Opinião: A Inteligência Artificial e o Turismo, uma primeira abordagem, por João Pronto*

Este artigo é o meu 12.º segundo artigo de opinião, aqui na turisver.com, e, de repente, passou um ano, e como não poderia deixar de acontecer, terei que escrever sobre as duas temáticas que claramente mais me marcaram, a nível académico, primeiro, e depois, a nível profissional: O estudo da Inteligência Artificial e o estudo do Turismo, duas áreas que, no meu ponto de vista, têm tudo para “trabalhar em conjunto”…

Vamos começar pela Inteligência Artificial (IA) –

No início dos estudos sobre esta temática, em 1956, Allen Newell e Herbert Simon, ousaram escrever “os computadores podem ser inteligentes porque processam símbolos e ainda porque o conhecimento pode ser descrito por estruturas simbólicas”; um ano depois, John McCarthy escreveu “a IA é a ciência e engenharia de produção de máquinas inteligentes”; em 2004, Ernesto Costa, definiu a Inteligência Artificial como “uma disciplina que tem por objetivo o estudo e construção de entidades artificiais com capacidades cognitivas semelhantes às dos seres humanos”.

Em 1990, a definição e as abordagens que me foram sabiamente ensinadas pelo Professor Ernesto Costa, nas disciplinas de Inteligência Artificial e de Gestão do Conhecimento, eram bastante similares às abordagens acima referenciadas, e, na altura, o fascínio por esta temática fez com que claramente eu tivesse optado pela carreira académica ao invés de enveredar por uma carreira profissional, no domínio das redes de computadores e dos sistemas informáticos clássicos…

Acontece que, como acima referi, tive o privilégio de ter sido aluno do Professor Ernesto Costa, um dos pais da Inteligência Artificial em Portugal, e como tenho mantido o contacto, informei-o de que estava a escrever este artigo e desafiei-o a responder de novo à pergunta: “O que é a Inteligência Artificial?”, a resposta veio clara e rápida, como é seu apanágio: “A IA é uma área da computação, cruzando ciências da cognição, neuro-ciências e biologia, dedicada ao estudo e construção de agentes autónomos, que interagem com o seu ambiente, tendo em vista a resolução de tarefas com máximo desempenho.“

Das definições acima referenciadas, parece-me claro que as técnicas e soluções desenvolvidas no âmbito da Inteligência Artificial têm claramente aplicabilidade no setor turístico, desde programas de otimização de escalas no domínio da aviação e dos cruzeiros, passando por programas inteligentes capazes de dirigir publicidade adaptada aos interesses dos (potenciais) turistas, até ao desenvolvimento de sistemas inteligentes que sejam capazes de descobrir, com elevado grau de certeza, quais as reservas que vão ser canceladas à ultima da hora, ou que vão originar “No Show”, auxiliando desta forma os gestores hoteleiros a gerirem eficazmente o “overbooking” do Hotel, já para não me referir aos sistemas que auxiliam os gestores a descobrir até que valor da Room Night é que determinado cliente está disposto a despender para se tornar… hóspede, sem ir para o Hotel da concorrência…

Em 2002 apresentei a minha dissertação de Mestrado com o título “Turistólogo – O Ciberturista; um Sistema Pericial para Turismo”, onde defendi a idealização e implementação de um protótipo para um software (no caso um Sistema Pericial[1]) que tivesse a capacidade de inferir os gostos turísticos dos turistas que procuravam Portugal, e que fornecesse aos turistas que interagissem com a plataforma, percursos turísticos nacionais que fossem de encontro com os desejos fornecidos aquando da interação turista – Turistólogo, através de sítio da Internet ou de um quiosque Multimédia.

Na altura, a IA era uma área de especialização dentro da Informática, em que os investigadores se  dedicavam essencialmente à investigação científica e ao ensino, o que era claramente o meu caso. No entanto, os estudos aplicados da IA ao Turismo eram claramente escassos, em Portugal e no mundo. Era uma crítica mais ou menos fundada que se fazia à IA, era uma ciência que não tinha suficiente aplicabilidade prática em geral, e no setor turístico em particular.

Nos dias de hoje, esta componente de investigação permanece fortíssima, no entanto, surgem cada vez mais relatos de grandes multinacionais tecnológicas como a Apple, a Google, Facebook e a Microsoft, como estando claramente a investir nesta área da computação, desenvolvendo software suportado pelas mais avançadas técnicas de Inteligência Artificial, restando saber o que é que entendem por “mais avançadas técnicas” e claro, por Inteligência Artificial… como por exemplo os programas que efetuam reconhecimento e síntese de fala, diálogos em língua natural, sistemas de recomendação, reconhecimento de imagens/faces,… a lista é interminável…

No âmbito das minhas funções de gestor de IT em Hotéis, mais do que uma vez, fornecedores de soluções informáticas que tinham como objetivo que eu adquirisse a solução da sua empresa, e não a solução da concorrência, os comerciais em questão invocaram as “avançadas técnicas e tecnologias de Inteligência Artificial” que a sua solução tecnológica apresentava e a da concorrência não… uma das vezes não resisti e perguntei ao comercial em questão qual o tipo de mecanismo de inferência que o software dele tinha… o Sr. fez uma cara de quem pensou que eu estava a falar em japonês ou coisa do género… quero com estas palavras deixar claro que de facto, há algumas situações em que a IA é invocada, mesmo sem ter qualquer “culpa” e outras, do nosso quotidiano, em que são utilizadas técnicas de IA, sem que tenhamos noção, como nos casos dos carros de nova geração em somos auxiliados por sistemas avançados de assistência ao condutor, como o adaptive cruise control (ACC).

Paralelamente, o setor tecnológico que se dedica ao desenvolvimento de sistemas de Business Intelligence, também tem recorrido, de forma crescente e consistente às tecnologias da IA, por forma a conceber sistemas de deteção de grupos comportamentais, com o intuito de descobrir, analisar e interpretar, tendências comportamentais de consumos, e cálculos de previsões suportados pelos dados históricos.

Quem trabalha no setor turístico reconhece nestas palavras acima, implícito, o conceito de Revenue Management, tão em voga nesta ultima década, e por outro lado, as pessoas que trabalham na componente tecnológica reconhecem o conceito Machine Learning. Estes dois conceitos são suficientemente fortes para cada um deles, ter um artigo dedicado, nestas colunas.

Avaliando a evolução exponencial da informação e do conhecimento turísticos existentes atualmente online, tendo noção do enorme crescimento tecnológico da última década, há cada vez mais empresas que analisam os comportamentos online dos turistas, com base em diferentes avaliações semânticas, parece-me inegável que nos próximos tempos, teremos, na Turisver.com artigos subordinados à temática da Inteligência Artificial aplicada ao Turismo.

[1] Sistema Pericial – é um programa computacional que atua num domínio (mais ou menos) restrito e que tem como objetivo aconselhar e resolver problemas que, pelo seu grau de complexidade, exigiriam um elevado grau de conhecimento e experiência por parte de um ou mais peritos humanos, por forma a se obter resultados semelhantes.

 

* João Pronto

Professor Adjunto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril
Professor Convidado da Católica Porto Business School
Consultor de IT em Empresas Turísticas