Opinião: e-Atualidades do Trade 2017, por João Pronto*

Neste artigo, João Pronto faz uma abordagem à Bolsa de Turismo de Lisboa, da perspectiva da tecnologia, abordando igualmente o evento promovido pela Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) referente à regulamentação geral de protecção de dados.

Realizou-se recentemente a BTL que, apesar de ter registado um excelente quadro de representatividade de entidades e empresas do setor turístico, nacional e internacional, no que à tecnologia concerne registou, face às minhas expetativas, um número reduzido de empresas tecnológicas com Stand próprio.

Ainda assim, estiveram presentes algumas das empresas tecnológicas de referência, ao nível das software houses que desenvolvem soluções tecnológicas para o setor turístico, como os casos da HHS e da Newhotel, mas também estavam presentes multinacionais como a Travelport, Amadeus, GuestCentric e Assa Abloy. Outras optaram por estabelecer parcerias com entidades do setor, através de demonstrações mais ou menos explícitas, como os casos da LG e da Samsung, através dos habituais LCD existentes numa quantidade assinalável de Stands.

No entanto, como acontece habitualmente, há empresas/entidades do setor que apostam mais na inovação tecnológica do que é tradicional e, este ano, tivemos alguns casos em que foram apresentadas soluções de Realidade Aumentada, como o caso dos Hotéis NAU, que colocaram à entrada do Stand um ecrã com uma imagem de um campo de golf, jogador e buraco.

Ao mesmo tempo, foi criado um buraco verdadeiro na relva, contendo sensores que identificavam a entrada das bolas. Sempre que um participante acertasse no buraco, os sensores reconheciam a bola e, de seguida, era ativada no ecrã uma Roda de Prémios (Wheel of The Green) que atribuía aleatoriamente um prémio a esse participante.

Foto infra:

Entre as outras opções apresentadas na BTL, destaco também o caso da Discovery Hotel Management que optou por apresentar uma réplica virtual, em imagens em 360°, de um dos Hotéis do Grupo, o Hotel Praia Verde, através de uma solução de Realidade Virtual, em parceria com a Samsung, como apresentado na imagem que se segue:

Nesta solução tecnológica era possível andar “virtualmente” pelo Hotel Praia Verde, apesar de se estar em plena BTL.

Para fecharmos esta componente da BTL, não posso deixar de descrever uma situação menos simpática, que teve a ver com o facto de muitos profissionais reclamarem da qualidade da Internet apresentada no Evento, de qualidade bastante sofrível, com acessos muito lentos, tornando os acessos remotos a software das empresas quase impraticável. A acrescer a este problema, as empresas presentes em Stands ainda receberam uma comunicação da organização da BTL a informar que não poderiam utilizar Access Points próprios, inviabilizando, portanto, a utilização de recursos privados de Internet. Claramente uma situação a rever.

Paralelamente, a AHP promoveu, no dia 30 de Março, uma Sessão de esclarecimentos relativa à temática “Regulamento geral de proteção de dados: que impactos na indústria hoteleira”, tendo convidado duas entidades especialistas na matéria, com vista a informar e alertar os atores do sector hoteleiro para a problemática da gestão e proteção dos dados dos clientes/hóspedes.

Da sessão de esclarecimento retive alguns desafios fundamentais: em maio de 2018 os hoteleiros terão, impreterivelmente, de ter “a casa arrumada”, entenda-se, executado e documentado um conjunto de procedimentos que lhes permitam demonstrar que estão efetivamente a zelar pela privacidade dos dados dos seus clientes/hóspedes.

Os profissionais de hotelaria terão que proceder a auditorias internas, com alguma regularidade, por forma a otimizarem processos internos que garantam a privacidade dos dados dos seus clientes/hóspedes.

Aos Hotéis e grupos hoteleiros que estão mais despertos para o estudo do comportamento dos seus (potenciais) clientes/hóspedes, através da utilização dos dados históricos, suportados por ferramentas de Business Intelligence e/ou em alternativa/cumulativamente estratégias de relacionamento mais próximas, através da utilização de sistemas de Customer Relationship Management, ou outras variantes, terão de, com base nesta nova regulamentação, solicitar explicitamente aos (potenciais) clientes/hóspedes, autorização para que os seus dados possam ser tratados e utilizados como objeto de relação de marketing/comercial.

Os sistemas informáticos existentes nos Hotéis terão de ter a capacidade de fornecer, sempre que solicitado pelos clientes/hóspedes, a funcionalidade de “esquecer” os dados do cliente/hóspede, mantendo obviamente todos os dados legalmente necessários para efeitos legais e fiscais. Estes sistemas informáticos terão ainda de ter a capacidade de interoperabilidade de dados, permitindo, a todos os clientes/hóspedes que o desejem, a capacidade de exportação dos dados existentes no seu profile, de forma que esses mesmos dados possam ser reutilizados noutra unidade hoteleira, independentemente de utilizar, ou não, o mesmo sistema informático de alojamento, terá que passar a haver interoperabilidade entre os diferentes Property Management System – PMS.

As empresas tecnológicas detentoras de PMS lá terão, mais uma vez, que otimizar os seus sistemas, por forma a manter o seu software de acordo com os múltiplos requisitos legais/fiscais existentes neste nosso país à beira mar plantado…

Quem não cumprir com estas novas regras legais irá, certamente, incorrer em avultadas coimas, com demasiados “zeros” para a esmagadora maioria das empresas do nosso setor.

A parte menos má, perdão, a melhor parte desta nova regulamentação, tem que ver com a obvia necessidade das empresas do setor terem que se atualizar tecnológica e procedimentalmente, ao nível da segurança informática, por forma a conseguirem demonstrar, a quem de direito, que tudo fizeram/estão a fazer, por forma a manter intacta a privacidade dos dados dos turistas que recorrem aos hotéis existentes na comunidade europeia em geral e, por maioria de razão, em Portugal.

Relativamente às questões legais e políticas, deixo-as, obviamente, para quem sabe, nos seus artigos de opinião aqui na turisver.com, no caso, para os meus colegas e amigos Carlos Torres e Atilio Forte.

Quanto às questões tecnológicas, ainda estamos claramente na praia… sempre que se justificar, apresentarei e comentarei as devidas atualizações, entenda-se upgrades.

* João Pronto

Professor Adjunto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril
Professor Convidado da Católica Porto Business School
Consultor de IT em Empresas Turísticas