iTurismo: Aliança Ibérica, por Atilio Forte

A possibilidade, que é também um desafio, de Portugal e Espanha usarem a força que a Península Ibérica tem enquanto maior destino europeu de turismo, para realizarem acções concertadas em prol da actividade económica do turismo, é um dos temas abordados no iTurismo de hoje, em que Atilio Forte se debruça ainda sobre a problemática da sinalética turística em Portugal.

 

Tópicos da Semana:

  • Trabalho e lazer é o binómio da estratégia de crescimento adoptada pela Meliã Hotels International: Definitivamente esta cadeia hoteleira espanhola decidiu apostar (quase) tudo no segmento “bleisure” – combinação de viagens de negócio com lazer. Assim, será neste tipo de oferta que as suas 51 novas unidades hoteleiras com abertura prevista até ao final do próximo ano – 10 delas no Continente americano, mas a maioria em África, na Europa e no Médio-Oriente – irão concentrar os seus esforços estando a ser, para o efeito, devidamente concebidas e equipadas.

 

  • Hilton e Netflix iniciam parceria: Tendo por objectivo disponibilizar a todos os hóspedes desta cadeia hoteleira acesso nos quartos aos conteúdos de vídeo que habitualmente vêem em casa (shows, filmes, séries, etc.), ambas as empresas decidiram começar a colaborar para criarem um ambiente mais “familiar” aos seus clientes, quando estes se encontram em viagem.

 

  • “Explosão” na hotelaria do Médio-Oriente e Norte de África: Uma das conclusões mais importantes da AHIC – Arabian Hotel Investment Conference foi que, até 2023, estas duas regiões irão atrair qualquer coisa como 30 biliões de dólares de investimento para a construção de novos hotéis, dos quais pouco mais de um terço – cerca de 11 biliões de dólares – serão “arrecadados” pelos Emirados Árabes Unidos.

 

Comentário

 

Turisver.com – Tem-se falado muito sobre a Península  Ibérica ser o maior destino europeu de turismo, mesmo no iTurismo essa situação já foi referida. Na sua perspectiva, Portugal e Espanha poderiam utilizar melhor essa força para a realização de acções concertadas?

Atilio Forte – Antes de mais gostaríamos de salientar que esta é uma excelente pergunta, quer pelo elevado grau de complexidade que encerra quer, principalmente, porque a “doutrina” divide-se sobre a melhor resposta a dar-lhe. Mas, vamos por partes. De modo a mais correctamente definirmos o cenário com que nos deparamos, devemos começar por aqui registar algumas (breves) notas prévias. Assim, temos:

Tomando em consideração os últimos dados – ainda provisórios – revelados pela Organização Mundial do Turismo (UNWTO) respeitantes ao ano passado, facilmente constatamos que a Europa continua a ser a Região do Mundo que mais turistas recebe, cerca de 712 milhões, número que corresponde a, aproximadamente, 51% de quota de mercado, tendo apresentado uma taxa de crescimento homólogo (2017-2018) de quase 6%.

Uma análise “mais fina” destes valores revela-nos que os 28 Estados-Membro da União Europeia acolheram perto de 80% do total de turistas recebidos pelo “velho Continente” (562 milhões), sendo que a Sub-Região denominada Europa do Sul e Mediterrânica (que exclui a França, mas que inclui entre outros, e para além de Portugal e Espanha, a Itália, a Grécia e a Turquia) foi visitada por pouco mais de 286 milhões de turistas, o que lhe confere uma fatia ligeiramente acima dos 20% do total mundial.

Convirá também recordar que em 2018 foi superada a marca de 1,4 biliões de chegadas internacionais a nível global – de acordo com as previsões feitas pela UNWTO no início da presente década estimava-se que só fosse atingida em 2020 –, situação que coloca o ano transacto como um dos mais “históricos” da actividade, sobretudo se considerarmos que em 2017 o turismo tinha batido todos os recordes e apresentado uma taxa de crescimento de 7%, face a 2016.

Finalmente, e embora ainda não existam resultados finais da UNWTO – destino a destino – referentes a 2018, uma rápida leitura dos de 2017 demonstra que a nossa vizinha Espanha ocupava o 2º lugar no “ranking” mundial, tanto dos países que registavam mais chegadas de turistas provenientes do estrangeiro, como dos que mais receitas delas obtinham, com uma dimensão (sensivelmente) quatro vezes (!) superior à de Portugal, em ambos os indicadores.

Tendo estes elementos como pano de fundo e tomando em conta que estamos a falar de dois países localizados na mesma zona do Globo, em que os seus principais mercados emissores são de proximidade – Centro e Norte da Europa –, com particular destaque para o britânico, detentores de uma oferta turística muito semelhante, que nos últimos anos beneficiaram da conjuntura internacional adversa que assolou a maior parte dos destinos da Bacia do Mediterrâneo e que agora enfrentam o seu ressurgimento e, ainda, que estão a sentir a forte turbulência provocada pelo “Brexit” – venha este a confirmar-se ou não –, para só citarmos alguns dos aspectos mais relevantes, faz para muitos todo o sentido que estreitem os seus laços de cooperação turística, pois tal poderá trazer-lhes vantagens recíprocas.

Mas também muitos há que, não obstante reconhecerem os argumentos atrás expostos, são defensores de um “caminho autónomo”, já que na sua perspectiva a “grandeza turística” de Espanha jogará a seu favor – ou em desfavor de Portugal – fazendo com que os esforços conjugados que possam ser efectuados acabem (sempre) por beneficiar o “mais forte”, chegando a invocar como prova do que alegam as parcerias estabelecidas pelos Governos dos dois países no início do milénio, que visavam acções de promoção turística conjunta em mercados mais longínquos, cujo custo/investimento foi então suportado na proporção de 2/3 (Espanha) e 1/3 (Portugal), sendo que o resultado obtido, após verificação, veio demonstrar que em cada 10 turistas que escolhiam visitar a Península Ibérica 9 ficavam-se pelo país vizinho… Ou seja, Portugal investia em demasia para o que conseguia em troca ou, dito por outras palavras, perdia em toda a linha!

Eis-nos, assim, confrontados com a razão pela qual começámos por sublinhar a complexidade da questão colocada e, principalmente, por salientar que esta era uma matéria em que a “doutrina” se dividia.

Legitimamente, perguntar-se-á, então o que fazer? Estarão os dois países Ibéricos condenados a permanecerem turisticamente de “costas voltadas”? Ou, pelo contrário, é chegado o momento de actuarem conjunta e concertadamente no que ao turismo respeita?

Desde logo, e vistas as coisas do “lado” português, que é aquele onde nos situamos, na nossa modesta opinião devemos começar por aprender com o passado e, em simultâneo, fazer uma cuidada análise do presente, o que significa ter plena consciência quer da dimensão turística que Espanha há muito alcançou – constantemente tem-se mantido no “top 3” dos principais destinos mundiais –, quer da sua grandeza territorial, populacional, económica e empresarial se comparada com Portugal que, naturalmente, se traduz num maior número de “argumentos” turísticos quer, ainda, por ter sabido posicionar-se ao nível das acessibilidades, isto é da aviação comercial, uma vez que duas das suas principais companhias aéreas – a Iberia e a Vueling – integraram um processo de fusão, em que também participaram a British Airways (Reino Unido) e a Aer Lingus (República da Irlanda), o qual deu origem a um dos maiores grupos de aviação do Mundo, o IAG – International Airlines Group, situação que não só facilitou e dinamizou a chegada de fluxos turísticos adicionais ao país, como “abriu portas” à conquista de novos mercados, embora cada uma das empresas se continue a apresentar junto dos consumidores com o seu próprio nome.

Ora, pelos exemplos que acabámos de referir (outros poderíamos dar) e sem retirar os devidos méritos a Portugal (que os tem em quantidade e qualidade), deve admitir-se que qualquer parceria que venha a realizar-se, por maiores que sejam as cautelas tomadas e a genuína vontade das partes em cooperarem, beneficiará de forma natural muito mais a Espanha do que o nosso país. Admitir esta evidência não denota fraqueza. Antes é uma prova de inteligência!

Por isso, há que olhar para o futuro com arrojo e com a abertura de espírito e a coragem para pensar “fora da caixa”. E, se ambos os países o conseguirem fazer, poderão ter muito a lucrar, pois a verdade é que não deixamos de estar na presença de duas grandes potências turísticas mundiais que, para além do mais, têm a obrigação de defenderem os interesses da Região (e do Continente) onde se localizam.

Isto significa que se concertarem estratégias e cooperarem podem fazer muito, seja pelo turismo em geral, seja na defesa dos seus interesses (também turísticos) comuns, nomeadamente, no influenciar e sensibilizar as mais diversas instâncias da União Europeia e internacionais para a importância (crescente) da actividade turística na economia dos “28” e mundial, na liderança da implementação e promoção das melhores práticas no e para o desenvolvimento do turismo, no transformar a Península Ibérica como um destino turístico mundial de reconhecida sustentabilidade e irrepreensível qualidade e excelência dos produtos e serviços que oferece, no assumir – sem tibiezas – da liderança do turismo europeu, mormente na Europa Meridional, e mediterrânico.

Em síntese, e embora possam continuar a ser saudáveis competidores no vasto mercado global, cada um com a sua dimensão e os seus inúmeros argumentos, os “irmãos” ibéricos têm a oportunidade, a responsabilidade e o desafio de fazerem mais e melhor pela actividade turística, que é o mesmo que dizer, por si próprios. Para tal podem e devem aprender um com o outro, unir esforços e dar corpo a uma verdadeira Aliança Ibérica em prol do turismo! Se o fizerem, não tardarão a colher os devidos frutos…

 

Turisver.com – A sinalética turística desadequada, ou a falta dela, sempre mereceu críticas. Nos últimos tempos temos assistido a um movimento por parte de vários organismos que tem levado a que sejam feitos alguns investimentos nesta área. No seu entendimento, estamos a melhorar a este nível?

Atilio Forte – Há décadas que a temática da sinalética turística vem-se revelando como uma das maiores lacunas que o nosso país revela e, por esse motivo, é alvo da constante chamada de atenção por parte da quase totalidade dos agentes da actividade junto dos decisores políticos ao nível do Estado Central, Regional ou Local.

Embora deva reconhecer-se que com o passar do tempo alguns progressos têm vindo a ser feitos, as melhorias efectuadas vêm sendo realizadas de forma (bem) mais lenta do que seria desejável. Seguramente por isto, encontrar muitos locais, monumentos, miradouros, praias e tantos outros pontos de interesse turístico, continua a ser uma autêntica charada para quem a eles se pretende dirigir ou os deseja visitar.

Já por várias vezes tivemos oportunidade de alertar que, mesmo para os que por cá residem, este “quase jogo do gato e do rato” em que o prémio é descobrir/chegar (a)o destino, é um verdadeiro quebra-cabeças. Agora imagine-se o que não será para aqueles que são turistas? O que há-de pensar quem nos distingue com a sua visita e aqui decide gastar o seu dinheiro?

Talvez pelo crescente ganho de consciência para a importância do turismo, talvez pelos muitos reparos que tal tem merecido nas redes sociais, talvez porque como diz o ditado “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”, o facto é que (sensivelmente) no último ano temos vindo a assistir a vários anúncios de melhoria da sinalização turística existente em Portugal, alguns dos quais recorrendo a esse “ovo de Colombo” dos nossos dias que é a tecnologia.

Decisões que naturalmente se saúdam e aplaudem, na expectativa – e com a esperança – que motivem uma crescente adesão e, sobretudo, sejam objecto de coordenação e coerência imagética e tecnológica, para que possam cumprir com o seu verdadeiro desígnio: esclarecer e informar, em vez de confundir ou baralhar.

 

O + da Semana:

Nos tempos que correm sempre e quando ouvimos a palavra “turismo”, cada vez mais a vemos associada a uma outra: sustentabilidade. É a sustentabilidade ecológica e ambiental; é a sustentabilidade dos destinos, das regiões e das cidades; é o desenvolvimento sustentável dos produtos e da oferta; é a sustentabilidade dos fluxos turísticos; é a sustentabilidade disto ou daquilo… E não é em vão que tal acontece, já que assistimos a um crescente envolvimento das empresas que operam diariamente na actividade na criação de objectivos e por vezes até de programas específicos, que buscam incessantemente por algum tipo de sustentabilidade, desde a reciclagem à diminuição dos desperdícios alimentares ou de qualquer outra natureza. Por seu turno os consumidores também estão mais sensíveis, despertos e alertas para esta realidade que encaram como uma (importante) necessidade. Não espanta por isso que algumas das marcas de maior referência no turismo se esforcem por ser – e parecer – mais “eco-responsáveis”, não apenas no que mais directamente respeita à sustentabilidade em si mesma ou em tornarem-se ambientalmente mais conscientes mas, também, investindo tempo e recursos no assumir da sua responsabilidade social, muito em particular para com as comunidades onde se inserem, de modo a contribuírem mais activamente para a melhoria das condições/qualidade de vida destas, isto é, para a sua sustentabilidade. Plantar uma árvore, embelezar um jardim, construir um parque infantil, manter limpa uma rua, podem ser pequenos gestos, mas que dizem muito a quem deles beneficia. E, no final, uma comunidade feliz, é uma comunidade mobilizada, com um propósito, mais hospitaleira, mais atractiva e agradável, logo mais acolhedora para aqueles que a visitam…