Opinião: Web Summit 2017 e o e-Trade Nacional, por João Pronto

A “tecnologia faz bem à saúde das empresas e instituições turísticas nacionais e internacionais”, afirma João Pronto neste artigo em que faz uma análise ao Web Summit no que ao trade turístico concerne. Uma temática bem actual que justifica a interrupção da série de artigos dedicados à e-Hotelaria.

Caros leitores, é-me impossível não interromper esta nova “geração de artigos de opinião relativos à e-Hotelaria” pois, como é de conhecimento global, acabámos de receber a Web Summit 2017, e dedicando-se esta coluna à vertente tecnológica do nosso Trade, é-me imperioso refletir e escrever este artigo!

Da análise ao Evento, ressalta claramente que a componente tecnológica do Web Summit dedicada explicitamente ao nosso setor turístico, é inferior ao ano passado. Já o impacte no nosso sector turístico, esse é manifestamente superior! Basta vaguear 5 minutos pelas ruas de Lisboa ou pelas redes sociais para se sentir o efeito Web Summit.

No entanto, surgiram, de novo, start-ups e empresas tecnológicas “consagradas”, que se dedicam ao desenvolvimento de tecnologias “emergentes” (ao público comum) como a Inteligência Artificial, a Robótica, a Realidade Aumentada, a Realidade Virtual, a Internet das Coisas e soluções de Business Intelligence, e ainda… de Segurança Informática.

Para os leitores mais assíduos destes artigos (mais ou menos) mensais, estas temáticas têm vindo, crescentemente, a surgir um pouco por todo o “mundo turístico” como novas abordagens ao “serviço turístico”, cada vez mais orientado para os “caprichos tecnológicos” dos turistas e viajantes.

Há cada vez mais turistas que teimam em usufruir de uma panóplia tecnológica cada vez mais especializada, relegando demasiadas vezes (do ponto de vista do sector turístico) a qualidade do serviço prestado pelos profissionais de turismo, em detrimento da (excelente) velocidade da Internet do Hotel; ou da (fabulosa) qualidade de imagem da TV OLED, ou dos futurísticos óculos de realidade virtual que possibilitam ao turista experienciar os caminhos subterrâneos da baixa de Lisboa, sem sair do Lounge do Hotel onde o turista se encontra comodamente sentado a beber um cálice de vinho do Porto… ou ainda da mensagem acabada de receber no whatsapp, quando o turista está a 20 metros do hotel, com uma promoção de happy-hour para um Gin tónico no “roof top” do Hotel, que vai decorrer em exatamente dentro de 5 minutos…

 

Das diferentes comunicações do Web Summit deste ano, se me permitem, vou destacar quatro:

 

1) A incontornável comunicação mediada por Ben Goertzel, em que dois Robots munidos de programas Inteligentes, “dissertaram” sobre o “futuro ao virar da esquina” destas duas áreas das Ciências da Computação: A Inteligência Artificial e a Robótica.

Aplicabilidade no nosso setor turístico?

Tirando os nichos de mercado em que teremos restaurantes, bares e hotéis “inundados” de Robots, para delícia dos Geeks (entusiastas tecnológicos) não estou mesmo a ver como é que esta componente, vai afetar negativamente os profissionais do setor turístico, pois, como todos temos noção, o turismo é feito de pessoas para pessoas, por mais tecnologicamente viciadas que sejam…

No entanto, no meio do “folclore” apresentado pelos dois Robots, uma aparente boa notícia:

O anúncio para 27 deste mês, do lançamento da plataforma (SingularityNET) colaborativa entre técnicas e tecnologias convergentes, no domínio da Inteligência Artificial, que idealmente produzirá melhores e mais consistentes avanços no domínio da Inteligência Artificial, e, ao se massificar, estas tecnologias ficarão (mais) apetecíveis ao nosso setor, quanto mais não seja para nos auxiliar na qualidade dos estudos comportamentais dos turistas que nos visitam e que nos virão a visitar… uma temática a ter claramente em atenção… é que, como o turismo, a tecnologia quando se massifica, “fica muito mais em conta” para quem a pretende adquirir, claro está!

2) Os futuristas Andra Key, Jacques Van den Broek e John Vickers na conferência Our robot future dissertaram sobre o que supostamente nos espera no ano          2030: resumidamente, vamos partilhar este nosso mundo com (os nossos amigos) robots, feeds de dados, mas espantosamente ainda vamos ter empregos,            apesar dos Robots “afirmarem” que vamos perder alguns empregos, escrevo eu: quanto mais não seja para ganhar uns euros, para podermos continuar a                fazer  turismo… mas estes futuristas acreditam que 60% dos nossos trabalhos vão mudar.

Parece-me claro que vamos ter cada vez mais automatismos processados pelos sistemas computorizados, permitindo aos profissionais do Trade, terem                    tempo  para o que fazem de melhor: zelar pela qualidade do serviço turístico.

 

3) O presidente da Microsoft, Brad Smith, para espanto meu, recordou o fatídico 12 de Maio, em que “200 mil computadores em 150 países foram atacados               por hackers”, entre os quais centenas ou milhares de empresas e instituições turísticas, de todo o mundo ficaram “offline” devido a este brutal ataque                       informático que foi especialmente eficaz em tecnologia… Microsoft (esta parte, Brad Smith não referiu)… e alertou as autoridades globais para a imperiosa             necessidade de se constituir uma nova “convenção de Genebra para o digital”.

Obviamente que o setor turístico agradece, e muito, esta consciencialização e regulação global para esta nova etapa da era digital, mas convém que os nossos parceiros tecnológicos tenham sempre presente os conceitos básicos de “Segurança Informática”, e infelizmente, quer-me parecer que demasiados parceiros tecnológicos do setor turístico andam tão concentrados a “fazer coisas acontecer” que se esquecem da (IN)Segurança informática e depois… a operação normal do dia-a-dia fica seriamente comprometida, como aconteceu a 12 de Maio…

 

4)Ross Mason, fundador da Mulesoft, afirmou num debate com Pat Gelsinger, CEO da VMware, que “pela primeira vez, a tecnologia está a caminhar num sentido em que o próprio homem está em risco”.

 

Se pensarmos um pouco nos “disparates” que se andam a fazer com drones, e nos “disparates” que se podem fazer…; tendo noção de que os principais fabricantes de automóveis estão a desenvolver, em parceria com fabricantes de Firewall, sistemas de proteção informática nos sistemas informatizados dos seus carros, cada vez mais autónomos, a probabilidade destes excessos tecnológicos correrem mal é tão grande…

Assim, em nota de conclusão, não me espantou que os “céticos à tecnologia” tivessem votado em maior quantidade do que os “otimistas tecnológicos” na Web Summit 2017… afinal, a esmagadora maioria dos presentes, creio, está (bem) ciente do “enorme calcanhar de Aquiles” da tecnologia – a Insegurança Informática e o enorme impacte na operação das empresas, das instituições e dos cidadãos, neste nosso mundo cada vez mais tecnológico-dependente.

 

Como nota de rodapé, importa referir também que a Uber, a Booking e a Cisco se fizeram notar no evento.

A Uber informou que celebrou um protocolo de colaboração com a NASA, com o intuito de iniciar um projeto de Uber AIR, através de voos não tripulados, em cidades americanas; A coisa promete…

A Cisco, (obviamente) apresentou a sua visão sobre as Smart Cities, com o desenvolvimento de infraestruturas alicerçadas na Internet das Coisas, potenciando a qualidade das experiências de entretenimento e otimização de gestão de edifícios, áreas que muitas empresas e instituições turísticas nacionais e internacionais já estão, faz uns anos, a investir consistentemente neste tipo de soluções tecnológicas.

A Booking durante a conferência “Inteligência Artificial é o futuro para viajar” elencou duas perguntas retóricas que todos os turistas fazem antes de viajar: “onde vou durante as férias?” e, “o que faço quando lá chegar?” referiu que a Inteligência Artificial vai auxiliar nas respostas, permitindo “experiências muito mais personalizadas”.

A presidente executiva da Booking.com, Gillian Tans, quando questionada sobre se a empresa é ou não uma empresa de tecnologia, respondeu: “em primeiro lugar, a Booking é uma empresa para os clientes, e, se recorrer a tecnologia de ponta proporcionar melhores experiências aos clientes, então é utilizada”.

Do meu ponto de vista, esta é claramente “a visão correcta” que o nosso setor turístico deve ter perante a tecnologia:

Devemos de investir em tecnologia, mais ou menos avançada, apenas e quando a qualidade do serviço turístico poder ser potenciada, ou quando a tecnologia possibilitar a redução de custos operacionais às empresas e instituições turísticas. Investir em tecnologia, “só porque sim”, não faz muito sentido.

Concluindo, continuo, como sempre, a considerar que a “tecnologia faz bem à saúde das empresas e instituições turísticas nacionais e internacionais”. Estamos portanto, cada vez mais, perante uma situação de e-Trade no sentido de que o nosso setor turístico respira, cada vez mais, tecnologia.

 

* João Pronto

Professor Adjunto da Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril
Professor Convidado da Católica Porto Business School
Consultor de IT em Empresas Turísticas

** João Pronto escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico