iTurismo: Transformar o Velho em Novo, por Atilio Forte

O 42º congresso da APAVT que decorreu em Aveiro até domingo, é o foco do habitual comentário de Atilio Forte no iTurismo de hoje. Em “O + da Semana” Atilio Forte destaca o facto de a palavra Turismo ser uma das candidatas a Palavra do Ano 2016 e os “Tópicos da Semana” são preenchidos com o optimismo dos hoteleiros do Norte da Europa, o inquérito da American Express Travel a turistas americanos e as preferências das turistas sul-coreanas.

Tópicos da Semana:

  • Expansão nórdica: Os hoteleiros do Norte da Europa (sobretudo da Escandinávia) encontram-se particularmente optimistas quanto ao futuro. A prová-lo estão os indicadores de crescimento da actividade, o aparecimento de unidades mais sofisticadas e modernas e a entrada em cena de um maior número de “players” internacionais que, devido ao seu bom desempenho, nomeadamente no retorno dos capitais, alimentam o interesse (seu e alheio) na realização de novos investimentos.
  • À atenção das empresas nacionais: A American Express Travel levou a cabo um inquérito junto dos turistas americanos, o qual revelou que aquilo que por eles mais é valorizado são os produtos que proporcionam experiências pessoais como, por exemplo, os hotéis design, antecipando que as unidades com estas características poderão ver a suas reservas crescer acima dos 30%, já no próximo ano.
  • O que as sul-coreanas preferem: O “Hotel Time Commerce” – website de reservas hoteleiras baseado na Coreia do Sul – anunciou que o segmento demográfico líder, no que respeita ao alojamento de luxo, é composto por consumidoras femininas com idade entre os 30 e os 40 anos, motivo porque insta os hotéis que pretendam crescer naquele mercado a proporem/criarem oferta especialmente dirigida às mulheres.

 

Comentário

Turisver.com – No Congresso da APAVT, o presidente da  Associação voltou a alertar para as desigualdades fiscais no âmbito do MICE face à concorrência de outros países, apelando à CTP para que acolha este dossier, o que vai acontecer, como ficámos a saber através do discurso de Francisco Calheiros na sessão de encerramento. Por seu lado a secretária de Estado deu conta dos resultados do trabalho feito pelo Turismo de Portugal na conquista de  congressos internacionais para Portugal. Como olha para estas situações e que comentários lhe merecem?

Atilio Forte – Como os nossos leitores estarão recordados, há cerca de um ano quando o Governo anunciou que iria, no âmbito do Turismo de Portugal, criar uma “equipa de missão” com o objectivo de captar grandes eventos internacionais para o nosso país, tivemos oportunidade de aqui elogiar essa decisão, a qual estava em linha com os alertas que nestes comentários vínhamos fazendo, nomeadamente, que na promoção turística “havia mais vida” para além do digital.

Assim, é sem surpresa que recebemos o anúncio feito pela Secretaria de Estado do Turismo (SET) que já estão contratados mais de 40 grandes eventos para o próximo ano, demonstrando-se que o segmento MICE (Meetings, Incentives, Congresses and Events) é seguramente uma das áreas que merece constante atenção e que, turisticamente, vale a pena continuar a explorar.

Fica, assim, provado que o mercado existe e que Portugal é suficientemente competitivo para captar uma “fatia” do mesmo. Contudo, e paradoxalmente, também concordamos com o sublinhado da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo quando refere que, fruto das desigualdades fiscais existentes, mormente em sede de IVA, a nossa capacidade de atracção turística destes grandes eventos é amplamente prejudicada pois, como é sabido, ao invés do que acontece em muitos países europeus, a dedutibilidade do IVA das despesas profissionais de alojamento, recepção e transporte, não é permitida em Portugal.

Tal quer dizer que apesar das boas perspectivas avançadas pelo Governo, poderíamos ir muito mais além no segmento do MICE, se o país tivesse os mesmos argumentos que muitos dos seus/nossos principais concorrentes.

É pois com grande satisfação que vemos a disponibilidade da CTP – Confederação do Turismo Português para ressuscitar uma causa que já foi sua e que, por razões nunca explicadas, abandonou na última década, precisamente no momento em que chegou a ter alguns Governos nacionais “debaixo da pressão” de serem accionados judicialmente nos tribunais europeus, quer por incumprimento da legislação comunitária, quer por subversão (fiscal) das regras da livre concorrência.

É estritamente a esta luz que interpretamos o apelo público feito pela APAVT à CTP no decurso do Congresso, uma vez que, sob qualquer outro ponto de vista o mesmo seria desprovido de fundamento, dado ser a própria APAVT quem, actualmente, preside à CTP…

Deste modo será com natural expectativa que iremos acompanhar este assunto, esperando que o mesmo não se restrinja apenas ao segmento do MICE, mas que seja alargado à dedutibilidade do IVA resultante de todas as despesas profissionais, já que é isso que acontece por essa Europa fora.

Em conclusão, mesmo transformando em “novo” um tema “velho”, atenta a importância estrutural do mesmo para a competitividade do turismo português e a obrigatoriedade de reposição da legalidade, saúda-se e louva-se a iniciativa, esperando-se ainda que, se necessário e tal como no passado, exista a coragem e a firmeza para a levar até às últimas consequências.

 

Turisver.com – Como participante atento das várias sessões do Congresso, e tendo em conta o tema escolhido para o mesmo, que balanço é que faz dos trabalhos?

Atilio Forte – Podemos considerar que o 42º Congresso Nacional da APAVT, que decorreu em Aveiro, entre 8 e 11 de Dezembro, sob o tema “Turismo: Liberdade de Escolha e Factores de Competitividade” correspondeu, no que respeita às sessões de trabalho, à boa tradição que os demais 41 Congressos organizados pela APAVT nos habituaram.

Embora sem grandes novidades para todos quantos acompanham mais de perto a actividade turística, talvez devido aos bons resultados que o turismo nacional tem vindo a alcançar, principalmente neste ano, foram produzidos debates interessantes e propostas reflexões realistas para o momento actual que a actividade turística portuguesa atravessa.

Contudo, seria injusto que aqui não referíssemos alguns dos aspectos que nos pareceram mais positivos, de entre os quais, e em nossa opinião, sobressaíram três:

Desde logo aquela que consideramos ser a maior das inovações/novidades deste Congresso, a Aplicação (App) criada pela APAVT que permitiu, entre muitas outras possibilidades, a todos os congressistas acompanharem os trabalhos, colocarem questões aos oradores em tempo real, saberem quem estava inscrito e manterem-se a par de tudo o que rodeou o evento. Temos a certeza que esta ferramenta irá “fazer escola” nos demais congressos turísticos e associativos nacionais.

Depois, e no que respeita à transposição da nova directiva comunitária sobre viagens organizadas, um tema sempre tão sensível para os agentes de viagens, o anúncio de que a APAVT já tinha consensualizado com a DECO (entidade representativa da defesa dos consumidores) e remetido ao Governo, um documento conjunto, o qual, seguramente, facilitará em muito o trabalho a todas as partes envolvidas, para além de constituir um excelente exemplo de concertação e caso único a nível europeu foi, também, uma excelente notícia.

Finalmente, a possibilidade que foi dada a alguns estudantes universitários para assistirem aos trabalhos, colocando o Congresso ao serviço do ensino e da aquisição de conhecimento daqueles que, no futuro, profissionalmente assegurarão a vida e o pulsar diário do turismo, enaltece o contributo da APAVT para um estreitar das relações entre o ensino superior, o mundo empresarial e os demais agentes turísticos.

Tal como em anos anteriores aqui temos referido, a maior pecha que pode ser apontada ao evento é a que se prende com a ausência de “Conclusões e Recomendações”, momento historicamente marcante de muitos e muitos Congressos da APAVT, que na maior parte das vezes era percepcionado, mormente pela classe política, como o “caderno de encargos” do turismo para o ano que se avizinhava.

Ao ter optado, há uns anos a esta parte, por suprimir esse habitual ponto “alto” dos seus Congressos, a APAVT acabou também por desvalorizar a Sessão (Solene) de Encerramento e, consequentemente, os múltiplos impactos, entre os quais se destacava o mediático, que a mesma sempre tinha.

Uma palavra final para os aveirenses, que receberam com entusiasmo e generosa hospitalidade todos os congressistas, conseguindo assim transformar a sua cidade, durante os quatro dias do evento, na casa de cada um.

 

O + da Semana:

Pelo 8º ano consecutivo a Porto Editora realiza a escolha da “Palavra do Ano”, neste caso a relativa a 2016. A título de curiosidade recorde-se que “Refugiado” foi a palavra eleita no ano transacto. A razão de termos escolhido aqui trazer este tema prende-se com o facto de, pela primeira vez, a palavra “Turismo” surgir entre as 10 finalistas à escolha final, a par de: brexit, campeão, empoderamento, geringonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente e racismo. A votação decorre até à meia-noite do dia 31 de Dezembro e qualquer pessoa pode nela participar, bastando para tal que aceda a www.palavradoano.pt e vote de acordo com a sua preferência. Os resultados serão divulgados, em cerimónia pública, logo no início de Janeiro. Como os nossos estimados leitores poderão comprovar, os pressupostos que estiveram na base desta nomeação não são os mais “simpáticos” para a actividade turística, enfermando mesmo de algumas expressões menos correctas: “Os excelentes resultados da indústria do turismo têm um impacto positivo na economia do país, mas esta realidade abriu o debate em termos de sustentabilidade e qualidade de vida nas grandes cidades” (sic.). Ora, pelo muito que o turismo tem dado a Portugal e, certamente, por tudo aquilo com que ainda contribuirá para a criação de riqueza, emprego, coesão social e territorial no nosso país, vale a pena votarmos “Turismo”, até porque, em caso de vitória, teremos sempre oportunidade de enaltecer junto da opinião pública as enormes vantagens que a actividade a todos proporciona, seja no interior ou no litoral, nos Açores ou na Madeira, no Norte, no Centro, no Sul, nas aldeias, nas vilas ou mesmo … nas grandes cidades!