iTurismo: Vocação Atlântica, por Atilio Forte

Neste último iTurismo antes de férias, o comentário de Atilio Forte centra-se no tema do próximo congresso da AHP “Portugal, Vocação Atlântica”, embora haja espaço para comentar a redução dos preços das portagens. O possível desaparecimento dos mini bares nos hotéis, o impacto dos atentados em França no turismo daquele país e a entrada de cadeias hoteleiras espanholas em Nova Iorque, são os “Tópicos da Semana”.

Tópicos da Semana:

  • Mini bares. Será desta o adeus?: Nos últimos anos a existência, ou não, de mini bares nos quartos dos hotéis tem sido alvo da maior controvérsia, quer entre consumidores, quer entre hoteleiros. Numa coisa todos concordam, os preços dos produtos disponibilizados são altos, pois incorporam elevados custos de pessoal para efectuar o seu controlo e reposições. Procurando agradar a “gregos e a troianos” começam a aparecer soluções na área das “vending machines” (dispensadores automáticos) que, obviamente, ajudam a reduzir significativamente os encargos da operação, logo dos preços praticados.
  • A triste consequência: Após o pérfido ataque terrorista ocorrido em Nice, no passado dia 14 de Julho, no qual perderam a vida 84 pessoas, o volume de reservas hoteleiras na costa mediterrânica francesa caiu cerca de 30%, sendo que o Ministro da Economia de França já admitiu publicamente que outras regiões turísticas, incluindo Paris, podem também assistir a uma diminuição da procura.
  • Total discrição: Algumas das principais cadeias hoteleiras espanholas optaram por esta estratégia para entrarem no híper competitivo mercado de Nova Iorque (Manhattan). E foi assim, quase de “pantufas”, que a Melia Hotels International, a Riu Hotels & Resorts e a Iberostar Hotels & Resorts acrescentaram mais 1.200 quartos à oferta daquela cidade americana.

 

Comentário

Turisver.com – “Portugal, Vocação Atlântica” vai ser o tema do 28º Congresso Nacional da Hotelaria e Turismo que a AHP vai realizar em Ponta Delgada, de 16 a 18 de Novembro. A discussão deste tema, que já foi abordado aqui no iTurismo, parece-lhe uma oportunidade para a hotelaria portuguesa?

Atilio Forte – Gostaríamos de começar por saudar a AHP – Associação da Hotelaria de Portugal pela escolha – quanto a nós extremamente feliz – do tema que servirá de proposta para reflexão do seu congresso anual.

Como não nos cansamos de alertar, tanto em geral, como em particular no que se prende com a actividade turística, Portugal tem que recuperar o seu posicionamento atlântico, voltando a reencontrar-se com a História, pois é através desta “reconciliação” que o turismo nacional pode inovar e sublinhar, em muito, os seus factores de diferenciação, as suas autenticidade e genuinidade e, finalmente, mas não menos importante, ganhar dimensão.

Temos para nós que será através do “Mar” que mais facilmente poderemos ir ao encontro das expectativas dos turistas actuais ou se se quiser da chamada “nova procura”, a qual é fruto da alteração de paradigma verificada durante a década de noventa do século passado – muito graças ao papel que as novas tecnologias de informação e comunicação passaram a ter nas decisões de consumo, o que acabou por determinar o primado da procura sobre a oferta –, a que se somou o advento da sociedade mosaico.

Assim, aquilo que o consumidor actual de produtos e serviços turísticos mais valoriza é a diferenciação, a genuinidade, a autenticidade, a agregação de valor, a qualificação da produção e da sua envolvente. É esta a razão por que quando hoje se fala em consumo turístico, nos referimos à “vivência de uma experiência”.

Mas é também o “Mar” ou o Atlântico que nos pode dar a dimensão que o nosso território e mercado não possuem. Para além da criação de um “mercado interno de génese lusófona e raiz atlântica”, de que já aqui falámos, tendemos a esquecer-nos do alargamento da nossa Zona Económica Exclusiva – que tarda em ser aprovado pelas Nações Unidas –, o qual nos dará direitos sobre uma área semelhante à do tamanho da Índia.

Como facilmente se comprova estamos a falar de algo que poderá alterar significativamente a nossa realidade actual. Contudo, entendemos que esse alargamento da nossa plataforma continental de pouco ou de quase de nada nos valerá, se persistirmos em não tirar partido da umbilical relação que temos com o “Mar”. Foi através dele que conquistámos um lugar na História. A ele devemos muitos dos nossos traços enquanto povo. Foi dele que retirámos uma parte significativa da nossa herança cultural e civilizacional, dos nossos usos e costumes. Foi cruzando-o que ganhámos fama de povo cosmopolita e hospitaleiro. É dele que extraímos alguns dos ex-libris da nossa renomada gastronomia: o peixe e o marisco. Não é por isso em vão que, enquanto Nação, nos revejamos na expressão “Heróis do Mar”.

Por tudo isto, se há actividades económicas onde a importância do “Mar” ganha maior dimensão, o turismo é, sem dúvida, uma delas. Veja-se o caso do que se passa com o nosso principal produto, o “Sol e Mar”, que muitos dizem estar maduro, e por isso, sem grande potencial de crescimento e, outros chegam ao ponto de afirmar que o mesmo se encontra esgotado. Estas são visões das quais discordamos, a menos que entendamos por “Mar” apenas a zona de rebentação das ondas nas nossas magníficas praias!

Foi por todas estas razões que comecei por referir que, do ponto de vista turístico, o Mar pode ajudar-nos a sublinhar a nossa autenticidade, permitindo que ofereçamos a quem nos visita múltiplas, genuínas, inovadoras e irrepetíveis experiências. Mas também pode, e deve, contribuir para a nossa diferenciação, enquanto destino.

Para ilustrar o que acabamos de dizer, veja-se o que o “surf” (a título de exemplo) tem contribuído para a promoção turística de Portugal no Mundo, para colocar o nosso país na moda internacional daquela modalidade, algo quase impensável há alguns anos. Quem, nos dias de hoje, não sabe onde fica a Nazaré? Ou o que é o seu renomado “canhão”?

Por vezes, como acontece com o Mar, o êxito está ao alcance do nosso olhar. Mas é preciso saber ver! Inovar também é, em inúmeras situações, conseguir optimizar o que temos, acrescentando-lhe valor. Em tempos onde aquilo que a procura valoriza é a autenticidade, não o fazer só pode significar a perda (ou pelo menos o adiar) de uma possibilidade.

Duas notas finais para concluir. A primeira para referir que este também será um debate pleno de potencialidades porque (ainda) recai durante o tempo de recolha de contributos, por parte do Governo, para a “Estratégia Turismo 2027”; e a segunda, para enfatizar que sendo o sector hoteleiro a espinha dorsal do turismo nacional, o desafio interno que a AHP lança aos seus associados deve ser encarado não apenas com enorme seriedade, mas como uma oportunidade de afirmação além-fronteiras (nomeadamente atlântica) da hotelaria portuguesa.

Turisver.com – A actividade turística ficou à margem da posição do Governo de reduzir os custos de algumas portagens. Este é um sinal de que os Governos continuam a ignorar as vozes do sector em matérias importantes para o desenvolvimento do turismo?

Atilio Forte – Tanto quanto é do nosso conhecimento não foram só os representantes da actividade turística que ficaram sem intervir neste processo. Cremos até que nenhum outro sector ou área de actividade económica foi chamado a pronunciar-se sobre o mesmo. Portanto, não vemos qualquer razão em especial que possa indiciar, neste assunto em concreto, alguma ligeireza de abordagem, no que respeita ao seu desfecho, por parte dos agentes turísticos.

E, de certa forma, ainda bem. Pois se é de saudar o esforço de redução, em 15%, do valor das portagens nas antigas SCUT’s, a partir do próximo dia 1 de Agosto, que o Governo levou a cabo pela aprovação no Parlamento de um projecto de resolução apresentado pelo Partido Socialista, não menos verdade é que ele ficou muito aquém das expectativas dos agentes económicos, da sociedade portuguesa em geral e também, claro está, dos turistas.

Acreditamos que tenha sido esta a razão pela qual as associações empresariais mais ligadas ao turismo tenham reagido de modo tão pouco entusiástico (crítico, nalguns casos) e desgarrado ao seu anúncio.

O mais importante é que, em termos futuros, não se deixe que o assunto saia da “ordem do dia”, já que não apenas prejudica de modo inequívoco a actividade turística, como compromete sobremaneira a coesão territorial pelo acentuar – na maior parte dos casos – das assimetrias entre o interior e o litoral.

 

O + da Semana:

Como sabem aqueles que nos seguem amiúde, o tema da agregação de valor é um dos que mais frequentemente tem estado em destaque nesta rubrica. A eterna questão do total ser superior à simples soma aritmética das parcelas (1+1=3) é algo que deve estar obrigatoriamente presente em qualquer projecto turístico vencedor pois, no final, será ele o grande factor diferenciador que, consequentemente, permitirá conquistar a preferência dos consumidores. Por isso, é sem estranheza, que vemos algumas das figuras mais mediáticas do planeta entrarem ou “emprestarem” o seu nome a inúmeros negócios relacionados com a actividade turística. O último destes anúncios foi feito pela “socialite” Paris Hilton, que se prepara para lançar uma nova marca no sector da hotelaria de luxo baseada, por um lado, na sua linha de cosmética e, por outro lado, no seu incontornável (pelo menos no turismo) apelido. Ao que parece são já vários os destinos que se perfilam para acolher o lançamento da nova cadeia/marca, de entre os quais sobressaem Bali, na Indonésia; Saint Barts; Kauai, no Havai; e, Barbados.

 

Aproveitamos para desejar a todos os nossos leitores umas boas e relaxadas férias. Para os muitos que darão o melhor de si mesmos para proporcionarem estadas e viagens inolvidáveis aos demais, votos de bom trabalho. Cá estaremos em Setembro, para continuarmos a analisar e comentar o que de mais importante se vai passando no Turismo, seja em Portugal, seja no Mundo.