iTurismo: A União (Europeia) Faz a Força!, por Atilio Forte

Segurança na hotelaria, a luta pelas reservas directas e a necessidade de os projectos de alojamento terem em conta o uso de dispositivos móveis, constituem os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe como “O + da Semana” uma decisão da empresa de transportes públicos de Madrid. O habitual comentário versa sobre a recente visita de empresários portugueses a instituições europeias, liderada pela Confederação do Turismo Português.

 

Tópicos da Semana:

  • Hotéis europeus (para já) fora da refrega das reservas directas: A hotelaria europeia é constituída, como se sabe, por inúmeros operadores independentes. Ora esta enorme fragmentação do mercado tem tornado a luta pelas reservas directas com os grandes consolidadores/distribuidores (principalmente online) menos acesa do que nos Estados Unidos da América (EUA) onde, recorde-se, cerca de 60% das unidades estão debaixo do “guarda-chuva” de uma marca.

 

  • Projectos de alojamento deverão passar a considerar o uso de dispositivos móveis: As cadeias hoteleiras Wyndham Hotels and Resorts, Marriott International e Holiday Inn (detida pelo InterContinental Hotel Group) estão entre as marcas que já se preocupam em dar resposta à crescente necessidade dos seus clientes terem de recarregar uma infinidade de equipamentos electrónicos portáteis e, por isso, estão a instalar, sobretudo nos quartos, vários tipos de tomadas. A título de exemplo, o Washington Marriott de Georgetown incluiu portas USB nos candeeiros das mesas-de-cabeceira, na recente renovação que levou a cabo.

 

  • Segurança na hotelaria: Como diz o ditado “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Por essa razão não admira que a principal conclusão do Seminário sobre Contra Terrorismo, realizado em Singapura, no mês passado, pelo Hotel Industry Safety and Security Watch Group tenha enfatizado a importância de proteger as unidades e os seus hóspedes, de modo a precaver eventuais ataques terroristas. Entre as recomendações efectuadas sugere-se que os hotéis adoptem os mais recentes e tecnologicamente sofisticados sistemas de segurança e, simultaneamente, dêem formação sobre vigilância de comportamentos suspeitos a alguns dos seus colaboradores.

 

Comentário

 

Turisver.com- A Confederação do Turismo Português liderou uma comitiva de empresários às Instituições  Europeias, com o objectivo de reforçar as relações institucionais entre a CTP e os organismos europeus, e colocar o turismo na agenda da União. Na sua opinião, é com acções deste tipo que se consegue sensibilizar os responsáveis europeus para uma maior atenção a esta actividade  económica?

Atilio Forte – À semelhança do que temos feito com outros acontecimentos que também consideramos marcantes, entendemos começar a nossa resposta por saudar e louvar esta iniciativa conjunta da CTP – Confederação do Turismo Português e da Eurodeputada Cláudia Monteiro de Aguiar (membro da Comissão dos Transportes e Turismo do Parlamento Europeu), que visou dar a conhecer a algumas das associadas da CTP os “corredores e meandros do poder” das instituições da União Europeia (UE) pois, como é do conhecimento público, há um vastíssimo conjunto de decisões com impacto directo e indirecto na actividade económica, em geral, e no turismo, em particular que, crescentemente, são tomadas em “Bruxelas”, com obrigatoriedade de adopção por todos os Estados-Membro.

Realça-se ainda a oportunidade desta acção pois, para muitos, a mesma também serviu para recordar que, desde há sensivelmente dois anos, a CTP integra o Conselho Económico e Social Europeu e, portanto, tem vindo a participar nos pareceres daquele importante organismo comunitário, embora nunca tenha feito grande eco dessa sua actividade ou prestado contas dos trabalhos aí desenvolvidos, bem como dos resultados obtidos.

Dadas estas notas prévias, somos de opinião que todos os gestos que sublinhem e ponham em evidência a importância estratégica do turismo para a economia da UE são deveras importantes, pois é sempre bom recordar o peso que o turismo representa no Produto Interno Bruto (PIB) europeu e os empregos que assegura e gera, vantagens que ganham maior dimensão quando apenas consideramos os países do Sul da União (nos quais Portugal está inserido). Por outro lado, sendo o “Velho Continente” o maior destino turístico mundial, não pode, nem deve, a UE alhear-se desse estatuto/responsabilidade, mormente em tempos – como os actuais – onde encontrar actividades e fórmulas que dinamizem as economias são tão necessárias.

Será bom aqui fazer um parêntesis para relembramos que foi graças a Portugal que, pela primeira vez, o “Turismo” apareceu citado num Tratado da UE, mais concretamente no “Tratado que Estabelece uma Constituição para a Europa” – especificamente no Capítulo respeitante aos “Domínios de Acção Comum” dos diversos Estados-Membro –, publicado em Julho de 2003, aprovado em Junho de 2004 e assinado em Outubro do mesmo ano.

As tarefas preliminares para a Convenção Europeia, cujo Grupo de Trabalho nacional foi liderado pelo saudoso Professor Doutor Ernâni Lopes (e que tivemos o privilégio pessoal de integrar), concluíram pela apresentação ao Governo português de então de um texto com várias propostas, entre as quais uma (considerada inegociável) que visava o reconhecimento “político” da actividade turística pela UE, através da sua menção na redacção final daquele Tratado.

As negociações que se seguiram não foram fáceis. E, tal como hoje, revelaram a existência de “duas Europas”, uma do Norte – a dos países emissores de fluxos turísticos – e outra do Sul – a dos países receptores de fluxos turísticos –, só tendo sido possível um acordo graças à conjugação de esforços dos Estados-Membro do Sul, muito devido ao empenho pessoal do então Primeiro-Ministro português (mais tarde Presidente da Comissão Europeia) José Manuel Durão Barroso.

Volvida quase uma década e meia, constatamos que a percepção sobre os benefícios e contributos da actividade turística para a economia europeia felizmente evoluiu. Não obstante o que acabamos de afirmar, se passarmos para aspectos mais práticos, verificamos que, pela actuação da generalidade das instituições comunitárias, o turismo tem ainda um longo caminho a percorrer até atingir a consideração que, por mérito e direito próprios, merece.

Razão mais do que suficiente para caucionar e enaltecer a iniciativa em análise. Mas também argumento adicional para reconhecer o muito trabalho que a actividade turística tem pela frente no seio da UE, uma vez que as acções de sensibilização (e de pressão) são importantes, mas não podem estar desgarradas de uma estratégia mais ampla, que lhes dê consistência, substância e metas a alcançar.

Em nossa opinião, para que tal possa materializar-se, será fundamental:

Desde logo pugnar pela criação de uma Confederação Europeia de Turismo, que reúna todas as Associações Europeias representativas dos diversos sectores que integram a constelação turística, de modo a apresentar-se junto de “Bruxelas” como interlocutor único e representante global dos agentes turísticos privados da UE.

Antevendo e antecipando eventuais dificuldades iniciais, pelo menos avançar com uma Confederação Europeia dos países do Sul da União que, por um lado, defenda os interesses das suas associadas, isto é dos agentes económicos privados e, por outro lado, que tenha mandato para, casuisticamente, procurar e realizar entendimentos com confederações nacionais do “Norte da Europa”, de modo a esbater desconfianças e, mais importante, gerar pontos de convergência que, por certo, revelar-se-ão determinantes para a construção futura de um ambiente propício ao seu alargamento e representação “de” e “a” todo o espaço comunitário.

Deverá, também, assumir-se como um imperativo instar todas as confederações turísticas nacionais a valorizarem o papel da Comissão dos Transportes e Turismo do Parlamento Europeu, dos próprios Eurodeputados (mormente os eleitos por cada um dos países) e das demais instituições comunitárias com quem se relacionam, solicitando-lhes audiências, apresentando-lhes estudos, fazendo-lhes propostas, confrontando-as com impactos de medidas, sublinhando a importância do turismo no investimento, na criação de riqueza e emprego, na coesão territorial e, porventura mais importante, na afirmação da própria UE, através da valorização das diferenças dos seus Estados-Membro, pois elas significam a genuinidade e autenticidade tão procuradas pelos turistas de hoje e, simultaneamente, recuperam o “velho” princípio europeu que pugnava pela coesão e igualdade, através da manutenção da heterogeneidade e características identitárias de cada um dos países que a integram.

Por último, e para não sermos exaustivos, defender sem tibiezas a criação de um Comissário Europeu para o Turismo (preferencialmente tutelando também a Aviação), que integre o Governo da UE (Comissão Europeia).

Em conclusão, os promotores desta inédita iniciativa estão de parabéns. Mas para que ela produza os resultados desejados é necessário que a mesma se repita, que se multiplique a outros países e que os agentes económicos privados europeus ganhem verdadeira consciência que só em conjunto conseguirão fazer mais e melhor pela afirmação do turismo na União Europeia. Afinal, é a união que faz a força!

Por isso, decidimos terminar escolhendo uma das mais célebres frases de Jean Monnet – um dos “pais-fundadores” da UE –, a qual ganha uma dimensão acrescida quando também pensada e aplicada ao turismo: “Não coligamos Estados, unimos Homens”.

 

O + da Semana:

O destaque desta semana vai para a recente decisão da empresa de transportes públicos de Madrid, que proíbe a postura de pernas abertas aos homens que utilizem os seus veículos, de modo a não permitir que os mesmos ocupem mais espaço do que o que lhes é concedido pelo “seu” lugar e, por esse motivo, perturbem o passageiro do lado, dando assim satisfação às inúmeras reivindicações de grupos feministas que lhe têm sido dirigidas nos últimos tempos, entre as quais conta-se o das “Mujeres en Lucha” que, no início de 2017, recolheu 11.500 assinaturas na petição pública que, para o efeito, levou a cabo (#nomanspreading). Contudo, não se julgue que este tipo de medida é insólito, uma vez que outras cidades como Nova Iorque, Tóquio ou Seattle, há largos anos que promovem esta correcção comportamental. No entanto, como nos diz a terceira Lei de Newton “a toda a acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade”, pelo que estes movimentos cívicos tendem a alastrar-se, existindo já nas redes sociais um outro, também relacionado com o uso dos transportes públicos, mas desta feita visando as mulheres que ocupam demasiado espaço com as suas malas, sob o “hashtag” #shebagging.

 

Nota da Redacção: Atento o feriado de amanhã (Corpo de Deus) o iTurismo desta semana foi antecipado e tem formato reduzido. Para a semana voltará no dia e moldes habituais.