iTurismo: Valorizar o Património e a Formação, por Atilio Forte

No iTurismo de hoje, Atilio Forte aborda a problemática da valorização do património nacional e a formação profissional na área do turismo. “O + da Semana” é dedicado ao turismo estudantil e nos “Tópicos da Semana” os temas são o Aeroporto de Beja,  as redes sociais e o investimento da Austrália na captação do mercado chinês.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Aeroporto de Beja 5 anos depois: Foi precisa meia década (!) para chegar à mais do que óbvia conclusão que, pela falta de mercado, aquela infra-estrutura não passa de um elefante branco (outro?!), como em devido tempo muitos alertaram (nos quais nos incluímos). Como é habitual não se apuram responsabilidades e, talvez por isso, continuemos a ser um país remediado, com gostos de rico. A salvação (dizem) está em transformar este aeroporto numa unidade de manutenção, desmantelamento e estacionamento de média e longa duração de aeronaves. A ver vamos…
  • Tiro pela culatra: Um cada vez maior número de empresas turísticas relaciona-se com os seus clientes através das redes sociais, nomeadamente no que respeita a queixas, reclamações e sugestões. Normalmente agradecem muito a “oportunidade de melhorarem” e “pedem desculpa pelo sucedido” (algumas até enviam pequenas lembranças). Contudo, transmitem uma ideia de “resposta chapa 5”, já que na maior parte das vezes os problemas subsistem porque nem sequer chegam ao conhecimento dos seus verdadeiros destinatários. Atitude fatal na actual era da informação.
  • Austrália aposta forte na China: Várias empresas estão a investir mais de 11 biliões de dólares na construção e expansão de “casinos resorts” neste país, na expectativa de conseguirem atrair mais turistas (e jogadores) chineses. Recorde-se que no ano passado a Austrália recebeu cerca de 1 milhão de turistas oriundos da China, o que representou um aumento de 22% se comparado com 2014.

 

Comentário

 

Turisver.com – Está a criar alguma expectativa junto dos empresários hoteleiros, o desafio lançado pelo Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, no sentido de poderem valorizar imóveis públicos, alguns dos quais considerados peças de património nacional que estão ao abandono. Como olha para esta ideia do Ministério da Economia?

 

Atilio Forte – Em primeiro lugar creio que devemos começar por saudar o facto do Ministério da Economia – que não a Secretaria de Estado do Turismo – ter, finalmente, dado “prova de vida”, pois a mesma já tardava. É da maior importância que o turismo e os seus agentes sintam, na prática, que são uma prioridade da política económica do Governo (deste ou de qualquer outro), por tudo o que de bom dão e com que contribuem, diariamente, para a criação de riqueza, emprego e coesão social e territorial de Portugal.

Em segundo lugar deve também enaltecer-se que, até agora e no que à actividade económica do turismo respeita, o Governo tem dado cumprimento ao Programa Eleitoral do Partido Socialista o qual, valerá a pena recordar, sublinhava a importância em estreitar o relacionamento entre a cultura (e o património) e o turismo.

Assim, é dentro desta linha que deveremos acolher e analisar esta ideia/proposta que visa recuperar, valorizar e rentabilizar património público, através da sua exploração no âmbito das actividades turísticas (não apenas na do alojamento, mas também na da restauração e na da animação turística, nesta última concretamente na dos espaços para eventos), ao invés de o deixar sem uso e, em grande parte das vezes, entregue à degradação e ou ao vandalismo.

Somos um país com História e, consequentemente, com um enorme património edificado que pode, se bem aproveitado, afirmar-se como mais um factor de diferenciação e, por essa via, de atracção turística, pela agregação de valor que encerra.

Atento o perfil do consumidor turístico actual, que busca (incessantemente) novas experiências, constatamos que quase todas as novas unidades turísticas têm uma grande preocupação em “contar uma história”, no fundo em justificar e sublinhar, com coerência, a sua razão de ser ou, se se quiser, enfatizar os seus factores distintivos. Ora, neste caso, essa tarefa fica não apenas facilitada como, óbvia e particularmente, valorizada.

Por estas razões a ideia avançada de disponibilizar 30 imóveis – todos públicos e alguns até classificados como património nacional -, para investimento turístico do sector privado, com prioridade para as empresas nacionais, afigura-se-nos, pelo menos conceptualmente, de grande mérito. Resta saber-se quais serão os edifícios que integrarão esta lista, em que moldes irá o Estado propor-se concessioná-los e como será todo este processo agilizado com o Ministério da Cultura, particularmente, com várias das suas instituições que, pelas competências que detêm, terão que se pronunciar sobre o mesmo.

Em nossa opinião, este último aspecto é, porventura, o mais decisivo, pois será aqui que poderá residir o “calcanhar de Aquiles” de toda esta intenção. Quem está no turismo, principalmente quem investe, sabe bem o alucinante número de entidades cujo parecer ou aprovação são necessários para licenciar um projecto que, bastas vezes, se transforma num verdadeiro calvário a superar, quando não leva à desistência.

Para concluir, esta parece-nos ser uma boa ideia, que certamente terá investidores e mercado, que valorizará e diferenciará a nossa oferta turística e cultural, mas que vai depender, em muito, do modo como o Estado entenda, por um lado, salvaguardar a manutenção da natureza pública do património envolvido e, por outro lado, da capacidade que demonstrar para suavizar a tramitação dos processos e licenciamentos em causa.

Se ela vingar, estamos em crer que um mundo novo de oportunidades se abrirá, sobretudo em áreas ambientalmente protegidas, como sejam, as dos parques e reservas naturais.

 

Turisver.com – Até 2020 o Governo quer que as escolas do Turismo de Portugal atinjam a sua capacidade máxima de formação, 4.000 alunos, e uma empregabilidade média de 90%. Para isso foi já apresentada uma nova estratégia de desenvolvimento. Na sua perspectiva este é o input que faltava à formação profissional para o sector do turismo?

 

Atilio Forte – Como várias vezes aqui referimos, é um dado adquirido que, nos últimos anos, a formação profissional (e a educação) têm andado arredadas das prioridades do Turismo de Portugal – tal como, os apoios e incentivos financeiros ao investimento turístico, a regulação e consequente fiscalização -, uma vez que este organismo se tem dedicado à promoção turística quase em regime de exclusividade.

Talvez por isso seja tão gratificante ver este instituto público “começar a regressar às suas origens” (esperemos que não se fique pelas intenções).

Sabendo-se que o turismo é uma actividade económica de mão-de-obra intensiva, que é a única área da economia que, à escala planetária, irá crescer durante as próximas três décadas acima da média mundial e, em resultado destas premissas, necessitará não apenas de mais gente mas, sobretudo, de mais trabalhadores qualificados que abracem as diferentes profissões turísticas, vemos com naturalidade que todos os países ou destinos que queiram continuar a ter uma palavra a dizer no panorama internacional, elejam a qualificação presente e futura dos seus activos humanos como uma das suas principais prioridades, pois ao fazê-lo estão a garantir a sua sustentabilidade nos anos que virão.

Interiorizando esta realidade, e agindo sobre ela, o nosso país não dá apenas resposta ao flagelo presente do desemprego, como manifesta vontade em manter-se numa posição turística cimeira a nível global.

Debrucemo-nos, então, sobre os quatro grandes eixos estratégicos apresentados pelo Turismo de Portugal, para as suas escolas alcançarem até 2020: atingir os 4.000 alunos (capacidade máxima das 12 escolas); aumentar a empregabilidade de 85% para 90%; reduzir as assimetrias regionais; e, internacionalizar.

Em abono da verdade, ao procedermos à sua análise teremos que dizer que nenhum deles é, ou traz, grandes novidades. No entanto, indiciam uma renovada esperança. E isso é, neste momento, o mais importante.

Contudo, dois aspectos devem, também, ser destacados:

O primeiro tem a ver com o actual índice de empregabilidade destas escolas: 85%!!! Um sucesso, independentemente do ponto de vista por que o vejamos (sabemos bem que este é um valor global, portanto, não é homogéneo para todas as escolas mas, mesmo assim…). Ao pretender elevá-lo para os 90% o Turismo de Portugal revela ambição e crença no desenvolvimento sustentado da actividade.

O segundo está relacionado com a internacionalização, mormente, com o intercâmbio de alunos. Parece-nos que, neste particular, o instituto poderia (e deveria) ser bem mais ambicioso, já que sendo Portugal uma “potência” turística há largos anos, possui um enorme activo que é o “conhecimento”, o “saber”. Ora, actualmente, este é, porventura o maior activo intangível que existe. Por isso deve ser valorizado e, claro está, rentabilizado. São já muitas as gerações turísticas de “saber” no nosso país. E, com toda a certeza, este nosso “produto” tem mercado. Para não ir mais longe, basta imaginarmos o que os demais países de língua oficial portuguesa dele poderiam beneficiar…

Para concluirmos, gostaríamos de sublinhar dois vectores que, em nossa opinião, estão em falta (ou quase nada claros) nesta estratégia, já que são fundamentais tanto para que ela seja bem-sucedida, como exequível.

Um, relacionado com o papel que o sector privado irá ter nestes objectivos. É que se os curricula não forem reformulados em estreita colaboração e com o envolvimento directo do tecido empresarial, corre-se o risco de “dar tiros ao lado”. No fim de contas são as empresas, pelo emprego que criam, os grandes receptáculos e, por isso, o corolário de toda a educação/formação ministrada e aprendida.

Outro, que se prende com a articulação destas escolas – de ensino mais técnico-profissional – com as do ensino superior. É que se as primeiras dependem do Turismo de Portugal/Ministério da Economia, as segundas estão sob tutela do Ministério da Educação e, apesar de “pertencerem” ao mesmo Governo, nem sempre se entendem (no passado foi quase sempre isso que sucedeu), com prejuízo óbvio para quem ensina, para quem estuda e para quem emprega.

Se a aprendizagem ao longo da vida é, em qualquer que seja a profissão, uma realidade no mercado de trabalho dos nossos dias, no turismo ela ganha uma muito maior dimensão, atendendo a que o factor humano é algo incontornável e intrínseco à actividade.

Por isso, garantir uma escorreita articulação entre escolas – técnicas e superiores -, diferentes Tutelas e empresas, deve ser algo sempre presente e uma responsabilidade partilhada.

 

O + da Semana:

Muitas são as razões pelas quais Portugal se vem afirmando no panorama internacional do turismo estudantil. De entre elas sobressai, naturalmente, a qualidade dos nossos estabelecimentos de ensino superior, que começam a gozar de assinalável reconhecimento além-fronteiras. Aliás, se olharmos prospectivamente para a nossa demografia verificamos que este é o (único) caminho a trilhar. Não havendo hoje natalidade, não haverá quem estude daqui a 20 anos (Jacques de la Palice não diria melhor). Claro está que muitos outros factores de atractividade que o nosso país oferece não passam despercebidos: a hospitalidade, o clima ameno, a gastronomia, os eventos e animação, para só citar alguns. Por este motivo acreditamos que, paulatinamente, muitas empresas turísticas – tantos as já estabelecidas, como outras que irão aparecer – passarão a olhar para esta área de negócio com grande atenção, sobretudo no respeitante ao sector do alojamento. É que nalgumas regiões – como, por exemplo, no Porto – já começam a escassear as soluções para acolher a crescente procura estudantil. Assim sendo, estamos em crer que iremos assistir a um progressivo estreitar de relações entre quem “vende” educação e turismo, com benefícios mútuos.