iTurismo: Pior do que Errar…, por Atilio Forte

No iTurismo desta semana Atilio Forte comenta a aprovação, por parte do Governo, do novo modelo de gestão dos slots para evitar a multa pedida pela CE ao Tribunal de Justiça da EU, e ainda a tendência cada vez maior de os hotéis e restaurantes se tornarem “pet friendly”.

Tópicos da Semana:

  • Em viagem a geração do milénio prefere combinar trabalho com lazer: Vários são os estudos que indicam que os jovens profissionais da geração “Y” quando viajam em trabalho demonstram uma especial apetência para prolongar a sua estada nos destinos e tirarem proveito de uns dias de lazer, procurando desse modo obter um maior equilíbrio entre o emprego e a vida pessoal, situação que tem motivado que muitas empresas comecem a adaptar as suas normas no que respeita a viagens, por forma a corresponderem a esta tendência e possibilitarem um melhor desenvolvimento pessoal e profissional dos seus trabalhadores.

 

  • Inteligência Artificial (I. A.) já ajuda na procura de viagens: A “start-up” do empreendedor Khalid Meniri desenvolveu uma aplicação (“App”) – SIX Travel – para “smartphones” que monitoriza as actividades online do seu usuário – por exemplo buscas e partilhas –, cruzando-as com as avaliações feitas por outros consumidores e jornalistas especializados em turismo, de modo a conseguir dar sugestões mais de acordo com o gosto do utilizador no que se refere a destinos ou a produtos turísticos. Contudo, o próprio empresário adverte que o resultado final ainda não está totalmente “afinado”, já que, por exemplo, interpreta um “gosto” numa fotografia de montanha, como desejo de efectuar férias na neve.

 

  • Hotéis e marcas associadas ao luxo impulsionam projectos imobiliários: Na opinião dos especialistas as marcas hoteleiras de referência, como a Four Seasons, têm dado um enorme impulso ao desenvolvimento imobiliário, principalmente na área dos condomínios privados. No entanto, outros nomes bem conhecidos e associados ao luxo também estão a ter sucesso junto dos potenciais clientes deste sector como, a título de ilustração, está a acontecer na Florida (EUA) com a construção da Porsche Design Tower.

 

Comentário

 

Turisver – A Comissão Europeia pediu ao Tribunal de Justiça da UE que multe Portugal, por não ter tomado as medidas necessárias para respeitar as normas comuns da União Europeia, sobre atribuição de faixas horárias (‘slots’) nos aeroportos. O Governo que teve mais de dois anos para resolver este assunto, aprovou agora um novo modelo de gestão dos slots, para evitar a multa. Que comentário lhe merece esta situação?

 

Atilio Forte – Este é o tipo de perguntas que, embora de grande pertinência, nos devem incomodar profundamente enquanto portugueses e que provam à saciedade – como se tal fosse necessário?! – aquilo que há muito tempo (também nestes comentários) vimos afirmando: Portugal não tem, nem nunca teve, uma estratégia para a aviação, tal como persiste em recusar aceitar o sector (da aviação) como parte integrante e peça fundamental da actividade turística.

Não é por isso de estranhar que a completa inércia e ignorância, acompanhadas de uma total falta de vontade política em inovar e compreender que o turismo e a aviação fazem parte da mesma “face da moeda”, que ao longo de décadas sucessivos Governos têm manifestado nos coloque, de quando em vez, em situações delicadas passíveis de serem sancionadas por parte das instâncias internacionais, nomeadamente daquelas que têm por obrigação a aplicação da Lei e a fiscalização do cumprimento das normas em vigor, afectando a imagem externa do país e, internamente, comprometendo o escorreito desenvolvimento de áreas importantes da economia.

No que a este tema respeita e para que se compreenda o que está em causa, convirá recordar que no início de 2013, portanto há quase 6 anos, a Comissão Europeia (CE) enviou a Portugal um parecer em que alertava para a necessidade de cumprimento da Legislação aprovada em Bruxelas, concretamente para a responsabilidade dos Estados-Membro estabelecerem um quadro legal que separasse as funções do “coordenador” pela atribuição de faixas horárias nos seus aeroportos (vulgo “slots”, isto é, autorização de movimentos de aterragem e de descolagem dados às companhias aéreas) de qualquer parte interessada.

Esta atitude da CE foi motivada por ter detectado, no caso português, que essa coordenação carecia de isenção funcional e financeira da ANA – Aeroportos de Portugal, uma vez que estava integrada naquela empresa, tal como os trabalhadores que tinha ao seu serviço e que o seu próprio orçamento era aprovado pelo Conselho de Administração da concessionária pela gestão dos aeroportos nacionais, o que configurava uma situação em que a concorrência leal – no que tange aos princípios da transparência, imparcialidade e não discriminação – não estava garantida, pois o “coordenador” ficava impossibilitado de actuar de forma autónoma e independente da ANA.

Como, entretanto, nada se alterou, no final desse ano (Novembro de 2013) a CE decidiu interpor um processo junto do Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE), o qual veio a obter vencimento em 2016 (Junho), através de acórdão proferido por aquela instância onde se refere que Portugal não garante ao “coordenador”liberdade funcional e financeira da ANA, no que respeita à atribuição de “slots” nos aeroportos de Lisboa, Porto, Faro e Funchal.

Deverá aqui abrir-se um parêntesis para explicitar que a decisão do TJUE iliba a entidade concessionária da gestão dos aeroportos nacionais de qualquer responsabilidade, a qual recai exclusivamente no Estado português dado ser a ele que compete proceder, no exercício das suas funções regulatórias, à respectiva separação entre o organismo coordenador e a ANA.

Fechado o parêntesis, e volvidos pouco mais de dois anos sem que tenha havido qualquer evolução ou decisão (por parte do nosso país) sobre o assunto, a CE decidiu agora apresentar nova acção contra o Estado português junto do TJUE, desta feita para obrigar Portugal a cumprir com o acórdão daquele Órgão de Justiça europeu, acompanhada de um duplo pedido de sanções pecuniárias, uma no valor de 1.849.000€, para penalizar o incumprimento da deliberação de Junho de 2016 e outra, no montante diário de 7.452€, até que aquele Tribunal profira nova posição sobre a matéria.

Perante este cenário, no passado dia 8 o Governo aprovou (finalmente!) em Conselho de Ministros a criação de uma nova entidade com funções de coordenação da atribuição de faixas horárias nos aeroportos nacionais, à qual será garantida independência quer funcional (para além da ANA, integrá-la-ão a NAV – Navegação Aérea de Portugal, as companhias aéreas e outras entidades que manifestem interesse em dela fazerem parte, cabendo à ANAC – Autoridade Nacional da Aviação Civil, enquanto Regulador do sector, a fiscalização da sua actividade), quer financeira (as suas receitas decorrerão das taxas cobradas às transportadoras aéreas e às entidades gestoras dos aeroportos pelo serviço prestado).

Esta decisão apressada (a qualificação é nossa) deixa entender que o Estado português só a tomou quando foi confrontado com a possibilidade de “pagar uma multa” pelo seu desinteresse, para não dizermos desleixo, em cumprir, por um lado com o estipulado pela legislação europeia e, por outro lado, com o inalienável papel de regulação do mercado que lhe cabe, de modo a garantir o acesso ao mesmo em pé de igualdade a todos os agentes económicos, independentemente da sua dimensão.

Em suma, e como já se compreendeu, tudo isto era evitável e escusado. E mais uma vez se (com)prova que a aviação é um “corpo estranho” no (agora designado) Ministério do Planeamento e das Infra-Estruturas, pois mais do que não ser considerada, é incompreendida e ignorada pelas manifestas ausências de conhecimento e saber constantemente reveladas ou, quem sabe, talvez por “falar uma outra língua”:a do turismo!

Com as alterações levadas a cabo na semana passada poderá até Portugal vir a não ser sancionado pelo TJUE, como sinceramente esperamos e desejamos. Mas continua a dar sinais de um claro desinteresse pela aviação e, consequentemente, por aquilo que integra a actividade turística. E pior do que errar, só mesmo persistir no erro!

 

Turisver – O IVA das touradas volta a colocar os animais na ordem do dia, nomeadamente os de estimação. Vários hotéis têm criado condições para receberem animais de estimação e os restaurantes já podem aderir a esta ideia. O turismo tem de estar atento às tendências dos clientes, também nestes casos?

 

Atilio Forte – Já por diversas vezes aqui chamámos a atenção para a crescente tendência que os consumidores de produtos e serviços turísticos vêm demonstrando de gostarem de fazer-se acompanhar, quando em viagem, pelos seus animais de estimação, sobretudo cães e gatos. Isto para além da análise mais detalhada que fizemos à legislação que passou a autorizar o acesso dos mesmos aos estabelecimentos de restauração e bebidas, a partir do passado dia 1 de Maio.

Por estas razões é com particular agrado que constatamos que, sobretudo ao nível do sector do alojamento, tem havido por parte dos nossos empresários a capacidade de entenderem este fenómeno e dele saberem tirar o devido partido, sempre que possuem unidades que, seja pelas suas características, seja pelos principais segmentos de negócio que detêm, conseguem criar condições que se coadunam com o acolhimento dos animais de estimação dos seus hóspedes.

É que hoje-em-dia, convém termos presente, o número de cães e gatos que integram o núcleo familiar já é superior ao de crianças situação que, se releva os graves problemas demográficos com que nos defrontamos (igualmente já aqui abordados), também demonstra que há um número crescente de consumidores que escolherá o seu local de estada em função de poder (ou não) fazer-se acompanhar pelo seu “familiar de quatro patas”.

E o caso do alojamento tem uma maior especificidade uma vez que, ao contrário do que acontece com a restauração – onde a ausência (dos donos) na maior parte dos casos se verifica apenas por algumas horas –, o espaço temporal de permanência é normalmente mais dilatado [dia(s) ou, por vezes, semana(s)], o que aumenta o desejo ou a necessidade de encontrar uma solução que inclua a possibilidade de aceitação do(s) “bichano(s)”.

Claro está que as unidades de alojamento que o fazem, se é verdade que correm o risco de “espantarem” clientes menos propensos à presença de animais ou de terem de lidar com comportamentos menos próprios dos ditos ou dos donos, não menos verdade é que acrescem à satisfação dos seus hóspedes uma possibilidade adicional de receita, pois é natural que também cobrem pela estada do respectivo animal de estimação, apesar do dito (na maior parte das situações) utilizar o mesmo quarto.

No fundo, e tal como acontece (por exemplo) na área do audiovisual, a actividade turística está na “linha da frente” das soluções e respostas a necessidades de consumo cada vez mais específicas de certos públicos, o que é, naturalmente, de enaltecer.

 

O + da Semana:

 

Durante a semana passada decorreu em Londres mais uma edição do WTM – World Travel Market, um dos mais importantes certames anuais de turismo da Europa e do Mundo, onde se fazem apresentações das últimas “novidades turísticas”, se promovem destinos e se discutem tendências e evoluções dos mercados, às quais deve-se estar atento. Ora, considerando o fortíssimo desenvolvimento turístico que é expectável acontecer na Região da Ásia-Pacífico nas próximas duas décadas, nomeadamente com a República Popular da China a assumir a liderança do turismo receptivo mundial, à semelhança do que já acontece com a emissão de fluxos turísticos é natural que, “logo a abrir”, a feira tenha centrado as suas atenções no evento “Asia Inspiration Zone” e, particularmente, em tudo o que está relacionado com os turistas chineses que, ano após ano, vêm aumentando em número e, consequentemente, em gastos turísticos, sendo natural que se analise com crescente detalhe todos os pormenores que possam permitir “marcar” a diferença junto dos mesmos. De entre as várias conclusões que daí se retiraram destacamos: a importância de facilitar os pagamentos móveis, com recurso às plataformas WeChat Pay, AliPay e Union Pay (mais utilizadas pelos chineses); a necessidade (imperiosa) das marcas e produtos adoptarem nomes chineses, bem como, incluírem essa língua nos seus materiais promocionais ou canais de venda, principalmente nos “sites”; e dar uma importância acrescida às redes sociais mais em voga naquele país asiático, como a Weibo ou a WeChat, pois são as principais “ferramentas” que permitem chegar aos grandes “influenciadores” e potenciais turistas. Desta pequena amostra pode-se concluir que o “factor língua” é crítico para quem queira ter sucesso naquele mercado.