nomeados para mais esta edição dos World Travel Awards, mais conhecidos como “Óscares do Turismo”, e felicitemos aqueles que, em cada categoria, saíram vencedores. Uns e outros provam e comprovam a qualidade da nossa oferta turística e o muito que de bom e de bem se faz – todos os dias – no e pelo turismo nacional.

Entrando na resposta à pergunta que nos é colocada convirá termos sempre presente que, sejam estas ou outras distinções que venhamos a obter, elas apenas nos responsabilizam mais e, por isso, obrigam-nos – a todos e ao país, e não só aos premiados – a constantemente melhorarmos, sermos mais competentes no que fazemos e exigentes com nós próprios. O dia em que não manifestarmos essa “permanente insatisfação”, essa vontade de fazer mais, melhor e diferente, preservando a nossa genuinidade e autenticidade estaremos, seguramente, a dar o primeiro passo em direcção ao retrocesso.

Mais a mais porque a única garantia que existe no turismo de hoje, a grande certeza com que diariamente a actividade turística convive, é que aquilo que não fizer num dado momento será, por certo e de imediato, feito por outros. Como vimos na questão anterior, a competição é feroz e tem dimensão planetária. Portanto, ficarmos “à sombra de louros conquistados”, por mais mérito que os mesmos traduzam, não é opção. A inacção é o pior inimigo do turismo. Até porque este é, por definição, uma actividade que implica deslocação, logo movimento.

Todavia, temos de saber canalizar toda esta dinâmica de forma inteligente de modo a não fazermos perigar a sustentabilidade do turismo português e, assim, asseguramos um escorreito desenvolvimento e crescimento continuados da actividade turística no nosso país.

E a repetição de alguns destes “Óscares” prova bem que, até aqui, temos sabido fazê-lo com maestria!

 

O + da Semana:

Seguramente todos já ouvimos falar do “Efeito Borboleta” – uma das partes mais famosas da “Teoria do Caos” –, segundo o qual o bater de asas de uma borboleta num dado local, pode provocar um tufão no lado oposto do Mundo. Fizemos esta introdução telegráfica para destacar que, após quase duas décadas de negociações, o acordo de céus abertos entre o Brasil e os Estados Unidos da América (EUA) ganhou, finalmente, vida. Embora assinado por ambos os países em 2011, o mesmo carecia de aval do Congresso brasileiro (acto que teve lugar em Março deste ano) e, subsequentemente, de promulgação pela Presidência da República do “país irmão”, a qual ocorreu em finais do mês passado, mais concretamente no dia 26. Doravante, para além de deixar de existir qualquer limitação ao número de voos entre aqueles Estados, prevê-se que as transportadoras aéreas brasileiras e norte-americanas intensifiquem e estreitem o seu relacionamento, sendo já ventilados alguns consórcios (“joint ventures”), nomeadamente entre a United Airlines e a Azul Linhas Aéreas Brasileiras, entre a American Airlines e a LATAM Airlines ou entre a Delta Airlines e a Gol Linhas Aéreas Inteligentes, dado ter ficado ultrapassado, pelo lado dos EUA, o grande (e quase único) constrangimento que existia para a aprovação de parcerias entre as companhias aéreas de ambos os países. Certamente que este “bater de asas” terá repercussões no desenvolvimento dos fluxos turísticos bilaterais e na actividade turística a nível global, atenta a dimensão e potencial dos mercados em presença.