iTurismo: Turismofobia: Um Grande Desafio, por Atilio Forte

O fenómeno da “Turismofobia” que está a acontecer em Espanha e um pouco em Portugal é o grande destaque do iTurismo desta semana, mas também o cancelamento de mais de 2 mil voos por parte da Ryanair. Nos “Tópicos da Semana”, o comentador refere-se aos investimentos turísticos em Espanha, o “boom” da construção hoteleira e o aproveitamento do espaço destinado à piscina em hotéis para outras funções, enquanto no “O + da Semana”, Atilio Forte saúda a iniciativa do Turismo de Portugal em dar continuidade à decisão que permite a participação de “startups” portuguesas nalgumas das principais feiras internacionais da actividade.

 

Tópicos da Semana: 

  • Investimento turístico em Espanha: De acordo com os mais recentes dados relativos à actividade turística na Europa verificamos que o “país vizinho” lidera o investimento na hotelaria europeia, uma vez que durante o primeiro semestre de 2017 o mesmo aumentou 6% no “velho continente”, enquanto “aqui ao lado” atingiu uns impressionantes 228% (!).
  • Mais de 700.000 quartos de hotel estão actualmente em construção: Segundo a consultora internacional “STR”, especializada em análises de mercado para o turismo, este é o número de unidades de alojamento que presentemente estão a ser construídas, um pouco por todo o Mundo. Vale a pena salientar que para este total muito contribui a “fatia” dos Estados Unidos da América, com 187.000 quartos. Contudo, aquela consultora adverte que a menor rentabilidade proporcionada pelo mercado de arrendamento irá, provavelmente, diminuir o ritmo de aparecimento de novos projectos. 
  • Ter ou não ter piscina, eis a questão(?): Não sendo propriamente um assunto novo, a verdade é que os hotéis cada vez mais ponderam a existência da (quase omnipresente) piscina entre as facilidades oferecidas aos seus hóspedes, sobretudo nas unidades mais urbanas vocacionadas para o turismo de negócios. Assim, o aproveitamento do espaço destinado à piscina para outras funções como, por exemplo, áreas de bar ou de banquetes, tem vindo a ser alvo de uma avaliação mais cuidadosa, até porque este tipo de reconversão afigura-se como uma forma de aumentar a receita.

 

Comentário:

Turisver – Têm sido crescentes as vozes que, em Portugal e Espanha, se manifestam contra o excesso de turistas em determinadas regiões, sendo esta uma situação que começa a preocupar o sector. Este “ruído” surge porque está na moda falar contra o turismo, sendo por isso passageiro, ou a situação veio para ficar, sendo mais preocupante?

 

Atilio Forte – Eis-nos perante uma das mais pertinentes questões do momento que, simultaneamente, configura um dos maiores desafios que, no curto e médios prazos, a actividade turística e todos os seus agentes terão de enfrentar: a “Turismofobia”, ou seja, a manifestação das populações locais contra os impactos que o aumento do turismo, ou do número de turistas, provoca nas comunidades, particularmente nas cidades.

Portanto, convirá desde já referir (sem rodeios) que não estamos confrontados com uma situação episódica, mas diante de algo muito sério que, caso não sejam tomadas medidas, nomeadamente por parte dos vários actores turísticos, poderá descambar e daí resultarem consequências imprevisíveis para a actividade económica do turismo, em geral, e para os destinos com maior carga turística, em particular.

Embora não estejamos propriamente diante de um fenómeno novo, devemos reconhecer que, sobretudo no último par de anos, ele veio ganhando visibilidade e arregimentando várias forças sociais em sua defesa, as quais vêm tendo crescente expressão públicaum pouco por todo o Mundo – não apenas em Espanha e em Portugal, como é referido na pergunta – eem particularna Europa (Londres e Berlim, para dar dois exemplos), com maior incidência, como não podia deixar de ser, nas suas regiões mais a Sul (Barcelona, Veneza, Roma, Florença, Milão, Dubrovnik e algumas ilhas gregas).

Como face mais visível deste descontentamento temos as manifestações ocorridas em Barcelona (antes dos atentados nas Ramblas, já que depois, e pelos mais horríveis motivos, tivemos um comportamento oposto), no passado mês de Agosto, onde muitos turistas foram confrontados com cartazes contendo palavras de ordemcontra a sua visita e, até (imagine-se!), autocarros turísticos acabaram vandalizados.

As razões invocadas para este tipo de comportamento, a roçar a xenofobia, têm uma mesma origem: a deterioração ou perda da qualidade de vida por parte das populações locais, visível no aumento de lixo nas ruas, na desvirtuação dos bairros históricos, no disparar do preço dos arrendamentos, no maior congestionamento do tráfego e dos transportes públicos, no incremento do barulho nocturno, da insegurança, etc., etc.

Apesar de não concordarmos com esta demonização que tem como alvos o turismo e os turistas, que faz tábua rasa dos benefícios únicos que a actividade deu e dá às diferentes regiões e cidades – criação de riqueza, emprego, reabilitação urbana, dinamização geral da economia, investimento, recuperação e preservação patrimonial e cultural, vivificação dos “centros urbanos”, etc. –, seria insensível e insensato da nossa parte, não reconhecer que nalguns casos há claros excessos, que não só prejudicam terceiros, como também causam sério dano à própria actividade turística.

Quando noutras análises aqui abordámos alguns dos fenómenos que nas últimas duas décadas mais impulsionaram o turismo – com destaque para o aparecimento das companhias aéreas de baixo custo (vulgo “lowcost”) e a economia de partilha ou “consumo colaborativo” –, pois fizeram com que o acto de viajar ficasse mais fácil e barato, logo mais acessível e democrático, também chamámos a atenção para os perigos que daí poderiam advir, nomeadamente a origem dainsatisfação que agora se faz sentir, razão pela qual sempre alertámos para o factor “sustentabilidade”, já que entendemos que é nele que reside o fiel da balança, entre o sucesso e o insucesso, entre o bem-estar e o mal-estar, entre o acrescentar valor e o delapidar.

Muito se tem falado e escrito acerca deste tema, mormente em defesa de um ou de outro ponto de vista. Quanto a nós, sem querermos, ou pretendermos, ser salomónicos, acreditamos que será na manutenção deste equilíbrio, muitas das vezes ténue, que reside o caminho, ou seja, nem o turismo pode ser voraz ao ponto de delapidar a autenticidade e a genuinidade das regiões e das cidades (fazê-lo seria um autêntico “hara-kiri”), nem estas últimas e os seus habitantes podem considerar a actividade turística como depredatória ou a mais recente manifestação do “capitalismo selvagem”.

É por esta razão que começámos por afirmar que cabe aos agentes turísticos – públicos e privados – a tremenda responsabilidade de defenderem tanto o “negócio”, como o que o origina (factores de atractividade). Mais importante do que crescer descontroladamente, é garantir a possibilidade de o continuar a fazer no futuro. Mais importante do que demonizar o turismo, é encará-lo como uma oportunidade de prosperar.

E para evitar que as posições fiquem tão extremadas, ao ponto de permitirem o livre arbítrio (particularmente do poder político, que no final tenderá sempre a defender de quem “depende”, e como é sabido “os turistas não votam”), é fundamental que aqueles que estão no “centro” da actividade, que vivem dela e para ela, meditem seriamente sobre qual o caminho que desejam seguir: o da sustentabilidade ou o do facilitismo e do lucro fácil que, não só agravará as tensões presentes, como em muitos casos acabará por provocar a saturação turística dos destinos que, assim, rapidamente resvalarão para o esgotamento.

Paralelamente, tão preocupante é este estado de coisas, como o quase total alheamento que os diferentes agentes turísticos, a começar pelos privados, particularmente, através das suas estruturas representativas – as associações empresariais –têm demonstrado acerca desta matéria. Quando tanto está “em jogo”, olhar para o lado, fingir que o problema não existe, não o debater com o objectivo de encontrar (boas) soluções, pode ter consequências imprevisíveis.

Como tantas vezes dizemos o turismo é uma actividade económica feita por pessoas, para pessoas, o que significa que a dimensão humana faz parte da sua essência, do seu código genético. Portanto, qualquer local onde não seja bom viver, também não será aprazível para visitar, porque estará desumanizado e descaracterizado, porque não terá harmonia, porque ninguém acabará por aí sentir-se bem.

Por isso, um e outro lado devem valorizar o que têm. E, obrigatoriamente, fazê-lo enquanto é tempo ou enquanto podem, pois uma vez posto em causa ou perdido é tremendamente difícil recuperar (recorde-se o acontecido em Barcelona: antes dos atentados “abaixo os turistas”; após os atentados “viva o turismo”).

É este bom senso, que estamos certos prevalecerá, que nos leva a acreditar que o desafio da “turismofobia” será mais um dos que a actividade turística superará, em conjunto com as populações, na defesa mútua dasustentabilidade e, consequentemente, da prosperidade recíproca.

 

Turisver – A Ryanair decidiu cancelar dois mil voos até ao final de Outubro, cerca de 50 voos diários, tendo em vista “melhorar a sua pontualidade”. O problema é que muitos passageiros não estão a ser avisados, ou apenas o são na véspera, por SMS, e-mail ou pelo site da transportadora, e no fim-de-semana houve já longas filas no Porto e em Faro. Como é que olha para esta situação que é inédita na aviação?

 

Atilio Forte – Como é referido, e bem, trata-se de uma situação inédita que acarreta graves prejuízos, quer para os passageiros, quer para os destinos servidos por esta companhia aérea de baixo custo.

Apesar das várias justificações adiantadas pela empresa – alteração do ano fiscal para que o mesmo passe a coincidir com o de calendário, descanso das tripulações (férias e folgas), melhoria dos índices de pontualidade, greves e condições climatéricas (com reflexos na operação) –, nenhuma parece ser válida ou sustentável. Até porque se o fosse, tal significaria o reconhecimento de uma total falta de capacidade de gestão e planeamento que não acreditamos possa existir numa empresa com esta dimensão.

Por outro lado, uma decisão desta natureza não é, seguramente, tomada de um momento para o outro, produzindo efeitos tão imediatos.

Efeitos que terão um enorme impacto económico pois, para além dos cerca de 300.000 lugares que estarão em causa, representando uma significativa perda de receita, dos custos de assistência aos passageiros e dos consequentes pagamentos de indemnizações, que decorrem dos direitos que protegem os consumidores, acrescerá a tudo isso o valor dos ressarcimentos a dar às múltiplas entidades dos destinos que pagam à Ryanair para que ela para lá voe. Isto, claro está, sem levarmos em conta o impacto devastador que tal terá na imagem da empresa.

Assim, e porque nos recusamos entrar em especulações, estamos em crer que a real justificação para estes cancelamentos ainda não é conhecida (pelo menos à hora em que fazemos este comentário), razão por que este será um assunto que continuaremos a acompanhar.

Independentemente dessemotivo, e mesmo não considerando as repercussões que a situação terá na vida futura desta transportadora, uma primeira conclusão podemosde imediato retirar: é que a “onda de choque” também atingirá outras companhias com modelo de negócio semelhante (“lowcost”) e isso não será bom para o turismo, já que fragilizará a credibilidade de um dos seus sectores fundamentais: o da aviação.

 

 

O + da Semana:

Um pouco por toda a parte o turismo tem vindo a dar nota da sua pujança, superando, em quase todas as regiões do globo, as previsões mais optimistas. E, como tem sido amplamente divulgado, Portugal também não tem fugido a esta “regra”. Ora, maior crescimento da actividade implica, maiores e mais complexos desafios, os quais só podem ter resposta positiva pela via da inovação, da diferenciação, da autenticidade e da dimensão. Mas para tal, é fundamental estar o mais perto possível dos mercados, dos potenciais clientes e dos consumidores, divulgando novas propostas, novos métodos, novas ferramentas, novos produtos e, simultaneamente, adquirir melhores competências, apreender e aprender novas ideias, etc.. Por este motivo saudamos a iniciativa do Turismo de Portugal em dar continuidade à decisão que permite a participação de “startups” portuguesas, de base tecnológica ou não, nalgumas das principais feiras internacionais da actividade (Londres, Barcelona, Madrid, Utreque e Berlim), que terão lugar na segunda metade do ano e no início de 2018, como forma de estimular a sua internacionalização e capacidade empreendedora. Tal não apenas robustece o tecido empresarial português presente e futuro, como é um garante da evolução e do progresso do turismo e do país.