Opinião de Ruben Obadia: “A onda que Portugal perdeu”

A promoção turística dá o mote ao artigo de opinião de Ruben Obadia, Communication Manager da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo, que hoje publicamos. A onda que Portugal perdeu Comercializar – Tornar comercial; colocar no comércio; compra, troca ou venda de mercadorias, produtos, valores, etc. Promover – Fazer com que se execute, que se ponha em prática alguma coisa; fomentar, desenvolver; anunciar os feitos, os valores ou as vantagens. (Ambas as definições podem ser encontradas online no Priberam) Portugal é conhecido por passar rapidamente do 8 ao 80 e vice-versa. Os exemplos seriam demasiados para aqui serem elencados. Por isso, concentro-me apenas e só no Turismo. Durante anos, e até há bem pouco tempo, a palavra de ordem era Promoção. Tudo girava em torno da promoção turística, uma espécie de Cruzada dos tempos modernos. Faziam-se mega-campanhas disparatadas onde tudo era permitido. Ora nos posicionávamos como um país atlântico, uma espécie de ilha à parte da Europa bem mais próximo dos EUA, ora anunciávamos ao mundo um país de artistas, cientistas e desportistas que se destacavam internacionalmente. Ouviam-se, aqui e ali, umas vozes de descontentamento. Mas o status quo nunca permitiu grandes veleidades, nem nunca ninguém com responsabilidade se atreveu a dizer que “o rei vai nu”. E entenda-se por Rei à época, o Manuel Pinho, e o “vai nu” como “o facto de gostares de fotos de artistas que ninguém nunca ouviu falar e da tua mulher ser a curadora do BES ART não deveria ser razão para nos impingires parvoíces”. E foi nesta bebedeira de promoção errante que se começaram a levantar outras vozes, tímidas, lamentando o facto de só falarmos em promoção e nunca em comercialização. A este propósito recordo-me de uma visita ao fantástico restaurante Quarta-Feira, em Évora, onde às páginas tantas o proprietário, em conversa, sai-se com esta: “Ò amigo, você que é do Turismo diga lá aos senhores que mandam que eu andei na Escola comercial e lá não tínhamos nada disso do marketing, mas sim técnicas comerciais. Isso sim! Cá neste restaurante os clientes comem o que eu lhes dou e ser comercial é isso.” E lá comi o que me deu, um manjar dos deuses por sinal. Com a chegada do Governo de Passos Coelho passámos então para o 8, sem passar pelo 40. Abandone-se a promoção, que o País precisa é de euros como de pão para a boca. Agora é tudo planos de comercialização para aqui e para acolá. Falar em promoção é como estar num concerto dos Iron Maiden e dizer que se gosta de ouvir Madonna. E portanto, ninguém promove. Mas como o Priberam mostra, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Só se compra o que se conhece e só se pode vender o que antes se promoveu. Será que sou só eu que sou idiota por pensar assim? E no vazio promocional reinante surge então a peregrina ideia da Confederação de Turismo de Portugal de avançar com uma Agência Nacional de Promoção Turística. Nós, cá no burgo, gostamos destes nomes pomposos, é uma espécie de Cialis emocional. Ora a ideia inicial desta ANPT – sim, vou optar pelas siglas porque também gostamos muito delas e dá um carácter mais oficial à coisa – era fazer a promoção só de Lisboa, Algarve e Madeira. O mesmo é dizer: “Queremos o lombo, os outros que fiquem com os ossos”. Lá recuaram e seguiram pelo caminho do “queremos estar bem com todos e promover Portugal no exterior”. Venderam a ideia ao secretário de Estado de Turismo que, meio desconfiado ainda, anda a tentar perceber quais as implicações da coisa. Mas eu explico de uma forma simples e sem rodeios: no fundo, a promoção turística ficaria entregue aos grandes grupos turísticos, esvaziando-se em simultâneo o Turismo de Portugal das suas competências. Os muitos milhões de euros para a promoção – e que mesmo assim não chegam – iam ficar também nas mãos dos fundos, que como sabemos gerem quase metade dos empreendimentos deste país. E quando falo em fundos, falo em bancos. Quanto ao pequeno e médio empresário, aquele que arriscou com o seu dinheiro e nunca viveu acima das suas possibilidades, esse que se lixe. Poderia começar por aqui a enumerar as dificuldades com que se iria deparar no acesso, por exemplo, ao financiamento comunitário para a promoção, mas deixo isso para outras calendas. E já agora, se este espírito de missão é tão genuíno, porque não recuperam o Conselho Estratégico de Promoção Turística, criado nos tempos do Luís Correia da Silva? Não, a malta não gosta de “Conselhos”, é coisa demasiado democrática. O que se quer é uma Agência e até já se fala em quem vai ser o presidente. Posso até avançar com o seu nome, mas prefiro lê-lo no Expresso ou no Jornal de Negócios para depois sorrir e pensar para com os meus botões “só neste país a incompetência é elevada à condição de presidência”. No meio disto tudo, e já a talhe de foice, fomos à FITUR mostrar que desaprendemos tudo sobre promoção turística. Eu sei que quando não se pratica é isso que acontece. Um stand com uma onda saloia a mostrar um país de cabeleireiros, onde a aposta vai para um mapa de Portugal gigante com o nome das praias e o tamanho das suas ondas. A estrela eram os 30 metros da Nazaré e até Tavira tinha direito a ondas de metros (!?). Ou seja, numa feira generalista como é a FITUR, num mercado que vem a Portugal maioritariamente em família, fomos dizer que Portugal tem ondas perigosas e que o nosso mar não é para meninos. Mas pronto, como o surf está na moda, vou ali comprar uma prancha e já volto. Numa coisa o Turismo de Portugal acertou: o Mcnamara. Sim, colocar um americano do Massachusetts, que vive no Hawai, e que passa uns dias na Nazaré, a dar uns autógrafos no stand de Portugal fez disparar o número de fotografias partilhadas nas redes sociais. Eu fui um deles… mas… aquilo é Portugal? Nota: Obviamente que esta é a minha opinião pessoal, não vinculando a entidade para a qual, com muito orgulho, trabalho. Ruben Obadia Communication Manager da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo