iTurismo: Mais Vale Tarde…, por Atilio Forte

A diminuição das viagens de longo curso para os EUA, o investimento de Brad Pitt num resort na Croácia e o valor dos “toques pessoais” na hotelaria são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolhe para “O + da Semana” o aumento de passageiros transportados pelas companhias aéreas em Agosto. O habitual “Comentário” versa sobre a apresentação do “Roteiro para a Competitividade” pela CTP e a defesa de um Ministério do Turismo feita pelo seu presidente.

 

Tópicos da Semana:

  • Viagens de longa distância para os Estados Unidos da América (EUA) diminuem: De acordo com uma recente análise divulgada pela USTA – United States Travel Association, a quota detida pelos EUA, em 2016, na recepção de turistas provenientes de países de diferentes regiões geográficas (Europa, Ásia, Médio-Oriente, etc.) diminuiu pela primeira vez desde 2006 e, ao que tudo indica, voltará a cair em 2017. Aquela análise aponta a valorização do dólar e a posição de “antagonismo” da Administração Trump face às entradas de estrangeiros em solo americano, como as principais razões para esta retracção.

 

  • Brad Pitt investe na Croácia: O famoso actor de Hollywood é um dos investidores por detrás de um novo projecto turístico localizado na região Oeste da Croácia (banhada pelo Adriático), mais concretamente em Zablace. Trata-se de um resort que incluirá um hotel de luxo, restaurantes, bares, um campo de golfe e várias boutiques de marcas de topo, num investimento que rondará os 2,5 biliões de dólares.

 

  • A tecnologia (ainda) não é tudo: Apesar dos progressos tecnológicos muitos são os que defendem (e bem!) que os “toques pessoais” são a grande mais-valia no que respeita ao enriquecimento da estada num hotel, sobretudo no segmento de luxo, em virtude dos hóspedes valorizarem mais o serviço personalizado do que, por exemplo, a aplicação móvel (App) que lhes é disponibilizada pela unidade ou cadeia, o que enfatiza e valoriza uma das principais “leis” da hotelaria: a interacção humana.

 

 

Comentário

 

Turisver.com – A Confederação do Turismo Português apresentou, na Conferência com que assinalou o  Dia Mundial do Turismo, o “Roteiro para a Competitividade”, estudo através do qual se pretendeu identificar os principais desafios nacionais e regionais que se colocam à actividade turística.  Na sua opinião, foram  identificados aqueles que são os principais constrangimentos ao desenvolvimento do sector?

Atilio Forte – É da mais inteira justiça que comecemos o nosso comentário de hoje por saudar a Confederação do Turismo Português (CTP) pelo trabalho desenvolvido, que resultou na concepção de uma excelente proposta, que denominou: “Turismo em Movimento – Roteiro para a Competitividade”. Sinceramente, há muito que a CTP não elaborava e apresentava um documento com tamanha profundidade, oportunidade e acutilância.

Por todas estas razões, não descortinamos melhor forma do que esta para celebrar o Dia Mundial do Turismo! Só é pena que a sua apresentação tenha sido feita de modo extremamente sumário – em parte porque esteve sujeita à agenda política do Governo, nomeadamente do Primeiro-Ministro –, porque a riqueza e o mérito das propostas avançadas, mais do que justificava uma melhor e mais detalhada explanação do seu conteúdo.

A estes argumentos acresce também o facto de este documento vir suprir a lacuna (por nós já aqui identificada) evidenciada na “Estratégia Turismo 2027” (ET 27) – visão prospectiva para o turismo nacional delineada, apresentada e, entretanto, aprovada pelo Governo –, quanto à existência de um quarto e fundamental pilar, “o político”, que somasse aos demais três que suportam o seu conteúdo, a saber: “o económico”; “o social”; e, “o ambiental”.

Assim, embora seja de lamentar que ambos tenham sido apresentados em tempo diferente (escassos meses), estamos agora perante duas visões estratégicas que se complementam e se completam, sendo por isso legítimo, expectável e natural que tanto o Governo, como a CTP, tudo façam para “casar” as mesmas. Se o conseguirem, e no processo envolverem as demais forças políticas e a restante comunidade turística, o turismo português poderá estar à beira de um momento único de conjugação de esforços, do qual só terá a ganhar.

Resta-nos acrescentar que recomendamos vivamente a leitura atenta deste trabalho da CTP a todos quantos de alguma forma estão ligados, interessados ou acompanham a actividade turística em Portugal.

Feita que está a apreciação genérica e contextualização do “Roteiro para a Competitividade” e, ainda, reconhecido o seu enorme mérito, passemos então a algumas breves notas sobre as suas grandes “linhas força”, principalmente as que respeitam aos “Desafios Nacionais” (é assim que o documento os designa), distribuídas por nove grandes eixos: Pessoas; Governance (pessoalmente preferiríamos “Governo” ou “Governança”, em vez do anglicanismo utilizado); Gestão dos Destinos; Sustentabilidade Financeira; Promoção, Comunicação e Produto; Sustentabilidade Ambiental; Acessibilidades; Conhecimento; e, Custos de Contexto.

Desde logo para sublinharmos a importância que é dada à aviação (eixo das Acessibilidades), concretamente ao transporte aéreo, às infra-estruturas aeroportuárias e às receitas geradas por este sector, as quais devem ser somadas às turísticas, como aliás a CTP defendeu até cerca de meados da década passada, já que a mesma (aviação) é, como há muitos (muitos, mesmo…) anos vimos dizendo, parte integrante e peça fundamental da actividade turística, sendo por isso imperativo reconhecê-la – a todos os níveis – como tal. Como gostamos de referir, não existindo “como chegar?”, não há turismo ou, pelo menos, desenvolvimento turístico. Ora, hoje em dia, sobretudo num país geograficamente situado na periferia da Europa como o nosso, é vital que exista este entendimento, pois é “de avião que lá (cá) se chega”!

Depois para referir que ao falar de sustentabilidade financeira para o (e do) tecido empresarial turístico, de linhas de apoio e incentivo ao investimento e à (re)qualificação e diversificação da oferta, de mais e melhor formação e qualificação profissionais e da participação dos privados na gestão estratégica do Turismo de Portugal e na própria promoção turística – como chegou a acontecer a partir de 2004, com o Protocolo de “Concertação e Contratualização da Promoção Turística Externa” celebrado entre o Governo (representado por aquele Instituto), as Agências Regionais de Promoção Turística e a CTP, que coroou as iniciativas e propostas desenvolvidas por esta última –, e não fazer qualquer referência ao papel estratégico e aos problemas com que actualmente se debate o sector dos jogos de fortuna e azar no nosso país, particularmente os casinos que são, como se sabe, responsáveis pelo financiamento de cerca de 65 a 70% do orçamento anual do Turismo de Portugal, configura uma omissão que não pode deixar de merecer reparo da nossa parte, já que é este sector quem gera os meios financeiros que suportam grande parte da formação profissional, da promoção turística e dos apoios e incentivos financeiros destinados à actividade.

No que respeita ao eixo do “Conhecimento” seria importante ter deixado uma palavra relativa ao “retomar” da CST – Conta Satélite do Turismo, mecanismo contabilístico internacional definido pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO) e sempre defendido pela CTP – que chegou a ser implementado e a estar em vigor até ao final da década passada –, pois só assim podemos ter elementos comparativos fiáveis que permitam uma correcta avaliação do estado do turismo em Portugal e, sobretudo, aferir como é que nos posicionamos relativamente aos demais países que usam esses mesmos critérios daquele Organismo das Nações Unidas. Queira-se, ou não, só é possível comparar o que é comparável (perdoem-nos o pleonasmo) e isso só é conseguido quando todos (os países) fazem “as contas” da mesma maneira.

Quanto aos “Custos de Contexto”, há uns anos denominados menos pomposamente por “burocracia”, somos de opinião que no documento terá faltado uma palavra acerca da questão da Regulação, a qual é uma função inalienável do Estado, que deve assegurar não apenas a fiscalização como é bem referido, mas ainda a protecção dos consumidores e, mais importante, a garantia no acesso ao mercado em igualdade de circunstâncias a todos os agentes económicos, independentemente da sua dimensão.

Questão esta que também entronca no eixo “Governance” – a par da do Ministério do Turismo que abordaremos na pergunta seguinte –, pois respeita à (re)definição do papel do Estado, importando por isso nele ser mencionada (o que não acontece), uma vez que é bem diferente termos um Estado “Regulador/Fiscalizador”, como do nosso ponto de vista é desejável, em vez de um Estado “Interventor/Condicionador” como, infelizmente, ainda acontece na maior parte das vezes.

Uma palavra também para a “Gestão dos Destinos” e para a “Sustentabilidade Ambiental”, onde são aprofundados argumentos históricos da CTP, seja quanto à capacidade de carga turística das diferentes regiões, cidades e locais (tema hoje tão em voga) e às interacções que a mesma tem com a vida quotidiana das populações residentes, seja quanto à necessidade de salvaguardar o nosso património ecológico e ambiental. Estamos em crer que, num destes capítulos, teria sido positivo recuperar algumas das “velhinhas” posições da CTP relativas ao ordenamento do território e à potenciação e preservação dos recursos naturais.

Em suma, dados estes modestos contributos, e mesmo correndo o risco de podermos vir a ser mal interpretados, a constatação de estarmos perante um retomar da “Agenda da CTP” de meados da década passada, é incontornável. Todos os temas abordados no texto em apreço, salvaguardando algumas modulações semânticas, fruto da evolução dos tempos e da linguagem, faziam parte do “caderno reivindicativo da CTP”, o que prova, por um lado, a correcta visão estratégica que a instituição tinha no que respeitava ao turismo nacional e, por outro lado que, apesar da enorme evolução da actividade na última década, andámos a maior parte do tempo a “navegar à vista”, quase sem intervenções estruturantes, no que ao turismo se refere. Se assim não fosse, teríamos hoje novos problemas e desafios que, obrigatoriamente, necessitariam de novas propostas e soluções.

Não se julgue que fazemos esta afirmação para enaltecer o trabalho das equipas dirigentes da CTP, entre 1997-2006, que integrámos, ou pior, para retirar qualquer mérito às organizações que hoje corporizam o seu Conselho Directivo. Muito pelo contrário! O repescar das boas ideias é a melhor e maior prova da sua inteligência. Ideias essas que, diga-se, estão largamente documentadas no espólio da própria Confederação e foram, ao tempo, amplamente noticiadas.

Como aqui costumamos dizer, pior do que não ter razão, é tê-la antes do tempo. E, porventura, terá sido (também) isso que aconteceu. Como diz o ditado, “mais vale tarde do que nunca”. Razão adicional para que todos louvem o documento apresentado.

Finalizamos com uma nota de esperança para dizer, tendo por base tão bons argumentos e documentos (o da CTP e o do Governo – ET 27) e a bem do turismo português, que temos fundada expectativa que vale a pena a Confederação do Turismo Português continuar a pugnar por um “Pacto de Regime” para o Turismo, como vem fazendo desde a sua fundação, para que a actividade não ande constantemente em sobressalto, quer fruto das alternâncias políticas quer, muitas das vezes, de acordo com a vontade pessoal dos diferentes Membros do Governo que a vão tutelando.

 

Turisver.com – Na mesma Conferência, Francisco Calheiros, Presidente da Confederação do Turismo Português, defendeu na sua intervenção, a criação de um Ministério do Turismo. Não sendo esta a primeira vez que a CTP defende a existência de um Ministro para o Turismo, na sua perspectiva estão hoje reunidas condições que antes não estavam para que esta situação se possa concretizar a curto prazo?

Atilio Forte – Sem querermos repisar muito do que já dissemos na resposta à pergunta anterior, em abono da verdade não podemos deixar de voltar a elogiar esta corajosa proposta da CTP que, recorde-se, defendemos há mais de duas décadas e que o país já teve oportunidade de ver consubstanciada durante a vigência do XVI Governo Constitucional (entre 17/07/2004 e 12/03/2005), Presidido por Santana Lopes, embora de forma efémera e destituída de substância (na prática e na orgânica continuou a ser uma Secretaria de Estado).

Se haverá ou não condições para a voltar a concretizar a curto/médio prazo, veremos. E porquê? Sobretudo, por duas grandes ordens de razões.

A primeira (e óbvia), está relacionada com quem tiver a capacidade e o poder para legitimamente tomar essa decisão, ou seja, de quem tiver a enorme responsabilidade de Presidir ao Governo da República Portuguesa, pois é bom termos presente que a formação do Governo, tanto na definição dos Ministérios, como na escolha dos seus Membros, é da exclusiva e inteira competência do Primeiro-Ministro (qualquer que ele seja). Portanto, para que isso aconteça, serão determinantes a percepção, a sensibilidade e a convicção que o Líder do Governo tenha relativamente à actividade económica do turismo.

A segunda porque, como a própria CTP afirmou, esta é uma das várias propostas feitas que necessita ser aprofundada. E sobre este aspecto, há vários pontos a considerar:

Desde logo, sublinhar e saudar haver acordo no seio da Confederação, quanto à necessidade de existência de um Ministério do Turismo. Embora seja um pequeno passo, ele é sem dúvida o mais importante, uma vez que traduz o compromisso da CTP (leia-se de todas as suas associadas) em lutar por esse objectivo.

Não descurando a importância desse acordo, importa que a própria CTP esclareça qual a sua visão para o Ministério, isto é, se ele será só para tutelar a actividade, como sucedeu no passado e como atrás mencionámos? Ou deverá o Ministério do Turismo englobar outra área? E nesse caso, qual? A Cultura? O Desporto? Os Transportes? O Mar? A Aviação? A Juventude? O Ambiente e o Ordenamento do Território? E poderíamos continuar…

Estamos em crer que apesar de haver acordo (em sede confederal) para a sua criação, a forma com o mesmo venha a expressar-se será extremamente diversa, sendo que quase todas as hipóteses que acabámos de elencar reunirão apoios, ou preferências, apesar de umas mais do que outras.

Por essa razão, e embora os nossos leitores saibam que esta é uma ideia que defendemos sempre com total convicção, somos de opinião que teria sido mais prudente a CTP ter optado por uma de duas posições. Não publicitar esta sua pretensão, até a ter plenamente definida e consensualizada. Ou, fazendo-o, ser totalmente clara quanto ao seu âmbito, para que não possa cair em qualquer ambiguidade ou bloqueio que, no final, apenas prejudicará o nobre e válido objectivo inicial.

Naquilo que nos diz respeito, sempre defendemos a existência de um Ministério do Turismo porque entendemos que deve ser tida em consideração a enorme transversalidade (ou pluridisciplinaridade) da actividade com quase todas as áreas da vida política, económica e social de Portugal, sem esquecer o seu peso na criação de riqueza e emprego. Assim, o turismo deve, por direito e mérito próprio, estar presente no principal centro executivo de decisões do país, isto é, o Conselho de Ministros, pois só desse modo poderá ter voz activa e acautelar medidas (quase sempre bondosas) que o afectem negativamente (o que acontece com frequência), ou contribuir para o potenciar de outras, tanto directa como indirectamente.

Argumentos que nos últimos anos têm sido reforçados, pelos impactos múltiplos e positivos que o turismo passou a ter na vida do país e que o tornaram um desígnio incontornável no progresso de Portugal. Ora, temos para nós que as coisas mais importantes vêm sempre em primeiro lugar. Portanto, sendo o turismo tão vital para o país, não faz qualquer sentido que esteja fora do “epicentro” das principais decisões.

Valerá a pena ainda aqui recordar (uma vez mais torna-se inevitável que o façamos) o que a CTP defendeu no passado: a existência de um Ministério do Turismo, integrando todo o sector da aviação (transporte aéreo, infra-estruturas aeroportuárias, controlo, navegação e segurança aéreas), podendo numa perspectiva mais ampla também abarcar os transportes marítimos, ferroviários e rodoviários internacionais de passageiros.

Portanto, e em jeito de conclusão, é fundamental que rapidamente todas estas questões tenham resposta, para que a ideia possa (voltar a) ser semeada e, assim o esperamos, (escorreitamente) vingar.

 

O + da Semana:

Os dados relativos ao transporte aéreo de passageiros são, hoje em dia e pela sua importância, elementos preciosos para se sentir e avaliar a dinâmica turística, uma vez que o avião é, por excelência, o veículo mais utilizado para viajar. A este dado objectivo acresce um outro, que está relacionado com o tráfego de passageiros no mês de Agosto que é, como se sabe, o principal período de férias da metade mais populosa do Planeta, o Hemisfério Norte. Por estas razões ganha particular significado a divulgação efectuada, na semana passada, por parte da IATA – International Air Transport Association, que o número de passageiros transportados naquele mês do corrente ano teve um crescimento homólogo de 7,2%, apesar da capacidade disponibilizada (número de lugares) também ter aumentado 6,3%, no mesmo período. Contudo, o dado mais marcante refere-se à taxa de ocupação dos aviões (tecnicamente “load factor”), a qual situou-se nuns impressionantes 84,5%, ou seja, ligeirissimamente abaixo do recorde de 84,7%, que data de Agosto de há dois anos, para o que muito contribuiu o desempenho neste indicador das companhias aéreas europeias, com uns sensacionais 88%. Em suma, e embora estejamos a entrar num período de natural menor fulgor das viagens (até final do ano), tudo indica que o sector da aviação vá ter mais um exercício de forte crescimento que, inevitavelmente, terá tradução nos resultados globais da actividade turística.