iTurismo: Turismo Interno e Acessibilidades, por Atilio Forte

O 3º Fórum de Turismo Interno “Vê Portugal” e o fundo de captação de novas rotas são os temas abordados por Atilio Forte no iTurismo desta semana. Legalização do golfe na China, atracção dos “millennials” e o turismo mexicano são os “Tópicos da Semana” enquanto “O + da Semana” vai para o Rali de Portugal.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Como seduzir os “millennials”?: Um recente inquérito (coordenado pelo Vice-Presidente da Oracle Hospitality) revelou que um dos maiores desafios da actividade turística reside no facto de 20% dos consumidores da geração “Y” utilizarem os seus dispositivos móveis para fazerem check-in nos hotéis e 50% (!) usarem-nos para efectuarem as suas reservas. Tal irá obrigar a redefinir o conceito de serviço, de modo a proporcionar aos “millennials” mais escolha, velocidade e personalização baseada nas suas preferências individuais.

 

  • Golfe legalizado na China: A prática do golfe na China estava proibida desde a “Revolução Cultural”, por ser considerado um “jogo de ricos” e, portanto, incompatível com o regime igualitário instituído. Contudo, há duas semanas, um dos jornais oficiais do Partido Comunista Chinês (PCC) – “Notícias da Inspecção de Disciplina e Supervisão” -, refere-se à modalidade como “apenas um desporto”, permitindo aos mais de 85 milhões de membros do PCC que o pratiquem, desde que paguem do seu bolso o custo que lhe está associado.

 

  • México de vento em popa: De acordo com vários relatórios internacionais, em 2016 o turismo mexicano vai continuar a crescer a bom ritmo, principalmente devido a uma taxa de câmbio favorável e ao aparecimento de novas unidades hoteleiras. Mas, também o investimento estrangeiro directo na actividade irá estar em alta, já que se prevê que o mesmo atinja os 30 biliões de dólares.

 

 

Turisver.com – No final de Maio vai realizar-se o 3º Fórum de Turismo Interno “Vê Portugal”. Pela importância que o mercado interno tem para a actividade económica do turismo, que reflexos podem, na sua perspectiva, esperar-se deste evento?

 

Atilio Forte – Em primeiro lugar deveremos começar por saudar a organização deste Fórum anual – que já vai na sua terceira edição -, exactamente por ser, a nível nacional, uma das mais relevantes iniciativas de promoção e discussão do turismo interno que, como bem sabemos, é muitas das vezes negligenciado em favor de outro tipo de reflexões.

Tem sido o turismo (ou o mercado) interno quem, nos piores momentos, mais inequivocamente tem respondido “presente”, sempre que a conjuntura económica internacional não bafeja a actividade turística. Basta olharmos para o sucedido entre 2009 e 2013, para atestarmos esta afirmação.

Por isso, parece-nos da maior relevância o papel dos seus organizadores em não deixar que um período de maior bonança dos mercados internacionais, como o que Portugal presentemente atravessa – em resultado de múltiplas situações que ao longo destes comentários temos vindo a analisar -, atire os consumidores nacionais, que permanecem fieis à nossa oferta, para “fora” da equação turística. E acreditamos que essa terá sido, seguramente, uma das razões porque esta 3ª edição contará com o Alto Patrocínio da Presidência da República.

Analisando as temáticas dos seis painéis que formatam o programa do evento, constatamos o interesse que certamente despertarão nos participantes, em particular, e nos demais agentes turísticos, em geral, pois aí serão abordados por qualificados oradores assuntos como: “O Turismo e o seu Valor na Economia Portuguesa”; “Turismo Acessível e Inclusivo”; “Potencialidades Materiais e Imateriais dos Territórios – Diferenciar, Cooperar e Empreender”; “O Valor da Informação no Turismo”; “Sazonalidade, Baixo Índice de Permanência, Litoralização do Turismo – Soluções à Vista?”; e, “Turismo de Negócios/MI (Meetings & Incentives)”.

Contudo, e sem pretender de alguma forma diminuir os méritos desta iniciativa, cremos que há algo que lhe falta (ao contrário das anteriores edições). E essa lacuna tem a ver com a ausência daqueles que são, indiscutivelmente, os grandes motores da actividade, os agentes económicos privados, já que os intervenientes nas diferentes sessões são (quase todos) oriundos ou ligados ao sector público e às universidades. Não é que haja mal nisso, simplesmente a discussão fica cerceada.

Em nossa opinião faria muito mais sentido realizar uma conferência desta envergadura e importância, incluindo, ou dando voz, em discurso directo, a quem detém a oferta/produto, a quem todos os dias está directamente em contacto com o consumidor, a quem mais investe e arrisca no negócio turístico. Até porque o sucesso da própria actividade turística resulta do compromisso e da partilha de responsabilidades entre os sectores público e privado.

Apesar disso, vale a pena sublinhá-lo, há que enaltecer a chamada de atenção para o turismo interno. É que, em última análise, mesmo sendo Portugal um mercado pequeno, temos e devemos sempre contar primeiro com os nossos recursos endógenos.

 

Turisver – No final do ano passado terminou a vigência do fundo de captação de novas rotas (projecto Iniciative.pt). Estamos em final de Abril e apesar de em Janeiro a secretária de Estado do Turismo ter garantido a continuação deste fundo, e de ter sido anunciada a sua extensão aos cruzeiros, até agora nada aconteceu. Na sua opinião esta situação deveria ser uma prioridade para que Portugal se possa manter competitivo ao nível das acessibilidades?

 

Atilio Forte – Embora acreditemos que esteja para muito breve o anúncio dos novos contornos e respectiva dotação deste fundo, sem dúvida que é urgente a sua (re)entrada em funcionamento, mais a mais depois de se ter aumentado a expectativa do mercado face ao  seu alargamento ao sector dos cruzeiros.

Como aqui referimos por variadíssimas vezes, a primeira condição para que haja turismo é ter “como chegar”. Por isso, tudo o que seja melhorar e estimular as diferentes formas dos consumidores terem acesso ao nosso país é determinante.

E os tempos que correm são, também a esse nível, extremamente complexos e, até, algo paradoxais, uma vez que, por um lado, temos mercados que há poucos meses estavam estabilizados – como o Brasil, Angola ou a Rússia – e que, agora, entraram em refluxo e, por outro lado, temos outros que indiciam um período de expansão – como o norte-americano ou o europeu (mesmo dos países que mais tradicionalmente sempre procuraram Portugal).

No entanto, em turismo nada é garantido e a concorrência é feroz e implacável. Por esta razão, o único elemento que podemos dar por adquirido é que o que não fizermos, seguramente será feito por outros. Assim, urge posicionarmo-nos. E para tal precisamos de todos os argumentos promocionais e comerciais válidos, para sustentarmos e fidelizarmos, a prazo, o acréscimo de procura de que vimos beneficiando, quer por mérito próprio, quer pela conjuntura internacional.

A terminar deixamos um alerta. Atenção aos especuladores, pois hoje em dia existem muitas empresas cujo modelo de negócio está claramente vocacionado para tirar o máximo partido de conjunturas desta natureza e que por isso, se não forem “bem amarradas”, podem conduzir a situações efémeras e voláteis, com custos e repercussões muito elevados no futuro.

 

O + da Semana:

Desde o ano passado, em que transitou do Algarve para o Norte do país, o Rali de Portugal deixou de contar com o tradicional apoio do Turismo de Portugal (1 milhão de euros). Mesmo assim, a prova terá originado um impacto directo na economia da região de 65,2 milhões de euros – dos quais cerca de metade corresponderam à exportação de serviços cujo consumo foi feito (cá dentro) por entidades e pessoas não residentes. Se se tiver em conta a cobertura do evento feita pela comunicação social, os ganhos totais obtidos em 2015 superaram os 127 milhões de euros. A edição deste ano (que decorrerá entre 19 e 22 de Maio), de uma das mais mediáticas etapas do Campeonato do Mundo da modalidade, e que irá contar com várias novidades, de entre as quais se destaca a realização de uma dupla classificativa em plena baixa do Porto (Avenida dos Aliados e ruas circundantes), só foi possível organizar pelo grande envolvimento dos municípios e entidades do Norte que, tanto pela atribuição de financiamento directo, como pela candidatura do Rali a verbas provenientes de fundos comunitários, motivaram que, apesar da omissão/demissão do Turismo de Portugal, o nosso país continuasse a ser anfitrião deste marco do desporto automobilístico mundial, que já tem assegurada transmissão pela RTP e por cerca de 160 estações de televisão (!), em representação de mais de uma centena de países. Parabéns aos envolvidos!

 

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