iTurismo: Veni, Vidi, (e com mérito) Vici, por Atilio Forte

Atilio Forte dedica o seu comentário desta semana às distinções que Portugal arrecadou nos WTA e à antevisão do 29º Congresso da AHP, enquanto o destaque de “O+ da Semana” vai para a forma original como a easyJet assinalou o Dia Mundial do Turismo. Nos “Tópicos da Semana”, o iTurismo realça a inteligência artificial e o turismo, uma proposta inovadora de alojamento em Belfast, e abertura de novos hotéis no Japão impulsionada pelo Jogos Olímpicos.

 

Tópicos da Semana:

 

  • Inteligência Artificial (IA) preparada para revolucionar o turismo: De acordo com a esmagadora maioria dos analistas (onde nos incluímos), a IA tem potencial para ser um dos principais factores de mudança e evolução do negócio das empresas turísticas, principalmente no plano das funções de retaguarda ou administrativas, com destaque para a da formação e gestão dos preços/receitas e para a da distribuição do produto.

 

  • Belfast com inovadora proposta de alojamento: Um investimento de 28 milhões de libras permitiu que o Titanic Hotel abrisse recentemente em Belfast. Trata-se de uma unidade hoteleira, com 119 quartos, que ocupa o edifício onde foi concebido e desenhado o (tragicamente) famoso HMS Titanic, e que recuperou alguns dos elementos mais icónicos da época – onde está incluído o telefone que recebeu a primeira chamada do navio a relatar a colisão com o iceberg, que acabou por o afundar –, preservando deste modo o legado da indústria de construção naval da Irlanda do Norte.

 

  • Jogos Olímpicos impulsionam abertura de novos hotéis no Japão: A XXXII Olimpíada que ocorrerá em Tóquio, no Verão de 2020, está a provocar um sobreaquecimento do investimento hoteleiro naquele país asiático, tanto ao nível das empresas japonesas, como ao nível da presença (ou reforço da posição) das grandes cadeias internacionais, com a Marriott International e a InterContinental Hotels Group em lugar de destaque. Este megaevento está pois a ser encarado como uma oportunidade para atenuar o défice de oferta de hotelaria de luxo no país do Sol Nascente, cujo Governo já anunciou o ambicioso objectivo de receber 60 milhões de turistas, em 2030.

 

Comentário

Turisver.com – Pela primeira vez, Portugal foi eleito Melhor Destino da Europa nos World Travel Awards 2017. Desta gala, que decorreu no passado sábado, Portugal trouxe 20 prémios que distinguiram organismos oficiais, regiões turísticas, unidades hoteleiras e a TAP. Nunca Portugal tinha sido tão premiado nos “Óscares do Turismo”. No seu entender que leitura se pode retirar desta situação? Estes prémios responsabilizam-nos como destino turístico de qualidade?

 

Atilio Forte – Sem sombra para qualquer dúvida que esta foi uma excelente notícia a qual, estamos em crer, constitui motivo mais do que suficiente para que seja celebrada por todo o país. Por isso, e em primeiro lugar, cumpre-nos aqui registar uma saudação muito especial de regozijo e agradecimento dirigida aos portugueses, em geral, e a toda a comunidade turística – pública e privada –, em particular, por mais um extraordinário reconhecimento internacional de que o turismo luso foi alvo e pelo trabalho notável que está na origem de cada um destes prémios.

Apesar de podermos ser considerados “juízes em causa própria” – afinal somos portugueses –, vale a pena referir que estes galardões, ou “Óscares do Turismo” como são mais conhecidos, foram-nos atribuídos com total justiça e relevam, por um lado, a capacidade empreendedora e inovadora do tecido empresarial nacional e, por outro lado, a boa actuação quer dos organismos públicos, quer das (óptimas) parcerias público-privadas, que têm lugar na actividade económica do turismo portuguesa, bem expressas na “arte de bem-fazer” e de “bem receber”.

Pese embora estes galardões sejam mais do que merecidos e, porventura, num ou noutro caso apenas pequem por tardios, precisamos estar cientes que qualquer prémio ou distinção deve ser sempre encarado com natural humildade e, proporcionalmente, com enorme sentido de responsabilidade.

Humildade, porque a sua obtenção tem por trás muito trabalho, dedicação, empenho, risco e capacidade na tomada de decisões, características que não são exclusivamente pertença dos premiados – até são mais enaltecidas por outros competidores também as revelarem e deterem –, nem se esgotam no momento da atribuição do prémio. Tal apenas significa um futuro onde a exigência será maior e, por consequência, onde o envolvimento de todos será necessário para, no mínimo, garantir a manutenção das razões que presidiram a tão honrosa escolha. Ou seja, em si mesmos, estes “Óscares” jamais podem ser encarados com um fim, mas tão só como um princípio, que a todos deve estimular.

Enorme sentido de responsabilidade, porque doravante as “dificuldades” ficam acrescidas, tanto devido ao elevar das expectativas, como ao natural aumento do patamar de exigência, a que já aludimos. Ora uma actividade onde a competição é tão feroz e que “possui” e lida com consumidores muitíssimo bem informados e conhecedores como a do turismo, não pode dar-se ao luxo de abrandar os padrões de qualidade que a guindaram a tão alto patamar, sob pena de tal tornar-se perceptível aos olhos da concorrência e, mais importante, daqueles que visitam ou pretendem visitar o destino e, por essa razão, dando a ideia de ter estagnado à sombra dos louros tão arduamente conquistados.

Em conclusão, e sendo actualmente o turismo uma das áreas com maior capacidade de mobilização e agregação do país, estamos certos que não só muitos mais “Óscares” ganharemos no futuro, como Portugal saberá superar as expectativas e, pelo menos, continuar a disputar o título de Melhor Destino Turístico da Europa nos anos vindouros. Por outras palavras, ao “Veni”, ao “Vidi” e ao “Vici” transmutado no sucesso agora alcançado, há que adicionar outro latinismo “animustenendi”, que é o mesmo que dizer, manter(-se)!

 

Turisver.com – De 15 a 17 de Novembro em Coimbra, o Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo, organizado pela AHP, vai subordinar-se ao tema “Descobriram Portugal. E agora?”. Trata-se de uma temática que encerra uma interrogação quanto ao futuro, onde não se pode deixar de tomar em consideração que no “iTurismo” já por várias vezes foi afirmado que importa aproveitar os bons tempos para se prepararem respostas a desafios futuros. O facto de os hoteleiros decidirem analisar novas realidades e desafios é um passo importante nesta discussão?

 

Atilio Forte – Em nossa opinião a AHP – Associação da Hotelaria de Portugal foi extremamente feliz, quer na escolha do tema que servirá de mote ao (seu) 29º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo quer, sobretudo, ao momento em que decidiu “puxá-lo” para um debate mais visível, pois somos dos que acreditamos que a senda dos sucessos turísticos que vimos alcançando só é possível prosseguir e garantir com coragem. E isso significa não ter receio de trazer temáticas incómodas a debate público, como a que estará em análise: “Descobriram Portugal. E agora?”.

Por isso, e tal como é mencionado na pergunta que nos é colocada, deve ser em tempos de bonança, como aqueles que a actividade turística presentemente atravessa, que importa reflectir seriamente acerca de qual o caminho que pretendemos que o turismo – o nosso turismo – venha a trilhar no futuro.

Esta proposta de reflexão ganha ainda maior ênfase por vir da parte da AHP, a qual é representativa de um sector crucial para o investimento e geração de emprego na actividade e que, simultaneamente, é uma das “traves-mestras” da constelação turística (a hotelaria), uma vez que sem haver “onde ficar”, não há turismo!

Também vale a pena referir que nos revemos inteiramente nas matérias eleitas para debate nos diferentes painéis – grande parte delas abordadas ao longo das análises semanais que aqui fazemos –, como sejam: a afirmação e promoção turística das diferentes regiões turísticas nacionais, no plano interno e externo, bem como da própria Europa, enquanto Continente; os desafios das acessibilidades, principalmente, as aéreas; a avaliaçãoda correcta capacidade de carga turística que permita o crescimento sustentável da actividade, sem perda de identidade; a valorização, formação e dignificação dos recursos humanos; e as novas tendências do alojamento e da gestão hoteleira.

Escusado será dizer que por detrás deste pano de fundo, está implícita uma questão de maior fôlego: a complexa conjuntura internacional que o Mundo atravessa. Ora, tal significa, por um lado, ter presente em que medida é que o país, principalmente, o turístico, tem beneficiado dos problemas de segurança que têm afectado alguns dos nossos principais concorrentes e, por outro lado, avaliar o que temos feito – e o que ainda podemos fazer – para não perdermos uma dinâmica que por mérito, fruto da nossa intervenção directa, mas também por prejuízo alheio, nos vem bafejando.

Por este motivo, a presença e a palestra do Ministro dos Negócios Estrangeiros constituirá, por certo e a confirmar-se (sem desprimor para os demais oradores), um dos pontos de maior interesse do Congresso.

 

O + da Semana:

Como os nossos leitores sabem, a sustentabilidade e a preservação ecológica e ambiental são, a par da inovação, três dos aspectos mais importantes para o desenvolvimento futuro do turismo, o que também é sinónimo de melhoria da nossa qualidade de vida. Por este motivo merece particular destaque a forma original como a easyJet e a Wright Electric decidiram celebrar o Dia Mundial do Turismo (27 de Setembro passado) ao anunciarem, durante o “4th Innovation Day”, evento promovido por aquela transportadora low-cost num hangar do aeroporto de Gatewick, uma parceria que tem por grande desígnio a introdução de aeronaves eléctricas na aviação comercial, nos próximos 10 anos, como forma de promover a descarbonização da atmosfera e diminuir o ruído provocado pelos aparelhos. Ambas as empresas estimam que esses “novos aviões” tenham uma autonomia de voo até duas horas, o que significa que poderão servir as principais rotas de curta distância da companhia, nas quais Portugal está incluído. Sublinhe-se que, para além destes benefícios (óbvios!), a energia eléctrica é um “combustível” muitíssimo mais barato do que o que actualmente é usado (querosene), situação que pode antecipar importantes ganhos no sector da aviação.