iTurismo: Todos Somos Turismo, por Atilio Forte

A incursão de empresas hoteleiras em novas áreas turísticas, a importância da qualificação dos recursos humanos e a possível entrada dos “gigantes” Amazon, Google e Facebook nas reservas turísticas e hoteleiras, são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” as acções de solidariedade empreendidas por empresas do turismo. No habitual Comentário estão em foco os “óscares” recebidos por Portugal nos World Travel Awards 2017 e a retoma da Conta Satélite do Turismo.

 

Tópicos da Semana:

  • Empresas hoteleiras preparam-se para a mudança: Presentemente a hotelaria procura dar “novos” passos que lhe permitam antecipar as mudanças que irão verificar-se na actividade turística e, assim, reforçar ou garantir a sua posição na cadeia de valor do turismo, mesmo que para tal as empresas tenham de proceder a profundas alterações organizacionais. Disso são exemplos: a incursão que a Ritz-Carlton decidiu fazer pela área dos cruzeiros; a entrada da AccorHotels num segmento de mercado híbrido (algures entre um hotel e um alojamento local), através da marca Jo&Joe; ou a expansão da oferta da Four Seasons que passa a disponibilizar ilhas privadas (nas Maldivas e, em breve, nas Seychelles) e jactos (também) privados, para os seus hóspedes.

 

  • A qualificação dos recursos humanos é crucial para o turismo: Ultimamente, vários têm sido os líderes empresariais, a nível internacional, a pronunciarem-se sobre este importante tema, sendo que todas essas intervenções contam com um traço comum: a importância das empresas turísticas identificarem e recrutarem colaboradores locais para, desse modo, garantirem o seu sucesso a longo prazo e, ainda, que a formação profissional a ministrar a esses trabalhadores deve ser um processo em constante evolução, pois só assim será possível tornar excepcionais as experiências dos turistas.

 

  • Amazon, Google e Facebook “de olho no turismo”: Estes três “gigantes” mundiais têm em ponto de mira a sua entrada (em força!) na actividade turística preparando-se para, potencialmente, revolucionarem as reservas realizadas, sobretudo as efectuadas através das OTA’s (online travel agencies) e directamente nos sites dos hotéis. Entretanto, a Airbnb tem visto aumentar a lealdade dos seus clientes/utilizadores, apesar de (curiosamente) não contar com qualquer programa de fidelização.

 

Comentário

Turisver.com – No passado domingo, no Vietname, Portugal foi eleito o Melhor Destino Turístico do Mundo. O que pode esta prestigiosa distinção fazer pelo turismo português?

Atilio Forte – Impõe-se que comecemos este nosso comentário com uma nota de enorme orgulho e grande satisfação por (mais) este fantástico feito alcançado pelo turismo português, já que a obtenção do mais importante “óscar” do turismo não só é inteiramente merecida, pela justiça que faz às múltiplas valências turísticas do nosso país e à inigualável arte de bem receber do nosso povo, como por ser o reconhecimento do trabalho de gerações de pessoas e agentes da actividade que pela sua acção e perseverança souberam, paulatinamente, passo a passo, degrau a degrau, construir a oferta de um destino turístico de excelência facto que, agora, traduziu-se nesta eleição como “Melhor Destino Turístico do Mundo”.

Poder-se-á dizer que era algo espectável ou, até, inevitável, em face dos bons resultados que a actividade vinha e vem obtendo e das inúmeras menções internacionais conquistadas, as quais em Setembro passado já tinham contribuído para sermos eleitos “Melhor Destino da Europa”? Sem dúvida que sim! Mas que ninguém pense que “foram favas contadas” pois, por um lado, nunca um país europeu havia alcançado semelhante distinção nos World Travel Awards e, por outro lado, a competição era de “peso”: Brasil, Grécia, Maldivas, Espanha, Marrocos, Estados Unidos da América e Vietname (que “jogava” em casa).

Paralelamente, e seguramente não menos importante, deve referir-se que, também pela primeira vez, Lisboa venceu o “óscar” de “Melhor Destino do Mundo para City Breaks”, pela terceira vez consecutiva a Madeira foi designada “Melhor Destino Insular do Mundo”, o Turismo de Portugal foi eleito como “Melhor Organização de Turismo do Mundo”, para além de ainda ter vencido na categoria de “Melhores Campanhas de Promoção Turística do Mundo”, a empresa Parques de Sintra-Monte da Lua foi escolhida, pelo quinto ano consecutivo, como “Melhor Exemplo de Recuperação de Património” e o Pine Cliffs Resort (Algarve) designado como “Melhor Resort de Luxo para Lazer do Mundo”.

Prestada esta justíssima homenagem aos premiados e a todos quantos, no passado e no presente, de algum modo deram o seu contributo para este feito, importa agora reflectirmos um pouco sobre as consequências que tal nos poderá trazer.

E, desde logo – é mais do que óbvio! –, o principal efeito que esta “chuva” de prémios terá, é o acréscimo de responsabilidade. Porque, se foi difícil chegar a um patamar tão elevado, muito mais árdua será a tarefa de nos mantermos nele. Com isto não pretendemos dizer que, doravante, teremos todos os anos de ganhar esta eleição. Seria uma autêntica leviandade pensar-se isso. Contudo, as expectativas daqueles que decidam visitar-nos serão, por certo, muito mais elevadas e, portanto, “cobrar-nos-ão” esta nova condição porque, quer queiramos, quer não, a “fasquia” subiu, e de que maneira.

Ora como, naturalmente, o nosso índice de atractividade aumentou, fruto de sermos “os melhores dos melhores”, iremos ter mais turistas com maior exigência. E isso coloca-nos novos desafios que não podemos ignorar e para os quais devemos preparar-nos e apetrechar-nos. É que por muitos prémios que se ganhem, a melhor distinção será sempre o julgamento daqueles que decidam gastar o seu dinheiro para nos visitarem. E todos sabemos bem a velocidade com que a informação circula nos nossos dias…

Isto para referir que temos a obrigação de continuarmos a fazer o trabalho que agora nos permitiu colher tão saborosos frutos e que nos conduziu a este momento único. Quase como se nada tivesse acontecido. Com a mesma humildade, com o mesmo saber e, acima de tudo, como o mesmo querer de sempre almejar mais e inovar melhor.

Se estas serão algumas das consequências mais visíveis a nível externo, também as haverá do ponto de vista interno, principalmente, em dois planos:

O primeiro, é a capacidade que o turismo revelar em saber partilhar este prémio com todos os portugueses – organizações públicas e privadas, empresas e pessoas de hoje mas, também, de “ontem” – sem excepção. Porque Portugal somos todos nós! É o que de bom e de bem (e é muito) fazemos todos os dias. Em tempos onde o turismo é muito mais do que simplesmente viajar, onde o viver e o interagir com as comunidades locais assume crescente preponderância, é crucial que o “país” sinta que foi todo ele quem (também) conquistou esta honrosa distinção.

O segundo, tem a ver com o modo como o turismo conseguir usar o estatuto que, com todo o mérito, acaba de alcançar. E, em concreto, fazer ver a muitos “velhos do Restelo” que é, também, nele que reside muito do futuro e do sucesso de um novo modelo económico para Portugal. Mas para isso, deverá demonstrar, proactivamente, saber os caminhos que quer trilhar e reclamar ser tratado com maior respeito, sem promessas vãs ou “palmadinhas” de conveniência nas costas que, no dia seguinte, mais não representam do que uma mão cheia de nada.

Queremos com isto dizer que o turismo português deve aproveitar este momento para erguer-se e ser firme na exigência de um outro estatuto, quer político, quer económico, para si próprio, mais condizente com o peso que detém e o papel estratégico que desempenha na economia nacional. Sem sobrancerias, mas com assertividade. Com humildade, mas sem receios.

Em suma, estamos certos que esta nova página de ouro escrita pelo turismo nacional contribuirá decisivamente para que a actividade e os seus agentes, em particular, e o país inteiro, em geral, ainda mais se mobilizem em torno do turismo, transformando-o num verdadeiro desígnio nacional, numa janela de esperança e bonança para o futuro de Portugal.

 

Turisver.com – Já se falou muito, aqui no iTurismo, sobre a Conta Satélite do Turismo e, finalmente, na passada semana, foram conhecidos os primeiros dados. A partir de agora vamos ficar a conhecer melhor o nosso turismo?

Atilio Forte – Começamos por referir que esta é mais uma excelente notícia para o turismo português. Porventura, sem o impacto e a visibilidade da anterior mas, claramente, com outra substância, já que, do ponto de vista turístico, permitirá que voltemos a comparar-nos com os demais Estados que integram a Organização Mundial do Turismo (UNTWO) e seguem as normas por ela sistematizadas.

A retoma da Conta Satélite do Turismo – CST que, como os nossos leitores têm memória, tem sido tema de grande constância e insistência ao longo dos anos nestes nossos comentários, vai assim, finalmente, possibilitar-nos a obtenção de dados fiáveis, susceptíveis de confrontação internacional, pois os mesmos serão elaborados de acordo com os critérios contabilísticos definidos pela UNTWO, desde o início do milénio.

E isso significará mais rigor científico nas análises efectuadas, melhor filtragem da informação obtida, logo melhores decisões e melhor gestão do nosso turismo, tanto no plano público, como no privado, algo que foi inexplicável, incompreensível e abruptamente interrompido em 2010, quando o Instituto Nacional de Estatística – INE deixou de ter meios (porque deixaram de lhe ser dados) para prosseguir com a CST.

Como é bem referido na pergunta que nos é colocada, daqui em diante vamos, sem sombra para dúvidas, ficar a conhecer muito melhor a actividade turística no nosso país e, consequentemente, estar mais bem posicionados para sobre ela reflectirmos e agirmos sobre a sua evolução.

Temos por isso que felicitar o Governo pelo trabalho desenvolvido neste importante domínio. Tardou, mas conseguiu e (re)fez! E, como diz o ditado, mais vale tarde do que nunca!

Merecem igualmente uma palavra de apreço, pelo esforço e empenho postos nesta tarefa, o INE, o Banco de Portugal e o Turismo de Portugal, entidades que tiveram e vão continuar a ter a seu cargo a permanente compilação e actualização dos dados que, posteriormente, disponibilizarão à actividade.

Ao invés, o único senão que encontramos neste “renascer” da CST é a ausência de envolvimento dos agentes económicos empresariais – contrariamente ao verificado no passado – pois, no fundo, são eles os principais destinatários da informação recolhida e, simultaneamente, os mais necessitados e interessados na mesma, uma vez que, convirá não esquecermos, o turismo é uma actividade económica eminentemente privada…

Uma palavra final para destacarmos que, daqui em diante, deixará de haver razão para que as análises, as estatísticas e todo o rol de elementos de aferição produzidos sobre a actividade turística, por um infindável número de entidades (públicas, privadas e público-privadas), apresentem quaisquer discrepâncias, já que a metodologia que deverá estar-lhes subjacente é a única com validade e reconhecimento internacionais. E isso também será excelente para o turismo português.

 

O + da Semana:

Certamente por ser uma actividade económica feita por pessoas para pessoas, tendo sempre o ser humano como principal centro e foco de atenção, são múltiplos os exemplos de acções de solidariedade que existem no turismo, razão por que, a espaços, procuramos aqui dar-lhes o devido destaque, sempre com o intuito de promover esses nobres gestos e, através deles, conseguir cativar e contagiar outros a também a eles aderirem, para além de prestarmos o devido e merecido reconhecimento a todos quantos – empresas ou organizações –, desinteressada mas empenhadamente, procuram fazer a diferença na vida dos mais carenciados. Esta pequena introdução serve pois de mote para aplaudirmos mais uma edição da campanha de recolha de brinquedos para crianças desfavorecidas, levada a cabo entre a AccorHotels e a Juventude da Cruz Vermelha. Durante a “Solidarity Week”, que termina amanhã (15/12), todos os hotéis de Portugal e de Espanha daquela cadeia foram transformados em pontos de recolha de brinquedos que, posteriormente, serão distribuídos através da maior organização humanitária do Mundo, pelas cidades de ambos os países onde a mesma marca presença. Bem hajam pela iniciativa que, temos a certeza, fará com que os rostos de muitos inocentes se abram num terno e alegre sorriso natalício!