iTurismo: Mais Vale Prevenir Que Remediar, por Atilio Forte

Os desacatos dos jovens ingleses em Albufeira e no Aeroporto de Faro, bem como os incidentes, muitos com consequências fatais, que têm ocorrido em praias não vigiadas, são comentados no iTurismo desta semana. Nos “Tópicos da Semana”, Atilio Forte analisa os refluxos nas relações entre os EUA e Cuba, o novo conceito de resort mais amigo do ambiente, e o boom de turistas chineses em Espanha, enquanto “O + da Semana” dá enfoque ao novo programa da AHP, denominado “HOSPES – Sharingis Caring”.

 Tópicos da Semana:

  • Refluxo nas relações entre os Estados Unidos da América e Cuba?: A Administração Trump está empenhada em anular a política prosseguida pela sua antecessora (Administração Obama) no que respeita à República de Cuba, nomeadamente no relativo ao turismo, substituindo-a por um novo acordo, apesar de tal não ser visto com “bons olhos” tanto pelos legisladores americanos, como pelas associações e empresas ligadas à actividade turística. A prová-lo estão as posições públicas assumidas por vários departamentos governamentais, organizações de direitos humanos e pelo movimento associativo empresarial em geral, que defendem que as relações com aquele país das Caraíbas devem ser desenvolvidas e não restringidas.
  • Um novo conceito de “resort”: Entre os projectos finalistas ao reputado prémio internacional “Radical Innovation Award” deste ano, está o da empresa Arno Matis Architecture, cuja concepção baseia-se na energia hídrica e no uso de luz natural, através do qual é proposto criarem-se “resorts verticais com microclima próprio” visando um duplo objectivo: permitir a construção de hotéis em locais remotos e, simultaneamente, garantir a sua sustentabilidade, particularmente ecológica e ambiental.
  • Chineses “invadem” Espanha: A parceria entre a cadeia hoteleira espanhola Hotéis Meliá e uma das principais agências de viagens chinesas – a Ctrip – começa a dar frutos, já que permitiu ao “país vizinho” ultrapassar a França e a Itália como principal destino europeu para os turistas chineses. Recorde-se que na origem deste acordo estava a intenção de tornar como locais “obrigatórios” de estada,para quem provém daquele mercado asiático, as unidades que operam debaixo daquela marca. E, ao que parece, os resultados estão à vista.

 

 Comentário

Turisver – Os incidentes com jovens ingleses em Albufeira e no Aeroporto de Faro, que chegaram aos noticiários nacionais, trouxeram a público uma situação que, embora sem tanta gravidade, vem acontecendo em Albufeira e na Oura. No seu entender o que deve fazer-se para acautelar este destino que vive do turismo de famílias?

 

Atilio Forte – Devemos começar por dizer que situações como a que está referida na pergunta não são, infelizmente, uma novidade, atenta a sua recorrência sobretudo naquele “ponto quente” da noite algarvia. Neste caso o único aspecto inédito foi a sua dimensão, devido ao número de envolvidos, a qual também esteve na origem da grande repercussão mediática que o mesmo teve, bem como no empolamento de outros distúrbios – como o do aeroporto de Faro – que, embora não sendo naturais, só foram dignos de eco noticioso pela sua proximidade temporal com aquele. Caso contrário, dificilmente chegariam ao domínio público.

Para além deste aspecto há a considerar o enorme impacto das redes sociais que permitem, instantaneamente, a difusão de tudo o que se passa no Mundo, tanto de bom, como de mau, tornando “em viral” e sem qualquer distinção, quer um cândido acontecimento, quer o mais hediondo dos actos.

Escusado será referir os impactos que tais situações provocam e, principalmente, como as mesmas podem afectar global e negativamente a imagem de uma região ou de um destino turístico, uma vez que, por um lado, podem afastar quem estava a planear passar as suas férias nesse local e, por outro lado, a aí atrair aqueles que procuram ambientes com essas características. É que hoje em dia há gostos (e procura) para tudo…

Dadas estas notas, analisemos a questão de fundo, ou seja, o que fazer para salvaguardar este tipo de situações?

Desde logo, impõe-se (em permanência) uma presença mais efectiva e visível das forças de segurança – como imediatamente foi feito, embora somente “a posteriori” – de modo a dissuadir e precaver eventuais comportamentos desviantes ou, se necessário, intervir prontamente, estancando uma eventual escalada ou descontrolo da ordem pública e, paralelamente, garantir uma plena e segura fruição do destino a todos os que lá vivem ou aos que aí se deslocaram em turismo, que são, felizmente, a esmagadora maioria.

A par deste reforço da segurança, deverão as múltiplas entidades e organismos estatais, entre os quais destacam-se as autarquias, as forças policiais, a ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica e o SEF – Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, preocuparem-se em fazer cumprir a diversa legislação em vigor (ruído, consumo de álcool, horários de funcionamento, etc.), mormente através da realização de acções inspectivas e de fiscalização, tanto junto de pessoas como de empresas.

Contudo, será na “resposta” que os diversos agentes turísticos decidirem dar a este problema que residirá a solução de “fundo”. Como tantas vezes aqui temos afirmado, a auto-regulação é fundamental para o escorreito desenvolvimento e crescimento sustentados do turismo!

Quanto a nós esta é a questão mais importante, pois são todos quantos estão ligados à actividade (operadores turísticos, hoteleiros, proprietários de estabelecimentos de restauração e bebidas, empresas de animação, associações empresariais, organismos promocionais regionais, etc.) quem é responsável pelo destino. Por isso devem ter consciência que as suas acções, mais tarde ou mais cedo, têm consequências na percepção como o mesmo é encarado.

Isto para dizer que persistir em organizar (ou co-organizar, ou fornecer, ou colaborar) programas como o que esteve na origem destes tristes acontecimentos, cujo nome, custo, serviços disponibilizados e público-alvo, já “quase antecipavam”o desfecho que acabou por verificar-se – “Portugal Invasion 2017”, 677€ com tudo incluído (viagem, alojamento, comida e bebida, festas, etc.), uma semana, para jovens/adolescentes (no caso britânicos, embora a nacionalidade não seja relevante) –, é uma estratégia suicida (mesmo a curto prazo).

Após o sucedido, também vimos e ouvimos muitas vozes apelarem a uma subida de preços para “afastar” este tipo de turistas. Aparentemente, para alguns, tal poderá parecer uma solução. Porém, na nossa óptica, pouco (ou nada) compaginável com as pretensões e com o trajecto prosseguido por um destino global, como aquele em que Portugal tem vindo a tornar-se e, diga-se, com tão bons resultados. É que “ser global”, significa ser competitivo e detentor de uma oferta de qualidadepara todos os segmentos e tipologias de turistas e não apenas para os que têm mais posses.

Em suma, ou temos vontade e querer e antecipamo-nos aos acontecimentos prevenindo-os, ou por eles somos/seremos constantemente ultrapassados. A linguagem popular, na sua infinita sabedoria, dá-nos a escolherentre “depois de casa roubada, trancas à porta”ou “mais vale prevenir que remediar”. A cada um cabe a responsabilidade de optar…

 

Turisver – Nos últimos anos, o calor tem chegado a Portugal bem mais cedo que o Verão e muito antes do início da época balnear que determina que as praias sejam vigiadas. Alguns municípios têm, por isso, colocado mais cedo vigilância nas praias, mas a maioria não o faz e têm-se multiplicado os incidentes, muitos com consequências fatais. No seu entender, como poderemos pôr um travão a esta situação?

 

Atilio Forte – Muito poderíamos discorrer sobre este tema e dos motivos que lhe estão subjacentes. No entanto, e procurando ser objectivos, estamos em crer que há duas questões que podem contribuir, em muito, para atenuar a perda de vidas humanas que ano após ano acontece nas praias do nosso país fora do período habitual de vigilância, isto é, fora da “época balnear”.

A primeira prende-se com a informação ou, se quisermos, com a pedagogia de adopção de comportamentos preventivose correctivos que visem alertar a população (e os turistas), em geral, dos riscos que corre quando procura praias em períodos do ano em que as mesmas não são vigiadas e age com o mesmo “à vontade” como quando a vigilância marca presença.

Embora tais práticasrespeitem, em última análise, à (in)consciência de cada um, estamos em crer que a realização, ao longo do ano, com a colaboração da comunicação social e das redes sociais, de campanhas que esclareçam sobre os cuidados a ternuma praia sem vigilância poderiam ser de enorme utilidade. Se, no limite, uma só vida fosse poupada graças a estas acções, já estaria mais do que justificada a sua realização.

É que, quer queiramos quer não, Portugal é um país “de mar” (ou de rio, ou de barragem, ou de albufeira…), com um passado épico ligado ao oceano e com clima ameno e, portanto, com toda uma herança civilizacional e cultural que nos conecta à “água”. E isso, felizmente, nunca irá desaparecer das nossas vidas. Por essa razão, para nós o “ir à praia” é tão natural como, por exemplo, o “usufruir da neve” para quem vive no Centro e no Norte da Europa.

A segunda situação prende-se com a adaptação e evolução das mentalidades, mormente dos responsáveis autárquicos: querà realidade do país, da qual transparece a importância crescente da actividade turística (tanto interna, como externamente); quer às alterações climáticas;quer ainda às mudanças comportamentais que conduziram à adopção, por parte significativa da população (residente e não-residente), de práticas de vida mais saudáveis que, concretamente, a põem em contacto com a natureza e que, no nosso caso, inevitavelmente a colocam “perto da praia”.

A título de ilustração para atestar a correcta leitura desta realidade, podemos referir que este ano o município de Cascais antecipou a inauguração da época balnear para o dia 1 de Maio e o de Albufeira para o dia 15 do mesmo mês (neste caso já o faz desde 2009).

Assim, estamos em crer que a conjugação destes dois tipos de medidas, por um lado, o informativo/preventivo e, por outro lado, o que se prende com uma observação mais atenta do Mundo em que vivemos, poderia atenuar o número de acidentes que ocorrem nas nossas praias. E, nalguns casos até, ajudar ao desenvolvimento turístico o que, pelos efeitos que a actividade induz noutras áreas da economia, não só “pagaria” o acréscimo de custos que tal acarretasse, como ainda criaria mais riqueza e emprego.

 

O + da Semana

A AHP – Associação da Hotelaria de Portugal criou em finais de 2012 um Programa de Responsabilidade Social através do qual pretendia envolver as suas associadas em iniciativas solidárias junto de diversas entidades, particularmente no que respeitava à doação de bens e equipamentos que, por uma ou outra razão, deixavam de estar a uso nas suas unidades. Uma iniciativa que começou sob o lema “Um colchão, um coração” e que, como o nome indica, visava apenas oferecer colchões. Volvidos 5 anos e doados que foram cerca de 26.000 bens a 33 instituições sociais, aquela associação pretende agora dar um novo fôlego à ajuda ao próximo. Daí que, em cerimónia que contou com a presença do Presidente da República, tenha apresentado a reconfiguraçãodeste Programa (que passa a denominar-se “HOSPES – Sharingis Caring”), alargando o seu âmbito e dando-lhe objectivos bem mais ambiciosos, através de duas vertentes, a social (“We Share”) e a sustentável (“WeCare”), e do envolvimento de outros parceiros fora do âmbito da AHP, através de uma articulação em plataforma. Desta nova visão merece destaque a criação de uma bolsa de emprego para jovens institucionalizados que, assim, poderão ter uma oportunidade de trabalho na actividade turística.