iTurismo: Mais Vendas, Mais Competitivos, por Atilio Forte

O que ter em conta quando se quer captar o mercado chinês, o que procuram os clientes das viagens de luxo e o domínio das Apps nas reservas hoteleiras são os “Tópicos da Semana” do iTurismo de hoje, em que Atilio Forte escolheu como “O + da Semana” a inclusão do Turismo nos Green Project Awards. O habitual comentário versa sobre o aumento das reservas de Verão pelos portugueses e a subida do Turismo português no ranking da competitividade.

 

Tópicos da Semana:

  • Questões práticas para quem tem o mercado chinês em mira: Todos os destinos e empresas que vêm procurando captar e beneficiar do cada vez maior contingente de turistas chineses (a China já é o maior mercado emissor do Mundo) têm-no feito não apenas através de campanhas publicitárias em mandarim mas, também, pela implementação de um vasto conjunto de comodidades, de entre as quais se destacam a oferta de cozinha chinesa, a disponibilização de canais televisivos em língua chinesa e a formação específica dos recursos humanos, de modo a melhor satisfazerem e acolherem os consumidores dali oriundos. Por isso, quem quiser “entrar a sério” neste mercado terá, forçosamente, de considerar estes aspectos.

 

  • O que procuram os clientes das viagens de luxo?: De acordo com inúmeros analistas do fenómeno a resposta é simples: um verdadeiro “fato por medida”, ou seja, este segmento de consumidores procura a experiência “mais certa para o seu caso”. Obviamente tal aumenta a responsabilidade e o nível de exigência a que os profissionais de turismo estão sujeitos pois têm que, por exemplo, percepcionar porque é que devem aconselhar alguém a escolher um hotel boutique, em vez de um pertencente a uma grande cadeia, ou vice-versa.

 

  • Aplicações móveis lideram reservas hoteleiras de última hora: Não é novidade, nem sequer surpreendente. Mas o facto é que as nossas já bem conhecidas “Apps” cada vez dominam mais esta tipologia de reservas, ao que tudo indica fruto da dimensão, variedade e competitividade (preço) da sua oferta. Pelo menos essa é a mensagem que a maioria dos seus proprietários passa. A título de ilustração, a “startup” Hotel Tonight afirma que com dois simples “toques/cliques” conecta qualquer viajante com 25.000 hotéis, de 35 países. Depois é só escolher e marcar.

 

Comentário

 

Turisver.com – A procura de viagens para o período da Páscoa foi, segundo dados divulgados, bastante elevada. A grande surpresa foi, no entanto, a compra antecipada de férias para o Verão, existindo indicadores de crescimentos na ordem dos 25%. Na sua opinião, pode afirmar-se que esta situação resulta de um maior poder de compra dos portugueses?

Atilio Forte – Logo no início do ano tínhamos aqui adiantado que esta seria uma situação mais do que previsível, tendo em consideração a paulatina recuperação do poder de compra que tem vindo a fazer-se sentir no “bolso” dos portugueses(as), a  forte diminuição da crispação social e o ligeiríssimo crescimento da economia nacional.

Para além disso, sublinhámos ainda o efeito psicológico positivo que também teriam – com óbvias repercussões no aumento do consumo – os bons resultados das contas públicas verificados em 2016 (leia-se défice) e, consequente, o cumprimento das metas orçamentais e dos compromissos assumidos com Bruxelas, mais a mais, porque seguiam-se a um período de enormes sacrifícios feitos pela generalidade das pessoas.

Ou seja, o sentimento de “libertação” económica aliado à sensação que os “piores dias ficaram para trás” são, por assim dizer, factores primordiais que estão na origem do aumento do consumo de produtos e serviços turísticos por parte do mercado português.

Contudo, e não escamoteando a importância destes argumentos, somos de opinião que existe um outro aspecto que terá – e tem – contribuído e pesado para o aumento e antecipação registados nas reservas de férias. Referimo-nos à alteração/evolução dos hábitos de consumo dos portugueses, a qual é reflexo de duas grandes ordens de razões do lado de quem compra, e que se interligam: uma maior cultura; e, um melhor planeamento.

Convirá aqui abrirmos um parêntesis para referir que esta “nova postura de consumo” recolheu largos contributos – podendo por isso dizer-se que foi de algum modo “induzida” – tanto da impressiva melhoria dos e nos processos de elaboração e comercialização da oferta por parte das empresas turísticas, como da vivência de experiências menos agradáveis pelas quais muitos turistas nacionais passaram, sobretudo nos tempos mais recentes.

Dito isto, e regressando à questão da alteração/evolução dos hábitos de consumo, importa realçar que os consumidores nacionais têm acompanhado e interpretado correctamente a conjuntura internacional, que é cada vez mais redutora no número de destinos de férias percepcionados como “seguros” (infelizmente, este é um factor crítico com peso crescente na tomada de decisão), nomeadamente a nível europeu, e que acarreta uma maior pressão da procura sobre alguns mercados.

Ora, não obstante o crescimento que a actividade turística tem vindo a registar no Mundo, a capacidade de carga de muitos destinos mantém-se no limite, razão que motiva que quem mais cedo decide, mais rapidamente garante o seu lugar e, paralelamente, salvaguarda-se das naturais subidas de preço que acontecem nas reservas de última hora ou, pior, da inexistência de disponibilidade.

No fundo, reservar/comprar com antecedência foi interiorizado como sinónimo de tranquilidade, de garantia e de poupança.

Claro está que esta alteração no padrão de consumo dos portugueses se, por um lado, beneficia as empresas turísticas, quer do ponto de vista financeiro quer, principalmente, pela possibilidade de melhorarem a qualidade do(s) serviço(s) prestado(s), por outro lado, também lhes lança novos desafios, uma vez que têm consciência que o mercado nacional não cresceu assim tanto e, por isso, muitas das vendas que eram efectuadas “em cima” do Verão (ou de qualquer outra época de pico – como a Páscoa) não se irão repetir, dado terem sido efectuadas por antecipação.

Portanto, antevemos que a oferta de lazer venha a estar disponível cada vez mais cedo e, por seu turno, as promoções/descontos por antecipação da marcação tendam a esbater-se ou a serem somente utilizadas para reservas com grande antecedência (mais de seis meses) ou, ainda, em casos pontuais e esporádicos, quando sejam literalmente efectuadas “em cima da hora”.

 

Turisver.com – O Fórum Económico Mundial divulgou a semana passada o ranking da competitividade. No Turismo, Portugal subiu um lugar e é agora o 14.º país mais competitivo do Mundo. Segurança, higiene e saúde, equipamentos turísticos e recursos humanos foram os factores que mais pesaram na subida, sendo de realçar que na segurança o nosso país conquistou o 11º lugar entre os 136 países avaliados. Que observações lhe merecem estes dados agora conhecidos?

Atilio Forte – Como é do conhecimento geral, o Fórum Económico Mundial (FEM) é uma das mais prestigiadas organizações sem fins lucrativos que existem, tendo como primeira missão promover e intervir na construção de um Mundo melhor. Assume-se também como o mais importante organismo internacional de cooperação entre os sectores público e privado, reunindo no seu seio os principais líderes políticos, empresariais, sociais e intelectuais, bem como alguns dos mais conceituados jornalistas. Não é por isso em vão que a sua principal reunião anual – a Cimeira de Davos (Suíça) – normalmente concentre todas as atenções.

Exactamente por tratar-se de uma entidade desta “envergadura”, acreditamos que a esmagadora maioria dos portugueses terá recebido esta notícia com natural orgulho e, de algum modo, como reconhecimento do bom desempenho que o país – turístico e não turístico – tem registado em todos os aspectos que, directa ou indirectamente, estão relacionados (e interagem) com o turismo.

Porém, também não temos grandes dúvidas que para todos quantos têm uma ligação mais estreita com a actividade turística, este resultado mais do que ser encarado como um mérito ou distinção, é entendido quer como um acréscimo de responsabilidade, quer como uma motivação adicional para que (juntos) consigamos fazer mais e melhor, de modo a que Portugal possa, pelo menos, chegar ao “top 10” da escala dos países turisticamente mais competitivos.

Fazendo uma análise ao resultado do “Travel and Tourism Competitiveness Report 2017” do FEM, obtido entre 136 países e liderado pela Espanha, que classifica a competitividade dos destinos turísticos com base em múltiplos parâmetros, dos quais se destacam a política de turismo, as infra-estruturas turísticas, a segurança e os recursos culturais e naturais, somos de opinião que o destaque mais positivo vai, inquestionavelmente, para a categoria das infra-estruturas turísticas (leia-se parque hoteleiro, restaurantes, equipamentos de animação, empresas de “rent-a-car”, etc.), onde alcançámos o quarto lugar global (com uma pontuação de 6,4 em 7 pontos possíveis).

Ao invés, a nossa classificação mais fraca registou-se na competitividade dos preços (73º lugar), com 4,8 pontos. Mas, em nossa opinião e em coerência com muito do que nestes comentários vimos afirmando, o aspecto mais negativo ocorreu na categoria infra-estruturas aeroportuárias, recursos naturais, património cultural e viagens de negócios, onde Portugal apenas obteve 3,9 pontos, ao qual podemos adicionar a 39ª posição no que respeita às infra-estruturas portuárias e rodoferroviárias, com 4,2 pontos.

Finalmente, outra das áreas onde obrigatoriamente teremos de melhorar é a que respeita à categoria do “ambiente para os negócios” na qual, apesar dos 4,6 pontos registados (sempre nos 7 possíveis), não conseguimos ir além do 54º lugar. Escusado será dizer que neste aspecto fomos gravosamente penalizados pelo deficiente funcionamento da justiça, pela “pesada legislação”, pelo “calvário” que os denominados custos de contexto representam e, como não podia deixar de ser, pela fiscalidade absurda (a qualificação é nossa).

Uma última palavra para a segurança, somente para (re)afirmar que, apesar dos bons resultados neste capítulo, a mesma não se promove, garante-se! Argumento que, estamos em crer, é mais do que suficiente para justificar a ausência de uma análise em maior detalhe e, acima de tudo, evitarmos inusitados alardes.

 

O + da Semana:

Ao fim de nove edições, correspondentes a outros tantos anos de existência, a 10ª edição dos Green Project Awards (GPA) – iniciativa da Agência Portuguesa do Ambiente, da Associação Nacional de Conservação da Natureza/Quercus e da consultora GCI – finalmente decidiu incluir o turismo nas categorias passíveis de distinção, gesto que, naturalmente, é merecedor deste destaque. A avaliação de cada uma das candidaturas será levada a cabo pela análise da sustentabilidade ambiental, económica e social dos impactos do projecto, do produto, da iniciativa ou do serviço, desde que o mesmo tenha sido implementado ou disponibilizado em território nacional nos últimos três anos, por empresas, organizações não-governamentais, estabelecimentos de ensino, entidades públicas nacionais e municipais, associações, investigadores ou cidadãos individuais. Certamente que a inclusão do turismo potenciará o número de candidaturas aos GPA, uma vez que a actividade é das que mais defende e promove o desenvolvimento ambiental, ecológico e natural, bem como a sustentabilidade e preservação dos ecossistemas e dos territórios.

Aos nossos leitores e respectivas famílias desejamos uma Páscoa Feliz!